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A questão orçamentária
tem sido uma das preocupações mais
constantes das instituições de ensino
superior do país. Como a pressão
para o ingresso cresce em ritmo muito mais acelerado
do que os recursos para manutenção
dos cursos e programas de pesquisa nas universidades,
em boa parte dos casos é preciso encontrar
alternativas à falta de capital.
"É preciso aliar o orçamento
que vem através do estado e da esfera federal
com a capacidade das agências de fomento
de financiar os projetos de pesquisa e à
capacidade que as universidades têm de se
organizar e serem agressivas na busca desse capital",
defende a reitora da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro, Nilcéa Freire.
Este ano, a reitora recebeu a incumbência
de dirigir uma outra instituição
de destaque no cenário educacional do Rio:
o Conselho Estadual de Educação.
Ela ressaltou a necessidade de desobstruir a pauta
do "grande cartório" em que se
transformou o colegiado e a necessidade de transformar
as sessões em espaços de debate
da educação no estado.
"Outra medida importante é integrar
mais o conselho estadual com o Conselho Nacional
de Educação (CNE)", lembra
Nilcéa Freire.
Folha Dirigida Qual deveria ser, na
opinião da senhora, a prioridade do próximo
governo com relação à Uerj?
Nilcéa Freire Temos cada vez
mais convicção de que os programas
e projetos para a universidade não podem
ficar dependentes das conjunturas políticas
e governamentais. Os governos mudam, mas temos
de caminhar para que existam políticas
para o ensino superior permanentes e que tenham
continuidade. Então, nossa expectativa,
qualquer que seja o governo no plano estadual
e, principalmente, no plano federal, que trata
da educação superior de uma maneira
geral, é que haja um diálogo permanente
entre governo e universidade. Especificamente
no plano estadual, esperamos que os instrumentos
que possibilitam o exercício pleno da autonomia
universitária sejam, efetivamente, implementados.
Folha Dirigida Quais instrumentos seriam
estes? A senhora acredita que a Uerj, hoje, já
goza plenamente desse direito da autonomia?
Nilcéa Freire Com relação
a outras universidades estaduais e, principalmente,
em comparação com as federais, a
Uerj possui até um grau de autonomia maior.
Por exemplo, temos liberdade de, em existindo
vagas, abrir concursos para professor, técnico-administrativo,
o que nas federais não acontece. Os reitores
dependem de autorização do Ministério
da Educação (MEC), que passa pelo
Ministério do Planejamento. Este é
um exemplo de que temos um grau de autonomia maior.
Folha Dirigida E com relação
à questão dos recursos financeiros?
Nilcéa Freire A execução
orçamentária e financeira é
um dos aspectos que têm impactado muito
na universidade. Um exemplo é a compra
de equipamentos e materiais importados. Precisamos,
a cada mês, pedir autorização
para liberação de orçamento
para que estes materiais sejam importados. Isto
ocorre mesmo no caso em que estes recursos são
captados pela própria universidade e, portanto,
não são oriundos do estado e sim
de projetos de pesquisa de professores, financiados
por agências de fomento nacionais ou internacionais.
Folha Dirigida Quais conseqüências
traz esta burocracia?
Nilcéa Freire Falta de agilidade
que, no caso de uma economia com o dólar
flutuante, pode levar à perda de recursos
financeiros. Com a demora na liberação
do orçamento, muitas vezes o dólar
sobe e o capital que se tinha para importar um
equipamento não será mais suficiente.
Precisará haver complemento. Há
toda uma discussão sobre essa questão
da autonomia. Existem correntes que defendem que
a autonomia não necessita de regulamentação
por ser um dispositivo da Constituição
federal e, assim, ser auto-aplicável. Eu
também acho que a autonomia é um
dispositivo constitucional, mas é preciso
que se explicitem os instrumentos administrativos
para pôr em prática essa autonomia.
Outra expectativa que temos é que os programas
de investimento na universidade permaneçam.
Atualmente, estamos inseridos no Programa de Apoio
às Entidades Estaduais, financiado pela
Faperj (Fundação Carlos Chagas Filho
de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de
Janeiro), e que nos propicia, anualmente, recursos
da ordem de R$4 a R$7 milhões para aplicar
em pesquisa. Nossa esperança é de
que os recursos deste ano, que ainda não
foram liberados, sejam disponibilizados ainda
em 2002.
Folha Dirigida Como o corte de 30%
na verba da Uerj, feito este ano pelo governo
do Estado, repercutiu no funcionamento da universidade?
Nilcéa Freire Quando iniciou
o atual governo, houve um decreto da governadora
cortando 30% do custeio de todo o estado. Não
foi algo dirigido especificamente à Uerj.
Mas, negociamos com a secretaria de controle e
com a compreensão, inclusive da governadora,
esse corte, no caso da Uerj, foi revertido. Houve
um entendimento do papel estratégico que
a universidade tem no estado e que nós
estamos em um processo de continuidade. É
evidente que temos apertado um pouco mais o cinto,
mas nada na Uerj deixou de funcionar nesse período.
Realizamos o Uerj Sem Muros, com uma mobilização
de quase 1,5 mil estudantes apresentando a produção
feita em função dos projetos de
seus professores.
Folha Dirigida Quando a senhora diz
que este corte de verbas foi revertido, isto significa
que não houve prejuízo dos recursos
que estavam inicialmente planejados para a universidade?
