|
O mercado editorial é dos que mais
crescem no Brasil. A última pesquisa divulgada
pela Câmara Brasileira do Livro revela que
o faturamento do setor em 2000 foi de R$ 1,657
bilhão, com 334 milhões de exemplares
vendidos, não incluídas as vendas
para o Governo, que também cresceram a
partir de programas como o Plano Nacional do Livro
Didático (PNDL), e de iniciativas regionais,
especialmente em estados como São Paulo,
Ceará e Paraná, cujos governos investiram
na aquisição de livros paradidáticos
para ampliar a performance de leitura de seus
estudantes.
O que este crescimento tem refletido no segmento
educacional? Qual a participação
das publicações sobre Educação
neste mercado que, ao que parece, tem revertido
as leis da crise? Para falar sobre as relações
do livro com a Educação, Folha Dirigida
convidou representantes de duas conceituadas editoras
para a mesa de debates: a Editora Vozes, representada
por seu diretor nacional de circulação,
Alício Rambo; e a Cortez Editora, representada
por seu presidente, José Xavier Cortez.
Como contraponto, também esteve sentado
à mesa o professor Donaldo Bello de Souza,
autor de diversos livros sobre Educação
e integrante de conselhos editoriais de revistas
científicas universitárias (Uerj
e UFF) e de editoras, como a Quartet, especializadas
na publicação de dissertações
de mestrado e teses de doutorado.
Este bate-papo rico e abrangente resultou
num interessante roteiro para estudantes, professores
e pesquisadores que vislumbram a publicação
de seus trabalhos, acadêmicos ou não.
Este debate revela os bastidores da edição
de uma obra, o que os grandes editores levam em
conta na hora de decidir o que levarão
ao mercado, e o que vêem com potencial para
se tornar um sucesso editorial, ou seja: aquilo
que todos que pensam, escrevem e alimentam como
o sonho de suas vidas.
O mercado do livro está entre os que
apresentam os maiores índices de crescimento.
Qual a participação do segmento
educacional neste crescimento?
|

Alício José Rambo
Coordenador
nacional de
vendas da
Editora Vozes,
de Petrópolis
|
Alício José Rambo
O setor educacional de fato está interferindo
bastante no crescimento, tendo em vista a nova
postura do Governo, de exigir que até 2006
os professores de todos os níveis tenham
formação superior. Isso está
exigindo atualização por parte do
magistério. Percentualmente, acredito que
a participação do livro de Educação
na Editora Vozes seja algo em torno de 25%.
Donaldo Bello de Souza
A partir do momento em que o Brasil inicia seu
processo de redemocratização, no
final dos anos 70, o contexto tem favorecido a
produção de cultura, sobretudo aquela
que se relaciona ao trabalho científico.
Esse momento de abertura política favorece
as Ciências Humanas e Sociais, em particular
no campo da Educação. É possível
afirmar-se que dos anos 70 para cá, a quantidade
de obras publicadas no campo da Educação
tem sido exponencial, principalmente de obras
científicas, que acompanham a expansão
do ensino superior e a disseminação
dos cursos de pós-graduação,
locus da produção científica.
Podemos perceber que há um interesse maior
por esta literatura específica, tanto por
parte do mercado editorial, na medida em que se
percebe editoras migrando para o campo educacional,
como também pelo aumento quantitativo de
publicações. Isso é um dado
muito importante verificado nos últimos
anos.
|

José Xavier Cortez
Presidente
da Cortez Editora,
especializada
em Educação
e Serviço Social
|
José Xavier Cortez
Educação representa 60% das nossas
vendas. Serviço Social é uma área
pequena, mas tem muita importância, também,
porque somos praticamente a única editora
no país traduzindo para o espanhol e exportando.
O Brasil hoje, na área de Serviço
Social, é o grande produtor da América
Latina. O eixo que se discute na América
Latina é o que se produz, hoje, no Brasil.
Isso ocorre também em alguns países
da Europa. Educação representa 60%,
Serviço Social 10%, Ciências Sociais
10%, Lingüística ou Língua
Portuguesa 10%, Ciências Ambientais, que
é uma área nova, 10%, e outras áreas
10%. Tem, de fato, ocorrido um crescimento no
mercado, principalmente na área de Educação.
No ano passado, houve um decréscimo na
indústria editorial em relação
a 2000, mas Educação se mantém
em crescimento desde 1999. As questões
que ocorrem no mercado financeiro, o 11 de setembro,
a crise da Argentina, têm influência
grande nas editoras, principalmente nas universitárias,
mas mesmo com esses problemas, conseguimos crescer
em 2000 e 2001. Este ano parece que não
se apresenta tão bom quanto os dois anos
anteriores. Questões políticas talvez,
aumento do papel... há uma série
de motivos, talvez reflexo dessa questão
financeira mundial. Não sei... mas para
nós, o mercado editorial na área
de Educação tem crescido constantemente.
