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Gonçalo Vicente de Medeiros é,
hoje, o presidente do Instituto Sathya Sai de
Educação do Brasil www.valoreshumanos.org.
Mas em 1986 era apenas um aposentado que estranhamente
escolheu a Índia para passear, e impressionou-se
com a gentileza de um menino, quando se dirigiu
a uma torneira pública para beber água.
O menino viu que se tratava de um estrangeiro
e apressou-se em me servir. E não queria
mais nada, além de mostrar sua generosidade.
Depois soube que na escola em que estudava, valores
humanos era uma disciplina que fazia parte do
currículo.
Este menino, cujo nome ele não se lembra,
morava na cidade de Puttaparthi, na estrada de
Andhra Pradech, lugarejo onde vive Sai Baba, um
monge que dedica sua existência à
causa educacional. Em seus discursos, o monge
não deixa de alertar que o comportamento
dos professores, sobretudo daqueles que trabalham
com educação infantil, moldará
o caráter daqueles que passarem por suas
mãos.
A fala de Medeiros é pragmática,
mas não se molda pelo concreto. Em mais
de uma hora de conversa sobre Educação,
ele não pronunciou uma vez sequer a palavra
pedagogia. Diga-se de passagem, ele não
usou nenhuma terminologia pertinente à
área educacional. Quando se dá a
falar de escola, as palavras que repete são
amor, radiação, felicidade, como
quem entoa um mantra.
Ele já formou 20 mil professores no
Brasil em valores humanos, um curso que aprendeu
nas cartilhas orientais, sob a orientação
do monge Sai Baba (Satia significa Pai, e Baba,
Mãe). O curso é programado para
16 horas, em dois dias. Os professores que participam,
aprendem práticas de meditação
e desenvolvem técnicas não de alfabetização,
mas de amor universal e de perdão.
Ele conta que os professores saem transformados
e potencializados num instrumento multiplicador,
com capacidade para irradiar o que aprenderam.
O objetivo do programa é mostrar que paz
também se aprende na escola. Este trabalho
é voluntário e não envolve
qualquer custo. É feito a partir de convênios
com prefeituras e secretarias de Educação.
Folha Dirigida Por que o Instituto
Sathya Say escolheu a escola para difusão
de seu trabalho de formação em valores
humanos?
Gonçalo Medeiros - A escola molda a
sociedade. Cada um de nós passa por uma
escola e nossa formação definirá
como vamos agir para o resto de nossas vidas.
No momento em que nossa consciência ainda
é uma folha de papel em branco, os conceitos
que nos vão sendo dados e os exemplos que
nos são passados é que vão
determinar nossos atos por toda a vida. Na fase
adulta, julgamos nossas ações pelas
situações do presente. Isso não
é correto. Por trás de nossas ações
existe uma base que é formada quando inicia
nosso processo de consciência. Portanto,
todas as influências, sejam dos pais, dos
parentes, dos professores, moldam nossa ótica
de vida e nosso caráter. Todos nós
quando nascemos estamos unidos com a criação.
Todas as crianças têm uma alegria
natural, que geralmente perdem quando se tornam
seres adultos. Então a escola tem que atuar
no sentido de manter este estado de felicidade,
e a escola é um lugar poderoso, já
que toda a sociedade será moldada segundo
seu sistema de ensino.
Folha Dirigida Qual pefil de ser humano
o sistema de ensino vigente é capaz de
formar?
Medeiros - O modelo que temos é do
ensinamento mente a mente, de livro, conteúdo,
não de coração. O que as
escolas formam, hoje, é o animal racional
que se torna doutor. Estamos formando pessoas
apenas para ter emprego. A criança já
entra na escola pensando no futuro e quanto de
dinheiro poderá ganhar. O sistema de ensino
não está preocupado em ensinar as
pessoas a enfatisarem o ser, mas o ter. No momento
em que a escola redirecionar seu currículo,
ela formará para o emprego, mas também
para a felicidade.
Folha Dirigida Se a escola é
o veículo para disseminar valores humanos,
quem está fora dela, e há muitos
nesta situação, será excluído
também dessa possibilidade de auto-realização?
Medeiros - Nós não aprendemos
valores através de conteúdo de livros,
mas sim através dos exemplos daqueles que
nos cercam. O analfabeto também pode ensinar
valores e pode ser um verdadeiro sábio,
porque pode ter se formado na universidade da
vida.
Folha Dirigida De quais instrumentos
a escola dispõe para contribuir na formação
de uma sociedade pacífica?
Medeiros A escola pode tudo, de acordo
com o currículo montado. Mas o currículo
atual enfatiza a sobrevivência e não
o ser. E também não adianta definir
metas no papel. É preciso vivenciá-las.
