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Foi-se o tempo em que os moradores do interior,
ao concluir o ensino médio e almejar uma
faculdade, se viam na obrigação
de se mudar para as grandes cidades, geralmente
capitais, na busca pela tão sonhada universidade.
Na opinião de William Faviere, reitor da
Universidade Severino Sombra (USS), em Vassouras-RJ,
poder estudar no interior hoje em dia é
um grande avanço. Carlos Renato Alves,
reitor da Universidade Católica de Petrópolis
(UCP), ressaltou que isso expressa a oportunidade
do exercício da
cidadania e a consolidação da democracia.
Os dois reitores também apontam como instrumento
de suma importância para o cenário
educacional a educação a distância.
Carlos Renato ressalta que, devido ao Brasil ser
um país de grandes diferenças socioeconômicas
e educacionais, o ensino a distância será
o mecanismo pelo qual o enorme contingente de
alunos que estarão concluindo o ensino
médio, nos
próximos anos, terá acesso ao ensino
superior. William Faviere crê que esta modalidade
de ensino será,
indiscutivelmente, um dos mais importantes instrumentos
de educação num futuro não
muito distante. Para provar isso, o reitor da
USS diz que os próprios alunos mostrarão
a competência adquirida no curso.
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Carlos Renato Alves de Souza - Reitor
da Universidade Católica de Petrópolis
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FOLHA DIRIGIDA- O que pode ser feito para
democratizar o acesso ao ensino superior e para
que ocorra melhoria na qualidade dos cursos oferecidos?
Carlos Renato - Democratizar sugere oportunidade
igual para todos. Um forte investimento governamental
nos pilares da sociedade - saúde e educação
- gerará, como conseqüência,
a mudança do perfil da nossa sociedade,
e dará aos jovens igualdade de condições
quando atingirem as portas das universidades.
A escola básica bem equipada e seus professores
dignamente remunerados pode ser o início
de uma série de ações pró-ativas
de mudança, e que devem contar com a ajuda
de todos os segmentos da sociedade. A boa formação
básica conduz seus atores a exigirem, cada
vez mais, a melhoria e qualidade na sua formação,
com reflexo em toda cadeia educativa.
FOLHA DIRIGIDA - O ensino a distância
poderá vir a ser um instrumento para mudar
os indicadores sobre escolaridade no país,
ou ainda tende a demorar um pouco para ser aceito
pela sociedade?
Carlos Renato - Em vários países
já temos muitos colégios e universidades
que operam inteiramente a distância. Por
exemplo, a Open University (Inglaterra), fundada
em 1971, é uma instituição
com cerca de 160 mil alunos nas mais variadas
áreas do ensino, e que utiliza basicamente
o papel impresso e o correio como formas de contato
com seus alunos. Atualmente, as novas tecnologias
da informação têm dado um
impulso poderoso aos cursos a distância.
No Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
(LDB) prevê esta modalidade de ensino. Além
disso, a explosão da internet tem incentivado
fortemente as universidades a se prepararem para
oferecer cursos a distância. No entanto,
como estamos muito no início dessa revolução,
há ainda poucas iniciativas sólidas
e concretas. Como todos nós sabemos, O
Brasil é um país de grandes diferenças
socioeconômicas e educacionais entre estados
e regiões. Assim, o ensino a distância
será o mecanismo pelo qual o enorme contingente
de alunos que estarão concluindo o ensino
médio, nos próximos anos, terá
acesso ao ensino superior. Um obstáculo
importante à utilização da
EAD é o preconceito contra os cursos a
distância. Outro grande obstáculo
é que a EAD é um empreendimento
caro, além de encontrar grande resistência
na estrutura tradicional do ensino, que é
muito voltado às atividades presenciais.
A tendência dos seres humanos, em geral,
é reagir às mudanças; sempre
foi assim, até que se conheçam efetivamente
os benefícios que elas trazem.
FOLHA DIRIGIDA - Qual a sua análise
sobre o Provão?
Carlos Renato - O Provão, mesmo tão
questionado pela sociedade em geral, veio trazer
benefícios consideráveis à
educação do país. No entanto,
seus parâmetros deveriam ser revisados,
de modo a adequá-los a nossa realidade.
Verificamos que um grande problema do Provão
é a ausência de comprometimento por
parte do aluno, bastando comparecer à prova,
sem que nada seja cobrado em termos de resultados
individuais. Ora, como julgar um curso apenas
por uma turma de formandos?
FOLHA DIRIGIDA - O que representa para o Estado
a interiorização do ensino superior?