Embora os senhores nos tragam estes dados
com precisão, as pesquisas da Câmara
Brasileira do Livro não discriminam o segmento
educacional entre seus indicadores.
José Xavier Cortez
Eles colocam como livro técnico, científico.
Quais fatores são decisivos para tornar
um segmento atraente no mercado do livro?
|

Donaldo Bello de Souza
Professor,
autor de livros
e membro de
conselhos
editoriais
|
Donaldo Bello de Souza
Há uma demanda muito grande, em particular
por parte dos pesquisadores e professores universitários,
em torno do resultado de pesquisas científicas.
Hoje produz-se muito neste campo, levando em consideração
as várias possibilidades de financiamento
de pesquisa. Grande parte dessa produção,
lamentavelmente, não escoa para o mercado.
Há uma demanda para que se desenvolvam
canais de difusão e de democratização
do saber produzido nas universidades, o que seria
uma satisfação da comunidade científica
à sociedade, em face do dinheiro investido
nestes pesquisadores. As revistas técnico-científicas
se constituem num espaço relativamente
mais rápido de difusão, mas percebe-se
que no formato de artigo, muitos dados da pesquisa
se perdem.
A disseminação de canais editoriais
que favoreçam a publicação
de dissertações de mestrado e teses
de doutorado virá ao encontro disso. Pode
não ser, hoje, aquilo que mais seduza o
editor, que possivelmente vislumbra outros campos,
canais comerciais mais fortes, mas eu arriscaria
a hipótese de que há aí uma
demanda muito grande. Não são todas
as editoras acadêmicas e universitárias
que se dispõem a publicar dissertações
e teses. Não é o caso da Cortez
e da Vozes, mas já escutei de algumas editoras
a repulsa a trabalhos advindos desse tipo de atividade.
No entanto, teses e dissertações
são tão consistentes quanto trabalhos
de pesquisa isolados, sobretudo porque estão
sempre expostas a um crivo analítico, de
orientação, seja do orientador ou
da comunidade acadêmica. Vejo aí
um mercado a ser explorado com maior efetividade,
o que em muito trará benefícios
à sociedade, aos pesquisadores e também
às editoras.
José Xavier Cortez
Donaldo tem razão. Nós hoje publicamos
algumas teses, mas há uma oferta muito
grande. Naturalmente a tese tem alguns ranços
que para o acadêmico são interessantes,
mas para o leitor, que está disperso, às
vezes se torna enfadonho, repetitivo. No nosso
caso, por exemplo, publicamos muitos autores de
primeiro livro e autores renomados também.
Publicamos 60 livros por ano, dos quais a metade
é para a Educação. Temos,
nesse momento, mais ou menos 200 originais para
escolhermos 30 para lançar em 2003. Como
fazer? Há uma oferta muito grande de material,
porque a pesquisa no Brasil avança muito.
Sabemos disso e acho que o Brasil não tem
aproveitado, tem feito pouco em relação
ao mercado latino-americano. Mas é preciso
que o Governo também participe. Há
uma troca muito grande de informação
e de conhecimento disponível para edição.
Com essa grande oferta, você tem a oportunidade
de fazer uma escolha mais criteriosa, com maior
qualidade. Nós sabemos que tem aumento
muito o número de universidades. Não
quero discutir aqui o mérito, a qualidade;
no entanto, isso também leva a um maior
número de alunos e de professores. Isso
amplia o mercado.
O comércio de livros é proporcional
ao número de estudantes?
José Xavier Cortez
Eu acho que sim. Apesar de um grande número
de instituições e professores adotar
o sistema da apostila ou da reprografia, que prejudica
demasiadamente a editora e o ensino, alguns certamente
compreendem o alcance que tem o livro.
Alício José Rambo
Realmente, existe um número muito grande
de teses e trabalhos. A Vozes tem recebido algo
em torno de 150 originais por mês. É
um volume muito elevado. No segmento cultural,
a Vozes atua em 18 áreas, com focos mais
centrados em Educação, Psicopedagogia,
Filosofia e Sociologia. Mas atuamos numa área
bastante ampla e, além disso, temos um
segmento religioso (a editora Vozes é de
padres franciscanos) que se subdivide em outras
11 áreas. Isso faz com que recebamos sempre
muitos originais para avaliação,
além da busca natural por temas que a editora
tem interesse em publicar.
Recebemos muitas teses e temos como critério
para seleção observar as que trazem
uma nova contribuição para que a
educação possa se tornar melhor,
para a reflexão e para o crescimento do
país. Recebemos muitos originais sobre
Educação e não há
possibilidade de publicar todos. Já cresceu
bastante o número de editoras brasileiras,
acredito que sejam 1.006, e existe um outro fator
que creio que ser significativo: os canais de
distribuição dos livros são
bastante restritos. Temos um número muito
pequeno de livrarias e esse é o grande
gargalo que as editoras têm que enfrentar.
