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Pouco se fala sobre isso nas universidades. Pouquíssimo
se fala sobre isso nos cursos universitários
de Pedagogia aqueles que deveriam ser os
primeiros a se posicionar a respeito. Há
uma portaria do MEC que diz: as instituições
de ensino superior do sistema federal poderão
introduzir, na organização pedagógica
e curricular de seus cursos reconhecidos, a oferta
de até 20% das disciplinas que, em seu
todo ou em parte, utilizem método não
presencial, ou seja, a distância. Esta portaria
(nº2.253, de 18/10/2001) completa agora um
ano e é preciso convocar os professores
não só os universitários
ao debate sobre suas habilidades com o
ambiente de aprendizagem online, uma vez que a
educação a distância em papel
perdeu seu trono para a internet.
A educação via internet vem se
apresentando como grande desafio para o professor,
acostumado ao modelo clássico de ensino
da sala de aula presencial. São dois universos
distintos no que se refere ao paradigma comunicacional
dominante. Enquanto a sala de aula tradicional
está vinculada ao modelo unidirecional
um-todos, que separa emissão
ativa e recepção passiva, a sala
de aula online está inserida na perspectiva
da interatividade, entendida aqui como colaboração
todos-todos e como faça
você mesmo operativo. Acostumado ao
modelo da transmissão de conhecimentos
prontos, o professor se sente pouco à vontade
no ambiente online interativo, onde os aprendizes
podem ser co-autores da comunicação
e da aprendizagem.
Prevalece ainda hoje o modelo tradicional de
educação baseado na transmissão
para memorização, ou na distribuição
de pacotes fechados de informações
ditas conhecimento. Há cinco
mil anos a escola está baseada no falar-ditar
do mestre e na repetição do que
foi dito por ele. Paulo Freire, maior educador
brasileiro, criticou intensamente esse modelo
educacional. Ele dizia: a educação
autêntica não se faz de A para B
ou de A sobre B, mas de A com B. Porém,
não é fácil sair desse paradigma
da transmissão para a interatividade própria
do digital, da internet, a não ser violentando
a natureza comunicacional da nova mídia,
repetindo o que faz na sala presencial.
No ambiente online o professor terá que
modificar sua velha postura, inclusive para não
subutilizar a disposição à
interatividade própria do digital online.
No lugar da memorização e da transmissão
centradas no seu falar-ditar, o professor propõe
a aprendizagem aos estudantes modelando os domínios
do conhecimento como espaços abertos à
navegação, manipulação,
colaboração e criação.
Ele propõe o conhecimento em teias (hipertexto)
de ligações e de interações,
permitindo que os alunos construam seus próprios
mapas e conduzam suas explorações.
De apresentador que separa palco e platéia,
emissor e espectador, o professor passa a arquiteto
de percursos, mobilizador das inteligências
múltiplas e coletivas na experiência
da co-criação do conhecimento. E
o aluno, por sua vez, deixa a condição
de espectador, não está mais submetido
ao constrangimento da recepção passiva,
reduzido a olhar, ouvir, copiar e prestar contas.
Assim, ele cria, modifica, constrói, aumenta
e torna-se co-autor da aprendizagem.
Aliás, o aluno aprendeu com o controle
remoto da TV, com o joystick do videogame e agora
aprende com o mouse. Esse trajeto resulta em migração
da recepção passiva, para uma nova
recepção que evita acompanhar argumentos
lineares que não permitem interferência,
agregação, modificação.
O professor precisa se dar conta de que isso significa
emergência de uma atitude menos passiva
diante da mensagem. E que essa atitude vem exigir
uma nova sala de aula presencial ou online, onde
transmissão e decoreba estejam
fora de lugar.
Para não violentar esse aluno e também
a internet, o professor precisa aprender com o
webdesigner e não mais com o apresentador
de TV. Enquanto esse velho conhecido é
o narrador que atrai o espectador de maneira mais
ou menos sedutora para sua récita, o informata
constrói uma teia de territórios
abertos a navegações e dispostos
a interferências, a manipulações.
