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O vestibular é um rito de passagem antigo.
É uma pequena estrada, construída
há 100 anos, por onde todo estudante tem
que passar, se quiser chegar à universidade.
Exatamente por ser uma estrada pequena, é
preciso matar um leão por dia para chegar
na reta final, onde há uma porta estreita,
muito estreita, que dá acesso a uma terra
encantada, onde, pelo menos em tese, os jovens
são iniciados na magia do alto saber. É
lá, acredita-se, que adquirem os conhecimentos
necessários para o fazer profissional com
o qual servirão a sociedade para o resto
de suas vidas, tornando-a mais agradável
para todos. Nesta terra encantada são preparados
médicos, engenheiros, advogados, arquitetos,
jornalistas, assistentes sociais, administradores,
psicólogos, professores, filósofos.
Mas não é fácil chegar lá.
Pelo menos é o que muita gente ainda acredita.
A necessidade do vestibular firmou-se ao longo
do tempo porque eram muitos querendo algo que
só havia para poucos. Hoje, porém,
a realidade é outra. As chances de ingressar
numa universidade, de ter um curso superior, foram
muito ampliadas e se chegou, em certos casos,
à ordem inversa. Em vez de o aluno concorrer
para ingressar na instituição, a
instituição, em alguns casos, é
que concorre para ter o aluno. Certamente é
uma nova realidade que efetuará mudanças
no velho vestibular. Não estaria na hora
de transformá-lo em objeto de estudos?
Apesar das suas várias nuances, que passam
pelo pedagógico, pelo econômico,
pelo sociológico, pelo antropológico,
o vestibular não atraiu a atenção
de pesquisadores e estudiosos. Não há
quem o tenha estudado enquanto teoria e não
há bibliografias sobre ele conhecidas no
mercado. Por quê?
Para responder a estas questões e para
comentar os acertos e as provações
do vestibular, Folha Dirigida convidou três
das várias excelências que essa partícula
do ensino gerou ao longo de um século
o professor Victor Notrica, diretor do Instituto
Guanabara; a professora Maria Vitória Teixeira
de Carvalho, diretora pedagógica da Fundação
Cesgranrio; e o professor George Cardoso, diretor
do Centro Educacional da Lagoa (CEL) e do Liceu-Franco
Brasileiro que participaram de um debate
rico em idéias e, também, em divergências.
O que é o vestibular para os senhores?
Nestes 100 anos de existência, qual marca
imprimiu no sistema escolar brasileiro? Por que,
apesar de obrigatório para um número
cada vez maior de estudantes, não há
formulações teóricas sobre
ele?
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Victor Notrica
É professor de
Química do Curso
Miguel Couto.
Dirige o Instituto
Guanabara
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Victor Notrica
É uma ótima pergunta que está
sem resposta até hoje. É por isso
que o vestibular se tornou um tacape na cabeça
do estudante, já a partir da 8ª série.
Como não tem definição, as
leis tornam-se controvertidas e ele se torna uma
colcha de retalhos, um campo de improvisações.
O fato é que até poucos anos atrás,
o número de postulantes a um curso superior
era maior do que a oferta de vagas. Esse congestionamento
entre postulantes e vagas se modificou, está
mais diluído, mas com um tremendo diferencial
de qualidade. Hoje em dia, o vestibular é
um espetáculo. Então, está
faltando essa definição, que existe
em outros países. Na França, onde
existe o BAC, é preciso ser muito bom para
entrar na universidade; no Japão o vestibular
já foi causa de suicídio; aqui é
apenas chope. Você diz que não vamos
abordar calendário, mas acho que isso é
essencial.
George Cardoso
Na hora que você tenta definir o vestibular,
é preciso se situar no número de
postulantes, que era maior do que a oferta de
vagas. Era a desculpa para sua existência.
Agora estamos vendo vestibulares de fim de semana,
sem nenhuma intenção de denegrir
qualquer instituição, mas há
uma proliferação de faculdades e
universidades em determinadas carreiras, que o
ingresso no ensino superior ficou mais tranqüilo.
