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Vice-reitor da Universidade Candido Mendes,
o professor Antonio Luiz Mendes de Almeida se
mostra descrente em relação às
mudanças no cenário educacional
brasileiro. Com duras críticas em relação
à atuação do MEC nos últimos
anos, ele defende o papel das universidades privadas
no país e destaca a deficiência e
a desiguldade no papel das instituições
públicas. Se forem suprimidas as
instituições privadas, acaba o ensino
superior no país, pois elas atendem à
grande maioria da demanda, devido à incapacidade
atual do setor público, afirma Almeida.
Confira, abaixo, a entrevista concedida à
FOLHA DIRIGIDA.
Folha Dirigida - Quais são as expectativas
do senhor para e educação nos próximos
anos? Há mudanças importantes sendo
feitas no cenário da educação
brasileira? Quais?
Antonio Luiz Mendes de Almeida - Depois de
mais de quatro décadas dentro de uma escola,
não acalento mais expectativas, porque
as pessoas que assumem a educação
são em sua maioria filiadas a partidos
políticos, e por isso não têm
condições, não sabem e, por
vezes, não são do meio. As mudanças
sempre ocorrem para o bem ou para o mal, ainda
mais neste mundo em constante evolução
e conflitos. A educação tem o papel
prioritário de, exatamente, preparar o
homem para enfrentar os desafios que lhe são
apresentados diariamente. Assim, precisamos ter
um ensino sintonizado integralmente com as alterações
dos cenários e as aspirações
da população, um ensino ágil
e de muita qualidade. Duvido que o eleito consiga
mudar o panorama. Aliás, todos os programas
apregoados são iguais. Tenho uma vasta
coleção de cicatrizes de esperanças
frustradas para animar uma vez mais...
Folha Dirigida - Qual sua análise sobre
o trabalho desenvolvido pelo ministro Paulo Renato
Souza no Ministério da Educação?
Quais foram os principais erros e acertos do Governo
FHC no setor?
Antonio Luiz - Neste longo reinado de oito
anos fui um crítico semanal na minha coluna
na FOLHA DIRIGIDA sobre as ações
do MEC. Na maioria das vezes, critiquei e condenei.
Posso enumerar como medida importante o atendimento
de 97% da clientela no ensino fundamental. Embora
não se tenha o percentual de saída,
de complementação do curso, da evasão
e muito menos a qualidade das aulas, foi um avanço,
sem dúvida. O Fundef também foi
uma boa criação, auxiliando os municípios
no cumprimento de suas obrigações.
O Enem é igualmente uma iniciativa saudável.
E o provão, apesar dos seus defeitos, já
que existe para punir e não para ajudar,
aliado ao total descompromisso do aluno, é
uma idéia que, se aperfeiçoada,
corrigindo-se os erros de enfoque, poderá
dar uma contribuição valiosa à
melhoria do ensino. Atualmente, é apenas
instrumento de marketing. Destaco os cursos seqüenciais
como talvez a única boa criação
da lei. Me refiro à última, porque
elas se modificam a cada decênio sem se
lhes dar tempo de maturação e julgamento
de seus efeitos. Esses cursos vêm responder
não só às necessidades do
mercado como também atender a um contingente
que busca novos conhecimentos, em prazos menores
e bem mais objetivos. Os seqüenciais, juntamente
com os cursos de tecnólogos, preencheram
um vazio óbvio. Os erros foram muitos,
são de conhecimento público. Um
exemplo foram as greves sucessivas das universidades
federais, que demonstram a inabilidade ou a falta
de autoridade, bem como o imperativo de recredenciamento
das instituições, ferindo sua autonomia.
Além disso, existe o acinte inconstitucional
e a infringência ao Código Civil
da lei que promove o calote, após mais
de sessenta reedições da medida
provisória. Foi um golpe baixo na iniciativa
privada. O MEC jamais entendeu que o setor privado
é parceiro e não adversário,
mas isso é um problema de mentalidade antiga
e ideologia cristalizada.
Folha Dirigida - Quais são as principais
modificações ou reformas que poderiam
ser feitas para tornar o sistema de educação
do Brasil mais eficiente?
Antonio Luiz - A grande reforma me parece
a da mentalidade. Não basta modificar textos
legais, ainda mais com a freqüência
que é feito, se as mentalidades não
se alteram. Educação é tarefa
de todos e não é privilégio
de um partido ou corrente, não pode ficar
aprisionada a uma facção. Precisamos
erradicar o analfabetismo que já era uma
plataforma de Pedro Álvares Cabral, reforçar
cada vez mais e sempre o ensino fundamental, dar
consistência ao médio e arejar as
universidades. Se elas são públicas,
devem merecer as dotações indispensáveis
a sua prestação de serviços
ou terem autonomia para buscarem fontes alternativas
de financiamento. Ao mesmo tempo, também
devem prestar contas à sociedade que as
sustenta do que estão fazendo, mostrar
que pesquisas retornam em proveito da comunidade.
