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Esther de Figueiredo Ferraz foi a única
mulher, até os dias atuais, a se responsabilizar
pela pasta da Educação em um governo.
Também foi a primeira ministra de toda
a História da República, a primeira
a integrar o Conselho da Ordem dos Advogados do
Brasil e a primeira a prestar concurso para livre
docência em Direito, na Universidade de
São Paulo, onde ainda leciona. Ao que parece,
a marca de pioneirismo é hereditária,
pois sua mãe, em 1907, foi a primeira mulher
a formar-se dentista no Brasil, segundo conta
a ex-ministra.
Hoje ela acredita ter sido conduzida ao Ministério
da Educação por indicação
de alguém ela não sabe quem
que observou seu desempenho nos conselhos
de educação do Estado de São
Paulo (de 1963 a 1969) e do Governo federal (1969
a 1982). Recorda-se, porém, de que seu
irmão José Carlos foi prefeito biônico
de São Paulo e era amigo do general João
Baptista de Figueiredo, em cujo governo Esther
serviu como ministra.
Até ela chegar, era uma pasta movida
por instabilidades. Nada menos do que cinco ministros
Eduardo Portella, João Guilherme
Aragão, Rubem Carlo Ludwig e Sérgio
Mário Pasqualli e Esther comandaram
a Educação no governo de Figueiredo.
Mas, diga-se de passagem, na época o vaivém
nos cargos públicos não entrava
na conta exclusiva da Educação.
A gestão de Esther tem, contudo, um
emblema. Foi quando se aprovou e se regulamentou
a Emenda Calmon, que vinculava a verba da educação
à receita federal e dos estados e municípios.
Nesta entrevista à Folha Dirigida, Esther
Figueiredo fala de sua trajetória como
ministra e comenta as políticas educacionais
do atual Governo.
Folha Dirigida Por que a pasta da Educação
era tão instável no governo de Figueiredo?
Esther de Figueiredo Ferraz Um dia
eu achei que tinha trabalhado pouco tempo no ministério.
Fizeram umas contas e verificaram que eu fui uma
das pessoas que permaneceram mais tempo, dois
anos e oito meses. Deu para fazer muita coisa,
porque eu não sucedi o ministro (Rubem
Carlo) Ludwig, ele passou para outro ministério
e eu conservei todo o grupo dele, que era de São
Paulo.
Folha Dirigida Foram cinco ministros
num só governo. O que provocava esse vai-e-vem
na Educação?
Esther Acontecia isso porque eram políticos
e eles oscilam muito, se movimentam, têm
às vezes que se desincompatibilizar para
concorrer a um cargo. Eu não disputava
nada, fiquei o tempo que me foi dado.
Folha Dirigida Se o cargo era político,
o que levou o general Figueiredo a convidá-la,
já que a senhora não era ligada
a nenhum partido, nem pretendia concorrer a cargos
eletivos?
Esther Ele deve ter acompanhado a minha
vida no Conselho Federal de Educação,
onde fiquei 12 anos. E mais do que isso, a mãe
dele era paulista e ele foi o general que presidia
a Força Pública do Estado de São
Paulo. Pela regra, a força pública
era sempre dirigida por um general, então
ele veio para cá. Ele conheceu todo mundo
e um dos meus irmãos (José Carlos
de Figueiredo Ferraz, prefeito biônico de
São Paulo durante o Governo de Laudo Natel,
de quem Esther foi secretária de Educação
entre 1971/1972), este sim, político do
Partido Social Progressista, e eles ficaram amigos.
Naturalmente eu acho que alguém me indicou.
Folha Dirigida Quais eram as diretrizes
centrais para a educação durante
o governo de Figueiredo?
Esther A prioridade número um
era conseguir mais recursos para a educação.
Folha Dirigida Foi esse o objetivo
da Emenda Calmon? Como ficou a educação,
depois da regulamentação desta lei?
