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A universidade pública tem sido marcada
por movimentos grevistas que geram polêmica
entre os vários setores da sociedade. Alguns
criticam a radicalização dos professores.
Outros endossam o movimento como um sinalizador
do descaso com que tem sido tratada a universidade
pública no país. Nos meios acadêmicos,
algumas lideranças vêem as greves
como uma resistência ao modelo neoliberal
e à tentativa de buscar a privatização
das instituições públicas.
Seria a greve o caminho mais adequado para as
reivindicações ou para a resistência
à atual política sócio-educacional
do país? Até que ponto, a desarrumação
do ano letivo e o clamor de milhares de universitários
podem surgir como a face negativa de um movimento
que, seguramente, tem dividido as opiniões
e recebido muitas críticas? Até
que ponto o movimento tem sido eficaz para atingir
os objetivos desejados? São perguntas que
alimentam o debate em torno do assunto e que também
servem como reflexão para o meio acadêmico.
Como será no próximo ano? Novas
greves? Nova política? Novo modelo? Nova
universidade?
Para falar das dimensões econômicas,
políticas e pedagógicas das greves
que mantêm escolas e universidades desertas,
Folha Dirigida convidou para a mesa de debates
o pesquisador do Instituto Universitário
de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj), Adalberto
Cardoso, que estuda os movimentos sindicais brasileiros;
Roberto Leher, professor da UFRJ, que durante
a greve das federais participou direta e ativamente
das negociações com o Governo, como
presidente da Associação Nacional
dos Docentes do Ensino Superior (Andes/Sindicato);
e Paulo Fábio Salgueiro, subsecretário
de Educação do governo petista do
Estado do Rio de Janeiro, que passou pela insólita
situação de interceder, no sentido
de pôr fim a um conflito no qual seu partido
é pós-graduado em realizações.
Será que estas três vertentes,
absolutamente particulares em seus contextos
embora todos sejam professores têm
visões antagônicas sobre os movimentos
de greve? O debate a seguir mostra-se, neste sentido,
revelador; além de nos apresentar múltiplas
faces de questão tão relevante.
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FOLHA
DIRIGIDA O que é a greve para
os senhores? O atual contexto socioeconômico
mudou o seu perfil?
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Adalberto Cardoso
Pesquisador do
segmento sindical
no Instituto
Universitário de
Pesquisa do
Rio de Janeiro
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Adalberto Cardoso
No Brasil, a greve é um direito constitucional.
Partindo dessa primeira constatação,
ela é, também, talvez o mais importante
instrumento de luta dos trabalhadores diante de
empregadores públicos e privados. Os trabalhadores,
individualmente, não podem nada ou quase
nada, apesar do discurso da empregabilidade, da
individualidade, de as pessoas se acharem sozinhas
no mercado de trabalho. A greve é o mecanismo
por meio do qual os trabalhadores conseguem firmar
uma posição de poder diante de empregadores,
que às vezes têm poder unilateral
individualmente.
Um empregador não tem que se juntar com
outro para retaliar uma greve, mas os trabalhadores
têm que se juntar com outros, têm
que chegar a acordos sobre quais são seus
objetivos. Então, desse ponto de vista,
a greve também é um instrumento
de criação de identidade coletiva,
de constituição de consciência
de classe. É um instrumento de poder, é
um mecanismo de constituição de
identidade coletiva e de conscientização.
Para quê? Isso depende da situação.
Já foi um instrumento pensado pelos movimentos
socialistas, por exemplo, para constituição
de consciência de classe e, dependendo da
situação, para a revolução.

Paulo Fábio
Professor e
subsecretário de
Educação do
Governo do
Estado
do Rio de Janeiro
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Paulo Fábio Salgueiro
Eu costumava brincar dizendo que foi necessária
muita organização, muito planejamento,
muita reunião e muita força de vontade
política para esculhambar a educação
do Rio de Janeiro do jeito que foi esculhambada.
