|
Em entrevista exclusiva à FOLHA DIRIGIDA,
a Coordenadora do Departamento de Pesquisas Educacionais
da Fundação Carlos Chagas e membro
do Conselho Estadual de Educação
de São Paulo, Bernadete A. Gatti, critica
os baixos salários na área educacional
e defende a progressão continuada, implantada
no ensino estadual no decorrer da última
administração, além de abordar
outros assuntos considerados polêmicos,
como as escolas de lata, a remuneração
dos professores e os incentivos financeiros promovidos
pela administração pública
para a área de pesquisas. Veja, a seguir,
a entrevista:
Folha Dirigida - Em época de eleições
para o governo do Estado, um dos pontos mais criticados
pelos candidatos de oposição tem
sido a progressão continuada. Afirmam que
o modelo promove aprovação automática,
mesmo sem assimilação dos conteúdos.
O próprio secretário de Educação,
Gabriel Chalita, já considerou a possibilidade
de rever alguns pontos do modelo. Na opinião
da senhora quais os pontos frágeis deste
modelo e o que pode ser feito para que seja aprimorado?
Bernadete Gatti - Em primeiro lugar eu gostaria
de fazer uma consideração de que
essas análises são muito superficiais
e não são baseadas em dados extensos
e sim baseadas na opinião de jornalistas
sobre um ou dois casos de crianças que
estavam na quinta série sem saber ler.
No entanto esses casos foram divulgados um ano
antes da implantação da progressão
continuada, ou seja, esses problemas vieram do
sistema antigo. Há um aproveitamento um
tanto problemático de um evento esporádico
de um aluno dentre milhões. Esclarecido
isto, eu diria ainda que existe um ponto que ninguém
considera: os professores estão nas escolas
trabalhando quatro, cinco horas por dia com as
crianças de 1ª a 8ª séries.
Dizer que as crianças não aprendem
nada é dizer que os professores não
estão trabalhando, ou seja, que esses profissionais
são inconseqüentes. É uma acusação
aos professores e não ao sistema. Nesse
sentido eu penso que os professores deveriam se
sentir bastante ofendidos. Acho isso uma ofensa
a todos os professores do Estado de São
Paulo. É dizer que eles são vagabundos
indiretamente. A função dele no
trabalho é ensinar e isso independe de
fazer provas, de reprovar ou de punir. Ensinar
é ensinar. O problema não está
na progressão continuada, o problema está,
muitas vezes, em uma discussão ideológica
com muito pouco fundamento em pesquisas.
Folha Dirigida - Quais os principais reflexos
que a progressão continuada causou na Educação
de São Paulo, desde que foi introduzida,
além da diminuição da evasão
escolar e da repetência?
Bernadete Gatti - É uma introdução
recente, não é possível ter
uma idéia grande. Até me assusta
uma discussão sobre uma política
tão novíssima. A progressão
continuada não tem nem quatro anos. Eu
acredito que pesquisas estão sendo feitas,
mas é preciso um tempo maior para avaliação.
Agora, com relação à diminuição
da evasão escolar eu acho que é
o fator mais importante. Manter a criança
na escola é importantíssimo. A convivência
na escola forma hábitos sociais. A escola
não existe somente para ensinar conteúdo,
mas também para ensinar modos de viver,
cooperação, disciplina, participação
e ainda, oferece oportunidades. O aluno aprende
uma série de coisas que não existem
na rua. A reprovação nós
já vimos, só põe os alunos
para fora das escolas. Os dados que nós
tínhamos na década de 80 eram dramáticos.
Nem 30% dos alunos chegavam na 4ª série
do primeiro grau. Onde estavam essas crianças?
Fora da escola, na rua. Imagina hoje, com o volume
de crianças que nós temos, que quantidade
seria essa. Nós devemos voltar a reprovar
sistematicamente essas crianças? Não.
Nós temos que ensiná-las e mantê-las
nas escolas. Com isso eu penso que o dado mais
importante nesse sistema é a diminuição
brutal da evasão. Outros efeitos? Eu também
acho que os professores tiveram que repensar um
pouco suas práticas, isso porque, eles
estão confrontados com uma realidade pedagógica
diferente. A progressão continuada leva
o professor a refletir mais coletivamente. Ele
tem que trabalhar mais com seus colegas, portanto
quebra um pouco do individualismo que imperava
nas escolas.
Folha Dirigida - Em artigo incluso na publicação
"Textos do Brasil número 7" a
senhora fala sobre o crescimento da população
em fase escolar, que não vem sendo acompanhado
pela quantidade de educadores. Na sua opinião
quais os motivos e o que pode ser feito para reverter
esta situação?
Bernadete Gatti - Essa minha afirmação
é em relação a Brasil, porque
no estado de São Paulo nós temos
um número até excedente de professores
na maioria das áreas, com exceção
de Física, Química e Matemática.
Mas de modo geral de 1ª a 4ª séries,
aqui no Estado, nós estamos bem cobertos,
mas no Brasil não. É nesse sentido
que programas especiais de formação
de professores se fazem necessários. Eu
conheço alguns, como por exemplo, o Pró-Formação
do Ministério da Educação
que está formando professores no Norte,
Nordeste e Centro-Oeste do país e até
agora já são cerca de 50 mil professores
que não tinham nem o ensino fundamental
e hoje possuem a titulação de ensino
médio. Em São Paulo e Paraná
existem programas para formação
em nível superior, isso porque a formação
em nível médio já é
garantida. Em Minas existe um projeto para formação
em nível universitário oferecido
pela Secretaria da Educação aos
seus professores. Na minha opinião este
é um caminho mais que necessário.
