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O Alan
faz duas provocações: uma
em relação ao deslocamento
das questões de classe para as causas
étnicas; outra em relação
ao conceito de afro-descendente. Gostaríamos
de ouvir a professora Nilda e o frei David
sobre as observações do estudante.
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Profª Nilda
Em relação à reserva de vagas,
a nossa bandeira era pela escola pública,
porque eu também achava que ela era um
espaço democrático. Agora, quando
o frei colocou a questão de Cuba, eu achei
extremamente importante. Cuba desenhou um país,
um projeto de futuro. A Revolução
Cubana não começou nas escolas,
porque em nenhum país do mundo a revolução
começa pela educação, mas
não pode continuar sem passar pela educação.
A revolução não se faz pelas
escolas, como o liberalismo pensava e ainda defende.
Mudar o país pela educação
é uma mentira. O que se tem que mudar é
a estrutura social, que é perversa.
É pertinente que os meninos que foram
a Cuba tenham sucesso, independentemente do segmento
social do qual vieram. A questão é
que Cuba trabalha com a percepção
do real, o desdobramento do real e os mecanismos
de produção de conhecimento são
diferentes. A nossa universidade é branca,
monárquica, pautada em uma produção
de conhecimento através de uma metodologia
ocidental. As conquistas de Cuba em relação
à Medicina são inegáveis
no mundo, sua Medicina é de ponta, sua
pesquisa é de ponta, mas os métodos
de ensino, o processo de ensino, são outros.
Nas universidades brasileiras, os professores
reagem às mudanças metodológicas
porque muitos deles estão consolidados
em uma forma de produção do conhecimento.
Eu vou dar um exemplo: temos trabalhado com softwares
e não é possível ensinar,
desenvolver processos de conhecimento através
de softwares, porque isso é importante
para conhecimento de massa, porque tem lugares
no Brasil que não tem como o professor
estar lá. Mas o professor reage enormemente,
porque ele quer ensinar como aprendeu. As universidades
no mundo inteiro sempre foram reacionárias
e a maior produção de conhecimento
se deu fora da universidade, nos institutos de
pesquisa.
A universidade se fechou, com a nova reforma
do ensino, com a pesquisa e extensão na
formação profissional. Primeiro,
é difícil conciliar ensino e pesquisa,
porque geralmente o professor que ensina não
quer pesquisar e vice-versa. Esse trânsito
entre ensino e pesquisa é difícil
e é pior o que se ensina, quando se ensina
da mesma maneira que se aprendeu. Hoje o aluno,
o jovem, tem outros desenvolvimentos perceptivos
que nós não tivemos.
Mas mesmo que não se fale em afro, eu
quero parabenizá-lo por este trabalho (dirigindo-se
a frei David), que é um trabalho heróico.
Ele em muito se assemelha ao que fizemos na Cooperativa
de Trabalhadores da Estrada de Ferro Central do
Brasil. Foi o primeiro trabalho de pré-vestibular
para trabalhadores e vimos maquinistas se tornarem
advogados, se formarem em várias áreas
do conhecimento. Então este é um
movimento extremamente plausível e não
há nenhuma contestação nisso.
Mas isso não basta. Tem que entrar na universidade
para mexer por dentro, bem na linha de (Antonio)
Gramsci. Apenas botar o menino lá dentro
não resolve, e não é porque
ele vai ser um desamparado não. A classe
média também entra e fica desamparada.
E não acho que vá resultar em rebaixamento
do nível do ensino, para atender ao desvalido
que entrou. O que eu acho que pode acontecer é
ele entrar, ficar um pequeno período e
sair, não agüentar os mecanismos que
a universidade tem para expulsá-lo. A evasão
não significa uma opção,
uma determinação de sair; o aluno
sai porque não agüenta ficar lá
dentro, porque é discriminado. Isso pode
acontecer em relação à reserva
de vagas. E reserva sob quais critérios?
Negro, favelado, mulher, deficiente físico?
Porque não há igualdade no mundo,
igualdade é um princípio da Matemática.
