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No Brasil, a Educação é
uma das áreas que mais sofrem com a descontinuidade
política. No entanto,
o resultado dos oito anos de governo do presidente
Fernando Henrique Cardoso, que teve Paulo Renato
Souza à frente do Ministério da
Educação (MEC), é duramente
criticado por entidades ligadas à educação.
Os educadores denunciam que, nesse período,
o sucateamento das universidades públicas
e o arrocho salarial dos trabalhadores em educação
foram acirrados. Além da urgente melhoria
salarial, os educadores são unânimes
ao apontar programas de capacitação
como medidas eficazes, a curto prazo, para a melhoria
do sistema educacional.
A pedido da FOLHA DIRIGIDA, o presidente do
Sindicato dos Professores do Município
do Rio de Janeiro e Região (Sinpro-Rio),
Francílio Pinto Paes Leme, e a presidente
da Confederação Nacional dos Trabalhadores
em Educação (CNTE), Juçara
Maria Dutra Vieira, dão seu depoimento
sobre a situação do magistério
no Brasil e avaliam o movimento das greves.
FOLHA DIRIGIDA - Qual é a sua
análise da política desenvolvida
durante o governo FHC?

Francílio Pinto Paes Leme,
presidente do Sinpro-Rio
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Francílio Pinto Paes Leme - A crítica
mais geral é que você não
tem um projeto educacional sem nenhuma vinculação
com um projeto de nação, o que inexiste
no Brasil. No governo Fernando Henrique Cardoso
houve um investimento no aspecto quantitativo
do ensino fundamental, sem perceber nem aceitar
as críticas que foram feitas pelas entidades
de profissionais da educação à
má qualidade do ensino ministrado.
Os professores e a população enxergam,
com clareza, quando os alunos chegam ao ensino
médio sem saber ler e sem saber fazer as
quatro operações. As estatísticas
mostram o aspecto quantitativo de alunos e ignoram
a má formação dessas crianças.
Por outro lado, o atual governo ignorou o ensino
médio, entregando sua responsabilidade
à iniciativa privada e, através
do sucateamento das universidades públicas,
engordou o sistema privado de ensino. Assistimos
hoje a um fenômeno social gravíssimo:
a inadimplência de uma juventude que busca
sua formação nas universidades particulares,
em decorrência de crise econômica,
do desemprego e de sua má formação
no ensino médio. O Brasil vai pagar caro
pelos atos de Fernando Henrique Cardoso na Educação,
durante os oito anos de seu mandato.
FOLHA DIRIGIDA - O que fica negativo
e de positivo das greves ocorridas em 2001 e 2002?
Francílio Pinto Paes Leme - Essa
situação é um sintoma da
degradação das condições
de trabalho dos docentes em todos os seus níveis.
A baixa estima que o professorado exibe, hoje,
e o excesso de trabalho são fatores gerados
por essa política educacional dos atuais
governos.
FOLHA DIRIGIDA - Poucas vezes o magistério
se viu envolvido em situações de
greves tão longas. Esse é um indício
de que as relações entre a categoria
e o Governo, seja ele federal ou estadual, estão
cada vez mais difíceis?
Francílio Pinto Paes Leme - A greve
de professores tem que ser muito bem pensada porque
ela, invariavelmente, atinge de forma direta os
jovens que estudam, prejudicando-os. Movimentos
excessivamente cooporativistas, que são
desencadeados desconhecendo o exercício
e a prática política de negociação,
são fatores extremamente negativos, não
só para o processo de mobilização
da categoria, mas também para a solução
de seus problemas.
FOLHA DIRIGIDA - Qual é a perspectiva
para os próximos anos? As greves e paralisações
devem ser instrumentos de reivindicação
utilizados de forma cada vez mais freqüente
pelos professores?
Francílio Pinto Paes Leme - As greves
e paralisações devem sempre ser
utilizadas no momento político correto,
quando ficarem caracterizadas para a sociedade
a intransigência e a falta de disposição
de negociar por parte dos que detêm o capital.