O setor privado, muito mais ágil, merece
a liberdade de inovar e experimentar, encontrar
na autoridade não o opressor, mas o companheiro
da viagem à procura da melhor educação.
É falsa a dicotomia entre público
e privado, ela apenas atende ainda aos interesses
mesquinhos de pequenos grupos e, infelizmente,
encastelados nas zonas do poder. A educação
é dinâmica e exige competência
e doação.
Folha Dirigida - Muito se fala da má
qualidade do ensino praticado no Brasil, desde
o ensino fundamental. O senhor, enquanto educador,
percebe alguma queda no nível de conhecimento
dos jovens que chegam às universidades?
Antonio Luiz - A questão não
me parece de conhecimentos porque os jovens de
hoje têm muito mais acesso a fontes de informação
do que os do meu tempo. Acredito que o problema
está na formação, esta sim
deficiente. Há uma total deterioração
de regras e costumes. As famílias, pressionadas
pelas necessidades econômicas, deixaram
de cumprir a sua função de transmitir
comportamentos adequados e atitudes dignas. A
mãe deixou o lar para trabalhar, os casais
transformaram a escola em depósito de crianças,
transferindo a responsabilidade de educar para
professores nem sempre bem preparados, sem sequer
fazer a cobrança. Também não
acompanham o estudo, não verificam o que
está sendo ensinado e somente reclamam
se, por acaso, a sua criança for reprovada.
Acho que o jovem reúne informações,
mas não tem modos, falta-lhe consciência
e responsabilidade, o que, obviamente, se reflete
no aproveitamento que conta ainda com a benevolência
de presuntivos mestres sem a devida formação.
Se o magistério é fraco, por conseqüência,
o ensino também o será e faltarão
ao aluno a orientação e o estímulo
devidos. Qualquer manual diz que o agente primordial
do ensino é o professor, assim todos os
esforços que visem melhorar o nível
devem, prioritariamente, tratar da formação
eficiente do mestre, que é o condutor do
jovem, que o influencia com bons ou maus exemplos,
que é o guia pelos caminhos e atalhos do
conhecimento.
Folha Dirigida - O MEC, por sua vez, tem investido
em políticas de avaliação
da qualidade do ensino, como o Enem e o Provão.
Como o senhor vê essa política? Ela
realmente rende frutos quanto à melhoria
da qualidade do ensino? Ao mesmo tempo em que
cobra qualidade, o MEC trabalha de forma substancial
pelo ensino no Brasil?
Antonio Luiz - Acho que qualquer instrumento
ou forma de avaliação é importante,
é como se deve trabalhar verificando os
erros e acertos, corrigindo, aprimorando. O Enem
retrata o ensino médio e o provão,
que deveria avaliar o superior, peca pelo descompromisso
do aluno. Sou favorável à idéia
da existência de uma nota mínima
de aprovação que constaria no histórico
para que o diploma fosse obtido. Se conjugados
o Enem com o provão, poderíamos
aferir o valor agregado, ou seja, o que o aluno
melhorou, adicionou, progrediu na sua formação,
demonstrando o esforço do estabelecimento.
Igualar os desiguais, como está sendo feito,
é cometer a suprema desigualdade. Os conceitos
melhores das universidades públicas derivam
do fato de seu aluno ser melhor: recebe ensinamentos
de outro nível, faz quatro, cinco refeições
por dia, viaja, já viu um livro, seus pais
são profissionais liberais. No momento,
existem as ferramentas, mas não se faz
bom uso delas, não se aproveitam os dados
e os indicadores que elas fornecem. Se um estabelecimento
tem desempenho baixo ele deve ser auxiliado para
reagir e melhorar e não ser punido. Repito
que o provão tem servido como slogan mercadológico,
para comparações que não
levam a nada. Auferir as deficiências é
meio para corrigi-las, não para condenar.
Assim, parece-me que tudo ficou pela metade, satisfizeram-se
com a intenção e não implementaram
o mais importante, a elevação da
qualidade. As avaliações demonstram
também o estado de penúria das instituições
públicas, em suas instalações
e equipamentos. Mesmo assim, o aluno tem conceito
A, comprovando a tese de que ele é
bom, não a universidade, que, além
de tudo, tem greves intermináveis. Se o
MEC é responsável por elas, cabe
ao ministério prover os meios suficientes
para que se ministrem boas aulas. Se elas estão
deterioradas, de quem a culpa? A resposta óbvia
demonstra, como diz a indagação,
que o MEC não trabalha de forma substancial
pelo ensino no Brasil.
Folha Dirigida - As instituições
de ensino superior brasileiras já utilizam
o Enem de forma adequada como alternativa de ingresso
ao vestibular? Esse processo tem sido bem conduzido
pelas universidades?
Antonio Luiz - O Enem transformou-se numa
forma de acesso que representa um avanço
para desmistificar o vestibular que, em épocas
passadas, era o monstro devorador e enchia os
consultórios dos psiquiatras. Adotar as
notas do exame de avaliação contribui
para diminuir a tensão e também
proporcionar uma clientela teoricamente mais bem
preparada, pelo menos é uma presunção
válida. De certo modo, é uma variante
do projeto Sapiens, que propunha essa avaliação
no decorrer dos três anos do segundo grau.