O que há é a luta pela justiça,
porque todos nós somos diferentes. Justiça
é uma coisa, igualdade é outra.
Igualdade é só formal, é
abstrato. Se você quer lutar por uma sociedade
justa, primeiro vai ter que lutar por uma escola
pública de qualidade em todos os níveis,
desde o atendimento da mãe em estado de
gravidez, do pré-escolar. A alfabetização,
por exemplo, é fundamental. Uma criança
mal alfabetizada arrastará isso para o
resto da vida e ficarão seqüelas em
sua capacidade de pensamento.
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Os programas
de Educação de todos os candidatos
à Presidência sinalizam para
a universalização do ensino
médio. Isso poderá causar
algum impacto nas universidades comprometidas
com a reserva de vagas?
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Profª Nilda
Não se destinam mais verbas para o ensino
público de terceiro grau e a proliferação
será feita pelas particulares. Em cada
bairro haverá uma. O receio que tenho é
que em nome dessa tentativa de universalização
do ensino médio, abre-se espaço
de crescimento para o terceiro grau e criam-se
mecanismos de financiamento para o pagamento das
mensalidades nas particulares. Porque isso ocorre
ao mesmo tempo que são estrangulados os
financiamentos e não há ampliação
de vagas nas públicas.
Nossa luta é muito maior, é uma
luta pela mudança interna das universidades,
das metodologias de ensino, da produção
do conhecimento, do aumento das verbas para as
universidades públicas, porque a universidade
particular tem que ser uma opção
do aluno. Mas se existem 100 vagas de Medicina,
com 50 para a reserva, será que isso é
fazer justiça? Será que a gente
não está também alimentando
um discurso liberal de que a justiça começa
por resolver no espaço da entrada da universidade?
Eu acho que não é esse o critério
de justiça. É uma busca, vale a
pena, mas eu acho que o critério de justiça
tem uma profundidade maior.

Frei David: Somos vítimas
de uma história que deixou marcas
no povo afro-descendente
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Frei David
Que bom que o debate racial veio à tona.
Eu já estava preocupado, porque não
daria para discutir o acesso à universidade
sem discutir a questão racial. Segundo
o último dado do IBGE, 45,3% da população
brasileira são afro-descendentes e outro
dado, da Data Folha, nos revela que não
foram 45,3%, mas sim 59%. Um artigo que a Unesco
divulgou, anos atrás, discutindo a questão
racial no Brasil, citou que na população
brasileira 80% são afro-descendentes. Quem
está certo, a Data Folha, o IBGE ou a Unesco?
Fiquemos com o dado menos otimista, do IBGE.
Se nós temos 45,3% de afro-descendentes
e se todos os dados estão nos provando
que nas universidades públicas não
entram 2% de afro-descendentes, isso inclui as
particulares com um pouquinho mais, tem um hiato
que é um problema gravíssimo para
se resolver.
Ponto dois: vamos parar na questão social
da pobreza. O último dado do Ipea (Instituto
de Pesquisas Econômicas Aplicadas) revela
que 73,6% dos pobres do Brasil são afro-descendentes.
Então, conseqüentemente esses assuntos
estão intimamente ligados e não
dá para discutir em separado. Se você
trabalha a questão racial, trabalha automaticamente
a questão social.
Ponto três: todos nós, brasileiros,
somos afro-descendentes, mas se você perguntar
à polícia quem é afro-descendente,
ela não vai ter dúvida. Portanto,
quando é para bater, sabe-se muito bem
quem é afro-descendente, quando é
para premiar, não há afro-descendente.
Isso é grave. Queremos um país justo
e isso só vai acontecer quando ele tiver
a humildade e a coragem de discutir a questão
da dimensão pluricultural.
Se não discutirmos com bastante liberdade
esta dimensão, não vamos mudar esse
erro numa universidade que é exageradamente
eurocêntrica. Por que os valores do povo
afro-descendente e do povo índio não
se refletiram na universidade? Porque não
se discutiu isso com clareza e firmeza. Somos
convocados a discutir a questão cultural
e da descendência, mas ninguém tem
isso com clareza, nem nós afro-descendentes.
