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Ciência e tecnologia: uma bússola do desenvolvimento

Nem sempre a ciência e a tecnologia significam um desenvolvimento equilibrado.
Mas constituem uma base fundamental

Os avanços e as carências de uma área estratégica ainda pouco explorada

 

O mesmo Brasil que ainda convive, em pleno século XXI, com um elevado índice de analfabetismo e um dos mais baixos índices de desenvolvimento humano medidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), carimbou 9.500 artigos científicos em publicações indexadas no consagrado Institute for Scientific Information. O ISI é uma espécie de olimpo do conhecimento produzido em todo o mundo.

Esta performance tirou o país do 28º — posto que ocupava em 1991 — para o 17º lugar em pesquisa no mundo. Na frente do Brasil (e vale enumerar) estão: Estados Unidos, Japão, Alemanha, Inglaterra, França, Canadá, Itália, Rússia, China, Espanha, Austrália, Holanda, índia, Suécia, Suíça e Coréia do Sul, nesta ordem. Cabe destacar que não só a produção de artigos se moveu para cima, mas também o número de patentes brasileiras com impacto no mercado internacional cresceu de 23 para 113 registros. O que isso tem a ver com investimentos? Como relacionar o êxito científico com os indicadores educacionais brasileiros?

O movimento dos recursos aplicados, na última década, em Ciência e Tecnologia, pode ser um claro indicador de que o investimento ajudou o Brasil a crescer neste campo. Em contrapartida, a qualidade e a quantidade do ensino oferecido em todos os níveis, do infantil ao universitário, revelam, nesse item, uma evidente contradição, ou seja: as pesquisas mundiais mostram que o Brasil está entre os piores em educação e entre os melhores em produção de conhecimento.

Nos anos de 1991 e 1992, quando o país vivia a era Collor de Mello, os investimentos em C&T caíram de R$2,6 bilhões para R$1,9 bilhão. Em compensação, no governo transitório de Itamar Franco, em 1993, os valores dobraram, chegando a R$2,4 bilhões. O período marca o início de uma trajetória positiva nos investimentos, cujo ápice foi em 1996, quando os gastos da União no setor chegaram a R$3,35 bilhões. Em 1997, volta o “crescimento da queda”, como gostam de falar os economistas. Nesse ano foram aplicados R$3,075 bilhões, em 1998 e 1999 os recursos foram da ordem de R$2,7 bilhões e, em 2000, subiram um pouco, chegando a R$2,8 bilhões.

Para traduzir estas informações, de forma a ampliar o conhecimento sobre o campo pouco acessível da Ciência e da Tecnologia, e para estabelecer uma conexão possível entre o conhecimento e a qualidade de vida da população, Folha Dirigida convidou à mesa três representantes desta seleta comunidade: Gilberto Correa, pesquisador do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) e membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/RJ); Nilda Alves, presidente da Associação Nacional dos Pesquisadores em Educação (Anped) e professora da Faculdade de Educação da Uerj; e Eugenius Kaszkurewicz, diretor de Ciência e Tecnologia da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa no Rio de Janeiro (Faperj).

O encontro resultou num debate rico em conhecimento — dada a abrangência com que o tema foi tratado — e bastante esclarecedor sobre os caminhos percorridos pela pesquisa no Brasil.

Em termos de Nação, o que é desenvolvimento para os senhores?


Eugenius Kaszkurewicz
É pesquisador,
professor e
diretor de
Tecnologia da
Faperj

Eugenius Kaszkurewicz
É uma pergunta bastante ampla e de difícil resposta, mas seria algo, em princípio, equilibrado, de modo que haveria equilíbrio no desenvolvimento econômico, tecnológico, social, ambiental, para que as pessoas tivessem uma qualidade de vida cada vez melhor e acesso a todas essas, vamos dizer, benesses. Eu vejo desenvolvimento como algo nesse contexto.

