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Em um cenário onde os recursos para
as universidades públicas são cada
vez mais escassos, é sobre o setor privado
que recaem as maiores expectativas de ampliação
da oferta de vagas no ensino superior. Segundo
dados do mais recente censo do ensino superior,
as matrículas em instituições
particulares
corresponderam a 62% do total em todo o país.
Mas, além da oferta de vagas, a universidade
privada brasileira precisa lidar com outros desafios.
Conciliar a formação abrangente
que se espera de um curso superior com as demandas
de mercado, promover melhorias na estrutura física
e acadêmica, e adaptar-se às regulamentações
existentes para o setor são apenas alguns
obstáculos entre os vários apontados
pelos professores Sergio Dias, reitor da Universidade
Gama Filho, e Paulo Alonso, pró-reitor
do Centro Universitário da Cidade.
Sérgio Dias, reitor da universidade
Gama Filho
Folha Dirigida Na sua avaliação,
quais têm sido os principais desafios para
as universidades particulares?
Sergio Dias Apesar de ser autônoma,
uma das maiores dificuldades para a universidade
privada atender a esta demanda é o conjunto
de exigências que pesam sobre ela, como
investimentos em pesquisa e pós-graduação.
E a universidade particular não tem apoio
e sustentação financeira de nenhum
órgão do país, mesmo tendo
grande competência instalada e de recursos
humanos. Outra dificuldade é o investimento
que as universidades devem e têm que fazer
na renovação de equipamentos, a
despeito da quantidade significativa de recursos
aplicados em suas instalações, equipamentos,
bibliotecas, nos últimos anos. Além
disso, o conjunto enorme de regulamentações
que vem tirando da universidade sua autonomia
e poder de criar, fazendo que ela fique um pouco
cerceada em seus caminhos.
Folha Dirigida As instituições
de ensino superior têm conseguido se adequar
às necessidades do mercado?
Sergio Dias Isso é uma discussão
antiga, sobre a preparação mais
imediata para o mercado de trabalho. Mas, na verdade,
as universidades têm- se direcionado para
uma formação mais acadêmica.
Alguns cursos têm, excepcionalmente, em
seu corpo docente, profissionais do mercado de
trabalho. Mas nem todos têm. Tenho dúvidas
sobre essa exigência de que a universidade
deve fazer que o aluno, de imediato, esteja apto
para o mercado. Ela dá ao aluno uma formação,
um embasamento essencial para se desenvolver em
uma profissão. Mas não nesse sentido
imediato do mercado.
Folha Dirigida Qual é o perfil
dos jovens que o mercado exige?
Sergio Dias Esse jovem precisa ter
uma educação básica sólida,
um ensino universitário com um conhecimento
básico também consistente na profissão
que escolheu, um espírito empreendedor
e ética. No entanto, mais importante do
que estes fatores é estar pronto a, efetivamente,
aprender sempre. O jovem que sai da universidade
e pensa que, com o diploma e mais o conhecimento
de uma língua estrangeira, pode entrar
e se manter no mercado, não terá
sucesso. É primordial que ele, ao terminar
o curso, esteja pronto para um processo de educação
continuada.
Folha Dirigida As universidades particulares
têm investido de forma adequada na área
de pós-graduação?
Sergio Dias A pós-graduação
strictu sensu tem valor mais acadêmico.
O profissional de mercado irá encontrar
uma identidade maior com a pós-graduação
latu-sensu, no MBA, nos cursos de pós-graduação
mais profissionalizantes ou então nos seqüenciais.
Enfim, cursos que oferecem uma atualização
mais constante das necessidades da sociedade e
do mercado. Quanto ao investimento na pós-graduação,
acho que o governo deve perceber que, quando exige
que a universidade privada mantenha, além
do ensino, a pesquisa, ele também deve
se dispor a abrir suas agências a ela. É
muito difícil, dentro da estrutura de custos
do setor privado, manter uma grande oferta de
cursos de pós-graduação.
Folha Dirigida Qual é a sua
opinião sobre os cursos seqüenciais?
