|
As greves nas instituições de
ensino ainda dividem a opinião dos educadores.
Vistas na década de 80 como mal necessário
para a obtenção de conquistas trabalhistas,
as paralisações vêm sendo
alvo de críticas por um grupo expressivo
de educadores. Em 2001, a greve nas instituições
federais de ensino se estendeu por 105 dias. Neste
ano, a rede estadual do Rio de Janeiro enfrentou
uma paralisação de 77 dias.
As alas mais progressistas argumentam que,
diante do descaso dos governos com a educação
pública, as greves ainda são um
instrumento eficaz de luta, apesar dos inevitáveis
prejuízos que acarretam. Aqueles
que condenam longas paralisações
se apóiam nos danos causados aos estudantes
pela interrupção do processo educativo.
Em entrevista à FOLHA DIRIGIDA, a presidente
da União dos Professores Públicos
no Estado (Uppe-Sindicato), Teresinha Machado,
e a coordenadora-geral do Sindicato Estadual dos
Profissionais de Educação (Sepe),
Vera Nepomuceno, comentam alguns dos problemas
que afligem o magistério.
FOLHA DIRIGIDA - Sob o ponto de vista
dos profissionais de Educação, qual
é sua análise da política
desenvolvida durante o governo FHC?

Teresinha Machado, presidente da
Uppe-Sindicato
|
Teresinha Machado - Acredito que tivemos
alguns avanços, como as avaliações
feitas pelo Ministério da Educação
(MEC). No entanto, o tratamento dado aos professores
federais, que fizeram uma greve de 105 dias em
2001, não foi satisfatório, já
que o salário dos docentes chegou a ser
cortado. Além disso, o MEC não atendeu
a uma série de reivindicações
da categoria. Os professores estão na miséria.
FOLHA DIRIGIDA - O final de 2001 e
o início de 2002 foram marcados pelas greves
nas instituições federais e também
na rede estadual de ensino. O que fica de negativo
e de positivo desses movimentos?
Teresinha Machado - A greve dos professores
federais foi para valer, devido à união
da categoria. No entanto, a greve na rede estadual
de ensino do Rio de Janeiro foi desnecessária.
As conquistas da categoria foram obtidas na Justiça.
Além disso, a adesão foi bastante
parcial. O interior não parou. Os professores
não estavam unânimes e essa situação
enfraqueceu o movimento, desgastando o instrumento
valioso que é a greve. Movimentos desse
tipo não conseguem muita coisa, prejudicam
os alunos e os professores. Depois da greve de
77 dias, os docentes ficaram deprimidos. A educação
é um processo que tem de ser contínuo.
FOLHA DIRIGIDA - Poucas vezes o magistério
se viu envolvido em situações de
greves tão longas. Esse é um indício
de que as relações entre a categoria
e o Governo, seja ele federal ou estadual, estão
cada vez mais difíceis?
Teresinha Machado - Realmente, a situação
está ficando mais difícil porque
os governos têm dado cada vez menos importância
à Educação. Isso fica mais
evidente nessa época de eleições
em que os candidatos não têm procurado
a categoria para conversar. Eles vão debater
com advogados, banqueiros e diversos outros setores.
Eles só não falam com os professores.
Anteriormente, os governantes procuravam nossa
categoria para apresentar suas propostas.
FOLHA DIRIGIDA - Qual é a perspectiva
para os próximos anos? As greves e paralisações
devem ser instrumentos de reivindicação
utilizados de forma cada vez mais freqüente
pelos professores?
Teresinha Machado - Não. Eu acredito
que a greve deve ser o nosso último recurso.
O aluno é muito importante e os professores
devem servir de exemplo para esses jovens. Creio
que devemos estimular o professor a reivindicar
seus direitos, a ir para a rua e participar do
movimento. Outra alternativa é a interlocução
com a categoria e com a sociedade, através
de programas de rádio e de televisão.
Os professores também devem cobrar dos
parlamentares e do Executivo melhorias na Educação.
FOLHA DIRIGIDA - Além da urgente
melhoria salarial, o que pode ser feito, a curto
prazo, para valorizar a carreira do magistério?
Teresinha Machado - Em primeiro lugar,
é preciso ouvir a categoria. Os governantes
precisam ouvir os professores. Quem está
todo dia nas salas de aula é que sabe o
que é bom para os alunos. Os dirigentes
precisam estar mais próximos das escolas.
