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Quando o investimento em Educação não evita a crise

Professora fala de discriminação racial e aborda também a crise
que desestabilizou um país que sempre investiu na Educação


Professora brasileira, em Córdoba, analisa a crise universitária do país

 

A professora de Literatura Terezinha Juraci Machado da Silva está há seis meses na Argentina, como professora convidada do Brasil para lecionar Língua Portuguesa na Universidade Nacional de Córdoba, a mais antiga instituição de ensino superior latino-americana, fundada em 1614. Ela participa do primeiro convênio que o Ministério das Relações Exteriores brasileiro realiza com aquele país, para o ensino do Português como língua estrangeira.

Especializada em Literatura Africana, Terezinha desenvolveu estudos em Angola, Miçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe, a convite da União dos Escritores Angolanos; em 1999 e 2000 atuou como professora convidada da Medgar Evers College of the City University, de Nova York; e representou o Brasil como observadora dos processos eleitorais da África do Sul e da Palestina, por indicação do World Council of Churches, de Genebra.

Nesta entrevista à Folha Dirigida, Terezinha Juraci fala do impacto da crise argentina no meio universitário, do crescente interesse daquele país pelo conhecimento da Língua Portuguesa, de sua experiência como única professora brasileira na tradicionalíssima Universidade Nacional de Córdoba (UNC) e do preconceito ainda existente nos meios acadêmicos contra os intelectuais negros.

Folha Dirigida — Quais os reflexos da crise na universidade?
Terezinha Juraci Machado da Silva —
Desde que cheguei, há seis meses, a crise político-econômica-financeira argentina agravou-se a olhos vistos, permitindo-me perceber, como brasileira recém- chegada ao país, o quanto a falta de credibilidade dos governantes e dos diversos setores do Estado vêm atingindo sensivelmente a população em geral, que expressa de todos os modos possíveis e imagináveis, através de piquetes, panelaços, obstruções de ruas, discursos em praça pública e manifestações de toda ordem, sua indignação e vergonha pelo descrédito e má figura de seu país no exterior. A fome, o desemprego, a desvalorização da moeda, a dolarização a que compulsoriamente todos estão submetidos, têm muitos reflexos nos meios universitários, uma vez que a desmotivação tem sido uma constante entre os estudantes, que muitas vezes abandonam a universidade, na expectativa de encontrarem fora de seu país uma nova possibilidade de vida.

Folha Dirigida — Há um certo consenso nas academias, no sentido de que países que investem em educação superam as crises econômico-políticas com maior facilidade, ou não são vulneráveis a elas. Se esta tese está correta, o que houve com a Argentina? O país constitui-se numa exceção?
Terezinha —
Na verdade, a educação argentina, extremamente voltada para a erradicação do analfabetismo, foi um grande modelo de país investidor em educação. Livrarias, centros de estudos e toda sorte de programas culturais para a população é realmente admirável, principalmente na capital portenha. A crise argentina, segundo os periodistas, críticos e também os estudantes com quem tenho falado, deve-se principalmente à corrupção que se instalou nos sucessivos governos, levando o país ao caos econômico, sem que o povo pudesse interferir, pois foram pegos de surpresa com fechamento de bancos e criação de moedas paralelas ao peso, entre outras tantas situações imprevisíveis.

Folha Dirigida — A presença de brasileiros tem sido crescente em universidades froteiriças da Argentina. Fala-se que foram criadas com a intenção de atrair estudantes estrangeiros. Conhece os cursos? Pode-se dizer que sejam cursos específicos para alunos brasileiros?
Terezinha —
A presença de brasileiros nas universidades fronteiriças deve-se à modalidade de ingresso, totalmente diferenciada do Brasil, que exige o vestibular. Porém, isso não significa que os cursos tenham uma qualidade inferior ou que foram criados para atrair brasileiros. Muito pelo contrário, os brasileiros é que procuram essas universidades para se livrarem do vestibular. As exigências acadêmicas são severas e a qualidade dos cursos é incontestável, tanto em Córdoba, como nas fronteiriças.

