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Interdisciplinaridade: a teoria na prática é outra

Conteúdo, competências e habilidades, Enem, interdisciplinaridade, eis
alguns dos temas no foco do debate

O Enem é uma nova experiência do MEC para o acesso. E divide as opiniões

 

O Enem não estaria recuperando a proposta original do Sapiens?


Maria Vitória:
“O ideal seria que o vestibular viesse a desaparecer”

Maria Vitória
Nós acreditamos que o Enem também é uma excelente oportunidade de avaliação. Em primeiro lugar, ele permite uma comparação nacional, na medida em que é um processo que envolve candidatos de todo o Brasil que queiram participar, não só que estejam cursando a última série do segundo grau, mas também os que já saíram, e estão voltando. Ele realmente é um instrumento de avaliação também pelo tipo de abordagem que faz do conteúdo, uma abordadagem que faz do conteúdo, uma abordagem interdisciplinar, uma prova toda calcada em competências que se pretende que tenham sido desenvolvidas pelos alunos e que são importantes para os estudos no nível superior. A diferença principal entre o Enem e o Sapiens é que o Enem também é feito num só momento e, com isso, embora dê informações muito valiosas para as escolas de segundo grau e abra oportunidades muito interessantes, ele não permite aquilo que o Sapiens permitia, que era esse aprofundamento e uma reestruturação do ensino, por parte das escolas.

Victor Notrica
O Enem ainda está engatinhando e há um ceticismo do alunado. As universidades públicas, exceto a Unirio, rejeitaram o Enem. Fico imaginando um aluno de um bom colégio do município do Rio de Janeiro vendo a prova do Enem e um aluno do interior do Acre vendo a mesma prova. Não sei se os colegas concordam, mas cadê o programa? É uma coisa vaga.

George Cardoso
O Enem acabou se tornando uma prova de vestibular, mas não era esse o objetivo, quando foi criado. Há muita semelhança entre a prova do Exame de Qualificação da Uerj e a prova do Enem.

Os programas de vestibular vêm servindo de parâmetro para o ensino médio, como se diz?

Victor Notrica
Depende da forma com que esse programa é apresentado. Que seja apresentado em Língua Portuguesa, por princípio. Claro que os itens do saudoso programa da Cesgranrio era um referencial, pois era um trabalho completo. Um professor tendo um programa, uma listagem de conteúdo, não vai ficar perguntando para qual universidade o aluno fará prova. Os professores estão no vazio. Na semana passada nossa equipe de Química ficou discutindo se uma questão da primeira fase da Uerj era desta disciplina ou de Matemática; concluiu-se que era de Matemática.

Isso não se chama interdisciplinaridade? Não é positivo estimular o uso do conhecimento de forma articulada?

Victor Notrica
Isso se chama vaidade de banca. A coisa não muda da noite para o dia, é um processo. A LDB está completando seis. Nós estamos colhendo os primeiros resultados dos alunos que, agora, estão na 5ª série. O aluno que está na 3ª série do ensino médio ou que já concluiu o ensino médio é um aluno que tem uma bagagem fora desse espírito da LDB. E agora dizem que a LDB não vai durar. Vamos ao ensaio, ao erro, ao acerto. Como ter medidas, resultados, se a leitura que a Fundação Cesgranrio faz é uma, que a UFRJ faz é outra, que a UniRio faz é outra? E ainda vêm com essa história de perfil de aluno.

Se pegarmos o número de alunos classificados nas universidades federais, veremos que é superior ao número total de vagas. Ou seja, uma jamanta de dinheiro é consumida para que corrijam a prova do mesmo aluno na UFRJ, na UniRio, na Uerj, na Fluminense e na Rural. Tem custo de banca, custo de material, custo de correção, e a gente fica com a impressão de que é um balcão de negócios.


George Cardoso:
“Ainda é preciso formar o professor interdisciplinar”

George Cardoso
Mais uma vez estamos diante de uma incoerência. Uma das maiores conquistas da nova LDB é a liberdade. Mas nós estávamos tão acostumados a não ter liberdade que, na realidade, não estamos sabendo trabalhar com ela. Nossas escolas têm o direito, perante a lei, de organizarem os programas, os conteúdos. Se resolvermos não dar R2 e R3 em Matemática, e não há nenhuma lei que nos obrigue a isso, a não ser a da competição, a do vestibular, todas as escolas acabam tendo o mesmo programa e quem dera, como disse o professor Victor, que a gente soubesse qual o programa. A PUC talvez seja a única a evitar problemas para nós.