Esther A Emenda Calmon vinculou determinados
percentuais das receitas federal, estadual e municipal
aos encargos da educação. Calmon
lutou bravamente por isso e nós ajudamos
muito. Quando eu deixei o ministério, o
segundo orçamento da República,
na frente de todos os ministérios militares
somados, era o da Educação. (Esta
emenda é de autoria do então deputado
federal do estado da Bahia, João Calmon).
Folha Dirigida Qual era o primeiro?
Esther Só o orçamento
dos transportes era maior do que o da educação.
A regulamentação foi feita pelo
Ministério da Educação e
pela Fazenda, a quatro mãos, as minhas
e as de Delfim Netto. Hoje foi modificada pela
nova Lei de Diretrizes e Bases, mas não
está muito diferente o que se consideram
e o que não se consideram despesas com
ensino. Havia uma espécie de movimento
contra a vinculação, mas a educação
para nós era a prioridade das prioridades,
então era necessário que ela gozasse
desse benefício da vinculação.
É aquela história da panela de barro
e da panela de ferro, se elas se chocam, a que
vai quebrar é a panela de barro, que é
a educação. Mas tendo a vinculação,
ela tira o que é dela.
Folha Dirigida A emenda foi aprovada
com facilidade pelo Congresso?
Esther Não, ela foi duas vezes.
Primeiro todo mundo aplaudiu, mas chegou na hora
de votar ninguém apareceu, não houve
quórum. Mais tarde foi apresentada de novo
e passou.
Folha Dirigida Como eram as relações
entre as pastas da educação e da
fazenda? Antes da Emenda Calmon, Delfim Netto
era favorável a que se abrissem os cofres
para as despesas com educação?
Esther Nossas relações
eram muito boas. Eu já conhecia o Delfim
de São Paulo e tinha por ele uma grande
admiração, muito respeito e uma
grande amizade. Ele é um paulista ilustre,
uma excelente pessoa, inteligentíssimo,
e foi um grande ministro. E era educador também,
professor da USP. Entendia de educação
tanto quanto eu ou mais.
Folha Dirigida Mas o presidente Fernando
Henrique também é educador e a educação
acumulou muitas queixas durante seu governo.
Esther Não é tão
fácil formular essa conclusão, porque
eles fizeram muita coisa boa também. Antigamente,
o que era obrigatório era o ensino primário,
hoje em dia é todo o ensino fundamental,
abrangendo também o ginásio, quer
dizer, duplicou, e já há uma tendência
para que fique obrigatório também
o ensino médio. As universidades federais
existem em toda parte, e isso é caro.
Meu pai era fazendeiro, um dia quis fundar uma
escola municipal na sua fazenda. Os pais pegaram
os filhos e fugiram para o mato, dizendo que aquilo
já era o serviço militar obrigatório.
Hoje, os pais pegam as crianças e dizem:
Eu quero escola para os meus filhos, eu
não quero que eles passem pelas dificuldades
que eu estou passando. Hoje exige-se e só
a formação deste estado de espírito
já é uma conquista. O professor
Miguel Reale foi reitor da USP por duas vezes
e ele fez uma enquete para saber a escolaridade
dos pais de alunos da USP. Quase 50% ou eram anafalbetos
ou não tinham terminado o ensino primário.
É que as coisas boas não aparecem,
só as ruins. Esse ministro que lá
está eu acho que é muito bom, ele
tem feito o possível.
Folha Dirigida A conta que cai sobre
o ministro Paulo Renato é que, durante
sua gestão, houve um crescimento acentuado
do ensino privado e uma queda, igualmente acentuada,
de investimentos nas instituições
públicas.
Esther Eu não sou a favor do
ensino público ou do particular, eu sou
a favor do bom ensino, e sei perfeitamente que
o poder público não tem condições
de manter todas as pessoas e suas necessidades.