As instituições precisam de orientadores
educacionais, de psicólogos, assistentes
sociais, professores de música, de filosofia
e de sociologia. Hoje em dia, os professores estão
solitários e deprimidos. Eles são
muito cobrados e recebem muito pouco. Não
é apenas uma questão salarial. É
preciso que eles tenham uma qualidade de vida
melhor.
FOLHA DIRIGIDA
- Qual é a sua análise da
política desenvolvida durante o governo
FHC?

Vera Nepomuceno, coordenadora-geral
do Sepe
|
Vera Nepomuceno - Infelizmente, a Educação
é bandeira de campanha no Brasil. Depois
que os governantes assumem seus cargos, esquecem
suas promessas. Não há compromisso
com a Educação. Ela não é
prioridade. O que vimos nos últimos anos
foi um sucateamento da educação
pública. Um exemplo desse processo foi
o corte de energia elétrica que a Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) sofreu, em agosto,
por falta de pagamento.
FOLHA DIRIGIDA - O final de 2001 e
o início de 2002 foram marcados pelas greves
nas instituições federais e também
na rede estadual de ensino. O que fica negativo
e de positivo desses movimentos?
Vera Nepomuceno - O fruto mais importante
desses movimentos foi a credibilidade dos trabalhadores
e sua mobilização, tanto nas lutas
de âmbito federal quanto estadual. Depois
de anos de sucateamento da educação
pública, os profissionais voltaram às
ruas. Na rede estadual do Rio de Janeiro houve
um resgate no plano de carreira dos professores
que voltou a ser pago ainda que
de forma aquém das reivindicações
da categoria.
FOLHA DIRIGIDA - Poucas vezes o magistério
se viu envolvido em situações de
greves tão longas. Esse é um indício
de que as relações entre a categoria
e o Governo, seja ele federal ou estadual, estão
cada vez mais difíceis?
Vera Nepomuceno - Essa questão está
muito relacionada a um perfil de Estado onde educação
e saúde públicas não constituem
prioridades. Hoje em dia, existem leis de responsabilidade
fiscal que acabam atrapalhando melhorias imediatas
para os trabalhadores dessas áreas. Os
governos ficam reféns da economia e direcionam
seus esforços para saldar as dívidas
com os banqueiros. Num Estado cuja política
não prioriza o desenvolvimento interno
principalmente os investimentos nas áreas
de educação e saúde
e sim os compromissos financeiros, a situação
dos trabalhadores fica complicada.
FOLHA DIRIGIDA - Qual é a perspectiva
para os próximos anos? As greves e paralisações
devem ser instrumentos de reivindicação
utilizados de forma cada vez mais freqüente
pelos professores?
Vera Nepomuceno - Vivemos um nova ordem
mundial onde a correlação de forças
está se alterando e acarretando a perda
da soberania. O Brasil está perdendo sua
soberania e ficando refém da Economia.
Todas as reduções de gasto são
feitas nos serviços públicos. Ou
o Estado rompe com essa lógica, ou as lutas
dos trabalhadores tendem a ser mais intensas.
Desse jeito, teremos o mesmo caminho da Argentina.
O Brasil precisa mudar de rumo. É preciso
implementar uma política de desenvolvimento
interno, priorizando a educação
e a saúde, aumentando a verba para esses
setores. Se essa situação política
não mudar, teremos que enfrentar os governos
e os próximos anos serão de muita
luta.
FOLHA DIRIGIDA - Além da urgente
melhoria salarial, o que pode ser feito, a curto
prazo, para valorizar a carreira do magistério?
Vera Nepomuceno - Uma alternativa seria
criar convênios para oferecer condições
de capacitação, através de
convênios para cursos de áreas afins,
visando ao aperfeiçoamento da prática
dos profissionais de educação. Isso
tudo poderia ser feito sem que houvesse prejuízo
no salário. Ao contrário, já
houve épocas em que os professores recebiam
hora extra pelo período em que participavam
de programas de capacitação. A categoria
tem necessidade de estar um contato com a produção
das universidades. Outras medidas que poderiam
surtir efeito seriam a convocação
de concursados e a ampliação do
quadro de servidores.
|