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A necessidade de integração entre família e escolas

Educadoras analisam o contexto sócio-educacional e apontam
a responsabilidade crescente do trabalho da escola

Nos tempos atuais a função da escola tornou-se ainda mais abrangente

 

Responsabilidade social da escola, drogas e formação cidadã dos estudantes. Estes foram alguns dos assuntos discutidos nas entrevistas realizadas com as diretoras dos Colégios Bahiense e da Escola Parque, Denise Bahiense e Mary Ferraz. Denise afirma que o papel social da escola é tão importante que caminha junto à missão de ensinar, mas revela que tem sido uma tarefa árdua trazer a família à responsabilidade de educar e de caminhar junto à escola. Por sua vez, Mary Ferraz ressalta que refletir sobre os problemas sociais é certamente um investimento que ajudará a formar jovens mais conscientes, porém discorda de Denise no que se refere à relação família e escola.

“A família já não está tão distante da escola. Se houve distanciamento, há agora, felizmente, interesse”, observa, frisando que é função da escola chamar a família e agir junto com ela. Veja as entrevistas:


Denise Bahiense - Colégio Bahiense

Folha Dirigida - Em que medida a crise de valores humanos e a explosão da violência urbana aumentam a responsabilidade social da escola?
Denise Bahiense -
O papel social da escola sempre será imprescindível, com ou sem crise de valores humanos e violência urbana. É tão importante que caminha junto à missão de ensinar, função que cabe à escola, despertando e desenvolvendo no aluno competências e habilidades, preparando-o para a vida como cidadão no exercício de seus direitos e deveres sociais. A família volta-se, principalmente, para o desempenho acadêmico do seu filho e a escola percebe que os aspectos formativos, hoje em dia, em função dos “exemplos” questionáveis que nossa sociedade vivencia, também estão sendo priorizados pelas famílias. A escola volta-se para os conceitos de cidadania, solidariedade, adaptação às regras que norteiam uma comunidade e conseqüentemente uma sociedade. Valoriza a percepção do mundo político, econômico e social do nosso país e, principalmente, os princípios éticos e morais, a responsabilidade, o comprometimento com metas de vida; viver, acima de tudo, com integridade. Todos sofremos ou convivemos com a violência seja ela qual for. A experiência de cada um, faz com que tenha a percepção exata do que acontece e quais medidas poderiam otimizar a violência ao lado.

Folha Dirigida - Uma das críticas mais freqüentes é de que os jovens, cada vez mais, têm sua formação voltada apenas para o êxito dos vestibulares, sem a preocupação de um trabalho mais amplo no sentido de formar um cidadão. Como a senhora vê esta crítica?
Denise Bahiense -
Não concordo. Em determinada fase da vida do jovem, o maior desafio que enfrentará poderá ser o vestibular, principalmente pela competição acirrada pelas vagas nas universidades públicas. É um fato marcante na passagem da adolescência para a idade adulta. Neste momento, as conseqüências da educação escolar vão acentuar-se. Por um lado, se a base escolar não foi suficientemente cuidada, sem dúvidas, os sonhos não acontecerão. Para aqueles cuja estrutura econômica, cultural e social da família foi confortável haverá muitas oportunidades de aprendizagem e experiências riquíssimas, agregando valores na sua formação, como a visão da cidadania e importância da mesma para o bem-estar próprio e da sociedade de forma geral.

Folha Dirigida - A relação entre família e escola (pais e professores) não está cada vez mais distanciada? Que prejuízos isso traz à formação dos jovens? Como é possível reverter este quadro?
Denise Bahiense -
A vida moderna que impõe o ritmo acelerado das grandes metrópoles em que parece que o tempo “voa”, não permitindo às pessoas lidarem com tantas responsabilidades que as cercam, passando-lhes a sensação de que não são capazes de cumprir suas agendas; o perfil da nova família; lidar com a economia instável do país; viver entre conflitos de valores e tudo mais que aflige quem sobrevive neste contexto, afeta diretamente o comportamento dos pais em relação à educação dos filhos. A escola, diante desta lamentável realidade, percebe a transferência do papel da família para si. Tem sido para a escola uma tarefa muito árdua trazer a família à responsabilidade de educar, a importância de caminhar junto à escola, de disponibilizar tempo para o filho. Educar exige tempo, paciência e, sobretudo, persistência.

 


Mary Ferraz Soares Lopes - Escola Parque

Folha Dirigida - Um dos maiores problemas das famílias brasileiras hoje é o envolvimento dos jovens com drogas. Qual deve ser a postura da escola neste contexto?
Mary Ferraz -
As drogas também dizem respeito a toda a sociedade. A escola, sozinha, não pode fazer e não pode resolver tudo. Há o aspecto do comércio, que diz respeito a uma política social mais ampla e o aspecto psicológico da entrada de uma pessoa neste universo, em princípio atrativo para o jovem porque se reveste de transgressão, de instâncias misteriosas, o que costuma atrair os adolescentes. A escola não pode fingir que o problema não existe. Como informar o jovem e não se acumpliciar com a prática do uso? A informação pura e simples pode mesmo despertar curiosidade. Aceitar, compreender pode ser visto como cumplicidade. E, além do mais, drogas - quaisquer - lícitas ou ilícitas - são proibidas por lei para menores de idade. E drogas são perniciosas. Drogas, portanto, se referem a um universo de problemas reconhecidamente difícil, que envolve muitas questões. A escola deve informar, não ser cúmplice e encaminhar a melhor solução para cada caso. Os jovens se iniciam no uso pelas mais diversas razões. É preciso conhecer as razões para encaminhamento. Por isso existem os especialistas no assunto, que podem ajudar a escola e todos os envolvidos. A escola não é especialista. De qualquer modo, parece que ninguém está ainda totalmente preparado para responder a este grave problema. Porque ele é amplo, político, psicológico, econômico, social e depende de muito mais coisas do que de entender porque um jovem chega a fazer uso.

Folha Dirigida - A relação entre família e escola não está cada vez mais distanciada?
Mary Ferraz -
Não vejo a família mais tão distante da escola. Acho que a família está preocupada com seus filhos e muito participante. Se houve distanciamento há agora, felizmente, interesse. Mas a forma da família mudou. Não existe mais só a família ortodoxa. Ela está diferente e é uma realidade com que a escola tem que lidar. É preciso chamar a família para da escola, agir junto com ela, cada um na sua competência. A família deseja aprender e não quer mais a escola distante, com um saber enclausurado.

Folha Dirigida - Um dos grandes dilemas das escolas é quanto a imposição de limites de liberdade comportamentais aos alunos, que podem caracterizar uma educação mais permissiva ou rigorosa. Na sua opinião, as escolas vêm trabalhando de forma adequada estes limites no processo de formação das crianças e jovens?
Mary Ferraz -
Creio que a escola deve antes de tudo criar cidadãos responsáveis. A responsabilidade passa necessariamente pela construção de limites, o que é diferente de imposição de limites. Na construção, você responsabiliza a pessoa pelos atos. Entrega a ela a reflexão pelas ações e conseqüências dela. Na repressão, você cria uma pessoa que só se porta bem pelo temor do castigo. A construção é mais trabalhosa para o educador, mas também é mais trabalhosa para o aprendiz que, responsável pelos seus atos, não tem justificativa para seu comportamento, não tem a quem atribuir a responsabilidade por suas ações. É trabalhoso, mas é muito mais gratificante.

 
 
 
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