A inserção dos movimentos grevistas
na luta por uma educação de qualidade
tem seu sucesso definido pela capacidade que esses
movimentos têm de se articular politicamente
com a sociedade. O isolamento do movimento em
relação à sociedade leva,
inevitavelmente, à derrota política.
FOLHA DIRIGIDA - Além da urgente
melhoria salarial, o que pode ser feito, a curto
prazo, para valorizar a carreira do magistério?
Francílio Pinto Paes Leme - O investimento
na formação continuada do professor
é fundamental, como é também
o respeito da sociedade e dos governantes em relação
ao trabalho desenvolvido pela categoria. Esse
respeito depende da capacidade de os professores
exercerem sua conduta profissional, exigindo seus
direitos e não se submetendo a teorias
que colocam o magistério como trabalho
sacerdotal.
FOLHA DIRIGIDA -
Sob o ponto de vista dos profissionais de Educação,
qual é a sua análise da política
desenvolvida durante o governo FHC? Ela trouxe
mais avanços ou retrocessos à educação
brasileira?

Juçara Maria Dutra Vieira,
presidente da CNTE
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Juçara Maria Vieira Dutra - O Governo
do presidente Fernando Henrique Cardoso, ao longo
de seus oito anos, representou redução
do direito à Educação no
país, através de medidas que incentivaram
as privatizações e as municipalizações,
com conseqüente desvalorização
dos trabalhadores em educação, em
todos os seus níveis.
FOLHA DIRIGIDA - O final de 2001 e
o início de 2002 foram marcados pelas greves
nas instituições federais e também
nas redes estaduais de ensino. O que fica negativo
e de positivo desses movimentos?
Juçara Maria Vieira Dutra - Um aspecto
negativo é que, ao contrário do
que muitos pensam, as comunidades escolares e
acadêmicas sofrem com as paralisações.
Como aspecto positivo das greves realizadas, fica
a denúncia do sucateamento das universidades
públicas e do arrocho salarial dos professores
e funcionários, que estão há
sete anos sem reajuste salarial.
FOLHA DIRIGIDA - Poucas vezes o magistério
se viu envolvido em situações de
greves tão longas. Esse é um indício
de que as relações entre a categoria
e o Governo, seja ele de esfera federal ou estadual,
estão cada vez mais difíceis? O
diálogo entre a categoria e o poder público
é cada vez mais estreito?
Juçara Maria Vieira Dutra - Esse
quadro revela insensibilidade dos governos em
dialogar com as categorias e falta de interesse
em resolver as questões educacionais.
FOLHA DIRIGIDA - Qual é a perspectiva
para os próximos anos? As greves e paralisações
devem ser instrumentos de reivindicação
utilizados de forma cada vez mais freqüente
pelos professores? A senhora acredita que as negociações
entre governos e a categoria podem tornar-se menos
traumáticas?
Juçara Maria Vieira Dutra - Greves
e paralisações sempre serão
utilizadas pelos trabalhadores em educação
como último recurso, diante de obstáculos
intransponíveis nas negociações.
Entendemos que a eleição de um governo
federal e governos estaduais comprometidos com
as lutas dos trabalhadores poderá qualificar
a interlocução e a pauta das negociações.
FOLHA DIRIGIDA - Muito se fala da urgente
necessidade de valorização do magistério
no Brasil. Mas, além da melhoria salarial,
o que pode ser feito, a curto prazo, para valorizar
a carreira do magistério?
Juçara Maria Vieira Dutra - Nós,
da Confederação Nacional dos Trabalhadores
em Educação, reivindicamos formação
permanente, contínua e atualizada de professores
e profissionalização dos funcionários
de escola. Também exigimos condições
de trabalho (horas/atividade), combate às
causas das doenças profissionais (como
a Bornout) e à violência que se expressa
na escola. Outra alternativa seria a implementação
de um plano de carreiras com estímulo à
progressão e à dedicação
exclusiva à escola e à educação.
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