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Apesar do aumento no número de vagas
registrado nos últimos anos, as instituições
federais de ensino superior ainda não acolhem
o número de alunos que sua capacidade pode
absorver. A aparente ineficiência administrativa
é resultado, segundo os reitores, do minguado
orçamento. Reitor da Universidade do Rio
de Janeiro (UniRio), Pietro Novellino prefere
não polemizar com o governo federal. Ele
admite que as restrições financeiras
estrangularam o setor e impediram grandes avanços,
mas afirma que a educação foi tratada
dentro das possibilidades do governo. Do próximo
presidente, Novellino espera prioridades para
fortalecer as universidades. O dirigente também
defende a expansão do ensino médio
público e a política de cotas. Há
seis anos na direção da Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José
Antônio Veiga prefere sugerir mudanças
na estrutura a falar em desmonte das universidades
públicas. Para o professor, apesar de não
repassar os recursos necessários, o governo
não abandonou o setor, mas fez o possível
diante do quadro de incertezas da economia brasileira.
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Pietro Novellino, reitor da Universidade
do Rio de Janeiro
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FOLHA DIRIGIDA - Qual é atualmente
a situação das universidades públicas
e a principal dificuldade que elas estão
sofrendo?
Pietro Novellino - O problema é principalmente
o orçamento, as universidades públicas
sofreram cortes, o que dificulta o seu funcionamento.
Outro ponto é a carência de pessoal
em vários setores, principalmente nos hospitais
universitários. Tem sido feito um esforço
para minimizar este problema, mas precisaria o
governo abrir concursos para as vagas pendentes.
A gente espera que isso agora possa ocorrer, neste
governo ou no próximo. Quem assumir o país
deve ter prioridade em educação.
Outro aspecto que merece ser mencionado é
o da autonomia universitária. Temos autonomia
didático-pedagógica, mas não
temos autonomia financeira e orçamentária,
o que dificulta o funcionamento das universidades.
FOLHA DIRIGIDA - Dentro de um panorama em
que o repasse de verbas é considerado insuficiente,
como as universidades podem gerar os seus próprios
recursos?
Pietro Novellino - Elas em geral têm
fundações de apoio que captam recursos
externos. Através de uma fundação
séria pode se ter novas alternativas de
cursos, mas é preciso que seja uma instituição
de apoio técnico. Há uma restrição
do Tribunal de Contas da União e do Ministério
Público Federal quanto às fundações
de apoio. E elas são importantes porque
as universidades não podem viver só
com recursos do ministério. Além
disso tem a Lei 866 que controla todas as contas
através de licitações, dificultando
as instituições de adquirir seja
o que for para a universidade.
FOLHA DIRIGIDA - O senhor acredita que as
dificuldades enfrentadas pelas universidades públicas
façam parte de uma estratégia de
desmonte destas instituições?
Pietro Novellino - Em absoluto, eu acho que
a filosofia do governo sempre foi uma universidade
pública gratuita e de qualidade, isso é
um conceito errado que as pessoas fazem. No momento
o ensino público gratuito não corre
risco de extinção, ele precisa ser
mais reforçado e ter recursos, não
só didático-pedagógicos,
mas humanos, um corpo de professores qualificados
e número suficiente de professores, para
que possa dar um ensino de qualidade.
FOLHA DIRIGIDA - Qual a sua expectativa para
os próximos quatro anos?
Pietro Novellino - Eu acho que o governo fez
o possível dentro das suas possibilidades.
Houve vários progressos como a avaliação
das universidades e o aumento dos cursos de pós-graduação
e doutorado. O que eu acho que deve ser reformulado
no Provão é a avaliação
da estrutura física. As universidades são
bem avaliadas nos primeiros itens, quando chega
na estrutura elas sofrem. O MEC precisa investir
nas reformas da infra-estrutura, aí a gente
poderia ter uma avaliação mais completa.
E o candidato que for eleito precisa ter compromissos
com a educação, ela é a alma
mater dos projetos da sociedade e da construção
da cidadania.
FOLHA DIRIGIDA - Os vestibulares do Rio apresentam
novidades como o Enem e a reserva de vagas para
os alunos das escolas públicas. Qual a
sua opinião a respeito e qual a forma ideal
de ingresso?
Pietro Novellino - Eu sou favorável
ao Enem, a nossa universidade foi a primeira pública
aqui no Rio a adotá-lo. Isso prova que
também o ensino médio precisa ser
aprimorado. Sobre a reserva de vagas para os estudantes
negros eu acho que deveria ser estudada a questão
nas universidades públicas. Quanto às
outras cotas no estado eu prefiro não opinar.