Nilda Alves
Eu diria que a idéia de Nação foi uma criação fundamental para o período histórico que a gente vive. Ela é uma criação do mundo moderno, no qual as nações precisavam ser formadas para delimitar espaços e tempos de forças políticas. Nesse sentido, eu acho que, hoje, o grande golpe que está havendo é exatamente relacionado à destruição das nações. Hoje, as grandes decisões são tomadas por organismos que transcendem à Nação, que é mantida em questões hiperféricas. Nós somos brasileiros no momento da Copa, não é?

Essa é uma questão extremamente difícil, porque os próprios criadores das nações sentiram necessidade de destruí-las, para o seu desenvolvimento econômico, não construindo nada, a não ser esses grandes organismos internacionais que decidem para onde vai a tecnologia, a economia etc. Esse sentido de Nação está por ser recuperado e acho que são as forças sociais internas que, de alguma maneira, buscam manter essa idéia de Nação. Mas será que é essa a idéia que deve ser reconstruída?

Essa distribuição, da qual falou o professor Eugenius, terá que ser reconstruída com a idéia de Nação, ou seria preciso criar uma outra idéia maior, que respondesse à questão da solidariedade? Essa eqüidade de distribuição, esses valores, estão em plena construção, e é por isso que se afirma que o mundo está em crise. Sem dúvida, é uma crise da Nação, fundamentalmente.


Gilberto Correa
É professor,
pesquisador
do LNCC e
membro da
SBPC/RJ

Gilberto Correa
Acho que pode ser entendido como o progresso da qualidade de vida dos segmentos majoritários da população, no que diz respeito às condições básicas de alimentação, moradia e o acesso às oportunidades de desenvolvimento humano, associados aos cuidados da saúde e à possibilidade de adquirir um alto nível de educação formal.

Quais as relações da Ciência e Tecnologia com este desenvolvimento? Há linearidade nestas relações? Onde há pesquisa, necessáriamente há desenvolvimento?

Nilda Alves
Essa questão precisa ser discutida ou respondida em dois planos. A primeira é que existe uma decisão muito fora de cada um de nós sobre para onde deve ir a tecnologia, para onde devem ir as descobertas científicas, e nós todos, enquanto cientistas, vagamos dentro disso. O outro plano seria exatamente como beneficiar a maioria. E nesse caso, a pergunta a ser feita seria se as decisões tomadas no primeiro plano, no primeiro nível, têm beneficiado a maioria. Parece que não. No que se refere à educação, basicamente tem sido dada uma atenção maior à distribuição de bens materiais, e muito pouca atenção à vida de cada um, por exemplo, no uso da tecnologia.

É muito comum a gente ouvir que professor é avesso à tecnologia, quando, de fato, ele a usa diariamente, principalmente as mulheres. Temos que usar liquidificador, fogão, isso é tudo tecnologia. Portanto, há o uso comum de tecnologia. E vamos falar na televisão, que é o meu prato preferido, já que é com isso que eu trabalho. Se o professor assiste à televisão diariamente, ele faz um uso determinado daquilo. As pesquisas desenvolvidas mostram isso. Mesmo quando essa tecnologia não está na escola, ela está presente pelo uso que alunos, professores e outros funcionários, e também os pais de alunos, fazem dela.

Gilberto Correa
A produção científica e tecnológica de um país, ou sua evolução, sempre se dá em contextos históricos e sociais muito específicos. As relações determinantes da vida econômica e social impõem limites tanto na produção, quanto na disseminação dos potenciais benefícios da produção científica e tecnológica. Por outro lado, essa produção científica e tecnológica também tem aspectos de cunho nitidamente cultural, associada ao impulso humano de aumentar o conhecimento sobre a natureza, sobre a vida, sobre a sociedade. Mas tem também os aspectos relativos às possibilidades de avanços materiais, oriundos do desenvolvimento científico e tecnológico.

Nesse aspecto, há uma grande influência do contexto histórico e social em que se dá essa produção. Quando essas relações são de forma a preservar a hegemonia de certos setores, esse desenvolvimento não traz os resultados desejáveis para o conjunto da população. Respondendo a sua pergunta, especificamente, esse relacionamento não é linear. No Brasil, temos sucesso no desenvolvimento científico, mas não há contrapartida dos benefícios tecnológicos para a maioria da população.

