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O diretor-presidente da Fundação
Vunesp, Alvanir de Figueiredo, acredita que o
ensino privado precisa de um maior controle, além
das atuais exigências do MEC. Na sua opinião
é relevante a ampliação e
a melhoria da capacidade de absorção
no ensino público. Em entrevista à
FOLHA DIRIGIDA, Figueiredo afirma que a economia
e seu comportamento refletem também na
educação, principalmente nas universidades
paulistas, onde os percentuais do ICMS não
são mais suficientes para cobrir os gastos.
A seguir, a entrevista:
Folha Dirigida - Nos últimos anos,
com a facilidade do acesso ao ensino superior,
através do ingresso pelas notas do Enem
e avaliações continuadas, muitas
instituições, principalmente privadas,
estão deixando de lado o vestibular tradicional.
Por outro lado parece estar proliferando cada
vez mais o número de instituições
de nível superior na iniciativa privada.
Como o senhor avalia esta situação
como um todo? Acredita que deveria haver um maior
controle por parte do MEC ou, na sua opinião,
isto já está devidamente regularizado?
Alvanir de Figueiredo - O aumento populacional
do país e, em especial, de algumas regiões
do território nacional, além de
outras causas, têm como inquestionável
conseqüência o aumento do contingente
de secundaristas à espera do ingresso na
universidade. A universalização
do ensino médio pressiona o ensino superior.
Ao lado da pouca agilidade do setor público
na ampliação das vagas universitárias
postou-se o setor privado, que percebeu também
a oportunidade de crescimento, inclusive com conseqüentes
lucros pelo investimento. A existência do
vestibular vincula-se à escassez de vagas
na universidade e à necessidade de uma
busca de qualidade do elemento humano ingressante.
Se a oferta for farta, a busca poderá ser
menos intensa. Se a oferta for exígua,
a busca pode ser perversa e, na seleção,
pode-se jogar a criança fora com
a água do banho, isto é, desperdiçar
qualidade que poderia ser aproveitada. A Unifesp
teve 124 candidatos por vaga no curso de Medicina.
Será que só tinha um capaz de fazer
Medicina? Jogou-se metade fora. Se tivéssemos
100 vagas, daí 24 sairiam. Daí talvez
fosse uma seleção menos perversa.
O crescimento do ensino superior é um fato,
principalmente na segunda metade do século
vinte, com menor intensidade nos anos 80. O ensino
privado cresceu com muito mais vigor deixando
o ensino público para trás nessa
corrida, que diminuiu em termos relativos. Hoje
apenas 6% das vagas oferecidas no Estado de São
Paulo são provenientes do ensino público
estadual e federal. Acredito ser de relevância
a preocupação em ampliar a melhoria
e a capacidade de absorção do ensino
público ao lado do controle de todo o ensino,
o que tem avançado com as exigências
do MEC no que diz respeito às condições
de oferta e padrões de qualidade exigidos.
Creio que com essas exigências pode-se dizer
que também o ensino privado está
merecendo controle. É de se esperar que
a própria competição salutar
entre instituições privadas leva
à disputa pela qualidade e pelo nome, estabelecendo
um autocontrole, além daquele do Estado.
Folha Dirigida - As instituições
privadas estão oferecendo cada vez mais
cursos superiores com duração curta,
de até dois anos. Qual a sua opinião
quanto a isso?
Alvanir de Figueiredo - Acredito na universidade
como geradora de conhecimento e sua transmissão.
Seja curso de graduação plena (longos),
sejam curtos, sequenciais, de extensão,
aperfeiçoamento, especialização
e outros, todos devem caber no modelo universitário.
No Brasil, a tecnologia está chegando às
universidades agora com a Fatec. Realmente estes
cursos podem ser bons. O problema é a adequação
às necessidades da universidade e da sociedade
e a inibição de conflitos corporativistas.
Os cursos seqüenciais podem, ao meu ver,
preencher lacunas na formação genérica
de cursos tradicionais, evitando emprego de tempo
suplementar e o desinteresse desenvolvido pelo
esforço a mais e a demora na formação.
Especificamente quanto aos cursos de dois anos,
percebe-se que o ensino privado avançou
com mais agilidade e ele é um fato. Deve
tirar proveito da inovação, que
me parece válida, ou abortá-la para
que não se faça enganosa frente
aos que a procuram.
Folha Dirigida - Em termos de universidades,
distintamente públicas e privadas, como
o senhor avalia atualmente as condições
de ensino? Quais problemas atuais, problemas históricos
e perspectivas para os próximos anos?
Alvanir de Figueiredo - Historicamente, o
ensino universitário tem sido elitista
e sua análise mostra o caráter seletivo,
que faz que muitos, ainda hoje, se espantem com
o acesso crescente à universidade, de populações
até então alijadas do processo.
Segundo a professora Leonor Tanuri, os indicadores
quantitativos mostram que estamos avançando
com maior cobertura de ensino superior, maior
número de ingressantes e de formados, maior
número de docentes com titulação
de mestre e de doutor, maior número de
cursos noturnos e maior número de matrículas
em pós-graduação. Entretanto,
cada vez mais precisamos ajustar nosso ensino
superior à população diversificada
que a ele tem acesso. O ensino médio há
muito deixou de ser um ensino de elite, para ser
um ensino distributivo para todos os setores ocupacionais,
e o número de seus egressos tem aumentado
bastante. Um ensino superior diversificado precisa
receber essa população, os pobres,
os negros e mulatos que estão num estágio
socioeconômico diferenciado. Depois da abolição
da escravatura, esses negros foram jogados nas
favelas.
