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A cultura como instrumento básico da cidadania plena

Participar de atividades culturais é o que caracteriza a vida
em sociedade e habilita o homem ao exercício da cidadania


Presidente do Conselho Estadual de Cultural defende o acesso à cultura
 

Ir ao cinema, ao teatro, ou a um espetáculo musical representa muito mais do que escolher uma forma de entretenimento alternativa a ficar horas em frente a uma televisão ou computador. Significa ter acesso a algumas das mais belas manifestações artísticas e literárias das mais variadas épocas, exercitar a sensibilidade, constatar como podem ser belas as produções humanas. Enfim, ter acesso à cultura.

Isso é o que defende a escritora, jornalista e presidente do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro (CEC/RJ), Ana Arruda Callado, ressaltando que participar da vida cultural é o que caracteriza um ser humano em sociedade e o capacita ao exercício pleno da cidadania. “Cultura não é só um luxo: é o que dá cidadania a um povo. Muitos problemas poderiam ser resolvidos com um incentivo maior à cultura”, afirma.

Desde julho na presidência do principal órgão consultivo do estado do Rio de Janeiro na área Cultural, Ana Arruda Callado diz que pretende fazer que a atuação do colegiado seja mais ampla. Para isso, Ana Arruda trabalha para construir um cenário caracterizado por uma maior articulação do órgão com a Secretaria Estadual de Cultura.

“O Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro vem desempenhando uma função bem menor do que desejávamos. Não podemos fazer muita coisa, pois não somos os executivos. Os sucessivos governos nos prestigiam mas esquecem um pouco a nossa função, que seria a de discutir a política cultural do Estado. As coisas já vêm um pouco prontas para nós”, avalia Ana Arruda, que, apesar das dificuldades, se mostra otimista em ver o CEC/RJ com uma participação mais efetiva na discussão e na definição das políticas estaduais para o setor.

“Acredito em transformações vagarosas e sérias. É preciso conquistar um espaço maior de atuação. Penso que hoje, momento em que estamos num governo que se propõe a abertura à sociedade, seja a hora mais propícia a esse avanço que tanto almejamos”, espera Ana Arruda.

Cultura popular — O exercício efetivo da cidadania compreende mais do que reconhecer direitos a serem exigidos e deveres que devem ser cumpridos. É também uma reflexão sobre a realidade, permitindo ao indivíduo compreendê-la e apresentar propostas para aperfeiçoá-la, sempre que solicitado. Reflexão esta que depende de um conhecimento, mesmo que não muito profundo, das raízes culturais de uma sociedade. E não é apenas a partir das manifestações mais famosas, consagradas pela crítica, que se pode conhecer um pouco mais da formação de um povo e de uma comunidade, como ressaltou Ana Arruda, em entrevista anterior à FOLHA DIRIGIDA.

“As pessoas conhecem mais a cerâmica do Vale do Jequitinhonha, os bonecos e o artesanato de Caruaru, do que alguns artistas populares locais. As danças, os reisados típicos, as manifestações dos escravos nas fazendas de café, bandas, teatros do Norte-fluminense são muito ricos. É muito importante promover o debate sobre a importância dessas manifestações”, disse Ana Arruda, ressaltando que toda cultura dita “erudita” nasceu das manifestações populares.

“Os maiores romances da literatura têm raízes na cultura popular, o que acontece também na música. O que está faltando é dar maior visibilidade à cultura do interior, à produção das classes que não têm acesso aos bens culturais, que são caros”, disse a jornalista.

Uma das vantagens de se investir na difusão da cultura popular é o fato de ela estar mais identificada com suas comunidades. Como práticas típicas e tradicionais, elas podem ser trabalhadas com mais facilidade pelas escolas, aproximando o estudante das raízes históricas de seu grupo. “Cultura e Educação têm que caminhar juntas. Não existe uma sem a outra”, enfatiza Ana Arruda.

Mas trabalhar com o folclore, com os usos e costumes de uma determinada região, pode acrescentar à escola em termos pedagógicos? A resposta é sim, na visão de Ana Arruda. “O ensino fica muito mais fácil. Certa vez, estive na Itália e vi uma escola que estava trabalhando com o tema da Segunda Guerra Mundial. Havia várias gincanas, exposições e brincadeiras, tudo em torno do conhecimento do assunto. Agora, veja que maneira lúdica e inteligente de se ensinar”, lembra.

Mas como pensar em uma escola que trabalhe em sintonia com as tradições populares se quem ensina não tem acesso à cultura? Com uma remuneração que, em boa parte dos casos, lhe permite sobreviver com dificuldades, o professor se encontra sem condições financeiras de enriquecer seu arcabouço cultural. A presidente do CEC/RJ reconhece o problema e defende a criação de estratégias que aproximem o professor da cultura, mas, ao mesmo tempo, diz que há alternativas.

“É claro que o professor é muito mal pago no país e que ele deveria ter acesso a estes recursos. Mas pode-se adquirir cultura sem dinheiro. As bibliotecas públicas, por exemplo, estão aí e vivem às moscas. A Sala Cecília Meirelles oferece vários espetáculos a preços populares. Há concertos ao ar livre também”, ressalta Ana Arruda.

Segundo a jornalista, que também é professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), de maneira geral, o problema é que “falta cultura na escola brasileira”. Para ela, a sala de aula e o espaço escolar são os melhores ambientes para despertar o interesse pela cultura e, em vários casos, aptidões não-descobertas pelos estudantes.

“Não se pode educar ensinando apenas Matemática, Química, Geografia, História. No caso do Ciep, que foi o projeto de Educação mais lindo que já existiu, e que não foi adiante porque o torpedearam, havia um animador cultural em cada escola. Um ou mais. E o aluno tinha aulas de música, dança, pintura, conforme a vocação dele próprio ou da comunidade.”

Trazer a reflexão sobre a cultura para o âmbito escolar permite que jovens e crianças possam, além de conhecê-la melhor, desenvolver uma reflexão crítica a respeito da globalização no âmbito cultural, tema que, para Ana Arruda, precisa ser bastante discutido entre os jovens.

“Globalização é, na verdade, um termo amável para falar de uma realidade muito pior. O fato é que vivemos num colonialismo cultural. Os Estados Unidos, hoje, são a única potência mundial que impõe ao resto do mundo seus produtos e sua cultura”, ressalta a jornalista, lembrando que, apesar desta colonização, o processo de globalização cultural, intensificado com a popularização da internet, vem gerando uma reação positiva. “Esta globalização, ao mesmo tempo, possibilita o acesso a culturas do mundo inteiro através da internet, reforçando as culturas locais. Acho que ela tem muitos aspectos positivos, que deviam ser mais explorados.”

 
 
 
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