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Uma busca de qualidade a partir do ensino básico

Dirigentes educacionais acham que a qualidade no ensino superior
depende do ensino de 1º e 2º graus

O importante processo de interiorização dos cursos de ensino superior no país

 

A preocupação com a qualidade do ensino não acontece apenas nas grandes cidades, que detêm as universidades que mais concentram alunos e das quais algumas são reconhecidas pela excelência do aprendizado.

As universidades do interior, que antes perdiam estudantes que se deslocavam do município para estudar nas metrópoles, mudaram esse quadro e hoje vêm ganhando força e buscando cada vez mais investir na melhoria do ensino. O resultado, segundo diretores de algumas instituições, pode ser verificado no aumento do ingresso de alunos, que ocasiona no desenvolvimento do município e até mesmo facilita a vida do estudante devido a um deslocamento mais fácil e menos despesas. Para o diretor da Centro Universitário de Volta Redonda (Unifoa), Álvaro Carélli, a interiorização do ensino superior viabiliza um maior acesso dos candidatos que por qualquer razão não têm como se deslocar ou se manter nos grandes centros, que detinham quase a exclusividade deste nível de ensino, seja ele público ou privado. Luís Eduardo Tostes, diretor da Fundação Educacional Serra dos Órgãos (Feso), acredita que incentivar o ensino superior no interior é uma forma de democratização.


Álvaro Carélli - Diretor-Geral da Unifoa

FOLHA DIRIGIDA- O que pode ser feito para democratizar o acesso ao ensino superior e para que ocorra melhoria na qualidade dos cursos oferecidos?
Álvaro Carélli -
Ambas as questões têm uma só resposta lógica: melhor qualidade do ensino de 2º grau que, por sua vez, reclama melhor qualidade do ensino de 1º grau, em todos os níveis, particular e público, em especial neste último. Não se pode entender “democratização” como “facilitação” do acesso. A democratização estará, necessariamente, ligada à melhor qualificação possível dos candidatos ao acesso, qualquer que seja sua origem.

FOLHA DIRIGIDA - O ensino à distância poderá vir a ser um instrumento para mudar os indicadores sobre escolaridade no país?
Álvaro Carélli -
Tudo dependerá de como o EAD venha a ser implementado. Se for usado como um processo político com objetivos estatísticos, só mudará índices numéricos e tenderá a equiparar-se a “cursos por correspondência”, só que com base eletrônica. Terá que ser visto como um recurso de altíssimo nível, em que todo o processo didático-pedagógico há de ser revisto, para alcançar e manter níveis de qualidade, não como mero substituto do ensino presencial. Há uma mudança tanto cultural quanto estrutural, sobretudo nos meios acadêmicos, em especial no papel do professor. Se todos os passos forem dados com critérios extremamente bem definidos, a aceitação do EAD pela sociedade será tão natural quanto a da integração do computador no dia-a-dia.

FOLHA DIRIGIDA - Qual a sua análise sobre o Provão?
Álvaro Carélli -
O Provão ainda depende de muitos ajustes e adequações para chegar a traduzir fielmente a situação do ensino nacional. Nos parâmetros em que atualmente opera, o Provão ainda se constitui mais como um de muitos indicadores da situação citada, não como um tradutor ou avaliador fiel dela. Nossa extensão territorial, as peculiaridades e as muitas variantes ou limitações regionais, sobretudo, são elementos complicadores no mais das vezes não levados em conta.

FOLHA DIRIGIDA - Em 2001 o MEC baixou portaria tornando obrigatória e eliminatória a redação para ingresso no ensino superior e estabelecendo o limite máximo de dois vestibulares por ano. Qual é o impacto dessas medidas sobre as universidades?
Álvaro Carélli -
A Portaria do MEC só veio tornar obrigatório o que já era de uso comum e opcional nos processos seletivos que visavam à busca da melhor qualificação para o nível superior. Não há como se aferir apenas conteúdos específicos, por via de questões objetivas, sem se verificar a capacidade do candidato de articular o pensamento e de interpretar textos, além de se expressar com coerência e correção. O impacto, na verdade, foi positivo e a medida ministerial, de certo modo, responde à necessidade apontada na resposta à primeira pergunta.