Nós somos do tempo em que muitos ficavam
fora da universidade, porque não conseguiam
passar no vestibular. Hoje, quando o aluno não
é aprovado na UFRJ, na Uerj, ou mesmo na
PUC, ele tem outras saídas. Depois o mercado
de trabalho resolve. A LDB, que vai completar
seis anos este ano, permitiu a não existência
do exame vestibular, e admitiu que as faculdades
isoladas criassem sua própria forma de
selecionar, o que abriu completamente o campo.
Disso resulta que o vestibular, que nunca teve
uma definição, hoje precisa de uma
redefinição. Muitas famílias
pensam: Será que vale matricular
em um curso pré-vestibular, não
é melhor matricular direto na universidade,
que está mais barata? É realmente
um momento de redefinições e estamos
com algumas provações. Não
sei se todos tiveram oportunidade de ler o edital
do primeiro Exame de Reserva de Vagas divulgado
hoje (18 de julho). Tem coisas incríveis,
que precisam ser revistas. Eu sei que não
é o tema central, mas você me desculpe,
porque ele vai sair.
Não temos a ilusão de que a
trilogia Reserva, Calendário e Unificação
não apareça neste debate. Gostaríamos
de esclarecer que, embora nosso objetivo seja
conduzir as reflexões para novas questões,
para temas ausentes da pauta do dia-a-dia, nossa
análise imediata é que se este bordão
espontaneamente se manifesta, é porque
as reflexões sobre ele não se esgotaram.
Com isso queremos dizer que não há,
aqui, assuntos proibidos. Ao contrário,
todas as variáveis que tenham como foco
o vestibular são bem-vindas.
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Maria Vitória
É diretora
acadêmica da
Fundação
Cesgranrio
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Maria Vitória
Ao longo de todo esse tempo em que o vestibular
foi criado, ele tem sido comparado a um rito de
passagem, alguma coisa da qual a maior parte dos
estudantes, principalmente aqueles que tinham
aspirações mais elevadas em termos
profissionais, não poderia escapar. Mas
à medida que a sociedade foi se modificando,
esse rito também tem se modificado e, enquanto
para uns ele continua com aquele mesmo peso, com
a mesma seriedade e a mesma carga de ansiedade,
para outros ele foi suavizado.
Embora a legislação ainda preveja
a necessidade de um processo seletivo para ingresso
no ensino superior, até a palavra vestibular
perdeu um pouco da força, porque esse processo
não precisa ser, necessariamente, um vestibular.
Existem modalidades novas e essa abertura para
novos caminhos talvez seja uma das principais
inovações e acertos em termos de
trajetória do vestibular.
Mas quando acontece uma abertura desse tipo, quando
é dada uma oportunidade de se partir para
o novo, acontecem alguns excessos, até
porque as pessoas, às vezes, não
conseguem apreender, efetivamente, o significado
daquela mudança. O que se pretende é
tornar o ingresso no ensino superior mais viável
para o candidato, não no sentido de facilitar,
mas de acordo com a capacidade que apresenta.
Isso faz que a gente sinta a existência
de duas situações: a dos que lutam
por uma vaga em determinadas instituições
e a das instituições que lutam por
um candidato. São dois extremos, entre
os quais muita coisa acontece. Há histórias
de êxito e outras, nem tanto.
Eu acredito que embora não exista uma
referência bibliográfica, uma teoria
em torno de vestibular, existe, certamente, um
histórico que a gente pode analisar em
função da legislação.
O que acontece com freqüência é
que as pessoas que trabalham com vestibular partem
muito rapidamente para a ação e
se dedicam mais a agir, modificar, criar, em vez
de estudar com mais profundidade o assunto. Não
é nem que não estudem, mas talvez
porque não registram o que têm analisado
e têm procurado modificar ao longo do tempo.
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George Cardoso
É professor de
Matemática,
diretor do CEL
e do Liceu
Franco-Brasileiro
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George Cardoso
Quando eu comecei a trabalhar com o magistério,
há 40 e poucos anos, comecei trabalhando
com o antigo exame de admissão ao ginásio.
Quando se falou em terminar com esse exame, que
também era obrigatório, foi um escândalo
nacional. Acreditava-se que o nível das
escolas cairia muito, e de fato caiu. Eu continuo
acreditando que o aluno ficava muito mais bem
preparado, porque ele tinha de correr atrás.