Só que ao entrar para o governo, aquilo
que eu achava que era uma simples expressão
meio trágica, meio cômica, um pouco
de quem estava afastado da responsabilidade de
governo, percebi que era absolutamente verdadeiro,
que não era brincadeira. A gente vem entrando
em contato com outros estados e vê que ocorre
uma privatização daquilo que é
público. Então, essa questão
da greve vai ter que ser colocada nesse debate
também por esse viés: o que significa,
hoje, no mundo moderno, a discussão do
Estado público e do Estado privado? E o
que é greve no público, e o que
é no privado? É uma questão
que está na ordem do dia e tanto mais estará
quanto mais o Estado brasileiro se transformar
num Estado público.

Roberto Leher
Professor da
UFRJ. Ex-presidente da Associação
Nacional dos
Docentes do
Ensino Superior
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Roberto Leher
Bom, eu diria que a gente está iniciando
o debate de uma maneira bastante fecunda. No meu
entendimento, as greves no setor da educação
têm marcado um enfrentamento com políticas
e reformas do Estado. Pelo menos desde 82, com
a crise da dívida, quando iniciam as reformas
neoliberais em vários países latino-americanos,
nós temos um processo de reforma do Estado
mais ou menos visível. No Brasil isso ficou
muito evidente sobretudo a partir de meados da
década de 90, atingindo muito duramente
o trabalho docente enquanto carreira. Tanto que,
se observarmos as pautas, das greves, uma grande
quantidade foi feita em nome de uma carreira,
em nome de uma perspectiva de construção
profissional. Então é uma pauta
econômica, com desdobramentos políticos
muito importantes.
É importante registrar que o setor da
educação talvez tenha sido o mais
aguerrido em relação às reformas
neoliberais. Há um estudo do Observatório
Social do Conselho Latino-Americano de Ciências
Sociais indicando que o setor da educação
é o que mais tem feito greve. Vale lembrar
que a importância dessas greves é
reconhecida pelos organismos que têm, de
certa maneira, criado condições
para que as reformas se efetivem na América
Latina.
Praticamente todos os estudos e documentos do
Banco Mundial, da Cepal, do Banco Interamericano
de Desenvolvimento, atestam que os professores
são um obstáculo às reformas.
Eles reconhecem isso, mas obviamente com um vetor
negativo, como se os professores estivessem apegados
ao status quo, sem uma preocupação
com os direitos da cidadania das crianças,
dos jovens, da universidade. Mas, de toda maneira,
os organismos internacionais reconhecem que a
organização coletiva, e dos trabalhadores
de educação, têm sido um obstáculo.
De fato, se observarmos a situação
brasileira, ela tem particularidades importantes
com relação a outros países
latino-americanos. Entre outros motivos, pela
organização que os trabalhadores
da educação conseguiram lograr,
pelo menos desde meados da década de 80.
Então essa organização, de
fato, tem feito diferença no ritmo, na
natureza e nas características mais gerais
das reformas neoliberais no setor de educação.
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FOLHA
DIRIGIDA Por que o magistério
ainda faz greves, enquando as outras categorias
profissionais, em maioria, têm procurado
novas saídas para solucionar seus
conflitos?
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Adalberto Cardoso
Eu não diria que os professores são
das raras categorias que fazem greve. Talvez as
greves dos professores sejam mais ruidosas por
se tratar de uma categoria que presta um serviço
público com grande visibilidade. Essas
greves também são muito longas e
têm efeito na vida de muita gente. Mas se
você pegar os dados de greve no Brasil,
apesar de um discurso contrário, continuam
ocorrendo de 500 a 800 greves por ano no país,
em sua maioria de categorias profissionais privadas.
As greves não têm a visibilidade
dos anos 80, mas estão aí. Com os
professores têm uma visibilidade maior,
porque as greves vêm acompanhadas de um
discurso consistente, como disse o Leher, de crítica
ao tipo de reforma econômica que está
sendo implementada no país. Há ainda
o fato de que os professores prestam serviço
público.
Paulo Fábio Salgueiro
As greves no Brasil se caracterizam, principalmente,
por um conflito de caráter econômico-social.
São raros os exemplos de greves que não
têm como eixo principal o conflito salarial.
