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O presidente da Fundação Cesgranrio
e das Academias Brasileira e Internacional de
Educação, professor Carlos Alberto
Serpa de Oliveira, considera urgente que o país
invista na qualificação dos professores,
proporcionando aos profissionais da área
de ensino melhores estrutura e salários.
O educador adverte que, caso não exista
uma política pública de democratização
do acesso às novas tecnologias, surgirá
um novo tipo de iletrado: o analfabeto tecnológico.
Ocorre com freqüência em filas
de banco: os idosos quererem consultar os terminais
para verificar saldo ou receber pagamento e não
sabem operar a máquina, criando uma situação
constrangedora para eles próprios.
O professor Serpa afirma que este é
um caso típico do analfabeto tecnológico.
Agora, se as crianças também
não tiverem acesso à tecnologia,
quando atualmente tudo se faz através do
computador, vamos expandir essa exclusão
tecnológica, que será mais um tipo
de exclusão social. Por isso, considero
que as escolas têm de estar aparelhadas,
até porque as crianças têm
mais facilidade de aprendizado.
Eis a entrevista com o professor Carlos Alberto
Serpa:
FOLHA DIRIGIDA - Os professores e os
alunos estão preparados para utilizar as
novas tecnologias, como o computador, a internet
e o ensino a distância, de forma adequada?
Carlos Alberto Serpa - Não. Nem
tudo é tecnologia, nem tudo é máquina
ou equipamento. No entanto, a criatividade com
o uso da tecnologia é importante. Tenho
visto muitos projetos de educação
a distância que nada mais são do
que passar um vídeo, sem nenhuma interatividade
no processo educativo. Repetir isso da forma como
ainda acontece na escola, na sala de aula, é
perder a riqueza de possibilidades dos instrumentos
que são colocados à nossa disposição.
Eles nos permitem, no caso da formação
e recapacitação de professores,
fazer, por exemplo, o processo de formação
durante o trabalho, o que é muito interessante.
O professor, às vezes, têm duas ou
três matrículas e, portanto, dificuldades
para se formar. Precisamos trabalhar com mais
rapidez, porque estaremos criando uma nova classe
de analfabetos: os analfabetos tecnológicos.
Ocorre com freqüência em filas de banco
o caso de idosos quererem consultar os terminais
para verificar saldo ou receber pagamento e não
saberem, criando uma situação constrangedora
para eles. Este é o analfabeto tecnológico.
Agora, se as crianças também não
tiverem acesso à tecnologia, quando atualmente
tudo se faz através do computador, vamos
expandir essa exclusão tecnológica,
que será mais um tipo de exclusão
social. Por isso, considero que as escolas têm
de estar aparelhadas, até porque as crianças
têm mais facilidade de aprendizado. É
claro que é essencial que elas aprendam
a ler, escrever, contar e aprendam a aprender,
um lugar-comum que todos falam, mas no sentido
de que não é bastante aquilo que
se passa dentro das quatro paredes da sala de
aula. O processo educativo não pode ser
mais diretivo, de cima para baixo, mas tem que
ser a construção do conhecimento
através do debate, das alternativas e da
formação de uma idéia. E
é isso que nós, professores, temos
de fazer. Para isso, não necessitamos tanto
da tecnologia, mas de um professor mais bem formado.
No entanto, a tecnologia, repito, é indispensável
para não se criar uma exclusão social.
FOLHA DIRIGIDA - Qual a importância
da educação continuada e como os
professores podem ter acesso a esse recurso?
Carlos Alberto Serpa - Nosso saudoso professor
Darcy Ribeiro, na Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (LDB), deu inúmeros
graus de liberdade para que a procura do conhecimento
na universidade fosse mais fácil, se transformasse
quase que numa rotina. Uma dessas preocupações
era o reconhecimento dos estudos em qualquer tempo,
a qualquer momento. Podemos estudar ou não
numa escola regular, aprender com a vida e ser
reconhecido em seus estudos pela universidade.
Outra questão foi a possibilidade de cursar
não apenas em busca do diploma, mas do
conhecimento em algumas disciplinas. Por isso
os cursos seqüenciais foram muito bem-vindos
na LDB. Apenas considero que não deveriam
conceder diplomas, e sim oferecer certificados.
O grande fenômeno que teremos a partir de
agora é a queda do interesse pelo diploma,
que está intimamente ligado à noção
da formação para o resto da vida.
E isso não existe mais em nenhuma carreira.
Imaginar que um diploma autoriza um profissional
a exercer a profissão sem base nenhuma,
sem qualquer preocupação em aprender
mais, é ultrapassado e irreal. Portanto
estou abordando a educação continuada,
que não termina nunca. Imagino que vamos
passar por uma fase de certificações.
FOLHA DIRIGIDA - E o que seriam essas
certificações? Qual o período
de validade ?
Carlos Alberto Serpa - Por um período
que não é tão curto. De no
mínimo cinco anos. E que as pessoas, não
necessariamente ao término desse prazo,
deveriam voltar para fazer qualquer tipo de exame,
mas deveriam comprovar sua atualização
mediante o que fizeram naquele período.
