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Assistir ao filme ou assistir o filme? Depende.
Pode até causar estranheza, mas foi assim
mesmo que o gramático Evanildo Bechara
respondeu à pergunta. Há anos tachado
de polêmico pelos críticos que não
concordam com suas idéias, Bechara é
avesso a essa história de português
brasileiro e português de Portugal
e descarta a popular tese de crise no idioma
que acalora discussões em mesas-redondas
de universidades brasileiras e lusitanas.
A crise é da cultura das pessoas
que falam a língua, sentencia. Bechara
vai buscar um ponto final para essa conversa lá
em 1536, numa definição de Fernão
de Oliveira, o primeiro a gramaticalizar o português
que nós herdamos. A língua
é o que os falantes fazem dela, repete.
Mas, como assim? Bechara lembra da polêmica
do imexível do ex-ministro
Antônio Magri. Fizeram o maior alarde
porque não encontraram a palavra no dicionário.
Esqueceram a potencialidade da língua,
que nada mais é do que um reflexo sociocultural
das comunidades. Se pegarmos a morfologia de impagável,
imutável, o imexível
do Magri foi e sempre será perfeitamente
possível, atesta.
Não entendeu ainda? O certo e o errado
na língua portuguesa, para Bechara, constituem
uma equação muito relativa. Para
o gramático, principalmente os estudiosos
devem ser uma espécie de poliglotas da
língua, que está recheada de modalidades
e variantes, entre linguagem culta, coloquial,
regional ou padrão. É preciso
saber como usá-las, explica Evanildo
Bechara.
Sou contra esses professores que aprisionam
o aluno numa só modalidade, se a língua
admite duas ou mais construções.
O que falta no estudo da língua portuguesa
é atenção à teoria
da linguagem. Afinal, já diziam os lógicos:
distinguir é conhecer. Para quem
pensa que o imortal pára por aí,
ledo engano. Bechara compara o sistema gramatical
ao DNA e lança mão até da
Teoria de Darwin aquela do uso e do desuso
que a gente aprende nas aulas de Biologia
para explicar a evolução da língua.
Aos que consideram a Língua Portuguesa
uma das mais difíceis do mundo, Bechara
tem resposta na ponta da língua, sem trocadilhos:
Em primeiro lugar, nós não
conhecemos todas as línguas do mundo. Dessa
forma, dizer que é a língua mais
difícil do mundo já é uma
pressuposição que leva ao engano.
Basta dizer que temos aproximadamente seis mil
línguas no mundo e, dessas, cerca de duas
a três mil estão gramaticalizadas.
Se você não gramaticaliza uma língua,
se não a coloca em sistema, não
há como saber qual é a sua dificuldade.
Autor de uma gramática que é considerada
por muitos uma verdadeira Bíblia da Língua
Portuguesa moderna, Bechara acha que a lingüística
sofre, atualmente, a ausência de especialistas.
Isso faz que se abra um espaço para
que apareçam pessoas, às vezes,
até ditando regras contraditórias
às oficiais, como é o caso da ortografia.
Aí, o jornal resolve abolir o trema. Mas
a ortografia vigente no Brasil exige o trema.
Então, cria-se um conflito, analisa.
Vamos colocar, então, os manuais de redação
e estilo de jornais na berlinda? Longe disso.
Para Bechara, esses manuais prestam um bom serviço
quando eles repetem a lição da tradição
lingüística. Mas, quando eles se afastam
dessa tradição, eles vão
criar uma nova tradição, que vai
conflitar com a tradição oficial.
Se esses manuais fossem escritos por quem
de direito, que seriam os especialistas - você
não vê, por exemplo, um sapateiro
escrevendo um livro de receitas -, eles seriam
muito mais úteis. Como a língua
todo mundo fala, todo mundo pensa que sabe. E
como pensa que sabe, começa a deitar regras,
sentencia.
E os jornalistas, como ficam nesse meio? Muitos
professores, e até os PCNs, como se chamam
os novos parâmetros curriculares, defendem
a tese de que o texto que deve ser levado para
a sala de aula é o texto jornalístico.
Eu acho que é um empobrecimento da
língua, dispara o gramático.
Isso não significa, porém, que ele
seja contra o uso desse tipo de texto para fins
de avaliações ou aulas. Eu
acho que dentro da sala de aula nós devemos
ter todos os textos - os textos jornalísticos,
os textos de propaganda, os livros que ensinam,
como manuais, inclusive, o texto literário.
Quando você vai levar um texto para a sala
de aula, é como se estivesse levando uma
peça para exposição. É
algo que precisa ter qualidades que sirva de modelo
a quem quiser seguir aquilo, diz.
Avesso a estatísticas e pesquisas para
medir o nível de cultura do país,
Bechara acha que o problema do Brasil não
é a qualidade do texto, mas de quem faz
o texto. Nós temos bons jornalistas,
bons romancistas, bons cronistas. Hoje em dia
a poesia no Brasil está vivendo um momento
excepcional. Mas nossa cultura está em
baixa. Mas este não é um problema
só nosso, não. É uma coisa
global, decreta, dando como exemplo os programas
veiculados na televisão, como Ratinho,
Gugu, Big Brother. Se você prestar
atenção, esses programas são
cópias de programas de países do
Primeiro Mundo.
Na sua opinião, essa falta de cultura é
uma das causas para que o ensino acabe sendo nivelado
por baixo. Nós temos essa tendência
de valorizar o estrangeiro e prejudicar o nacional,
ou, pelo menos, de menosprezar o nacional. Mas
estamos vendo no futebol, no tênis, no automobilismo,
na música, há sempre um brasileiro
que se destaca - até na Nasa. E isso, apesar
de todas as dificuldades que nós encontramos,
destaca.
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