Nem nós sabemos com clareza quem é
e quem não é.
Profª Nilda
Estive discutindo como é que se vai identificar
quem é negro para ter acesso à vaga.
O deficiente é visível, mas o negro
não. Inclusive, hoje, ter o nariz um pouco
mais avolumado ou não, é questão
de cirurgia. O tipo de cabelo também é
mutável. Quais são as características
biofisiológicas do negro? Então
negro é uma opção, é
uma determinação e, por isso, é
uma questão ideológica, é
um engajamento, é um compromisso, porque
os critérios de aferição
da negritude são complicados. Eu tenho
muito receio de que o Brasil, que é um
país continental, cuja língua unificou
de ponta a ponta e cuja religião católica
unificou, venha a se quebrar pelo viés
das etnias. Olha o Oriente Médio, suas
brigas. Estão se matando, se odiando, e
vêm todos do mesmo tronco. O respeito à
diferença é fundamental, mas que
esse respeito seja construído pelo direito
do outro, por uma sociedade justa. Os Estados
Unidos fizeram a reserva de vagas para os negros
e não há país que discrimine
mais. Tenho medo de que se estruturem aqui guetos
sem muros, guetos do tipo nós somos os
negros, nós somos os brancos, porque essa
é a alma do nazismo, essa é a alma
do sectarismo, e sectarismo eu não tolero,
porque a humanidade tem provas de que isso não
é melhor para ela. Sou cristã e
o que Cristo pregou é Amai-vos uns
aos outros, e não que os brancos
devem amar os pretos. Ele não distinguiu
ninguém por cor.
Frei David
Eu prefiro ter o movimento antinordestino de São
Paulo do que a omissão e a maneira de tratar
o nordestino de várias regiões do
Brasil. Quem fez a dimensão pluricultural
foi Deus, o homem é que nivelou pela classe
dominante. O Brasil é o que é, porque
os euro-descendentes nivelaram o Brasil de fora
a fora. O que nós não queremos é
a negação do afro, a negação
do indígena, queremos é a autenticidade
desse povo, esse povo tem direito à voz
e precisa falar, então a pluralidade é
uma riqueza de Deus.
Nos Estados Unidos a vitória pelas cotas
se deu graças à empresa Coca-Cola,
que se acha dona do mundo e decidiu que não
colocaria em prática a Lei das Classes
Alternativas (12% de negros em cada cargo nas
empresas). A comunidade afro-descendente fez uma
campanha e decidiu não tomar coca-cola
até a empresa rever sua posição.
Antes de completar dois meses, ela implantou o
que a lei determinava: uma cota de afro-descendentes
em todos os quadros, do limpador de chão
à diretoria. Isso foi em 1995, um ano depois
a empresa avaliou o desempenho das unidades e
descobriu que as dirigidas por afro-descendentes,
que eles não admitiam que dirigissem, eram
as que mais produziam. Hoje a Coca-Cola tem 17,3%
de afro-descendentes em todos os cargos da empresa.
Então precisou da ação afirmativa
para a comunidade norte-americana descobrir a
injustiça que fazia, e mesmo assim há
uma grande violência policial branca sobre
os jovens negros americanos. Em outras palavras
eu volto a dizer: as políticas de cotas,
a ação afirmativa, é apenas
um estágio para algo maior, em que nem
os Estados Unidos entraram ainda, que é
uma igualdade autêntica e verdadeira.
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Nossa
inquietação é que,
pela riqueza e dimensão do tema,
o debate se desvie de seu eixo central,
que é a educação. Não
se trata de censurar a explosão espontânea
de uma questão que reconhecemos ser
vital, mas que pode ser tratada num encontro
específico. Pedimos compreensão
diante da necessidade de resgatarmos o objeto
deste debate, que são as políticas
de acesso à universidade.
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Alan
Eu sou o único representante do materialismo
dialético aqui na mesa.
Profª Nilda
Único uma ova! Eu sou marxista cristã.