Um país que não tem professores
é um país a pé.
Folha Dirigida - Nos últimos meses
muito se falou sobre as escolas de lata, notadas
tanto na rede estadual quanto na prefeitura. Fale
a respeito, com ênfase em como este tipo
de instalação pode prejudicar o
andamento pedagógico.
Bernadete Gatti - Acho que é um pouco
óbvio que uma sala que é um conteiner
não é o melhor lugar para se ter
aula. Essa situação é um
problema que vejo da seguinte forma: se ficar
o bicho pega, se correr o bicho come. Se não
der uma solução de emergência
as crianças ficarão sem escolas.
Deste modo cria uma solução rápida,
coloca contêiners para as crianças
terem aulas. O ideal seria outra solução,
mas as populações em cidades como
São Paulo são muito móveis.
Você prevê uma construção
de uma escola em um lugar, depois de três,
quatro anos a população não
está mais ali. Mudou, foi para um outro
bairro, surpreendendo essa região com uma
demanda que não era esperada. Essa situação
requer soluções de emergências
e alternativas que considero válidas. O
que não pode acontecer é tornar
essa alternativa permanente. Eu sou favorável
que se dê aulas até embaixo de uma
árvore, desde que a criança receba
algum ensino, tudo é valido. Acho que essa
solução de usar contêiner
ou qualquer alternativa que utilize material como
zinco é péssima, pois é muito
quente, a ventilação é problemática.
Acho que deveria ser o último recurso.
Mas o poder público não pode lançar
mão desta solução sempre.
Atualmente existem formas de construção
muito rápidas, mas quem está no
governo conhece a dificuldade que são as
licitações, que geralmente levam
meses e meses, as vezes um ano e as crianças
não podem ficar sem escola durante esse
período.
Folha Dirigida - O que a senhora acha que
pode ser feito no sentido de promover maior valorização
profissional dos professores?
Bernadete Gatti - Eu acho que falta por exemplo
a mídia se empenhar numa discussão
positiva a respeito do papel do professor. A mídia
só critica, é sensacionalista. Geralmente
procura um problema que aconteceu em uma dentre
as mais de 8 mil escolas e mostra uma casa de
um professor. Eu acredito que a mídia poderia
ajudar a construir a figura do professor de uma
maneira melhor, uma representação
melhor. Em segundo lugar eu acho que deveria ser
melhorada a estrutura de carreira de professor.
Folha Dirigida - Na sua opinião quais
são os principais problemas atuais e históricos
do ensino superior público no Brasil?
Bernadete Gatti - Os problemas são
diversos, como por exemplo a estrutura curricular
que é muito ruim. Ela obriga o aluno com
16, 17, 18 anos fazer uma escolha definitiva de
carreira. Na Universidade de São Paulo
por exemplo, se o aluno faz um vestibular para
Politécnica, que é muito difícil
de entrar, e, depois de um tempo descobre que
não era a carreira desejada e sim de Matemática,
é preciso fazer outro vestibular, isso
é um absurdo. Nós temos uma concepção
muito fragmentada e muito profissionalizante.
Os meus colegas da Usp vão achar ruim,
mas eles têm uma visão muito profissionalizante,
eles pensam na formação do físico,
do químico, do engenheiro, eles não
pensam em universidade. Em geral, nas universidades
de outros países o aluno escolhe uma área
para formação, com muitas opções
em disciplinas e depois de dois anos ele se encaminha
em uma direção, ele se candidata
para uma determinada carreira. Portanto a universidade
é concebida como universidade mesmo, um
lugar em que o aluno vai desenvolver sua cultura.
Nós tentamos aqui esse método com
os cursos básicos, mas com a nossa cabeça
de gavetinha não dá. Enquanto nós
tivermos cabeça de gaveta não será
possível ter uma estrutura de ensino superior
boa. Outro problema é que aqui proliferam
faculdades isoladas, há faculdade de direito,
de engenharia, de isso e de aquilo... Necessariamente
o alunado já se dirige para uma profissão,
o que fecha suas opções. Um segundo
problema que eu vejo é a forma de contratação
dos professores -tirando as universidades consideradas
boas, que têm carreira, onde o professor
tem horas no seu contrato para atender alunos,
para preparação de aulas e para
pesquisa- a maioria das universidades, em grande
parte privadas, têm professores horistas
que são pagos pelas aulas que oferecem.
São pouquíssimos os professores
que recebem algumas horas/aulas para fazerem pesquisa
e isso é uma vergonha.
Folha Dirigida - Para finalizar, a senhora
gostaria de deixar alguma mensagem aos educadores
em comemoração ao dia do professor?
Bernadete Gatti - A minha mensagem é
a seguinte: valorizem a si mesmo! Acho que a pessoa
que se valoriza acaba impondo essa valorização
socialmente. Não se deixe intimidar pelos
críticos de todas as naturezas, como políticos,
acadêmicos das universidades que costumam
falar mal dos professores, pesquisadores e outros.
Eu acho que o professor deve se autovalorizar,
deve ser um profissional que se define como um
profissional e se coloca como um profissional,
para ser bem respeitado. É isso o que desejo
que os professores façam.
|