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Escola: um fator de inclusão e também de cidadania

Segundo ele, a escola precisa ser um texto no contexto social
para dar aos alunos e professores um bom pretexto


Frei Betto diz que a criança precisa passar oito horas por dia na escola

 

Educação é assunto que tem assento cativo nas ações de quem faz da vida um instrumento em defesa dos direitos humanos. Carlo Alberto Libânio Christo, mais conhecido como frei Betto, é um deles, e mostra com clareza e objetividade os níveis estreitos desta relação. Tanto que este ano entregou à Ática (editora) os originais de suas memórias escolares, cujo conteúdo foi compilado no livro “Alfabetto”, recentemente distribuído às livrarias.

Nesta entrevista à Folha Dirigida, frei Betto fala do novo livro — em verdade, uma autobiografia a partir dos bancos escolares —, das relações entre escola e cidadania, da concorrência “deseducadora” da televisão, e recomenda ao futuro ministro que acabe com os analfabetismos — real e funcional — que mantêm nas trevas da exclusão nada menos que 45 milhões de brasileiros.

Cristão da Ordem Dominicana, frei Betto, 59 anos, tem 48 livros publicados (15 traduzidos para outros idiomas), é jornalista, antropólogo, filósofo e teólogo. Junto a Lonardo Boff, compõe o quadro dissidente da Igreja Católica que fundou as bases da Teologia da Libertação. Foi consagrado intelectual do ano (1986) pela União Brasileira de Escritores e homenageado pela Fundação Kreisley, de Viena, por seus trabalhos em defesa dos direitos humanos.

Folha Dirigida - O senhor acaba de lançar um livro de memórias, usando a escola como referência. O que o levou a escrever sobre o tema ?
Frei Betto -
A vontade que eu tinha era de retratar minha militância na política estudantil e um pouco da história do Brasil, tendo como fio condutor os anos que passei na escola. Como eu trabalho muito com educação popular e tenho dado assessoria a vários projetos educacionais, então pensei em fazer esse resgate através dos meus estudos, desde o jardim de infância até a universidade.

Folha Dirigida - Sua origem é de classe média alta. O senhor estudou em escolas públicas?
Frei Betto -
Eu quase só estudei em escola pública. A não ser o período do ginásio, quatro anos de ginásio e dois anos aqui no Rio de Janeiro, quando eu terminei o colegial. O resto, o jardim de infância, o primário e depois a primeira parte do colegial na escola pública.

Folha Dirigida - O senhor trata da escola atual no seu livro?
Frei Betto -
Não. Alfabetto serve de espelho para a escola atual. A impressão é que ela vai se mirar ali e se autocriticar. E ver também no que ela avançou, não avançou, em relação àquela época.

Folha Dirigida - Quais são os valores de seu tempo de estudante que a escola moderna deveria reproduzir hoje, na sua opinião?
Frei Betto -
Eu acho que havia maior seriedade quanto ao papel da educação. Os professores ganhavam melhor, não tinham que fazer tanta rotatividade em escolas, tinham mais tempo para se preparar, havia mais disciplina por parte dos alunos e o ensino público tinha qualidade. Nada disso acontece mais hoje.

Folha Dirigida - O senhor acha que o salário do professor é decisivo para a qualidade do ensino?
Frei Betto -
Muito, porque dá tranqüilidade ao professor para se aprofundar em suas pesquisas. E naquela época havia um outro fator que ajudava muito a melhorar a qualidade do ensino: não havia televisão.

Folha Dirigida - Ainda vivemos uma realidade de muitos excluídos da escola. O senhor acha que a luta pela inclusão é mais importante que a reivindicação pela qualidade do ensino?
Frei Betto -
Eu acho que não dá para separar as duas coisas, porque não adianta ter uma escola que é puro projeto quantitativo. Então é preciso, ao mesmo tempo, fazer da escola um fator de inclusão, mas também um fator de formação da cidadania de qualificação; senão acontece o que eu vejo em muitas escolas de periferia: os alunos passam ali quatro horas, no ensino fundamental, de 11 às 15 horas, e na verdade são três, se você descontar o recreio, a merenda. E depois, segundo a Unicef, passam quatro horas por dia vendo televisão. Então é muito ruim isso.

Folha Dirigida - O senhor acha que a escola em horário integral poderia reverter este quadro?
Frei Betto -
Claro! Eu acho que o Brasil tem que ter oito horas por dia de escola, como na Europa. Se não for assim, não dá para competir com a televisão. Não tenho nada contra a televisão, mas é o conteúdo dessa televisão aberta que existe no país, que é um conteúdo muito deseducativo.

Folha Dirigida - Paulo Renato ficou oito anos como ministro da Educação. O senhor acha que, neste caso, a continuidade foi positiva para o Brasil?
Frei Betto -
Não tenho nada contra o fato de alguém ficar oito anos. Só que eu acho que, depois de oito anos, o MEC fez muito pouco, frente ao que deveria e poderia fazer. Um exemplo: uma alta autoridade do MEC, que eu não vou citar o nome, me desafiou a apresentar uma professora da rede pública que ganhasse no país menos de R$350 por mês. Eu fiz uma lista: nome, cidade, escola, carga horária, qualificação. E aí essa mesma pessoa disse: “É, de fato...”. Eu falei: “Olha, infelizmente a resposta que vocês estão me dando era a que eu esperava.” Na prática, a teoria é outra.

Folha Dirigida - Concorda que a escola seja ambiente adequado para o desenvolvimento de programas sociais, como o Bolsa-Escola, por exemplo?
Frei Betto -
Muito, porque eu estou envolvido no projeto “Jovem Voluntário Escola Solidária”, do Faça Parte Instituto Brasil Voluntário, e a gente está procurando tornar a escola um centro de formação cidadã. Esse é o projeto. E eu acho que a escola precisa ser um texto situado no contexto social, para dar aos alunos e aos professores o pretexto para uma ação mais eficaz.

Folha Dirigida - O senhor acha que o desenvolvimento de valores humanos tem espaço na escola? De que forma isso pode ocorrer?
Frei Betto -
Mas se a escola não fizer isso ela fecha as portas...

Folha Dirigida - Ela faz isso? O que vê como observador?
Frei Betto -
Algumas fazem, outras não, depende muito, mas não dá para dizer que não faz.

Folha Dirigida - A escola, em seu modelo atual, forma para a vida ou para ganhar a vida?
Frei Betto -
Eu concordo que a escola está muito atrelada à concepção de mercado, mão-de-obra qualificada, mas nem todas. Não posso generalizar e jogar pedras em todas, porque eu conheço algumas iniciativas que são positivas. Mas são exceções, infelizmente.

Folha Dirigida - Qual medida é imprescindível que o futuro ministro da Educação tome?
Frei Betto -
Acabar com 15 milhões de analfabetos e reduzir os 30 milhões de analfabetos funcionais.

 
 
 
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