Na medida em que aparece uma boa universidade
particular, ela deve ser prestigiada. Se for má,
não deve nem nascer. Uma vez eu li um folheto
da Escola de Ouro Preto que dizia o seguinte:
A falta de escola é um mal, mas a
escola ruim é uma calamidade. O governo
tem recursos garantidos no orçamento, mas
nós temos dimensões continentais,
não é tão fácil.
Folha Dirigida Os governos militares
são apontados como os que mais incentivaram
a pesquisa científica e tecnológica.
O que foi possível realizar em pesquisa
durante a sua gestão?
Esther É muito difícil
identificar. O que me cabia era a pesquisa dentro
da universidade, pesquisa fora não era
da minha competência.
Folha Dirigida Embora a presença
feminina seja quantitativamente maior do que a
masculina no ensino brasileiro, a senhora foi
a única mulher a assumir a pasta da Educação.
E não só isso: a senhora foi a primeira
ministra da História da República.
Orgulha-se desse pioneirismo?
Esther O progresso se faz aos poucos.
Você pode ver que, do ponto de vista jurídico,
a mulher casada só teve os mesmos direitos
do homem casado a partir de 1962. Não basta
que os direitos sejam declarados, eles têm
que ser usufruídos. Hoje as mulheres estão
ocupando todos os cargos, até no Supremo
Tribunal Federal tem uma ministra, a Helen Gracie,
que além de tudo ainda é bonita.
Folha Dirigida O que Paulo Renato deixará
de positivo para a educação?
Esther O ministro tem uma vontade grande
de acertar, ficou no cargo até o fim, não
saiu, deu continuidade administrativa. A continuidade
permite que o próprio ministro veja onde
errou e tenha a oportunidade de consertar. Veja
o Provão: tem muita gente que foi contra
o Provão, mas eu acho que a avaliação
tem que ser feita sempre, dentro da própria
escola ou através do poder público.
Folha Dirigida O Provão contribuiu
para melhorar a qualidade do ensino?
Esther As universidades passaram a
se comportar melhor depois do Provão, mas
não pode ficar só nisso. É
toda uma avaliação que tem de começar
de forma interna, mas se o sujeito não
é capaz de fazer espontaneamente, alguém
tem que vir e fazer.
Folha Dirigida Quando o regime militar
foi implantado, havia um movimento nacional de
alfabetização de adultos que seguia
a orientação do pedagogo Paulo Freire,
que foi extinto. Como o governo de Figueiredo
tratou da questão do analfabetismo?
Esther Os programas continuaram.
Folha Dirigida Com o Mobral?
Esther O que nós queríamos
não era apenas alfabetizar os que não
são alfabetizados, mas se dar uma continuidade
na educação.
Folha Dirigida O que a pedagogia de
Paulo Freire representou para o Brasil? Quando
foi para o ministério, conhecia a pedagogia
freiriana?
Esther Eu estudei a vida dele e a obra
dele foi muito bem analisada e ganhou aqui em
São Paulo o prêmio Moinho Santista.
Eu morava em Mococa, a minha mãe me ensinou
as vogais, depois vinha com as consoantes e colocava
em cima da vogal. Eu aprendi a ler com o Estado
de São Paulo, o jornal, então eu
acho que qualquer processo é bom quando
dá resultado. Quando me deram uma cartilha
eu já sabia ler, até porque o Estadão
me deu as bases para ler.
Folha Dirigida As prioridades ao pagamento
da dívida externa começaram no governo
do general Figueiredo, embora se tenham intensificado
nos governos que o sucederam. Essa decisão
não comprometeu demais as demandas sociais?
O Ministério da Educação
participava das discussões que geravam
decisões como esta?
Esther Eu acho que, quando a pessoa
pode fazer um empréstimo, ela deve fazer,
desde que possa pagar. Se a gente pudesse viver
sem fazer empréstimo era bom, mas fizemos
porque precisamos. Vamos ver se os que estão
aí vão conseguir manter ou não
isso. Mas ninguém fez porque quis fazer
e sim porque precisava.
