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Universidade pública fragilizada pela falta de recursos

Reitor da UFRJ usa a expressão “pão e água” para sintetizar a situação
dramática das universidades públicas

Dirigentes falam sobre as sérias dificuldades enfrentadas pelas universidades

 

Oito anos depois do início do governo Fernando Henrique Cardoso e das promessas de avanço no setor, as instituições federais de ensino superior acumulam problemas e rediscutem seu papel. Nos corredores, velhas discussões se acumulam: acesso restrito, evasão, falta de vagas, autonomia e financiamento. Diante dos obstáculos que travam o crescimento e comprometem a saúde do ensino, os reitores apontam as prioridades para os próximos quatro anos. Reeleito reitor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Cícero Rodrigues culpa o financiamento pelo estrangulamento do setor. Segundo ele, o repasse de verbas tem sido insuficiente. Hoje, 95% do orçamento da instituição são gastos com pessoal e apenas 5% são usados para investimento. Há apenas quatro meses à frente da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Carlos Lessa defende as instituições e culpa o governo pela atrofia. De acordo com o economista, é preciso aumentar as verbas. Para 2003, o custeio da UFRJ será elevado em 16%, índice inferior aos reajustes tarifários autorizados pelo governo. A conta aponta para mais um ano no vermelho.

FOLHA DIRIGIDA - Qual é hoje a situação das universidades públicas e quais são suas principais dificuldades?


Cícero Rodrigues, reitor da Universidade Federal Fluminense

Cícero Rodrigues - Hoje, as universidades sofrem bastante com a questão do financiamento. Começaria com a questão dos servidores, pois houve uma grande perda sem reposição. Perdemos cerca de 1.300 técnicos e houve concurso para 30 vagas. Outro ponto é a questão salarial. A universidade tem dificuldades até para instalar novos equipamentos e alocar os alunos. Vale ressaltar que do orçamento total da UFF, 95% são destinados ao pagamento de pessoal. Os 5% restantes são utilizados para manter na universidade as mínimas condições. Se houvesse um aumento de mais 5% nas verbas, poderíamos implantar melhorias. Colocaria como mais imediata a questão de pessoal e da infra-estrutura da universidade.

FOLHA DIRIGIDA - De que maneira a universidade pode gerar seus recursos, já que repassado é insuficiente?
Cícero Rodrigues
- A universidade tem sido empurrada para gerar seus próprios recursos e sou favorável que algumas atividades universitárias sejam cobradas. O que não pode é ficar correndo atrás de atividades. As pessoas que produzem algum tipo de pesquisa ou atividade acadêmica em sua maioria estão procurando formas de gerar recursos e isso foge do objetivo das universidades. Essa transferência de conhecimento para as empresas é importante, mas tem que ser feita dentro de uma perspectiva acadêmica. Não pode ser feita com o intuito apenas da arrecadação.

FOLHA DIRIGIDA - O senhor acredita que o ensino superior gratuito corre risco de extinção no Brasil?
Cícero Rodrigues
- Acho que não porque a sociedade toda se colocaria contra. Hoje, as chances das camadas mais pobres para cursarem o terceiro grau são nas faculdades públicas. E nelas predominam os alunos de classe mais baixa. Nos cursos mais concorridos, encontramos pessoas de maior poder aquisitivo, mas na maioria das áreas esta situação se inverte. A universidade tem essa função social e é preciso ampliar o atendimento. Não podemos impedir que o aluno que não veio de família rica entre no ensino superior. A universidade tem que ser pública e qualquer movimento contrário vai encontrar uma resposta forte, não apenas do meio acadêmico. Se tivéssemos uma sociedade diferente da atual, talvez poderia se pensar em ensino pago, mas hoje isso é insustentável.

FOLHA DIRIGIDA - Que balanço o senhor faz do último governo com relação ao tratamento dado às universidades? Qual a expectativa para o próximo?
Cícero Rodrigues
- O governo investiu em várias áreas da educação, mas em relação às universidades ficou a desejar. É claro que houve investimentos, as avaliações dos cursos superiores, se avançou um pouco. O que faltou foi um empenho na questão da autonomia universitária, que é uma questão muito séria. Com relação ao próximo governo, temos esperança, mas vamos esperar para ver quem será o novo presidente.