O acesso tem que ser um misto, o vestibular não
pode ser substituído porque é um
processo já consagrado. A meu ver o que
deve ser fortalecida é a escola pública
do ensino médio. Se nós tivermos
um ensino médio de qualidade, alunos de
classe social inferior terão um acesso
mais fácil à universidade.
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José Antônio Veiga, reitor
da Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro
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FOLHA DIRIGIDA - Qual é hoje a situação
e quais as principais dificuldades das universidades
públicas?
José Veiga - Os problemas que têm
maior destaque estão nos campos estrutural
e conjuntural. No estrutural, é a relação
entre a administração superior das
universidades e o governo, que escolhe o reitor
a partir de nomes sugeridos pela base local. Isso
nos coloca na posição de responder
aos anseios da base e ao mesmo tempo nos torna
representantes do governo também. Além
do problema da autonomia, que é constitucional
mas não está operacionalizada. Já
no conjuntural, o grande nó hoje é
em relação à reposição
de pessoal, tanto de servidores, quanto de professores.
FOLHA DIRIGIDA - Como as universidades podem
gerar seus próprios recursos diante dos
recursos insuficientes do governo?
José Veiga - No nosso caso, proporcionalmente,
nosso orçamento de recursos próprios
é um dos maiores do Brasil, pois a Rural
tem uma condição especial: uma área
muito grande e uma produção rural
expressiva. Há outro caminho, que é
a busca de novos recursos do próprio Governo
Federal, em outros ministérios. Há
ainda outras possibilidades: temos, por exemplo,
convênios interessantes com o Governo do
Estado do Rio e com prefeituras, o que também
gera recursos. E há controle dos custos,
que temos feito muito isso nesses seis anos. Desde
então, a UFRRJ não tem uma pendência,
nenhuma dívida ou atraso com empresa alguma.
FOLHA DIRIGIDA - Em função das
dificuldades enfrentadas pelas públicas,
o ensino superior gratuito pode ser extinto no
Brasil?
José Veiga - Acredito que o ensino
público gratuito é uma conquista
já consolidada na sociedade que está
sendo construída, tanto é que ele
é constitucional, não vejo esse
risco a curto prazo. Da mesma forma, também
não acredito em nenhum desmonte. Outro
fator é que a demanda dos estudantes por
uma faculdade é muito maior. Na minha opinião,
o ensino superior é um bem do Estado, da
sociedade, que pode ser concedido a órgãos
públicos, a ONGs ou a instituições
privadas. Então não vejo desmonte
nem risco de extinção, o que vejo
são alguns problemas estruturais que precisam
ser superados.
FOLHA DIRIGIDA - Qual é o seu balanço
do tratamento concedido às universidades
públicas no último governo e qual
é a expectativa para o próximo?
José Veiga - O Sistema Federal de Ensino
não foi a prioridade do atual governo.
Isto é dito por ele mesmo. Mas também
não houve abandono. A preocupação
atual é a garantia do ensino fundamental
universalizado para todos, e de um ensino médio
que dê as condições mínimas
de base e conhecimento para a pessoa fazer um
superior de qualidade. É necessário
garantir esse espaço primeiro, por isso
eu não vejo nos próximos quatro
anos perspectiva de um olhar mais amplo para o
ensino superior.
FOLHA DIRIGIDA - Os vestibulares no Rio apresentam
novidades, como o Enem e a reserva de vagas para
alunos das escolas públicas. Qual é
sua opinião, e qual seria a forma ideal
de ingresso?
José Veiga - O Enem tem uma atuação
regional, e são comparados níveis
de ensino diferenciados, porque é fato
que a qualidade do ensino médio nas capitais
é melhor, não há como negar,
e para nós não havia uma motivação
imediata para implantá-lo. Quanto à
reserva de vagas, qualquer que seja a razão,
é contraditória, pois nega a grande
razão de sustentação que
a universidade pública tem perante a sociedade,
que é o compromisso fiel com a qualidade.
Porque se você reservou, existe um processo
seletivo diferenciado, eventualmente entre os
comuns vai ter alguém melhor
do que aquele que vai entrar pela reserva. Há
outras formas de ingresso para quem sofreu alguma
exclusão, como reforço gratuito,
que a própria Rural dá para as comunidades
vizinhas, mas é preciso se pensar muito
ainda sobre esse assunto.
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