Isso é uma relação extremamente complexa, que envolve fundamentalmente opções políticas nas esferas mais altas da organização da sociedade, para que você, mantendo até mesmo uma dinâmica de desenvolvimento científico que tenha elementos determinados internacionalmente, consiga se apropriar das possibilidades de qualidade de vida de acordo com as necessidades do país e de forma a garantir o progresso para a população como um todo.

Eugenius Kaszkurewicz
Eu não considero que seja linear essa relação, porque depende da definição utilizada para desenvolvimento. Uma vez que esse desenvolvimento seja desequilibrado, ele pode ser nocivo. De certa forma, uma tecnologia pode levar ao desenvolvimento, desde que traga frutos para a humanidade, para as nações. Mas considero que a tecnologia está sendo utilizada de forma inadequada. A tecnologia desenvolvida não necessariamente implica um desenvolvimento equilibrado. Ela pode levar a um desenvolvimento desequilibrado.

A capacidade de um país produzir conhecimento está diretamente relacionada aos seus índices educacionais?

Eugenius Kaszkurewicz
Acho que sim. Acho que a resposta é simples e entendo que é fundamental. Não vejo como a nação pode conseguir gerar novos conhecimentos, sem uma educação sólida e realmente consistente.


Gilberto Correa
É professor,
pesquisador
do LNCC e
membro da
SBPC/RJ

Nilda Alves
Eu concordo, obviamente, mas acrescentaria que é preciso discutir também o tipo de educação. Da mesma forma como foi aplicado um modelo, ou vem sendo aplicado um modelo de pesquisa internacional e dentro do qual nós estamos absolutamente navegando mal, também há um modelo educacional estabelecido que não atende a tudo que discutimos nas questões anteriores. Ou seja: o modelo implantado não é para beneficiar a maioria, não é para beneficiar a nação e não é para beneficiar a possibilidade de um futuro melhor para todos.

Gilberto Correa
Não há duvidas de que o elemento fundamental na produção de conhecimento é a capacidade criativa e o acesso à formação sólida por parte das pessoas que venham trabalhar com pesquisas científicas ou tecnológicas. Não é possível conceber um sucesso na atividade de pesquisa ou na formação de pesquisador, ou seja, no nível de doutorado, sem se pressupor uma formação sólida, abrangente, conferida às pessoas que ingressam no sistema formal de educação em todos os níveis.

Por outro lado, nós temos um número extremamente limitado de jovens brasileiros com acesso à universidade. Então, fundamentalmente, é necessário ampliar nos dois aspectos. No aspecto do acesso a segmentos muito mais amplos da população e, por outro lado também, é necessário aumentar, e muito, a qualidade do ensino oferecido em todos os níveis.

O Brasil tem um índice elevado de analfabetismo e está entre os que lideram o ranking de crianças fora da escola, mas tem espaço no cenário internacional, no campo da ciência e da tecnologia. O que explica esta polaridade?

Eugênius Kaszkurewicz
Eu acho que esse é um problema estrutural do país. Alguém já se referiu ao país como uma Belíndia. O problema da distribuição é crítico. Há vários setores que são bastante atrasados, há o analfabetismo e há, em certas áreas, desenvolvimentos comparáveis ao Primeiro Mundo. Esse é um problema estrutural que tem de ser encarado e equacionado. Acho que é um dos grandes desafios do país.

Nilda Alves
Eu ficaria no nível do diálogo. Quando a gente vai a congressos — e temos laboratórios que negociam e conversam o tempo todo e em alto nível com o mundo inteiro — não há dúvidas de que produzimos ciência conversável no mundo inteiro. A grande questão, particularmente das áreas humanas e sociais, é o diálogo que a gente tem com o país, quer dizer, com a população brasileira. Em que medida o que a gente produz poderá ter reflexo para esse grupo? Isso é o que eu acho preocupante, porque, efetivamente, isso não está na cabeça dos nossos políticos. Então, esse diálogo de qualidade que a gente tem com o mundo não corresponde, necessariamente, ao diálogo com as necessidades da população brasileira. Eu vejo isso de forma muito clara.