Folha Dirigida A senhora acha que o
curso normal dava conta do ensino fundamental,
ou de fato é necessário que as professoras
tenham formação universitária,
como quer a LDB?
Esther O ideal seria que todos os cursos
pudessem atingir o nível superior, mas
nem sempre isso é possível. Os velhos
cursos normais davam conta perfeitamente do ensino
fundamental, mas se você pudesse transformar
o ensino normal em algo mais, enriquecer o currículo,
pode até continuar chamando de ensino normal,
o importante é qualificar o magistério.
Em todos os níveis as dificuldades existem.
É difícil alfabetizar, é
difícil dar o ensino médio, é
muito difícil dar o ensino superior.
Folha Dirigida A prioridade do MEC,
com Paulo Renato, foi o ensino fundamental. Foi
uma boa política?
Esther Precisa disso. Você deve
fazer um grande esforço para que o ensino
fundamental seja bom, porque vai virar conseqüência.
O aluno, tendo um bom curso fundamental, é
mais fácil de fazer o ensino intermediário.
Nos outros segmentos, a solução
vem de maneira mais fácil. A base é
o ensino fundamental.
Folha Dirigida Deu muito trabalho controlar
a adesão do meio acadêmico ao movimento
pelas Diretas?
Esther Para falar a verdade eu estava
trabalhando tanto que nem prestei muita atenção
no que aconteceu. O clamor popular é bom,
nós precisávamos voltar à
normalidade. Agora eu não participei, eu
fiz o que tinha de fazer, eu era ministra e procurei
ser uma boa ministra, com isso eu acho que ajudei.
O André Montoro foi meu colega na Faculdade
de Filosofia de São Bento e participou
das Diretas Já. Fez muito bem. Ulisses
Guimarães participou também e fez
muito bem, eles estavam convictos. Agora esse
não é meu forte, o meu forte é
o fazer, eu gosto de realizar, de fazer bem-feito.
Folha Dirigida Se voltasse a ser ministra,
o que seria diferente?
Esther Com a idade que eu estou (78
anos) eu não tenho mais condições
de ser ministra, eu mereço agora ficar
em casa reescrevendo.
Folha Dirigida Mas a senhora ainda
advoga.
Esther Sim, nas varas de Família
e Penal. Trabalho todos os dias, dirijo, só
não saio à noite por causa da violência.
Aí aproveito para estudar. Mas todos os
dias, de manhã e à tarde, eu vou
ao meu escritório, dirigindo o meu carro.
Folha Dirigida A senhora tem uma longa
experiência como professora de Direito,
cursos que lideram a procura pelos vestibulares.
As faculdades estão preparadas para a massa
de alunos que recebem? A qualidade dos cursos
é compatível às novas necessidades
de formação? Os currículos
estão atualizados?
Esther Há uma idéia errônea
de que o Direito seja uma disciplina fácil.
O Direito é dificílimo, você
passa a vida inteira estudando e, quando termina,
conclui que não sabe nada. Agora querem
reduzir para três anos a duração
dos cursos. Isso é um absurdo, porque com
menos de cinco anos não dá para
aprender, para formar os juristas. Quatro anos
já é pouco. São necessários
pelo menos cinco anos e depois tem que fazer outros
cursos, além da graduação.
A nova Lei de Diretrizes e Bases defende os cursos
seqüenciais. Um homem que resolve se iniciar
no comércio, ele só quer saber o
que interessa para o comércio e pode até
fazer um curso de três anos, mas não
é um curso de formação de
jurista. Em São Francisco (EUA) é
assim, durante três anos você faz
o curso, depois pode optar por Penal, Civil, Administrativo,
mas não como especialização
e sim como uma intensificação dos
estudos. Depois do curso terminado, você
pode fazer uma especialização, um
doutorado, um mestrado, o que quiser.
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