Sergio Dias Em um país emergente
como o nosso, com um mercado de trabalho que precisa
crescer, é uma boa proposta. Se é
possível uma formação rápida,
em que o jovem possa se desenvolver sem prejuízo
para que depois complemente ou dê seqüência
em seus estudos, não vejo problemas. Tanto
no caso dos cursos seqüenciais quanto nos
de tecnólogo, que também são
outra opção. No caso dos seqüenciais
de complementação de estudos, eles
apresentam uma proposta muito inteligente, na
qual o aluno pode se utilizar de um conjunto de
disciplinas já existentes na universidade
e construir a formação de acordo
com sua especificidade.
Paulo Alonso, pró-reitor da UniverCidade
Folha Dirigida Na sua avaliação,
quais têm sido os principais desafios para
as universidades no contexto atual?
Paulo Alonso As universidades brasileiras,
independentemente de serem públicas ou
privadas, precisam estar em consonância
com a legislação vigente, que exige
delas qualidade no ensino, pesquisa efetiva e
desenvolvimento de ações na extensão.
Mas é um grande desafio para as universidades
particulares fazerem pesquisa sem ajuda e sem
financiamento. No entanto, acho que as instituições
de ensino superior brasileiras estão desenvolvendo
um trabalho eficaz, no que diz respeito ao ensino
que vêm ministrando ao longo dos anos. E
as instituições privadas, sobretudo,
que respondem por quase 70% das matrículas,
são as grandes responsáveis pela
expansão do ensino universitário
no país. Isto porque têm maior mobilidade
em suas ações, não enfrentam
a burocracia dos órgãos governamentais
e têm um conselho universitário responsável
e, sobretudo, mais ágil na implementação
e discussões de ações.
Folha Dirigida As instituições
de ensino superior têm conseguido se adequar
às necessidades do mercado? Como o professor
pode trazer para dentro da sala de aula sua experiência?
Paulo Alonso Os professores, que têm
uma liberdade de cátedra, eles são
estimulados, todos os dias, a exercer a criatividade.
Se não fosse o talento individual de cada
um dos professores do Brasil, certamente não
teríamos atingidos o nível atual
de maturidade na educação superior
brasileira. E eu acredito fortemente na criatividade
dos professores como instrumento de viabilização
do próprio ensino superior. Os professores,
em sala, representam um papel extremamente importante.
Ao entrarem em uma classe eles estão representando
uma ação, estão mostrando
o conhecimento. E não basta apenas a universidade
implantar ou ter uma política de ação.
Mas, sobretudo, que o professor tenha uma metodologia,
que acredite nela e que ela possa estar atrelada
às políticas institucionais de cada
universidade brasileira.
Folha Dirigida Qual é o perfil
dos jovens que o mercado exige?
Paulo Alonso Que o mercado é
cada vez mais competitivo, todos sabemos. A universidade
dá a informação para que
o estudante possa sair dela com um conhecimento
maior para competir por uma vaga no mercado de
trabalho. Mas a formação não
é dada somente na universidade. Creio que,
desde o ensino médio, desde a educação
infantil, a responsabilidade dos pais é
muito importante para que o aluno, desde a mais
tenra idade, possa, por exemplo, se habituar com
a leitura, buscar novos conhecimentos.
Folha Dirigida Qual é o peso
real no mercado, hoje, de títulos como
pós-graduação, mestrado ou
doutorado?
Paulo Alonso As universidades particulares
investem ainda de forma não adequada em
função do altíssimo custo
da manutenção de um curso de doutorado
ou de mestrado. As particulares vivem de suas
mensalidades. Não têm nenhum apoio
governamental ou subsídio, diferentemente
das universidades públicas, que têm
toda uma estrutura de verba adicional para que
possam gerenciar seus cursos de mestrado e doutorado.
Folha Dirigida Qual a sua opinião
sobre os cursos seqüenciais?
Paulo Alonso Acho que os seqüenciais
existem como uma nova modalidade de ensino bastante
interessante que veio para ficar no Brasil. Acho
que estão sendo muito pouco difundidos
no país. Temos várias instituições
que adotam os cursos seqüenciais como uma
grande bandeira, onde os resultados são
absolutamente impressionantes.
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