Fui criada num berço cristão, admitindo
que devemos amar uns aos outros, tanto quanto
Ele nos amou, e que a humanidade precisava, na
sua errância, resgatar tudo aquilo que tinha
feito de errado. Então eu me apropriei
do marxismo como metodologia, para efetivar ou
acelerar a minha busca de justiça social.
Sou cristã e marxista sim, graças
a Deus.
Alan
Então não mais como único
representante do materialismo dialético
na mesa, vou dizer que estou começando
a ficar convencido de que não tem que ter
cota para negro. Todos aqui no planeta Terra somos
companheiros de luta, porque a gente luta para
continuar vivo. E para continuar vivo aqui no
planeta, a gente tem que estar unido para derrotar
os obstáculos que são colocados
para nós. Eu não consigo trabalhar
com qualquer outra realidade que não seja
a realidade objetiva. Qualquer tipo de coisa que
esteja fora desse campo de realidade, na minha
opinião, confunde as pessoas.
Acho que qualquer coisa que desvie a percepção
do ser humano dentro do movimento mais geral da
matéria acaba jogando contra a busca da
justiça social, a busca da transformação,
a busca da elevação da consciência.
Penso também que a questão dos Estados
Unidos é completamente diferenciada da
brasileira.
Penso que, apesar do Martin Luther King ter sido
um grande lutador, um grande revolucionário,
a igualdade não vai se dar em torno de
etnia, mas em torno das classes e as classes sociais,
no sistema capitalista, têm que ser abolidas
para haver igualdade. Não existirá
igualdade enquanto houver capital oprimindo o
trabalho, é impossível conceber
igualdade enquanto houver alguém que detenha
os meios de produção e alguém
que trabalhe para ele, seja negro, amarelo, branco
ou E.T.
Frei David
É impossível não falar agora,
porque foi demais.
Alan
Nos Estados Unidos, a reserva apesar de
não estar contra a reserva aqui
é uma compensação. Apesar
de respeitar a história para não
cometer erros no futuro, acho que a gente não
pode querer se vingar, acho qua a gente não
pode querer trabalhar com compensação.
Todo mundo deve ter as mesmas oportunidades, as
mesmas. Não penso que deva ser melhor para
um ou para outro, tendo uma história ou
tendo outra história. Nos Estados Unidos
houve uma luta histórica pela reserva,
uma luta social, uma luta da população
norte-americana negra.
Frei David
E aqui não?

Alan Frick: O negro rico
pode ser tão explorador quanto
pode ser o branco rico
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Alan
Diferenciada, completamente diferenciada. No sistema
capitalista o que vem primeiro é a luta
de classe, depois a luta de gênero e depois
a luta de etnia. Uma sociedade existe porque alguma
coisa faz que ela exista, não é
isso? Essa coisa que faz que ela exista é
a forma como as pessoas que estão nessa
sociedade continuam vivas. E as pessoas continuam
vivas porque vestem, comem, moram, não
é por outra coisa. E para continuarem vestindo,
comendo e morando, tem que ter alguma coisa que
faça que isso aconteça, e essa coisa
é a base produtiva da sociedade, é
a forma como a sociedade produz a sua existência.
Então não interessa se é
negro, branco ou amarelo, tem que trabalhar nessa
base produtiva para isso acontecer. Se não
trabalhar, isso não acontece. O primeiro
grau de luta da sociedade, a primeira importância,
é a luta dessa base produtiva contra o
sistema, que se opõe a essa base.
A luta do trabalhador é muito mais importante
do que a luta do povo negro e eu não compreendo
o que é esse povo negro, eu acho que isso
é uma forma, sinceramente frei, equivocada
de tratar a realidade. Acaba confundindo um pouco
e acaba tirando o norte da nossa batalha, que
é pela justiça social.
E para acabar, não acho que somos uma
sociedade pluricultural. Temos uma cultura brasileira,
como a professora (Nilda) falou. Temos uma identidade
de língua, a gente consegue se comunicar,
o gaúcho se comunica com o amazonense,
é uma cultura brasileira, que deve ser
resgatada e trabalhada. Fracionar, fragmentar
qualquer tipo de cultura, qualquer tipo de luta,
na minha opinião é estar tomando
um rumo equivocado na história.