O que se pretende é o ingresso automático,
mas como conseguir isso com qualidade é
que complica. A Fundação Cesgranrio,
cujo trabalho elogiamos, desenvolveu anos atrás
um programa chamado Sapiens, do qual participamos
com muita satisfação. Pode não
ter sido perfeito, mas seria uma alternativa excelente
se as universidades públicas tivessem apoiado.
O vestibular deveria ser registrado como um
segmento? Ele teria um papel na formação
entre o nível médio e o ensino superior,
além de preparar para uma prova?
Maria Vitória
Eu sou da opinião que não. O vestibular
realmente só se justifica quando há
muitos postulantes a poucas vagas. O ideal seria,
realmente, que essa instituição
vestibular viesse a desaparecer. O que todos nós
pretendemos é que a maior quantidade possível
de pessoas com capacidade para cursar o nível
superior, com o desenvolvimento de potencialidades
adequado para isso, tivesse acesso tranqüilo
ao nível superior. O que se gostaria que
acontecesse é que o ensino de primeiro
e segundo graus fosse tão bom para todos,
fosse com tal padrão de qualidade, que
fosse qual fosse a escola em que a pessoa estudasse,
ela estivesse apta a ingressar em um curso superior,
caso fosse de seu interesse e ela apresentasse
potencialidades para isso.
Algumas pessoas nem têm esse desejo. Suas
potencialidades são no sentido de se saírem
melhor numa profissão de nível técnico.
Eu não sou tão saudosista quanto
os dois colegas. Eu entendo que naquele momento
realmente havia um sentido o exame de admissão,
por causa do número muito restrito de vagas.
Mas isso, definitivamente, não era uma
coisa boa. Garantia a um grupo de elite uma formação
cada vez melhor, mas não é isso
que a gente quer. Não é tendo apenas
grupos de elite muito bem formados que nós
vamos conseguir transformar o Brasil no país
que pretendemos, mas estendendo essa formação
de qualidade ao maior número possível
de pessoas. E a colocação de barreiras
para o acesso muito cedo, em crianças na
faixa de 10 anos, é uma desumanidade.
Temos um primeiro momento de clara divergência.
Os professores Victor e George gostariam de comentar
a intervenção da professora Maria
Vitória, antes de responderem à
segunda pergunta?
George Cardoso
Realmente é um momento de grande discordância.
A não existência do exame de admissão
criou dois pontos a serem considerados. Primeiro,
é uma hipocrisia. Isso só adiou
o momento da competição. Ela era
aos 10 anos e depois passou, no caso do vestibular,
para os 16, 17, 18 anos. Se não for nessa
idade, vai ser aos 22, 23, porque em algum momento
da vida o aluno vai competir com alguém.
O que vejo e analiso por estes anos todos é
que pelo fato de ele ter de competir aos 10, 11
anos, ele chegava à idade adulta mais amadurecido
e, conseqüentemente, em melhores condições
de competir no mercado.
O outro ponto é em relação
à elite. O que acabou acontecendo? A não
existência do exame de admissão descompromissou
as escolas de 1ª a 4ª, principalmente
as públicas. Os alunos foram ingressando
sem fazer nenhum esforço e começou
aquela velha história de a gente fingir
que dá aula, fingir que recebe e o aluno
fingir que estuda. Esse é o nosso receio
em relação ao vestibular.
Sobre o papel do vestibular, eu concordo literalmente.
É um rito de passagem. Mas uma vez não
existindo, teria que ser substituído por
uma outra forma que avaliasse e que permitisse
fazer um trabalho de alto nível no ensino
superior. E é bom lembrar que o ensino
superior é elitista em qualquer país
do mundo. É elitizado de forma acadêmica,
intelectual, e, em alguns lugares, de forma econômica.
Ele é para um grupo pequeno da população,
para ser o mais especializado possível.
Os senhores têm informações
sobre a receita gerada pelo vestibular? Por que
os recursos aplicados ou gerados na Educação
são sempre globais?
Victor Notrica
Deve ser tão grande, que não existem
dados.