Folha Dirigida - A Vunesp é uma instituição
que atua diretamente não apenas na preparação
de vestibulares, mas também na área
de pesquisas educacionais. Qual trabalho que o
senhor considera de grande relevância que
está sendo desenvolvido atualmente nesta
área?
Alvanir de Figueiredo - A Vunesp, na verdade,
atua na área dos exames vestibulares, dos
concursos públicos, das avaliações
e ainda promove direta ou indiretamente pesquisas
não só educacionais. Para a pesquisa
científica, dentro da Unesp, direciona-se
mais a Fundação para o Desenvolvimento
da Unesp (Fundunesp), cabendo à Vunesp,
no caso de pesquisa acadêmica, o que esteja
envolvido com o processo de seleção
ou que deva ser estimulado, segunda decisão
de seu Conselho Curador. A Vunesp promove pesquisa
e dá até bolsas. A Fundunesp paga
ou contribui para que as pessoas viajem para fazer
pesquisas, participação em congresso.
A Fundação tem estimulado, sempre
limitada por seu orçamento, atividades
de docência, pesquisa e extensão
universitária da Unesp. De suas pesquisas
próprias há a publicação
de um boletim de pesquisa que se encontra no número
15, abordando a Língua Inglesa nos vestibulares
da Unesp. Um trabalho que eu gostaria de destacar
foi o produzido pela professora doutora Florence
Kerr Correia, do departamento de psiquiatria,
estudando drogas que têm estado presentes
na vida dos jovens. Nessa pesquisa, a professora
usou a própria Unesp como base para sua
pesquisa. Foi produzida uma série de folhetins
explicativos sobre todas as drogas, direcionados
aos jovens.
Folha Dirigida - Quais as principais dificuldades
enfrentadas na área de pesquisas como um
todo? Existem subsídios, uma verba regular
e incentivo por parte do poder público?
Alvanir de Figueiredo -O problema do financiamento
da pesquisa confunde-se com o do financiamento
da educação, já que há
uma ligação muito forte entre pesquisa
e educação, para dizer o mínimo.
A manutenção da própria universidade
pública no Estado de São Paulo depende
de um percentual do ICMS, cujo montante flutua
com a arrecadação. Incentivo há,
sempre menor do que o anseio dos pesquisadores.
A Fapesp (Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo) e o Cnpq
(Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico) são exemplos de órgãos
financiadores, que se aliam a outros públicos
ou privados, além de agências que
atuam na formação e aperfeiçoamento
do pesquisador.
Folha Dirigida - O Brasil vive atualmente
um momento delicado do ponto de vista econômico,
com muita influência em todos os setores
de metas traçadas pelo FMI para que seja
mantida uma boa relação entre o
país e seus credores. O senhor acredita
que esta delicada situação econômica
vem influenciando diretamente na área de
Educação? Como?
Alvanir de Figueiredo - A economia e seu comportamento
se refletem, seguramente, também na educação.
Não é por simples acaso que o desenvolvimento
econômico é acompanhado pelo desenvolvimento
científico, artístico ou educacional,
mesmo nos regimes políticos diversos. A
educação é tanto causa quanto
conseqüência do desenvolvimento econômico.
Desde os tempo de Colônia temos aprendido
a conviver e a reagir às vicissitudes de
nossa vida econômica e vamos continuar nessa
aprendizagem. Ainda sob o tema, penso que temos
que buscar novas fontes de receita para a educação.
No caso exemplificado das universidades paulistas
preocupa o fato de que os percentuais atuais da
receita do ICMS não são mais suficientes
e há limites na capacidade do Estado em
aumentar progressivamente tais percentuais.
Folha Dirigida - Como o senhor avalia a remuneração
atual do professor e o que poderia ser feito?
Alvanir de Figueiredo - Não é
fácil equacionar as justas pretensões
salariais dos servidores com as disponibilidades
orçamentárias e as disposições
políticas para a concessão de pagamento
adequado e digno dos servidores e funcionários
da educação em particular e da administração
municipal, estadual e federal, em geral. Nem sempre
um reajuste é devido apenas ao docente
e o acerto pode ser inviabilizado. Em particular
o professor ganha mal e por esse, digamos, detalhe,
passa a qualidade de ensino e todo o seu potencial
de crescimento e desenvolvimento. Nos gastos com
educação entram todos os níveis
de ensino e sem novas fontes de financiamento
é problemática a solução,
mas o que fazer em um país com um salário
mínimo de menos de setenta dólares?
A crença em que o futuro será sempre
melhor é necessária. E preciso é
lutar por ele.
Folha Dirigida - Para finalizar, o senhor
gostaria de deixar alguma mensagem aos professores
em geral em comemoração ao dia do
professor?
Alvanir de Figueiredo - Embora não
suficiente, desejo cumprimentar os profissionais
do ensino e em particular os professores em seu
dia, 15 de outubro. Assim agindo, faço
um cumprimento a mim mesmo, como professor que
sou, lembrando sempre que continuaremos como agentes
no processo educacional, pois se alguém
aprende é porque alguém ensina.
E continuaremos a resistir a mesmismos, a agir,
a criar, apesar das vicissitudes enfrentadas.
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