Na realidade, acabamos por ter um programa único para trabalhar o aluno para o vestibular, a sociedade assim nos exige e nós não podemos exercer a nossa liberdade. Eu, como professor de Matemática, entendo que um jovem aos 16, 17, 18 anos precisava ter outros conhecimentos de Matemática, além daqueles que eu estou colocando para ele. Mas o vestibular, que deveria ser uma conseqüência do nosso trabalho, acaba sendo a causa.

Victor Notrica
Uma das últimas aulas que eu dei era sobre radioatividade, do ponto de vista histórico, químico, social. Quando a aula estava terminando, os alunos perguntaram: “Professor, isso cai no vestibular?”. A cultura, o referencial, é o vestibular. O programa fazia o professor estudar. Comecei preparando para a Nacional de Medicina e estudava o programa para passar para os alunos. Agora é um varejo. Os professores que fizeram licenciatura não tiveram a bagagem que nós conhecemos na Faculdade de Filosofia.

Maria Vitória
A ênfase, agora, está cada vez menos no conteúdo, daí a falta dos programas, e cada vez mais no desenvolvimento de competências e habilidades intelectuais que permitam, por exemplo, o desenvolvimento do raciocínio lógico, da capacidade crítica. O conteúdo se tornou um pano de fundo. Isso, às vezes, acaba não sendo bem percebido, bem trabalhado. O problema que os professores sentem, da falta dessa diretriz, desse programa, porque a intenção que eu percebo é essa, é a substituição da ênfase no conteúdo para a ênfase no desenvolvimento de habilidades. Está sendo muito enfatizado, tanto em termos de ensino básico, como em termos de ensino superior, que o aluno demonstre capacidade de raciocínio, de reflexão, de interpretação, de fazer comparações, de tirar conclusões. Para isso é claro que ele vai usar o conteúdo, mas não que o conteúdo seja o mais relevante, como era no passado.

Os novos livros didáticos refletem claramente essa tendência, de valorização do raciocínio sobre o conteúdo, mas, ao que parece, os professores estão resistindo...

George Cardoso
Isso em tese é perfeito. O professor não está preparado para isso e as faculdades de formação de professores não atentaram para esse detalhe. Aqui no Rio de janeiro, com exceção do Enem, da Fundação Cesgranrio e da Uerj, todas as demais provas são absolutamente conteudistas. Eu costumo dizer que a prova retrasada da UFRJ, de Matemática, parece prova dos anos 50. A prova foi toda na base do calcule, do resolva. Se nós pegarmos as chamadas provas de Física e Matemática — Física mais que Matemática — tem que chamar as duas equipes para resolver, senão não consegue. Não há professores preparados para isso, como ter alunos preparados?

Para as provas de Física e Matemática, não há nenhum professor, a não ser auto-didata, que esteja preparado. Não há nenhuma escola de formação de professores que prepare para aquilo. São provas lindas, muito bem-feitas, devem ser dificílimas de serem produzidas, mas que trazem esse tipo de problema. Onde está o professor para fazer esse trabalho chamado interdisciplinar? Deveríamos voltar aos tempos da Faculdade de Filosofia e com os cursos inteiramente misturados, para que você tivesse o professor interdisciplinar. Ainda é preciso formar esse profissional. Esse profissional não existe no mercado.

Victor Notrica
A interdisciplinaridade é uma experiência válida, mas é preciso ter um ponto de partida. Interdisciplinar sobre o quê? E há o perigo de o docente se acomodar. Ele não tem programa, não sabe onde começa, onde termina e, no fim, é atropelado na terceira série do ensino médio.

George Cardoso
Um médico, um advogado e um profissional de Informática deveriam ser avaliados no mesmo sistema? Os médicos formados pelo antigo sistema são piores que os atuais? Eu posso atestar que não.

A diferença do peso da disciplina por carreira não atende a isso, não tenta minimizar o impacto dessas inadequações?