A impressão que me dá é que
esse conflito, quando ocorre numa instituição
privada, tende a se resolver com mais rapidez,
porque a linha de produção é
muito intensa e o prejuízo da empresa se
faz ver muito rapidamente. Sendo assim, o conflito
tende a resultar numa negociação
ou numa violência qualquer, e o que a gente
observa ultimamente, na maioria dos casos, é
uma negociação rápida e uma
solução que, de alguma maneira,
contempla tanto as empresas quanto os sindicatos
de trabalhadores.
No serviço público, e mais especificamente
na área da educação, o que
a gente observa, tanto no Governo federal, quanto
na maior parte dos governos estaduais, é
a desresponsabilização do Estado
por esse conflito, como se não tivesse
a ver com ele.
Em nossa experiência no Governo do Estado
do Rio, aonde chegamos em abril, enfrentamos um
conflito que vinha desde 1995, de vários
governos estaduais sucessivos. Nosso governo mostrou
que, quando se atua na mediação
do conflito, as soluções são
possíveis e rápidas. Não
estou querendo dizer que a categoria esteja extremamente
satisfeita, porque não está, mas
se resolveu um conflito que estava completamente
fora de controle.
Roberto Leher
Muitas vezes, questões aparentemente econômicas
e corporativas têm rebatimentos políticos
mais consistentes. Se pegarmos o setor das (universidades)
federais e recuperarmos as principais greves de
1986 para cá, vamos ver que a pauta política,
que tem implicações mais diretas
sobre o futuro da universidade enquanto instituição
capaz de fazer ensino, pesquisa e extensão,
uma instituição que tente forjar
sua autonomia universitária, vamos ver
que as greves tiveram um efeito muito mais significativo
e positivo para o país.
Se fizemos uma greve grande em 1986, foi para
termos uma carreira e direito ao concurso público.
Estávamos tentando impedir que a contratação
de professores fosse por relações
de amizade, de confiança política,
de compadrios de várias naturezas. Assegurar
o ingresso exclusivamente por concurso e ter um
plano de carreira foi uma vitória da greve
de 86/87. Na Universidade de Campinas, por exemplo,
a reitoria fazia a progressão da carreira
segundo méritos acadêmicos ou segundo
simpatias, afinidades. Progredia quem fazia parte
do grupo de poder. Isso, no meu entendimento,
foram ganhos que permitiram a institucionalização
de uma universidade mais laica e mais moderna.
Tivemos greves importantes na época do
Collor (ex-presidente Fernando Collor de Mello),
basicamente para impedir a emenda constitucional
que criava um projeto chamado Nova Universidade,
que previa a privatização das instituições
federais. Tivemos também greves importantes
no período de Fernando Henrique (presidente),
que, inclusive, não tiveram ganhos econômicos,
mas impediram o avanço de reformas importantes.
Conseguimos, na Constituição de
1988, assegurar que as universidades gozassem
de autonomia. Fernando Henrique, no plano diretor
de reformas do estado, previa que as universidades
se transformariam em organizações
sociais de direito privado. Ele também
tentou fazer uma mudança na Constituição,
no Artigo 217, dizendo que as universidades gozam,
na forma da lei, de autonomia, ou seja: deslocaria
a autonomia para o âmbito infraconstitucional.
Esse projeto foi barrado, foi impedido de avançar
pela organização, pela mobilização,
pelo processo de greve, assim como outras variáveis
foram importantes. Não foi apenas a greve,
mas a greve foi, seguramente, importante nesse
enfrentamento.
Naquele momento, o parecer do relator dizia que
num prazo de dez anos as nossas universidades
federais poderiam caminhar com os próprios
pés, ou seja, elas poderiam se autofinanciar
inteiramente. E dizia mais: que pesquisa era puro
emocionalismo nacional, mas isso foi inviabilizado,
foi abortado pela organização.
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FOLHA
DIRIGIDA Em relação
à greve das federais do ano passado,
quais foram as conquistas no campo político?