FOLHA DIRIGIDA - O que representa para o Estado a interiorização do ensino superior? De que forma as instituições de ensino podem colaborar para o desenvolvimento desses municípios?
Álvaro Carélli -
Viabiliza maior acesso dos candidatos que por qualquer razão não têm como se deslocar ou se manter nos grandes centros, que detinham quase a exclusividade do ensino superior, público ou privado. As despesas são reconhecidamente menores, assim como as facilidades de deslocamento do estudante. Isso contribui naturalmente para o incremento da Economia do município e gera seu desenvolvimento. De outro lado, as IES também integram programas de natureza socio-assistencial desenvolvidas pelos poderes públicos, ampliando o campo de ação acadêmica e colaborando para a melhoria dos índices de qualidade de vida naquele município e circunvizinhanças.


Luís Eduardo Tostes - Diretor-Geral da Feso

FOLHA DIRIGIDA - O que pode ser feito para democratizar o acesso e melhorar a qualidade do ensino superior?
Luis Eduardo Tostes -
Para democratizar o acesso ao ensino superior, seria necessário que o governo implementasse um programa de crédito aos estudantes carentes, fazendo valer o preceito constitucional de igualdade de direitos em relação a educação. Como sabemos, a expansão do ensino superior se deu, sobretudo, no setor privado, a partir do aumento do número de alunos no ensino médio, principalmente no setor público. Este aluno, que não dispõe de recursos para freqüentar os melhores colégios, se aperfeiçoar em línguas, é justamente aquele que ocupa as vagas do setor privado do ensino superior, já que concorre, de maneira desigual, com os alunos de maior poder aquisitivo, que acabam ocupando as vagas das universidades públicas mais tradicionais. Dar qualidade aos cursos superiores requer grandes investimentos. Remunerar bem os professores, mantê-los com um bom nível de motivação, ter estruturas físicas adequada e de acordo com as necessidades dos projetos pedagógicos dos cursos, implantar programas de avaliação e acompanhamento, envolvendo toda a comunidade acadêmica, programas de capacitação de professores, programa de pesquisa e de iniciação científica, boas bibliotecas, exigem alto nível de investimento que só poderá ser feito se a instituição apresentar resultados positivos. Pretender que o setor privado dê conta de tudo isso somente com a mensalidade do aluno é desconhecer a realidade, sobretudo quando esse aluno, em grande número, apresenta dificuldades financeiras, o que é revelado nos altos índices de inadimplência do setor privado.

FOLHA DIRIGIDA - Em 2001 o MEC baixou portaria tornando obrigatória e eliminatória a redação para ingresso no ensino superior e estabelecendo o limite máximo de dois vestibulares por ano. Qual é o impacto dessas medidas sobre as universidades?
Luis Eduardo Tostes -
Temos que entender o que vem ocorrendo com a expansão do ensino superior, onde já existe uma ociosidade de vagas de mais de 25% no sistema, para que possamos fazer uma análise do que ocorre nos processos seletivos para ingresso no ensino superior. Com exceção das instituições públicas, assim mesmo algumas, e nem para todos os cursos; e no setor privado, no vestibular para medicina, todo o processo seletivo para o ingresso no ensino superior passa a ter muito pouco valor em decorrência da relação candidato/vaga existente. A redação obrigatória e eliminatória só tende a impossibilitar o ingresso de analfabetos. Não vejo como a redação pode melhorar a seletividade dos ingressantes em instituições de ensino superior, sobretudo, se considerarmos o modelo de expansão do ensino superior vigente. Talvez uma boa alternativa para melhorar os critérios de ingresso seria usarmos os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) como forma de ingresso, mas não podemos desconsiderar a luta que se trava pela captação do aluno novo, condição de sobrevivência para as instituições de ensino superior particulares.

FOLHA DIRIGIDA - O que representa para o Estado a interiorização do ensino superior? De que forma as instituições de ensino podem colaborar para o desenvolvimento desses municípios?
Luis Eduardo Tostes -
Entendo que a interiorização do ensino superior é uma forma de democratização para este nível de ensino. Uma instituição de ensino superior erguida sobre lastros sólidos de qualidade pode contribuir de maneira efetiva, tanto para o desenvolvimento de região onde está inserida, como para o projeto de desenvolvimento nacional, formando e capacitando pessoas, já que temos uma grande carência no Brasil para este tipo de formação. Entendo que a aproximação das instituições de ensino superior aos governos e as empresas locais pode constituir um espaço de debate e cooperação que certamente, contribuirá para o desenvolvimento da Região.

 
 
 
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