A internet não tem contribuído
para a mudança desse quadro?
Alício José Rambo
Eu acredito que não mudou muito não,
porque o acesso ainda é bastante limitado
no país. Nossas vendas por internet são
relativamente pequenas e só vendemos nossos
livros. Nós estamos vendo a internet como
mais um elemento de contribuição
na divulgação da cultura do livro,
como mais uma ferramenta de trabalho, e não
como um fim em si. Para trabalhar com dados um
pouco mais próximos, estatísticos,
nos Estados Unidos o livro em momento algum conseguiu
ultrapassar a 5% de vendas pela internet. As livrarias
ainda são o grande veículo de colocação
do livro no mercado. Mas é claro que a
internet no Brasil é iniciante, tende a
crescer bastante e ainda há muita coisa
para acontecer. Por outro lado, entendemos que
o fator decisivo para tornar esse setor atrativo
é a grandeza da Educação.
Se contabilizarmos as pessoas envolvidas com Educação,
preocupadas com o desempenho da Educação,
é realmente magnífico. No meu modo
de ver, falta uma maneira de atingir essas pessoas,
seja com preços mais acessíveis,
com subsídios, ou através do próprio
governo, que investe pouco em cultura.
O que pode garantir a publicação
de uma tese ou dissertação? O que
os pareceristas levam em conta ao analisar um
original?
José Xavier Cortez
Publicamos um livro há 30 anos que se chama
As belas mentiras, que continua vendendo
até hoje. Ele trata das mentiras do livro
didático. Esse livro é resultado
de uma tese. Por causa desse livro, muita coisa
mudou em termos de livro didático no país.
Dos livros que publicamos, acredito que 10% ou
15% são textos que vieram originalmente
de teses de doutorado.
Donaldo Bello de Souza
Eu queria sublinhar que se por um lado há
uma certa expansão dos cursos de pós-graduação
e isto provoca um incremento na produção,
isso não nos permite afirmar que esses
trabalhos, na sua totalidade, apresentem uma probidade
acadêmica que justifique divulgação.
Naturalmente teremos alguns trabalhos longe do
rigor científico. Contudo, não creio
que este seja o fator determinante da exclusão
de parcelas significativas deles. Foram bastante
convicentes as observações feitas
pelo Cortez e pelo Alício, no sentido do
tipo de leitor a quem o trabalho de tese se dirige.
É um leitor que apresenta um perfil específico,
de fato. Mas embora tenha sido colocado muito
amavelmente, cabe esclarecer que não são
poucos os trabalhos de qualidade que merecem publicação.
Acredito que as dificuldades em relação
ao perfil do leitor é que sejam determinante.
Muitos trabalhos conceituados pela Capes e por
outras entidades como bem articulados e responsáveis,
mas que são recusados. Inclusive são
trabalhos avaliados nos programas de pós-graduação,
onde a análise em torno do desenvolvimento
de um tema é rigorosa e pautada na possível
contribuição à sociedade
e num possível retorno. Certamente há
heterogeneidade na qualidade científica,
mas que ela não seja posta como questão
fundamental para o impedimento da expansão
neste campo.
José Xavier Cortez
Recentemente participei de um evento organizado
por pesquisadores na Universidade de Uberlândia
(MG), para falar dos critérios utilizados
na avaliação dos itens para publicação.
Achei muito interessante, porque soube quo Governo,
através da Capes, exige que o pesquisador
tenha sua tese publicada. Nós recebemos
de 200 a 300 originais, a metade são teses.
Acho até justo publicar esses trabalhos,
mas onde vamos vender? Onde estão as bibliotecas?
Lançamos recentemente uma coleção
de Educação com o que há
de mais novo em termos de pesquisa e eu pergunto:
quando esses livros chegarão à biblioteca
da UFRJ?
Alício José Rambo
Quando avaliamos uma tese, levamos em consideração
a qualidade do trabalho. Mas eu queria ressaltar
que há muitos trabalhos bons que são
recursados, justamente pela questão que
o professor Donaldo apresentou. São trabalhos
com uma temática muito específica,
mas não menos importantes. No entanto nós,
como editora, também temos preocupação
com a sobrevivência. Por isso, quando avaliamos
uma tese nós buscamos também uma
perspectiva de mercado. Se tivéssemos um
determinado número de bibliotecas que absorvesse
uma edição de 1.500 exemplares,
talvez isso se tornasse possível. Mas a
realidade do Brasil é que se leva cinco
ou seis meses para vender 500 exemplares, dependendo
do tipo de livro. Não há nenhuma
preocupação das bibliotecas em estarem
equipadas, para oferecer algo mais aos professores.
Mesmo as escolas de ensino fundamental e médio,
em geral, compram pouquíssimos livros e
colocam pouca coisa à disposição
dos professores. Sabemos que há obras cientificamente
bem fundamentadas, mas que, apenas por uma questão
de mercado, deixam de ser publicadas.
Continua>>
|