George Cardoso
Você disse bem: “Tenta minimizar”. Mas não resolve.

Victor Notrica
E o aluno acaba vindo nos perguntar: “Professor, com essas notas, eu passo para Medicina?”. Respondemos que ele precisa melhorar, por causa da relação candidato/vaga, e ele pergunta: “Com essas notas, para qual carreira eu passo?”.

Acreditamos que isso reforça nossa impressão inicial de que o vestibular teria um papel entre o ensino médio e o superior, talvez vocacional, que iria além de preparar para o evento provas.

George Cardoso
Pois é. Onde é que estão as vocações?

Victor Notrica
É outra virtude do modelo Sapiens. Uma de suas variações era a aptidão.

É possível chegar ao vestibular sem uma base escolar, e o curso colocar o aluno em condições de pleitear uma vaga na universidade?

Maria Vitória
Depende da universidade. Infelizmente não é isso que eu gostaria de responder, mas eu acho que a gente tem de ser realista. A cada dia nós estamos nos defrontando com este tipo de situação. Que, mais uma vez, volta-se ao que já foi mencionado, que é o problema atual de excesso de vagas, tendo em vista a quantidade de postulantes a essas vagas. Então é claro que em determinadas instituições isso não vai ocorrer realmente. Só vai entrar aquele que conseguir demonstrar tudo aquilo que acumulou na sua vida escolar anterior. Nós tivemos, infelizmente, e não há muito tempo, aquela reportagem em que se verificou que um indivíduo analfabeto conseguiu ingressar numa universidade. Todo mundo tomou conhecimento disso. É uma anomalia, não poderia jamais acontecer.

George Cardoso
A senhora me desculpe, mas alí houve uma maldade muito grande. Para ingressar na universidade tem que apresentar o certificado de conclusão de ensino médio. Se nós nos reportarmos ao início da Fundação Cesgranrio, quando não havia redação, um analfabeto também poderia ter sido aprovado num vestibular daquele, porque o vestibular era totalmente múltipla-escolha.

Maria Vitória
Quando há uma efetiva concorrência, o candidato vai se empenhar ao máximo, vai ler cada questão, vai avaliar, vai se envolver realmente, para fazer a melhor prova possível, porque disso está dependendo, de certa maneira, a vida dele. No entanto, quando ele sabe que o número de concorrentes é menor do que o número de vagas, ele vai com outro espírito.

George Cardoso
Eu também concordo inteiramente com a professora, eu apenas quis ressaltar a farsa armada contra a Universidade Estácio de Sá. Colocaram aquele jovem para fazer outros vestibulares, exceto um, e só divulgaram o resultado da Estácio. A gente sabe da seriedade das pessoas que tentam fazer alguma coisa. Em relação a sua pergunta, se forem provas adequadamente produzidas, é evidente que a base do aluno vai fazer muita falta. Normalmente você vai ver a origem de um aluno bem-sucedido no vestibular, e ele teve uma base sólida. A gente lapida em um ano, mas o fundamental é o que ele traz.

Nestes quase 100 anos de existência, o vestibular teria formulado uma pedagogia própria? Esta diferença entre uma formação básica, que canaliza para o conteúdo, e uma seleção que exige interdisciplinaridade não estaria exigindo uma pedagogia do vestibular?

George Cardoso
Mesmo antes de a Fundação Cesgranrio fazer o vestibular unificado, os vestibulares tinham programas que eram praticamente iguais, mesmo quando não era unificado. Na época em que eu fiz vestibular, felizmente eu não tive que fazer prova de História e Geografia, como hoje os candidatos têm que fazer, o professor Victor também não teve que fazer História e Geografia, mas naquela época Matemática era em um dia, Engenharia era em outro. Era completamente descentralizado dentro da própria universidade. Os programas tinham uma identidade, porque havia um programa nacional, do MEC, digamos assim. Então, essa pedagogia do vestibular foi criada a partir daí. Você pega os livros antigos e os novos e verifica: essa questão aqui caiu no vestibular da Escola Nacional de Engenharia, e você verificava que eram questões muito semelhantes. A forma de avaliar o aluno era muito parecida em todas as universidades, por causa de um motivo principal: havia um só programa.

Continua>>

 
 
 
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