Folha Dirigida — Você leciona Português. É grande o interesse de argentinos por Língua Portuguesa?
Terezinha —
O interesse dos argentinos por Língua Portuguesa nas diferentes áreas é singificativo. Tanto é verdade que há uma grande procura por professores nos cursos particulares, e de alunos, nos oficiais, para formação de professores de Língua Portuguesa. Quanto ao nível, nem todos os cursos oferecidos, fora os das instituições oficiais, são de boa qualidade. Em geral, são ministrados por professores não nativos, sem formação acadêmica e com sérias dificuldades fonéticas, e também de conhecimento da língua e da cultura brasileiras. Alguns desses profissionais viveram no Brasil por algum tempo, mas não possuem a devida habilitação. O curso de Professorado da Universidade Nacional de Córdoba veio exatamente para atender à formação de profissionais competentes, oficialmente credenciados para o exercício profissional. Também está se desenvolvendo nas escolas um projeto-piloto de escolas bilíngües, apoiado e incentivado pelo Consulado Geral do Brasil em Córdoba, através do cônsul Paulo Alberto Soares da Silveira, com a principal finalidade de incentivar o uso da Língua Portuguesa na Argentina e nos países do Mercosul.

Folha Dirigida — Quem são seus alunos? Há estrangeiros de outras nações?
Terezinha —
Meus alunos na Universidade Nacional de Córdoba são argentinos, professores, advogados, jornalistas que já moraram, ou não, no Brasil, ou que fazem o curso de formação de professores de Português como Língua Estrangeira, alguns já lecionando o idioma em escolas do estado ou em cursinhos. A maioria, fundamentalmente, deseja o diploma para ter mais uma possibilidade de emprego. Também tenho alunos brasileiros — quatro, ao todo — residentes há alguns anos em Córdoba, que não possuem formação universitária no Brasil e querem oficializar-se como professores de Língua Portuguesa.

Folha Dirigida — O que significa para a senhora lecionar em Córdoba, uma das mais antigas e mais tradicionais universidades do mundo?
Terezinha —
Lecionar na Universidade Nacional de Córdoba para mim está sendo um orgulho muito grande, não apenas pela oportunidade profissional, como também pela honra de estar representando meu país numa das universidade mais antigas da América Latina. Além disso, como mulher e negra, sinto-me como que resgatando para a comunidade negra do Brasil as oportunidades, a dignidade e o respeito que ao longo dos séculos nos foram negados. Penso que esse fato também pode ser extensivo ao povo negro da Argentina, hoje praticamente desaparecido.

Folha Dirigida — Há um mito de rivalidade entre argentinos e brasileiros. Ao deslocar-se para esse país, sentiu-se em algum momento pressionada em conseqüência dessa suposta rivalidade?
Terezinha —
Em momento algum, ao longo desses seis meses em Córdoba, senti qualquer indício dessa suposta rivalidade.

Folha Dirigida — O meio acadêmico, em geral, é preconceituoso?
Terezinha —
Por mais contraditório que possa parecer, o meio acadêmico é o lugar onde se cultivam os diferentes tipos de preconceito. É o espaço onde mais de perto se pode sentir e perceber o preconceito intelectual sofrido pelos intelectuais negros de todo lugar. Em geral, o pesquisador negro e suas pesquisas, sejam em que área for, não gozam do mesmo prestígio e credibilidade outorgada aos seus colegas não negros.

Folha Dirigida — Pelo fato de ser mulher e negra, sofreu algum tipo de preconceito em sua vida acadêmica, seja no Brasil ou fora do país?
Terezinha —
Nós, negros e negras, em qualquer espaço ou área em que estejamos atuando, vimos há séculos sendo discriminados pelo preconceito. Portanto, ser discriminada pelo fato de ser mulher e negra já é lugar-comum em nossa trajetória. Estamos permanentemente lutando contra isso, onde quer que estejamos. Assim sendo, minha vida acadêmica confirma a regra. Nos últimos oito anos trabalhei numa instituição universitária privada, em Porto Alegre, onde em diversas situações fui alvo desse famoso, mas sempre negado e escamoteado preconceito por parte de alguns colegas, alunos, inclusive, e também de elementos importantes da direção. O que me espanta é a hipocrisia com que os racistas mascaram atos preconceituosos, através da exclusão sutil do intelectual negro, mesmo em atividades acadêmicas coletivas, onde sua contribuição poderia ser considerada e agregada à dos demais. No meu caso específico, mais por ser negra, os saberes e conhecimentos que colocava à disposição não tinham significação teórica para a maioria dos elementos do grupo. Valiam mais as suas teorias, sugestões e os seus estudos predominantemente brancos. Minhas defesas acadêmicas quase sempre eram vistas como atitudes preconceituosas e racistas, pois só falava e entendia coisas de negro, e a eles não interessava pesquisar ou refletir sobre esses assuntos. A universidade plural, a diversidade não existia. A proposta estava nos PCNs (Planos Nacionais Curriculares), mas quando sugeria ações concretas, não era pertinemte para aquele momento, fica para mais tarde. Na verdade, por temer o desconhecido não queriam expor sua ignorância sobre assuntos que não sabiam manejar, tampouco desejavam se defrontar com seus preconceitos. A idéia poderia crescer, era uma ameaça. Isso entendi um pouco melhor já aqui em Córdoba. Quando souberam que estava sendo indicada pelo Ministério de Relações Exteriores, colegas parceiros e alguns dos racistas camuflados me telefonaram dando os parabéns..