Também há o fato de que utilizar
o Enem, evitando o vestibular, é uma forma
de angariar alunos e evitar gastos. Sou favorável
a este uso desde que balizada uma média
razoável que permita o ingresso, dispensando
a prestação de provas.
Folha Dirigida - O ensino superior no Brasil
foi marcado, nos últimos anos, pela grande
expansão das instituições
particulares. Contudo, há muitos questionamentos
sobre a qualidade dos cursos oferecidos por muitas
dessas faculdades. Qual sua análise hoje
sobre a educação superior no Brasil?
Antonio Luiz - Se forem suprimidas as instituições
privadas, acaba o ensino superior no país,
já que elas atendem a cerca de 75% da demanda.
E a iniciativa particular é que tem competência
e agilidade para responder aos reclamos da sociedade.
Seria ótimo e desejável que o setor
público tivesse a mesma capacidade, mas,
infelizmente, como os fatos evidenciam há
muitos anos e há sucessivos governos, não
possui esse dom. Se a qualidade não é
boa, cabe à fiscalização
garantir um bom serviço. Além disso,
o mercado consegue selecionar, com propriedade,
os mais eficientes e competentes. A competição
sadia é sempre vantajosa e enseja a melhoria
constante, o aperfeiçoamento e a criatividade
fundamental à tarefa de ensinar. Pelo que
sei, José de Anchieta, nosso primeiro educador,
não era funcionário público.
Faço uma indagação desafiadora:
é melhor um ensino deficitário,
se for o caso alegado, ou nenhum ensino?
Folha Dirigida - Cada vez mais cedo, os universitários
são obrigados a ingressar no mercado de
trabalho, muitas vezes prejudicando o próprio
curso. Como o senhor vê essa realidade?
De que forma as universidades podem colaborar
para que os alunos possam prosseguir nesta jornada
dupla sem prejuízos?
Antonio Luiz - Há uma teoria educacional
que defende que o aluno para ter um aproveitamento
integral não pode trabalhar, só
deve estudar. É claro que isso seria o
ideal, mas a nossa realidade obriga o contrário,
em virtude das imensas dificuldades financeiras
com que se deparam as famílias. Por este
motivo, surgiram os cursos noturnos, destinados
exatamente àqueles que têm de ganhar
a vida e, ao mesmo tempo, precisam acumular conhecimentos
para progredir e conseguir profissões e
ocupações mais rendosas. O que as
universidades vêm fazendo, inclusive para
permitir um maior entrosamento com as empresas,
são programas de estágio destinados
a não só proporcionar algum rendimento,
como também dar resultado prático
ao que se aprende na sala de aula. Sempre achei
que os currículos, por outro lado, deveriam
se adaptar às condições do
alunado, ou seja, considerar as condições
dos alunos, sua faixa etária e experiências
profissionais. Lembro-me de argumentar, ao tratar
de profissionalização em nível
médio, que não havia qualquer sentido
em ensinar fecundação, na cadeira
de Biologia, a quem tinha cinco filhos: se lhe
falhasse a teoria, a prática evidenciaria
o conhecimento. No caso, deveria ser ensinado,
à época, a pílula. Deste
modo, entendo que falta uma melhor adequação
das lições ao dia-a-dia, uma adaptação
de currículos amarelecidos à realidade
sempre em evolução que nos cerca,
além de horários mais flexibilizados
para responder às necessidades do alunado.
Folha Dirigida - Como o senhor vê os
cursos seqüenciais? Eles são uma boa
alternativa para quem busca uma formação
superior mais rápida, barata e voltada
para as necessidades do mercado?
Antonio Luiz - Considero os cursos seqüenciais
a única boa proposta da lei do MEC. É
uma idéia inovadora de reflexos imediatos,
satisfazendo a uma clientela desejosa de aprimorar
conhecimentos e que não pode desperdiçar
tempo. Eles representam a cópia de modelos
norte-americanos, alemães, franceses e
italianos, que se impuseram pela alta credibilidade
e qualidade na oferta de cursos pinçados
e derivados de um campo de saber, atendendo a
uma função ou ocupação
específica. Além disso, o seqüencial,
com o retorno aos bancos universitários,
pode despertar o retorno da vontade de estudar
e, se assim lhe ocorrer, o aluno prosseguirá
em busca do diploma completo de terceiro grau.
Acredito que os seqüenciais reúnem
todas as condições de se tornarem
uma experiência de êxito que acolherá
os egressos do nível médio, abrindo-lhes
novas oportunidades, incrementando a qualificação
pessoal e a das empresas interessadas em aprimorar
os seus recursos humanos. Repito e sublinho: se
há algo de bom no emaranhado de normas
que nos são impostas, são os cursos
seqüenciais. Aplaudo a iniciativa e tenho
certeza de que já têm e terão
um papel preponderante na formação
eficiente e de qualidade que tanto almejamos e
da qual somos tão carentes.
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