Nilcéa Freire No que estava
planejado orçamentariamente para a universidade,
do corte previsto de 30%, acabamos o reduzindo
para em torno de 7%. Ou seja, mantivemos e resguardamos
tudo que tivesse impacto na atividade-fim da universidade
e fizemos alguns ajustes administrativos.
Folha Dirigida Qual é o orçamento
planejado para a Uerj em 2002?
Nilcéa Freire Está em
torno de R$450 milhões, sendo que, de recursos
do Tesouro, estão previstos R$280 milhões.
Mas isto estava previsto, sendo que não
é o que será, efetivamente, executado.
A estimativa que temos é de que deverá
ser executado até mais do que o que estava
orçamentariamente previsto porque, com
relação à despesa de pessoal,
por exemplo, o orçamento é feito
no ano anterior e não inclui os aumentos
salariais previstos. Só na área
de pessoal houve um reajuste de 28%.
Folha Dirigida Ainda na questão
dos recursos, a situação crítica
das universidades públicas do país
esbarra na escassez de verbas para a Educação.
Então, qual é a saída para
essas universidades?
Nilcéa Freire É importante
que tenhamos clareza sobre as atividades-fim da
universidade, que são a graduação,
a pós-graduação strictu-sensu
e a infra-estrutura básica para o desenvolvimento
da pesquisa e da extensão. Estas são
obrigações do estado e a universidade
pública não pode abrir mão
do financiamento básico de suas atividades.
Tenho dito que a educação e o desenvolvimento
científico e tecnológico deveriam
ser questão central no debate sucessório.
Isto porque a necessidade de termos uma participação
cada vez mais qualificada no sistema de apoio
ao desenvolvimento científico e tecnológico,
com um financiamento efetivo, define e embasa
a possibilidade da construção das
diferentes políticas públicas existentes
ou que devam existir no país.
Folha Dirigida Há formas alternativas
aos recursos públicos de custear as atividades
de pesquisa?
Nilcéa Freire Os recursos básicos
têm de vir mesmo dos cofres públicos.
Mas é evidente que não se imagina
que a pesquisa da universidade seja financiada,
exclusivamente, com recursos do governo. Por isso,
é preciso aliar o orçamento que
vem através do estado e da esfera federal
com a capacidade das agências de fomento
de financiar os projetos de pesquisa e à
capacidade que as universidades têm de se
organizar e serem agressivas na busca desse capital.
Outras estratégias têm sido buscadas
pelas universidades. Alguns exemplos são
atividades de prestação de serviços,
captação de recursos junto a empresas
públicas e privadas, através da
contratação de projetos de consultoria.
Até porque entendemos que isso é
uma dimensão da extensão universitária.
Folha Dirigida A Uerj tem como um de
suas marcas a ênfase nas atividades de extensão
e o relacionamento estreito com a comunidade.
Qual a importância desses dois aspectos
para uma instituição de ensino?
Nilcéa Freire Entendemos que
a extensão universitária tem três
dimensões, que nós buscamos incentivar
aqui na Uerj. Uma dimensão é a da
transferência de tecnologia, de conhecimentos
da universidade para a sociedade. A outra dimensão
é a contribuição que a universidade
pode dar para a construção da cidadania,
através da interação comunitária
direta em projetos que permitam aos alunos contato
com a comunidade, que são também
um vetor de treinamento para os estudantes. E
a outra dimensão, acreditamos ser estratégica
na relação da universidade com a
sociedade, é a reflexão que produz
alternativas de políticas públicas.
Folha Dirigida Ao assumir o Conselho
Estadual de Educação, uma de suas
propostas foi fazer do órgão um
espaço de discussões e proposições
para a política educacional do estado.
Este objetivo está sendo alcançado?
Nilcéa Freire Esse é
um objetivo de médio prazo. O conselho
ainda tem uma característica extremamente
cartorial. Baseando suas atividades na autorização
do funcionamento de cursos, no reconhecimento
de equivalência de estudos, ele acaba cumprindo
pouco este papel de ser um espaço de discussão
da política educacional do estado. Para
isto é necessário desobstruir a
pauta desse grande cartório que é
o conselho. É uma questão de mudança
de cultura, que não acontece por decreto.
Folha Dirigida A senhora acredita que
as decisões do CEE/RJ e mesmo as poucas
discussões que ocorreram, até agora,
sobre a política educacional do estado
têm tido boa repercussão junto à
sociedade? Como fazer para que o dia-a-dia do
conselho seja mais visível?
Nilcéa Freire É preciso
que o conselho, em primeiro lugar, tenha uma relação
mais estreita com as diferentes instâncias
de representação social, com os
estabelecimentos de ensino. E é isto o
que vislumbramos através da Conferência
Estadual de Educação e da nossa
participação, eu espero, ativa,
na construção do Plano Estadual
de Educação.
Folha Dirigida Em vários momentos,
foi colocado que sua atuação como
presidente do CEE/RJ representava uma chance de
o colegiado discutir mais as questões ligadas
à Uerj. Tem existido essa participação?
Nilcéa Freire Eu acredito que
sim. Não só com a Uerj, mas com
a Uenf também, porque, a partir da LDB,
as universidades estaduais integram o sistema
estadual de ensino e o conselho é quem
legisla sobre as universidades do estado. Portanto,
é preciso que o conselho assuma esse papel
e que se prepare para isto também.
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