Uma comprovação do que realizaram.
Algo semelhante com os exames de títulos,
que atualmente ocorre com os seminários,
artigos publicados, experiências adquiridas
e pesquisas realizadas. Ou, na ausência
de títulos, aí sim, um novo exame
para que a pessoa possa prosseguir por, por exemplo,
mais dez anos naquela atividade. E isso não
é verdade apenas para as carreiras de nível
superior, também ocorre nas ocupações
de nível primário e intermediário.
Atualmente existem dez milhões de pessoas
que trabalham na área do turismo. A Embratur
tem todo o interesse em certificar desde o guia
turístico, e todas as pessoas que trabalham
num receptivo das grandes companhias de turismo,
até os diretores de hotéis. Existem
milhões de pessoas que estão trabalhando
e não estão certificadas. São
pessoas formadas pelas próprias empresas,
no momento em que as vão admitindo com
alguns níveis mínimos de conhecimento,
como ensino médio completo, e sobre esse
conhecimento adquirido previamente, assentando
os novos conhecimentos, ao desenvolverem as novas
funções. Creio que a certificação
virá o mais rápido possível.
Não posso precisar quando, mas lhe garanto
que a Fundação Cesgranrio está
se preparando para ser uma agência certificadora,
em qualquer nível de escolaridade.
FOLHA DIRIGIDA - A acreditação
é um tipo de certificação?
Carlos Alberto Serpa - A certificação
seria aplicada mais às pessoas e a acreditação
às instituições. Agora, a
acreditação tem uma pequena diferença
em relação à certificação.
É que a acreditação é
uma avaliação com intervenção,
ou seja, não apenas avalio como também
verifico o que está errado. Sei o que deve
ser feito e também o prazo que deve ser
dado para que aquele equívoco seja corrigido.
Após esse prazo, sou obrigado a fazer uma
nova avaliação, para confirmar ou
não aquela mudança. É uma
relação com intervenção.
Isso se chama acreditação. Também
acho que, mais cedo ou mais tarde, os exames de
qualificação das instituições,
o Exame Nacional de Cursos, denominado de Provão,
do Ministério da Educação,
por exemplo, vai paulatinamente se aproximando
do conceito de acreditação escolar.
Até a Secretaria de Educação
do Estado do Rio, há uns dois anos, junto
com a Fundação Cesgranrio, promoveu
um simpósio para discutir as bases do que
seria um projeto de acreditação.
FOLHA DIRIGIDA - A Fundação
Cesgranrio já realiza a acreditação
na área da saúde. Existirá
alguma diferença no modelo?
Carlos Alberto Serpa - Depois de cinco
anos em que estivemos desenvolvendo um estudo
na área de Saúde, onde somos associados
ao Consórcio Brasileiro de Acreditação
(CBA), transferimos o braço executivo para
a Uerj, que tem mais tradição e
mais possibilidades. Levamos o barco até
aqui, fizemos a inovação e, agora,
demos à Uerj, onde tudo nasceu muitos anos
atrás, o braço executivo do projeto.
Era uma tendência natural e esperada.
FOLHA DIRIGIDA - O senhor considera
que um professor, por melhor formado que seja,
pode ser ineficiente, se desmotivado?
Carlos Alberto Serpa - Sim. A desmotivação
do professor não é, como todos pensam,
apenas devido ao salário. Isso melhoraria
com a dignificação da carreira e
das condições de trabalho. Um professor
de décadas passadas, do Colégio
Pedro II, por exemplo, era isento de Imposto de
Renda. Era uma homenagem que a sociedade prestava
à grande função de educar.
Hoje ele é isento de Imposto de Renda devido
ao baixo salário. Então, é
preciso trabalhar a auto-estima do professor.
É fundamental incentivar projetos que elevem
sua condição e melhorem a educação
do país.
FOLHA DIRIGIDA - Como os profissionais
devem se comportar em ambientes adversos, como
os dominados pelo tráfico?
Carlos Alberto Serpa - A expectativa de
vida de um jovem que vive no meio do tráfico
é muito curta, seja pelo consumo de drogas,
ou pelo envolvimento em choques com a polícia.
O educador só pode, de certa forma, colaborar
com o alívio dessa tensão, primeiro
se tiver condições de trabalho,
mas também se tiver o apoio da família.
Temos que estar em parceria com a família,
ajudando a escola a mostrar que a verdadeira ascensão
social se faz pela educação, pela
aquisição de uma profissão
e por uma ascensão no mercado de trabalho.
Então, todos os projetos de inclusão
social e profissional merecem ser apoiados. A
Fundação Gol de Letra, fundada pelos
ex-jogadores de futebol Raí e Leonardo,
não forma, mas ajuda no trabalho feito
dentro das escolas. Inclusive trazendo para dentro
de si, e para as escolas que têm poucos
recursos, a possibilidade de a família
se integrar no processo educativo. Acho isso fundamental.
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