Frei David
Não está acontecendo este deslocamento
do social para o racial, porque não existe
eixo privilegiado. O eixo deve ser o que mais
machuca as vítimas, e quando o leitor da
Folha Dirigida ouve uma opinião dizendo
que cota é privilégio, machuca.
Vou pegar um exemplo bem fácil para os
leitores poderem entender a minha opinião.
Nós estamos unidos, a defesa de todo mundo
é igual, tem que defender o grupo, ninguém
pode ter privilégio. Vamos imaginar que
estamos todos no ônibus, com 50 pessoas.
Esse ônibus sofre um acidente, deixando
25 machucados e 25 bons. Se todos somos iguais,
então os machucados que se danem, que levantem
e que andem. A História do Brasil equivale
a um ônibus em que houve um acidente grave,
chamado escravidão, que deixou vítimas.
Dizer que somos iguais é baixaria. Por
isso eu falo com tanto ódio nesse momento.
Nós não somos iguais não,
somos vítimas, nós fomos vítimas
de uma história malvada que deixou marcas
no peito do povo afro-descendente. E queremos
que isso seja reparado urgente. Assim que as marcas
de violência no povo afro-descendente forem
reparadas, poderemos dizer que somos iguais. Não
queremos ser superiores e nem privilegiados. Nós
queremos equilíbrio, a igualdade que nos
foi negada ao longo de 500 anos. Não queremos
para sempre a cota, assim que encontrar o equilíbrio
entre brancos e negros, poderemos defender a bandeira
de que somos iguais e vamos lutar juntos por igualdade.
Deixar os feridos no acidente só porque
têm pessoas boas não é coisa
de Deus, não é coisa de Marx, não
é coisa de Fidel Castro, não é
coisa de quem pensa em justiça social.
É fundamental primeiro atender os feridos,
depois dar a eles condições de recuperarem
sua condição de caminhar, aí
sim, a partir dali cessa a reparação
do que aqui chamamos de cota, nunca de privilégio.
Uma vítima que é reparada nunca
é um privilégio.
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Gostaríamos
de abordar melhor um item já sinalizado
pela professora Nilda, que é a questão
do ingresso não qualificado. Perguntaríamos
se o regime de cotas não implicaria
queda do nível de qualidade, uma
vez que há um consenso, inclusive
legitimado pelo ranking dos vestibulares,
no sentido de que a escola pública
não prepara adequadamente seus alunos.
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Profª Nilda
O Darcy (Ribeiro) defendia a tese de deixar entrar,
porque alguma coisa acontece lá dentro.
Ele acreditava que a convivência ia transformando.
Eu até acho que é uma tese defensável,
mas será que isto é uma universidade,
ou será que é um espaço de
formação profissional? A universidade
tem um propósito fundamental, pelo menos
deveria ter, de produção de conhecimento.
Então eu acho que o foco está nessa
questão de o que é a universidade,
o que nós estamos reivindicando dela. Se
estamos reivindicando formação profissional,
será que essa formação não
poderia se dar em outros fóruns, por exemplo
nos institutos de formação profisisonal?
Eu defendo a formação de um ensino
técnico de excelente nível, porque,
como dizia o Betinho, pobre tem pressa e a fome
não pode esperar. A gente está com
foco na universidade, mas o problema é
muito mais amplo, de educação no
sentido geral. Eu respeito imensamente o foco
do frei David, defendo a sua bandeira de luta
pelos injustiçados e tudo mais, mas não
amplio o seu foco. O ensino técnico é
uma necessidade concreta, objetiva, mais rápida.
Não nego o vestibular, mas o ensino técnico
atende mais os segmentos sociais.
