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A inclusão é um desejo do Ministério
da Educação (MEC) que, desde 1996,
tenta tirar do papel a lei que garante aos portadores
de deficiência o direito de estudar em escolas
comuns. Nesta tentativa, o ministro da Educação,
Paulo Renato Souza, assinou, em setembro de 2001,
a resolução das diretrizes nacionais
para a educação especial.
A regulamentação veio ratificar
a obrigação dos governos estaduais
e municipais de investir na educação
especial. Misturar em uma mesma classe alunos
especiais e crianças normais não
é um processo fácil. Vencer as barreiras
do preconceito é uma das principais dificuldades.
Para isso, a própria Educação
Especial vem passando por transformações.
Há alguns anos se usava o termo integração.
Hoje o corrente é inclusão. A diferença
é que na integração as crianças
se preparavam para poder estudar nas escolas regulares.
Com a inclusão, as escolas é que
se devem preparar para receber as crianças.
A educação inclusiva necessita
de um suporte especial para que o processo de
aprendizagem ocorra de fato. As crianças
matriculadas em turmas regulares devem ser atendidas
em aula de reforço. O estímulo desde
cedo é uma das chaves para o bom desenvolvimento
desses alunos especiais.
Na busca de ferramentas para vencer o preconceito,
a Academia Brasileira de Educação
(ABE) realizou em março deste ano um seminário
nacional. Em entrevista concedida à FOLHA
DIRIGIDA, a presidente da ABE, Edília Coelho
Garcia, que conhece o tema de perto - foi assistente
de Helena Antipoff nas primeiras iniciativas de
se pensarem pedagogicamente os destinos das crianças
especiais no Brasil - falou sobre o que a educação
pode e ainda não fez por estas crianças.
Segundo a professora Edília, as escolas
ainda não estão preparadas para
cumprir a Constituição, que determina
a obrigatoriedade da matrícula de portadores
de deficiências em escolas regulares. Diria
que os professores não estão preparados.
São raras as exceções. De
um modo geral, os professores não estão
preparados nem para atender às crianças
regulares. Mas acredito que a capacitação
dos professores para lidar com estas crianças
especiais resultará na preparação
para atendimento às crianças regulares.
Nossa escola é muito elitista. A escola
recebe uma criança favelada, originária
de bolsões de pobreza, filha de analfabetos,
muitas vezes sem nunca ter visto alguém
ler em sua casa. E a professora quer que aquela
criança se comporte como ela quer, que
fale como ela fala. A criança poderá
aprender e certamente irá aprender, mas
precisará de um atendimento diferente de
outras, avaliou a professora.
Para ela, da Constituição de 1988
ao Plano Nacional de Educação e
a Lei de Diretrizes e Bases praticamente nada
mudou. Fora portarias e decretos, nada aconteceu
que realmente se pudesse dizer que resultou num
trabalho prático, numa ação
afirmativa. Criaram-se escolas especiais, o que
eu considero uma aberração, porque
são escolas que segregam as crianças.
Todos são especiais. Então, a criança
não se enriquece, a evolução
é muito mais lenta e, às vezes,
ela adquire hábitos que não tinha,
passa a ter determinados cacoetes que outra criança
tem. O estado, numa determinada época,
chegou a criar as classes chamadas AE, que eram
dos Alunos Especiais. Eram segregadoras, separavam
numa classe. É como se dissessem: vocês
são diferentes, vocês têm que
ficar à parte, vocês não podem
ter recreio junto com as outras crianças,
não podem conviver com as outras,
critica.
De acordo com a presidente da ABE, o convívio
social não só ajuda como é
importante para o aprendizado. Se a criança
tiver capacidade de se associar, a qualquer momento
ela se alfabetiza. Mas no convívio com
as outras crianças, o desenvolvimento é
muito mais rápido, disse, complementando,
no entanto, que, antes de qualquer medida, é
preciso reformular o conteúdo curricular.
É urgentíssimo e, aliás,
as escolas são livres para fazer isto sem
precisar do aval do MEC. Muitas vezes, a professora
quando vai ensinar Capitanias Hereditárias
quer que a criança decore os nomes dos
donatários, o que é um erro.
Para a educadora, não há receita
para uma boa educação. Para atender
bem a estas crianças é necessário,
antes de mais nada, um bom professor. Porém,
ela lembra que nossas escolas devem estar preparadas.
O Plano Nacional de Educação,
no capítulo que trata da criança
especial, detalha isso muito bem. Uma boa escola
tem que ter uma sala para arte, porque é
um tipo de trabalho que precisa de espaço,
precisa de mesas, precisa de cavaletes para pintura,
enfim, precisa de um espaço que a escola
tem que ter. Toda boa escola precisa de uma sala
de música. Quem não pode ter uma
escola, uma sala para arte, pode ter uma mesa
tosca com um cavalete num pátio, em que
numa determinada hora, no próprio pátio
do recreio, possa ser dada uma aula de arte. Precisa
de criatividade, o indivíduo precisa ser
criativo. Se ele não dispõe das
salas específicas, tem que ser criativo.
O que não é possível é
pretender fazer educação dando só
aulas acadêmicas.
Na questão da educação inclusiva,
a professora Edília Garcia ressaltou que
um dos pontos cruciais é tratar a criança
com naturalidade. Uma das coisas importantes
é a criança não se sentir
diminuída, o problema dela deve ser tratado
com naturalidade. Ela não é uma
coitadinha. É uma criança que tem
uma dificuldade, a quem estamos ajudando e não
é preciso fazer cerimônia,
afirma, ressaltando que todas as crianças
são educáveis. Tem crianças
educáveis e tem crianças escolarizáveis.
Faço esta diferença, porque há
determinados tipos de retardo mental, de inteligência
baixa, que não permite à criança
se escolarizar, mas ela se educa, concluiu,
lembrando que a noção de aluno especial
é muito relativa. Antigamente se
chamava criança excepcional, hoje chama-se
especial. Especial, ou deficiente, é aquela
criança que não é capaz de
fazer todas as coisas ou fazer o que as outras
crianças são capazes. Uma criança
cega, evidentemente, é uma criança
especial, porque não tem condições
de ler livros comuns, resume.
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