Carlos Renato - Oportunidade do exercício
da cidadania e a consolidação da
democracia. A disponibilidade de formação
no interior, evitando o êxodo para as grandes
cidades, apresenta reflexos sociais consistentes.
O incentivo do poder público no interior,
em educação superior e cursos médios
profissionalizantes, fixará o homem no
seu ambiente, diminuindo suas necessidades sociais
e trazendo o desenvolvimento regional. As IES
podem diversificar a oferta de programas que atendam
às necessidades locais, praticando através
desses programas a pesquisa e a extensão
diretamente junto à comunidade.
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William Faviere - Reitor da Universidade
Severino Sombra (USS)
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FOLHA DIRIGIDA- O que pode ser feito para
democratizar o acesso ao ensino superior?
William Faviere - Se democratizar o acesso
ao ensino superior significar eqüidade ao
acesso, o primeiro passo seria garantir a universalização,
com alta qualidade, do ensino básico. Alcançada
esta meta, e com a escolaridade garantida em todas
as faixas econômicas, o próximo passo
seria aumentar o número de vagas no ensino
superior, pois, cumpridas, mesmo que parcialmente,
as metas do Plano Nacional de Educação,
a demanda será explosiva. Haverá,
ainda, a necessidade do financiamento do aluno
para que se evite a evasão escolar. As
políticas que estão ocupando a pauta
de discussões, como cotas de vagas a determinados
grupos sociais, apenas tangenciam o problema.
O fato de se pensar sobre minorias menos favorecidas
já significa um avanço. Porém,
certamente esta não é solução
definitiva para um país multirracial, de
um povo com alto grau de miscigenação.
FOLHA DIRIGIDA - Qual a sua análise
sobre o Provão?
William Faviere - Apesar de suas imperfeições,
já amplamente conhecidas de todos, não
podemos negar que o ENC (provão) trouxe
a sua contribuição. Não conheço
nenhuma Instituição de Ensino Superior
que não tenha, de alguma forma, se mexido.
Desde simples reuniões do corpo docente
para análise crítica de seu conteúdo
até alterações no seu modelo
pedagógico, todos acabaram se envolvendo.
Uma outra coisa, e bem diferente, é se
ele é capaz de traduzir a situação
do Ensino Superior brasileiro. De forma alguma
ele serviu para essa avaliação,
pois, por exemplo, alguns estudos têm demonstrado
que determinados cursos, mesmo que não
tenham obtido uma boa nota, foram
capazes de agregar conhecimentos a seus alunos,
às vezes até mais consistentemente
que outros com melhor avaliação
no provão.
FOLHA DIRIGIDA - Em 2001 o MEC baixou portaria
tornando obrigatória e eliminatória
a redação para ingresso no ensino
superior e estabelecendo o limite máximo
de dois vestibulares por ano. Qual é o
impacto dessas medidas sobre as universidades?
William Faviere - A portaria tornando obrigatória
e eliminatória a redação
foi, na realidade, uma medida reacional e emocional,
instigada pela aprovação de um analfabeto
que foi treinado a fazer um determinado tipo de
prova utilizada num processo seletivo. Medidas
reacionais e/ou emocionais raramente são
acertadas. Deixando de lado as emoções
e reações, é inquestionável
o valor da redação como instrumento
de seleção. Quanto à limitação
a dois vestibulares por ano, não vejo qualquer
impacto que decorra dessa decisão.
FOLHA DIRIGIDA - O que representa para o Estado
a interiorização do ensino superior?
De que forma as instituições de
ensino podem colaborar para o desenvolvimento
desses municípios?
William Faviere - Acho um grande avanço
para o estado brasileiro. Só posso ver
com bons olhos. Quantos jovens, moradores dos
mais profundos rincões, sem condições
de se deslocar para um grande centro, onde habitualmente
- e somente - se encontravam as universidades,
se beneficiaram dessa interiorização.
Levar educação de alto nível
às populações interioranas
é uma das formas de democratizar o ensino.
Sociedades plenamente escolarizadas exercitarão
mais dignamente e adequadamente sua cidadania.
A contribuição desta interiorização
para o desenvolvimento dos municípios é
enorme. Parcerias, ações conjuntas,
estudos epidemiológicos, pesquisas de interesse
regional, ações na área de
saúde, estratégias urbanas, a proximidade
da Academia e o poder político local influenciando
nas decisões, enfim, um sem-número
de atitudes, podem contribuir para um crescimento
planejado e ordenado.
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