Para não subutilizar a natureza comunicacional
da internet, para não subestimar a disposição
comunicacional do aluno, o professor precisa perceber
que a tela da TV é espaço plano
de irradiação que só permite
mudar de canal, enquanto a tela do computador
é espaço tridimensional, que permite
adentramento e manipulação dos conteúdos.
Precisa perceber, enfim, que a tela da TV é
para assistir e a tela do computador é
para interagir, e que assim emerge uma nova ambiência
comunicacional, já definida como cibercultura.
É preciso se colocar a par da cibercultura,
isto é, da atualidade sócio-técnica
informacional e comunicacional, definida pela
codificação digital (bits), isto
é, pela digitalização que
garante o caráter plástico, fluido,
hipertextual, interativo e tratável em
tempo real do conteúdo, da mensagem. A
codificação digital permite manipulação
de documentos, criação e estruturação
de elementos de informação, simulações,
formatações evolutivas nos ambientes
ou estações de trabalho do tipo
Macintosh, Windows, Linux, concebidas para criar,
gerir, organizar, fazer movimentar uma documentação
completa com base em textos, grafismos, sons,
imagens, vídeos e números.
O professor pode lançar mão dessa
disposição do digital para potencializar
sua sala de aula online. Ao fazê-lo, ele
contempla atitudes cognitivas e modos de pensamento
e de valores que se desenvolvem juntamente com
o crescimento da cibercultura. Ou seja: contempla
o novo espectador, a geração digital.
Por não perceber a nova ambiência
comunicacional que emerge com o digital, o professor
tenderá a manter em seus cursos via internet
o mesmo modelo de ensino em que os conteúdos
são distribuídos em sites educacionais
estáticos, ainda centrados na transmissão
de dados, desprovidos de mecanismos de interatividade,
de criação coletiva, de aprendizagem
construída. Como diz o pesquisador de EAD
online Paulo Blikstein, do MIT, o paradigma permanece
o mesmo do ensino tradicional. O professor é
o responsável pela produção
e pela transmissão do conhecimento. Assim,
os cursos pela internet acabam considerando que
as pessoas são recipientes de informação,
e a educação continua a ser, mesmo
na tela do computador online, o que ela sempre
foi: repetição burocrática
ou transmissão de conteúdos empacotados.
Se não muda o paradigma, a internet acaba
servindo para reafirmar o que já se faz.
É preciso não subutilizar a internet.
Para além do site estático, feito
com pacotes de informação e de exercícios
a serem assimilados e cumpridos, é preciso
investir na construção de arejados
ambientes virtuais de aprendizagem, que disponibilizem
ferramentas (interfaces) que permitam a participação
e a colaboração dos aprendizes na
construção da comunicação
e do próprio conhecimento.
Os conteúdos são disponibilizados
em forma de hiperlinks que permitem ao aprendiz
transitar aleatoriamente por fotos, sons, filmes,
textos, gráficos etc, e ainda interferir
em conteúdos necessitando para isso
da colaboração do web-roteirista
ou do instructional designer. Assim, ele vai além
da lógica unívoca da mídia
de massa, democratizando a relação
do usuário com a informação
e gerando um ambiente conversacional que não
se limita à lógica da distribuição.
Isso, associado a interfaces fáceis como
fórum, chat, mural, galeria de produções,
banco de dados abertos à manipulação
e à intervenção livre e plural
dos alunos e do professor, pode fazer a diferença.
Diante do computador online, o usuário
transita da condição do espectador
da TV, para a condição de sujeito
operativo, participativo. O professor pode inquietar-se
bem com essa transição e aí
encontrar inspiração para reinventar
sua autoria na sala de aula online, e também
na sala de aula presencial e infopobre.
*Marco Silva é autor do livro Sala
de aula interativa - aulainterativa@msm.com.br
- e professor da Uerj.
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