George Cardoso
Sabemos que ela é tão alta que chega
a financiar especializações de professores
em universidades. Isso, quando a coisa é
levada a sério. Mas a conta é muito
fácil de fazer, porque é uma simples
multiplicação. Pega 60 mil e poucos
e multiplica pela taxa de inscrição.
E nós três aqui com certeza participamos,
nas entidades em que trabalhamos, da confecção
de material impresso, sabemos quanto custa colocar
um professor para preparar e para corrigir prova.
Dirigimos organizações grandes e
é evidentemente que temos tudo isso nas
nossas planilhas, então existe uma idéia,
mas eu jamais vi qualquer coisa desse tipo publicada
oficialmente.
Os senhores acham que esta pode ser uma das
causas da resistência das universidades
à unificação?
Victor Notrica
Pois eu vivo me perguntando se a razão
da não unificação não
está aí. Como é que vai repartir?
George Cardoso
E como cidadão eu pergunto: não
seria uma obrigação da entidade
pública tornar isso público? Existe
uma outra coisa que não tem exatamente
a ver com esse ponto, mas com o que falamos agora
há pouco, sobre diferentes modelos. Recentemente
nós tivemos um escândalo, digamos
assim, da quantidade de notas zero na prova de
Física da UFRJ. Onde está a culpa?
Cabe a todos nós, educadores, procurarmos
a causa disso. A imprensa se preocupou muito com
a quantidade de notas zero, mas não foi
divulgada e eu tive o trabalho de fazer
um balanço a quantidade de notas
abaixo de dois, o que é muito grave. Cerca
de 80% dos candidatos tiveram abaixo da linha
do dois, que todos nós sabemos que não
significa nada. Em termos de avaliação,
20% é o acerto do macaco, quando a prova
é de múltipla escolha.
O zero elimina, mas o dois não. Significa
que os estudantes que, hoje, estudam Física
na UFRJ ingressaram com nota inferior a 2 nesta
disciplina?
George Cardoso
É isso, significa que temos uma grande
quantidade de alunos na Universidade Federal do
Rio de Janeiro, talvez a principal universidade
do país, praticamente nula e fazendo cursos
da própria Física. Eu pude verificar
que alguns candidatos foram aprovados e que tiraram
0,13. Qual resposta a UFRJ deu para o fenômeno?
Foi a seguinte: As escolas de ensino médio
não sabem ensinar Física.
Como se trata de uma universidade pública,
eu, humildemente como diretor de uma entidade
privada, peço que a UFRJ, peço publicamente
aqui que nos ensine a ensinar Física, já
que ela é uma entidade pública e
constatou que nós, professores, não
sabemos ensinar esta disciplina e precisamos aprender.
A UFRJ, como uma entidade pública, deveria
patrocinar cursos desse tipo para que nós
possamos ensinar aos nossos alunos, para que eles
sejam capazes de ingressar na universidade, que
é pública e, portanto, paga por
todos nós.
Victor Notrica
Talvez o que a UFRJ oriente como ensinar Física
seja diferente do que a Fluminense, do que a Uerj...
Maria Vitória
Eu queria aproveitar e esclarecer que é
por isso, exatamente, que a Fundação
Cesgranrio atualmente acredita mais num processo
seletivo ao longo do segundo grau, que permita
um ingresso mais consciente no nível superior,
do que num exame momentâneo. Foi esse tipo
de proposta que nós desenvolvemos há
alguns anos, com o projeto Sapiens, em que era
feita uma avaliação ao longo das
três séries do segundo grau e os
resultados eram sempre devolvidos às escolas.
Na medida em que esse processo ia se desenvolvendo,
ao longo de todo o segundo grau, havia a oportunidade
de a escola ver o que não estava indo bem
no seu ensino de Física, por exemplo.
George Cardoso
A criação do projeto Sapiens coincidiu
com o meu ingresso para dirigir o Centro Educacional
da Lagoa. Nós entramos no projeto e eu
pude aproveitar muito dos relatórios recebidos
da Fundação Cesgranrio a cada avaliação
e que nos ajudava a reformular nossos métodos
de trabalho. É um negócio, portanto,
que, se tivesse continuado, teria sido de grande
valia para todas as escolas.
Continua>>
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