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A grande questão no Brasil é
que os problemas econômicos ocupam de tal
forma a mente dos governantes que não sobra
tempo para pensar em mais nada. A afirmação
é do acadêmico Tarcísio Padilha,
que, apesar disso, não é pessimista
em relação ao quadro educacional
do país. O Brasil caminhou ao longo
dos anos.
Apesar do otimismo, o professor faz críticas
à política de qualificação
de docentes adotada em algumas instituições.
Primeiro chega o equipamento e depois eles
vão se preocupar com a qualificação
dos professores, ressalta o membro da Academia
Brasileira de Letras, que, em entrevista à
FOLHA DIRIGIDA, fala da importância do livro,
da escrita e do papel dos meios de comunicação
na educação dos jovens.
FOLHA DIRIGIDA - Um dos pontos cruciais
para o desenvolvimento econômico e social
de qualquer país são os investimentos
em educação. Nesse contexto, o Brasil
conseguiu alguns avanços, mas ainda apresenta
um quadro trágico de desvalorização
do magistério. Qual é o impacto
desse descaso para a educação brasileira?
Tarcísio Padilha - Entendo que os
avanços proclamados, do ponto de vista
quantitativo, são inegáveis. Tivemos
uma queda da taxa de analfabetismo, temos mais
crianças nas escolas nos ensinos fundamental
e médio. Porém, o que preocupa é
que a ampliação numérica
não está sendo acompanhada por uma
ampliação de qualidade. Por exemplo,
quando computadores são espalhados por
uma área isso é feito sem sentido.
Primeiro chega o equipamento e depois eles vão
se preocupar com a qualificação
dos professores. Às vezes a educação
artesanal tem mais resultado. Temos um desestímulo
à carreira que dificulta a conquista de
uma educação de qualidade.
FOLHA DIRIGIDA - Quais medidas, efetivas
e possíveis, poderiam ser tomadas para
a valorização dos professores?
Tarcísio Padilha - O ápice
da carreira não condiz com o salário.
Hoje, doutorado é exigência mínima
para quem quer entrar na universidade. Só
que elas não pagam um salário justo.
Além disso, deixam escoar sua produção.
Exigem um professor doutor, mas não estimulam
esse professor a prosseguir em suas pesquisas.
Deveria haver uma preocupação com
a publicacão dos trabalhos produzidos.
Eles deviam circular pelo menos no meio acadêmico.
Conhecimento sem circulação é
sepulcral. Acho que, além de investir em
melhores salários e na capacitação,
deviam investir na produção dos
docentes. E isso também no ensino básico.
Temos muitos professores produzindo bons livros
que não são publicados, enquanto
outros, de qualidade duvidosa, são adotados
pelo Ministério da Educação.
Isso é um trabalho contra o bom educador.
FOLHA DIRIGIDA - Que contribuição
efetiva os meios de comunicação
podem dar em termos de educação?
Como a televisão, em especial, deve se
comportar para se tornar um agente difusor de
cultura em um país como o Brasil?
Tarcíso Padilha - No caso específico
da televisão temos uma contradição.
Enquanto a TV aberta invade as casas com programas
chulos que contribuem para a deseducação,
os canais a cabo vêm se valendo de professores
para fazerem comentários. Isso serve de
estímulo ao docente, o que é uma
contribuição fundamental porque
é necessário valorizar o professor.
Acho que, se os meios de comunicação
investirem em programação cultural
e entretenimento de qualidade, já estarão
contribuindo.
FOLHA DIRIGIDA - Qual é a importância
dos livros para a formação de crianças
e jovens?
Tarcísio Padilha - É fundamental.
A imagem, quando não tem um forte apelo
emotivo, é fullgás, não permanece
muito tempo povoando a mente dos jovens. O livro
leva a uma maior reflexão. Ele pode ser
lido constantemente, o que serve para fixar a
memória e tirar eventuais dúvidas.
Logo é indispensável. O livro tem
uma presença marcante na educação,
pois permite ao jovem entrar em contato com o
conhecimento desde a infância.
FOLHA DIRIGIDA - Como o jovem deve
ser estimulado para desenvolver o hábito
da escrita? Qual é o papel do professor
e da escola nesse processo?
Tarcísio Padilha - O professor de
Português deve deixar de ser esse professor
enfadonho que acha que Língua Portuguesa
é gramática. Claro que a gramática
é importante. Prova disso é a gramática
do professor Evanildo Bechara, que faz sucesso
tendo reedições. Mas não
podemos transformar o estudo da Língua
Portuguesa em um amontoado de regras gramaticais.
Isso é burrice. Só dominamos a língua
na medida em que a amamos. Os professores têm
que deleitar os alunos a partir da leitura. Dessa
forma, eles vão desenvolver seu vocabulário,
que se tornará mais amplo e espontâneo.
Os professores devem usar a imaginação
para atrair o jovem.
FOLHA DIRIGIDA - O que falta para que
o livro seja encarado como artigo de primeira
necessidade no Brasil?
Tarcísio Padilha - O principal fator
neste caso é o preço. Devemos ter
preços adequados aos parcos salários
da população. Os chamados livros
de bolso devem ter incentivo pelo preço
baixo. O governo também deve subsidiar
edições de clássicos. O primeiro
passo para desenvolver o hábito da leitura
é tornar o livro acessível a todos.
FOLHA DIRIGIDA - De que forma escritores,
artistas e intelectuais podem contribuir para
a melhoria da qualidade da educação
no país?
Tarcísio Padilha - A obra de arte
não deve ter esse compromisso. Quem escreve
um livro ou uma peça para doutrinar jamais
será um artista. A obra de arte deve fluir
da criatividade. Ela não deve ter este
compromisso. A contribuição da arte
à educação é conseqüência.
FOLHA DIRIGIDA - De políticos
em campanha a pais de alunos, todos defendem a
qualidade do ensino no Brasil. Mas o senhor não
acredita que ficamos muito no terreno dos discursos
e pouco fazemos de prático? O que falta
para que essas reivindicações, na
verdade comuns a toda a sociedade, saiam do papel?
Tarcísio Padilha - Para isso é
preciso que seja dada uma prioridade política,
clara e consistente ao setor, tal como ocorreu
com os Tigres Asiáticos, que estão
aí como inegáveis potências.
Se investirmos de fato em educação,
o resto virá a reboque. A grande questão
no Brasil é que os problemas econômicos
ocupam de tal forma a mente dos governantes que
não sobra tempo para pensar em mais nada.
É como a questão da segurança.
Enquanto todos falam, todos reclamam, nós
ficamos à beira-mar.
FOLHA DIRIGIDA - Analisando o que foi
feito nos últimos governos, e diante do
provável cenário político
desenhado para os próximos quatro anos,
o senhor arriscaria dizer para onde caminha a
Educação brasileira?
Tarcísio Padilha - Não tenho
virtudes proféticas. Os fatores são
complexos e variados, mas não sou pessimista.
O Brasil, com todos os percalços, caminhou
ao longo do tempo e, apesar dos pesares, melhorou.
Porém, creio que é nosso dever dizer
o que está faltando. Não basta o
número de matrículas ter aumentado.
Devemos ser sempre exigentes e cobrar mais e mais
de qualquer administração. Espero
que o próximo governo estabeleça
uma nítida prioridade para a educação,
com afirmação de metas consistentes.
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