Folha Dirigida — Seu currículo mostra seu interesse acadêmico por questões da África, sobretudo no campo literário. Por isso, gostaria de saber sua opinião sobre a possibilidade de virmos a ter um papa negro, em conseqüência do crescimento do catolicismo no continente africano. Dom Lucas Moreira Neves, recentemente falecido, chegou a ser cogitado para o cargo, por ser mulato. Que significado isso teria para o mundo?
Terezinha —
Sinceramente, não acredito que ainda neste milênio possamos ter um papa negro. Em que pese a igreja católica ter pedido perdão publicamente pela escravidão e a presença da pastoral do negro seja uma forma positiva de integração e reconhecimento dessa luta negra, o caminho ainda é muito longo, embora já tenhamos conquistado muitos espaços importantes. Porém, se esse milagre acontecer, a repercussão e importância em nível mundial poderão ser comparadas à eleição de Mandela na África do Sul.

Folha Dirigida — Cresce no Brasil a tendência de reservar vagas nas universidades públicas para os afrodescendentes. Gostaria de ouvir sua opinião sobre isso. Gostaria que abordasse, também, a questão da auto-estima dos que, favorecidos pela medida, entram para a universidade sabendo que estão lá não por mérito intelectual, mas por política de governo.
Terezinha —
Temos que começar por algum lugar. Talvez essa não seja a melhor maneira, porém alguma coisa precisava ser feita. Certamente haverá pontos que precisarão ser revistos nesta proposta de ação afirmativa. Mesmo assim, o importante é que a discussão está sendo feita com e pela comunidade negra de todo país. Somos os porta-vozes de nossas próprias necessidades e reflexões. O mérito intelectual sempre esteve presente nas instâncias de discussão e elaboração da proposta. Este item é imprescindível para a auto-estima do cidadão negro.

Folha Dirigida — O que os argentinos, ou os acadêmicos argentinos, pensam sobre o ensino no Brasil?
Terezinha —
O que tenho observado e ouvido, por parte de meus colegas e alunos da universidade, é sobretudo a admiração e prestigio que esse segmento atribui ao ensino no Brasil.

Folha Dirigida — O que experiências educacionais populares de países como São Tomé e Príncipe podem nos orientar e servir de espelho para a América Latina?
Terezinha —
Países africanos de língua oficial portuguesa como São Tomé e Príncipe, e outros do continente africano, que neste momento estão empenhados na erradicação do analfabetismo, ressalvadas suas especificidades e dificuldades históricas, principalmente por serem nações recentemente independentes — menos de 50 anos — merecem servir de modelo a qualquer país que tenha por meta a eqüidade e a justiça social.

Folha Dirigida — Quais as diferenças básicas no ensino da literatura nas nações onde desenvolveu trabalhos acadêmicos?
Terezinha —
Os países africanos de língua oficial portuguesa têm uma literatura fundada nos anseios de libertação e identidade nacional, bem como na recuperação da tradição oral. O ensino é baseado primordialmente nestes elementos, na valorização, homenagem e respeito aos heróis nacionais. É uma literatura ainda jovem, se comparada à produção brasileira, argentina ou européia. Seguem seu próprio modelo estético, sem, no entanto, estarem seus escritores alheios aos cânones que, por seu turno, servem de modelo para suas experîencias literárias, como é o caso do Brasil, onde escritores são influenciados por autores, como Guimarães Rosa e Manuel Bandeira, entre outros. A literatura desses países africanos retrata a cultura e a tradição que vêm do povo e é destinada a ele. É uma literatura quase desconhecida, que transita pouquíssimo em outros países, inclusive no Brasil. Tem sérias dificuldades de publicação, devido aos graves problemas econômicos e políticos, que quase sempre culminam em guerras internas. A Literatura Brasileira tem uma variedade incrível de autores e de publicações. Possui um trânsito mundial, portanto, conhecida e reconhecida em toda parte, assim como a produção literária argentina. Eis algumas diferenças que devem ser consideradas quanto ao ensino da Litertura nos diferentes países.

 
 
 
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