Gilberto Correa
Esse aspecto eu acho que realmente é superinteressante. Só para corroborar uma ponta dessa aparente contradição, o Brasil, no ano 2000, atingiu a 17ª posição no ranking mundial de produção científica. Por outro lado, nós temos esses índices quase desesperadores de pobreza e de desenvolvimento social. Eu acho que isso reflete, como quase todos os aspectos da vida brasileira, essa heterogeneidade a que o Eugenius se referia, que até já motivou referências jocosas de o Brasil ser uma Belíndia. Há 30 milhões com acesso aos avanços culturais e econômicos do Primeiro Mundo, e tem um segmento completamente excluído das possibilidades da vida civilizada.

Eu acho que isso se reflete numa situação completamente repugnante. Por outro lado, nos coloca numa posição relativamente positiva para superar essa dificuldade. Acho que cada vez mais o segmento que teve acesso a esse nível de educação e, hoje, a esse nível de produção científica comparado aos países desenvolvidos está consciente de que o progresso sustentável, a reprodução ampliada desse aspecto positivo, envolvem, necessariamente, a ampliação da base desse sistema, que é a inclusão das massas em uma perspectiva de ensino desde o nível mais básico de qualidade e de inclusão.

Se temos cientistas preparados para dialogar com o mundo e isso não tem reflexo na qualidade de vida da população, onde está o obstáculo? No capital?

Nilda Alves
Eu acho que sim. Um dia encontrei o professor Pierró y Longo (Wladimir Pierró y Longo, da UFF) e ele disse: “Eu morro qualquer hora dessa”. Eu achei que estava frente a um fato concreto e disse: “O que houve?” Devia ser fevereiro, e ele me disse: “Acabou a Lei dos Royalties e ninguém se pronunciou sobre isso, o Brasil não fez nada para mantê-la, era o dinheiro que dava o plus para o desenvolvimento científico. Acabando com a lei, todo esse dinheiro é levado para outros países”. E vemos isso nos planos que estão em desenvolvimento, planos de acabar com centros conhecidos de pesquisa, limitação de verbas, deixando a gente numa situação extremamente complicada, especialmente os laboratórios mais caros.

Gilberto Correa
O Brasil construiu, ao longo de 50 anos, um sistema de Ciência e Tecnologia de porte, envolvendo, hoje, 50 mil pesquisadores. A própria manutenção desse sistema, operando dentro de sua competência estabelecida, exige investimentos de porte e, de fato, a situação de dificuldade fiscal do Estado, da União, coloca limites muito sérios nessa produção e na perspectiva da ampliação da base educacional desse sistema.

Para acrescentar um elemento adicional nesta conversa, eu gostaria de chamar atenção para o fato de que, além do volume de investimentos e da sua continuidade, é necessária a preocupação com outros aspectos da aplicação muito precisa desses investimentos e de, principalmente, uma preocupação com a qualidade na formação, em todos os níveis, dos pesquisadores, até a qualidade cada vez mais ambiciosa do trabalho de pesquisa.

Por outro lado, precisamos de mecanismos muito mais profundos e complexos, inclusive de política industrial, que possam fazer que novas dimensões subdesenvolvidas da pesquisa consigam ter um avanço significativo.

Eugenius Kaszkurewicz
Eu acho que o investimento seguramente é importante, todavia, somente o investimento não resolveria a questão. Poderíamos ter recursos, digamos vultosos para pesquisa, contratarmos cientistas indianos, americanos, franceses, mas isso não indica a geração de um desenvolvimento tecnológico local e equilibrado. Então, somente o recurso, o investimento, não resolve essa questão. O desenvolvimento tem que ser sólido, colocado em bases nacionais, com gerenciamento e utilização inteligente de recurso.
Claro que sem investimento você não conseguiria o desenvolvimento Científico e Tecnológico, mas a utilização racional, inteligente, desses recursos é fundamental, buscando os objetivos e colocando as prioridades a serem atingidas com esse desenvolvimento. É uma série de fatores encaixados, entrelaçados, e não somente o investimento puro e simples que resolveria a questão.

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