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Roberto Leher
Com a grande greve das federais, nós conseguimos
impedir uma das nervuras da reforma do Estado,
que era a privatização das relações
de trabalho, que iria fazer que, daqui para frente,
todos os trabalhadores da universidade, tanto
docentes como técnicos administrativos,
fossem regidos por normas do direito privado,
pela CLT (Consolidação das Leis
Trabalhistas). Temos um retrospecto que mostra
que as greves interferiram muito fortemente no
perfil de nossas instituições de
ensino. Acredito que se aplica também ao
ensino básico.
O movimento de greve, o movimento de contestação,
a organização dos sindicatos também
lograram êxito no Plano Nacional de Educação,
em termos de discussão de projetos. O ensino
básico, o ensino superior, os movimentos
sociais envolvidos, mas particularmente os sindicatos,
lograram êxito num projeto de educação
alternativo ao modelo neoliberal. É claro
que não temos força para implementar
esse projeto. Ele foi apresentado ao parlamento
e, obviamente, não foi aprovado, e sabíamos
que não seria, mas de toda maneira hoje
os sindicatos têm um norte político
em relação às verbas, em
relação à carreira, em relação
às reformas curriculares que estão
em curso.
Os movimentos têm poder sobre a política
nacional e isso não é pouca coisa.
Construir um projeto alternativo para servir de
referência, de norte político, mostra
que os movimentos têm conseguido entrar
no debate e projetar para o futuro a construção
de uma escola pública de alta qualidade
e de caráter comunitário. Há
nisso um êxito extremamente significativo.
Claro que as greves no setor privado são
muito diferentes, a temporalidade é outra.
Nossa experiência nesse setor é a
pior possível, as retaliações
são sempre violentíssimas e não
há possibilidade de organização
autônoma sem grandes embates. Nós
tentamos criar uma seção sindical
num centro universitário em Minas Gerais
e toda a diretoria foi demitida. Depois nós
conseguimos a reintegração por meio
de ação judicial, mas é o
que acontece no cotidiano do setor privado.
Ao lançarem mão da greve, os professores
não estariam se colocando como desiguais
entre semelhantes? O desejo de recuperar os direitos
perdidos não é comum a todos os
trabalhadores, inclusive entre aqueles a quem
a greve oferece sérias ameaças à
estabilidade?
Leher
A greve no setor público é objeto
muito sério de controvérsia, porque
a Constituição assegurou esse direito.
A interpretação do movimento docente,
de que participei enquanto diretoria do Andes
(Associação Nacional dos Docentes
do Ensino Superior/Sindicato), assim como é
a compreeensão da Justiça, é
que o fato de a Constituição não
ter regulamentado, não ter explicitado
na forma de lei os limites da greve no setor público,
o direito é pleno. E se não há
lei restritiva, o princípio constitucional
deve ser assegurado.
Mas isso não quer dizer que os servidores
públicos não tenham sofrido retaliações
sérias. Na greve das federais, ficamos
dois meses sem salário, apesar de termos
decisões judiciais a nosso favor, não
pelo direito de greve, mas pela autonomia universitária.
Então, não é verdade que
os trabalhadores do setor público não
tenham sido retaliados. E há uma retaliação
invisível, também, de professores
serem transferidos para locais de difícil
acesso e com horários difíceis.
A retaliação não é
tão evidente, mas existe.
Nós temos dirigentes ameaçados
de morte, recebem telefonemas ameaçando
suas famílias. Infelizmente as greves não
ocorrem num ambiente democrático e sua
própria extensão mostra que o Estado
democrático brasileiro é muito precário.
Não há mecanismos de interlocução,
ainda não temos direito à negociação
coletiva. É claro que no setor privado
a visibilidade da repressão é mais
imediata, com ameaça de demissão,
que é o grande diferencial, no meu entendimento.
Mas para refletir sobre as greves não é
uma linha de argumentação muito
forte pensar os servidores públicos como
uma categoria privilegiada, que não corre
riscos, que não tem retaliação,
porque não é isso o que está
acontecendo. As retaliações têm
acontecido e têm sido bastante severas.
Continua>>
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