Alan
Coloco bem claro que não estou defendendo
aqui nada contra o povo negro, ou contra o povo
amarelo ou contra o povo índio. Esse debate
é muito polêmico, muito complicado
e às vezes certas coisas podem ficar no
ar. Eu estou falando como presidente da União
Estadual dos Estudantes, como militante comunista
e tenho uma visão um pouco mais radical
do processo. Primeiro, na questão do ônibus,
eu não acho que o privilegiado tem que
ser um ou outro, eu acho que para continuar viva
a raça humana, se o ônibus representar
a raça humana, quem puder sair do ônibus
para ficar vivo e continuar, deve sair. Quem puder
sair primeiro, não interessa quem, se está
doente, se não está, se puder levar
os doentes, se não puder, o que interessa
é sair, senão não continua
ninguém. Se tiver que fazer essa escolha,
faço com tranqüilidade.
E sobre concepção de universidade,
eu acho que isto é muito importante, porque
uma coisa é você estar falando de
acesso ao ensino superior, outra coisa é
entrar numa universidade pública. Sobre
a possibilidade de o acesso por cota estar baixando
a qualidade do ensino ou não, na verdade
tudo isso está dentro da concepção
de universidade, porque se a gente coloca a universidade
num patamar de uma casa de debate, de idéias,
e sobre desenvolvimento do estado nacional, claro
que a universidade é uma instituição
permanente do estado, e infelizmente é
uma instituição que também
produz a manutenção do estado democrático
de direito burguês.
Gostaria de esclarecer que não falei que
todo mundo é igual, mas sim que as pessoas
que trabalham têm o mesmo problema, e esta
é a questão central, na minha opinião.
Por acaso aqui no Brasil a grande maioria é
negra e boa parte não está nem trabalhando,
porque hoje você tem 52 milhões de
brasileiros que não têm arroz e feijão
para comer na hora do almoço, porque estão
fora do trabalho e estão à margem
do processo histórico.
Sobre a questão do ensino técnico
apontado pela professora Nilda, eu acho que há
dois campos de concepção. Tem aquele
que é o de mandar os pobres e negros para
lá para aprenderem a ser força de
trabalho; e o campo em que o ensino técnico
gera uma mão-de-obra, além de qualificada,
capaz de pensar a sociedade e o modo de produção
desta sociedade. Até porque é falacioso
dizer que, como todos somos iguais, todos podemos
entrar na universidade. Eu não acho isso.
A gente está vivendo um processo histórico
e a gente tem que trabalhar com essa realidade,
que infelizmente não é a realidade
que a gente quer.
Frei David
A pergunta central era se a reserva não
estaria favorecendo o ingresso de estudantes despreparados.
Que padrão é esse, o que define
o preparado e o despreparado? Será que
a universidade hoje pode continuar se imaginando
como se imaginou há vinte anos? A universidade
foi concebida num período em que o poder
da comunicação era outro e seu modelo
está sendo posto em xeque. Para responder
a esta pergunta precisamos saber qual modelo de
universidade nós imaginamos e queremos
para o mundo moderno. Como e onde buscar o produto
do saber? No ensino técnico, na universidade?
Isso é foro íntimo e consiste em
ter o direito de dizer onde quer buscar o seu
saber e o rumo que dará a ele.
Quando estas questões forem resolvidas,
entraremos na pergunta sobre estar ou não
preparado. Segundo a minha experiência de
vida, eu tenho convicção de que
o povo pobre, de rede pública, tem um preparo
de viver muito mais testado no fogo do que o pessoal
tratado a bifinho e danoninho. Portanto, eu diria
que a universidade está sendo enriquecida
com um novo padrão de saber que até
então ela se proibia ter. A riqueza que
a PUC está tendo com a presença
de pessoas que saem dos pré-vestibulares
comunitários, na troca de experiência
com o povo, é incrível, e quero
chamar atenção para isso. Os alunos
do ensino público podem não ter
o preparo acadêmico, mas têm outros
preparos, outro saber que simplesmente está
enriquecendo a universidade de coisas que ela
não provia antes e que nem percebia. O
Brasil está se enriquecendo com este momento
novo, com certeza estamos em um momento em que
o saber tradicional está sendo questionado.
E está sendo provado que ele não
é o único e está precisando
se abrir para o novo. Temos brigado pelo negócio
do negro no mestrado e doutorado, mas nosso foco
é a universidade, a graduação,
porque o preconceito é muito grande.
Continua>>
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