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Algumas conquistas e muitos desafios ainda pela frente

Ele elogia a atuação do ministro Paulo Renato Souza. Acha que a Educação
está no rumo adequado, mas ainda há muito a fazer


Presidente da FGV, Carlos Ivan Simonsen, faz um balanço do quadro educacional

 

FOLHA DIRIGIDA - Como o senhor avalia a educação, hoje, no Brasil? Na sua opinião, o país progrediu?
Carlos Ivan Simonsen
- A educação no Brasil progrediu muito nos últimos anos. Desde 1950 tem-se realizado um esforço para que ela seja cada vez mais universal. Nos últimos anos, tivemos, graças à ação que atribuo ao ministro da Educação, Paulo Renato Souza, um direcionamento no sentido de uma qualidade maior. Isso foi feito através de uma série de incentivos. A educação tem evoluído numa boa direção, mas ainda está muitíssimo aquém do que seria necessário.

FOLHA DIRIGIDA - O sistema educacional brasileiro, desde o ensino fundamental, passando pelo ensino médio, até chegar à graduação, garante uma formação de qualidade para aqueles que têm interesse em dar continuidade a seus estudos em nível superior?
Carlos Ivan Simonsen
- Diria que nem sempre os ensinos fundamental e médio preparam devidamente o aluno. A formação aqui no Brasil ainda peca por alguns detalhes. Toda educação tem componentes fundamentais. A meu ver, a educação tem que ter componentes informativos, de adestramento, de desenvolvimento da capacidade de raciocínio e de valores éticos. Quanto à parte de informação e adestramento estamos razoáveis. No entanto, no que tange ao desenvolvimento da capacidade de raciocínio tenho minhas dúvidas se o que temos hoje é suficiente para o Brasil se colocar entre as nações mais desenvolvidas. Em geral, na minha opinião, ainda estamos bastante carentes no quesito desenvolvimento da capacidade de raciocínio.

FOLHA DIRIGIDA - Como o senhor avalia os cursos de mestrado e doutorado ministrados hoje no Brasil?
Carlos Ivan Simonsen
- Considero o mestrado acadêmico uma prévia do doutorado. Um verdadeiro doutorado inclui um processo de geração de novas idéias, então obviamente essa pessoa tem que ter desenvolvido sua capacidade de raciocínio. No doutourado estamos no ápice da educação, estou falando de um bom doutorado dentro do espírito das grandes universidades ao redor do mundo onde a necessidade de ter uma idéia própria é fundamental. De outro lado você tem os MBAs que se revestem de outros aspectos. Você pode fazer MBA ao sair da faculdade ou 10, 15 anos depois de sair da graduação. No segundo caso, a pessoa está procurando ganhar novas especialidades. É claro que ninguém consegue bom resultado se não tiver capacidade de raciocinar, mas boa parte dessa capacidade não será desenvolvida no curso e sim utilizada.

FOLHA DIRIGIDA - O crescimento da procura por cursos de pós-graduação, mestrado, doutorado e MBA pode ser identificado como reflexo de um avanço da nossa educação?
Carlos Ivan Simonsen
- Depende. Com a abertura econômica e com a globalização, o Brasil teve e tem cada vez mais que tornar seu gerenciamento eficiente. Então, uma boa parte das pessoas que procuram MBA estão procurando aprender técnicas de gerenciamento, seja em marketing, em Recursos Humanos... O mestrado e o doutorado têm crescido pelo aumento da oferta: a demanda já existia. Qualifico o aumento da procura pelo doutorado como um avanço da pesquisa, e não da Educação. Já o MBA é um avanço da educação. Ele significa que mais pessoas estão aprendendo mais coisas sobre como gerenciar eficientemente. Os estudantes brasileiros estão investindo na parte de gerenciamento.

FOLHA DIRIGIDA - Tivemos uma expansão, nos cursos de pós-graduação. Hoje, o Brasil tem uma vasta relação de cursos, isto nas mais diversas áreas. Nosso cursos têm a mesma qualidade dos ministrados no exterior?
Carlos Ivan Simonsen
- Às vezes nossos cursos têm mais conteúdo, mais qualidade do que um de fora. Tudo depende do que cada um procura. Não acredito que cursos de MBA fora do Brasil sejam melhores do que os daqui.

FOLHA DIRIGIDA - A pesquisa está intrinsecamente ligada à área acadêmica. Qual é sua real importância para o desenvolvimento da educação e, conseqüentemente, de um país?
Carlos Ivan Simonsen
- A pesquisa não é apenas importante, é crucial. Uma escola que se propõe a ser uma escola de excelência tem que ter um doutorado, tem que ter pesquisa. Um país não se desenvolve sem desenvolver suas próprias pesquisas. Isso é mais ou menos óbvio, mas muita gente não atenta para essa possibilidade e acha que podemos apenas importar e copiar. Até o trabalho de adaptar o que se está copiando não é tão trivial assim, exige pesquisa.

FOLHA DIRIGIDA - O Brasil tem dado a devida atenção a esta área?
Carlos Ivan Simonsen
- Com relação ao Brasil, se olharmos a longo prazo, tivemos um avanço. CNPq e Capes estão fazendo 50 anos, e antes deles não havia pesquisa no país. No entanto, se olharmos a verba de investimentos diremos que a pesquisa não tem recebido a devida atenção. O recurso para pesquisa no país corresponde a um terço da verba destinada para o setor por uma única empresa alemã. Não estou dizendo um terço da Alemanha, e sim um terço da verba que uma empresa alemã investe. Além disso, enquanto o Brasil investe essa verba em cem pesquisas, a empresa alemã investe em dez. Por aí dá para ter uma idéia da atenção dada à pesquisa em cada país.

FOLHA DIRIGIDA - Hoje é maior o número de pessoas com formação de mestre e doutor. Qual é, na realidade, o peso de um título de mestre ou doutor no Brasil?
Carlos Ivan Simonsen
- Para conseguir a primeira colocação, quando se é jovem, é importante. Depois de uma certa idade, ou você é um bom doutor ou não, e aí o mercado já sabe. O que impacta em ser doutor não é o título. É porque, se você tem um doutorado sério, o que é privilégio de alguns poucos milhares, é sinal de competência. Como muita gente hoje em dia tira grau universitário, resolveram subir o grau do canudo. Agora querem que ele seja de doutorado. Mas um doutorado de verdade não é prêmio por tempo de serviço. O verdadeiro doutorado é aquele que só é conseguido com uma idéia nova, o que não é um processo trivial. Doutourado é pesquisa, é educação. Ele não auxilia o profissional a ter uma boa colocação. O que acontece é que as pessoas com um bom doutorado, geralmente, têm uma capacidade de raciocínio bem desenvolvida e, por isso, são disputadas no mercado.

 
 
 
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