FOLHA DIRIGIDA - Alguns vestibulares do Rio apresentam novidades como o Enem e a reserva de cotas. Qual é a sua opinião a respeito e qual a melhor forma para o ingresso no ensino superior?
Cícero Rodrigues
- Ainda é como fazemos aqui na UFF. Não vejo essas alternativas como válidas para se manterem as oportunidades para todos. A universidade é o local da elite intelectual. Claro que existem problemas sociais graves, mas estes problemas são pré-universidade. A reserva de cotas também é uma discriminação. Como pode haver dois grupos de alunos dentro da universidade, um entrando pelo método tradicional, e outros ingressando através de reservas, como conciliar estes dois grupos? Sou contra e a desigualdade social tem que parar na porta da instituição. A universidade pode ajudar, mas não resolver esse abismo social.

FOLHA DIRIGIDA - Qual é hoje a situação das universidades públicas e quais são suas principais dificuldades?


Carlos Lessa, reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Carlos Lessa - Sintetizaria as Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes) em duas características. Primeira, são o grande espaço de qualidade do ensino superior brasileiro. Praticamente toda pesquisa é feita no âmbito das Ifes, além de toda pós-graduação, que é a semente de todo o aperfeiçoamento do ensino público brasileiro. As Ifes são responsáveis por uma variedade enorme de carreiras indispensáveis para a sociedade e que não apresentam interesse para o setor privado de educação. Porém, as Ifes vêm sobrevivendo a pão e água. Já tiveram uma gordurinha mas há muito tempo que os cortes são feitos no músculo e na carne. As Ifes hoje estão limitadas em seu orçamento e, por isso, têm muita dificuldade de renovar seus quadros, os professores experimentados estão se aposentando. Como reitor da maior universidade pública do Brasil, eu administro um quadro de carências, algumas grotescas e outras degradantes. Existem vários problemas sanitários, de prevenção de incêndio, estradas esburacados e até falta de giz. Essas duas características mostram que o serviço público federal é capaz de uma alta performance mesmo vivendo nessas condições.

FOLHA DIRIGIDA - De que maneira a universidade pode gerar seus recursos, já que repassado é insuficiente?
Carlos Lessa
- As universidades públicas brasileiras, a exemplo de universidades do mundo inteiro, não conseguem gerar recursos para cobrir seus gastos. Mesmo nas americanas, onde as públicas são minorias no setor, o dinheiro para cobrir o orçamento vem do tesouro americano. Outra parte é coberta pelas doações feitas por famílias e Instituições através da renúncia fiscal. Fora esse exemplo dos EUA, pesquisa de ciência básica, pesquisa de tecnologia de ponta, pesquisa sobre novas terapias, preservação da memória nacional, formação de professores e saber pioneiro é tarefa da universidade pública, sendo bancada direta e indiretamente pelo orçamento público. Aqui no Brasil, se pretende fazer do ensino superior um negócio. Pode a universidade pública virar uma empresa? Não.

FOLHA DIRIGIDA - O senhor acredita que o ensino superior gratuito corre risco de extinção no Brasil?
Carlos Lessa
- O ensino superior corre imenso risco de extinção no Brasil. E na verdade, acho que isso representa a extinção da nação brasileira. A universidade é uma instituição nacional que prepara para o futuro. Forma os novos quadros profissionais, a elite e até mesmo os contestadores do futuro. A universidade é uma instituição que está muito além da mediocridade do presente. Serve para toda e qualquer nação que pretenda ter um amanhã melhor. E acabar com a universidade, transformá-la ela em uma empresa que vende diplomas, não será o sonho de uma nação no futuro.

FOLHA DIRIGIDA - Que balanço o senhor faz do último governo com relação ao tratamento dado às universidades? Qual a expectativa para o próximo?
Carlos Lessa
- Minha expectativa para os próximos quatro anos é que haja uma modificação radical das tendências praticadas nos anos 90. A universidade pública brasileira resistiu como uma ilha de excelência, porém, sua capacidade de resistir será debilitada se permanecer o padrão dos anos 90. Minha esperança é que passemos a receber dotações orçamentárias que correspondam ao nosso tamanho. A UFRJ recebe de custeio, ou seja, tudo que é necessário para o seu cotidiano, R$30 milhões. No próximo ano, o nosso orçamento será de R$35 milhões. Mas isso não vai cobrir nem o reajuste da tarifa de energia elétrica para o próximo ano. Aliás, eu morro de medo que haja mais um aumento de tarifa antes de se encerrar o ano. Ou seja, com o orçamento de custeio que receberei, já posso afirmar, desde já, que a UFRJ não terá dinheiro para pagar a conta de luz no ano que vem.

 
 
 
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