Nenhuma pessoa que fala em comida, que lê
livro de comida, que vê os outros comendo,
vai se satisfazer. O estômago só
se satisfaz com comida nele, da mesma forma é
a escala de valores. Não adianta pensar,
falar, escrever, fazer discursos sobre valores.
Eles só passam a fazer parte do ser e são
reproduzidos quando praticados.
Folha Dirigida O senhor acredita que
através da escola o estado poderá
reduzir seu elevado índice de violência?
Medeiros - O erro dos dirigentes é
querer mudar a sociedade através de projetos
e metas destituídas de qualquer prática.
No Rio de Janeiro vemos uma situação
de violência a cada dia se agravando, em
todos os segmentos da sociedade. Quando um membro
da Polícia Militar matou o filho do prefeito
de Friburgo que foi reconhecido como seqüestrador,
o secretário de Segurança afirmou
que a polícia tem a responsabilidade de
formar o profissional, não o caráter,
que é responsabilidade de toda a sociedade.
Anteriormente, o conceito de uma pessoa era dado
pelo caráter e o caráter é
o conjunto do comportamento da pessoa. No sistema
educacional de hoje há um erro gritante:
todos os projetos, mesmo os que visam a uma cultura
de paz, são feitos de ações
externas. Ele não tenta fazer nenhuma mudança
no interior do indivíduo. Por que as pessoas
crescem e se tornam cada vez mais violentas? Porque
no ambiente que elas estão só vêem
violência. Os agentes do Governo também
não têm como ensinar a prática
da paz, se eles próprios não têm
a prática da paz. Só os que emanam
e irradiam a paz podem ensiná-la.
Folha Dirigida Significa que não
há saída?
Medeiros Mas claro que há saída.
É isso que o Instituto Sathya Sai de Educação
vem mostrando. Em nossos seminários damos
aos professores os fundamentos de educação
em valores humanos e os ensinamos a experimentar
a paz verdadeira. Paz é um estado de harmonia,
interação consigo mesmo. Nós
a perdemos quando deixamos as dificuldades da
vida tomarem conta de nós. Quando os professores
aprendem a paz, eles aprendem a ensinar a paz.
Folha Dirigida Qual a metodologia utilizada?
Medeiros Ensinamos aos professores
a sentar em silêncio, fazendo contato com
o seu interior. Nesse momento se sente a paz,
porque ele está em união com ele
mesmo. Ensinamos a praticar o perdão perdoando
a si mesmos pelo que causou aos outros e, depois,
perdoando aos outros. Com isso, já se atinge
um estado interno de pura harmonia. Em outro momento,
praticamos a experiência do amor universal.
O que é o amor universal? É como
se fosse a eletricidade, que move tudo. É
a corrente subjacente de todos os valores humanos.
Mas para amar os outros é preciso amar-se
a si mesmo. Se eu me destesto, eu detesto o próximo.
Se eu me critico, eu critico o próximo.
Se eu me odeio, eu odeio o próximo. Eu
faço ao próximo o que eu faço
a mim mesmo. Quando se experimenta essa energia
de amor, sente-se uma alegria interna enorme.
E não sou eu falando, da boca para fora,
não sou eu pegando um livro de auto-ajuda.
É a pessoa sentindo dentro de si essa corrente
de amor. Quando isso acontece, o professor desperta
e passa para o aluno aquilo que tem dentro. Quando
ele chega em sala de aula ele vai dar atenção,
carinho, doçura, respeito, porque nós
damos o que temos dentro de nós.
Folha Dirigida É possível
a um professor preocupado com seu salário
cultuar esta cultura de paz e disseminá-la
em sala de aula?
Medeiros Salário baixo não
quer dizer que não se tenha alegria.
Folha Dirigida Uma das questões
que inquietam os pesquisadores que se debruçam
sobre esse tema é a violência interna,
movida pela competitividade entre os professores,
e também o excesso de regras impostas aos
alunos.
Medeiros - Quando eu estudava não tinha
violência, mas tinham muitas regras de cima
para baixo. Essa questão não tem
nada a ver com violência na escola. Nós
não ensinamos as pessoas a terem limites,
os pais não ensinam as crianças
a terem limites, os professores de hoje foram
formados não tendo limites. Cada criança
acha que tem o direito de fazer o que quiser.
Mas por que não se dão mais limites?
Porque para dar limites tem que dar compreensão.
Não adianta dizer apenas que não
pode.
Folha Dirigida - Costuma-se dizer que os professores
não são permeáveis às
mudanças.
Medeiros Não concordo com isso.
O professor deve estar atento a tudo que acontece
ao seu redor. A escola é um pequeno mundo
e se ela procedesse como tal, seria maravilhoso.
E o que significa esse pequeno mundo? É
onde as pessoas adquirem as experiências
que levarão para fora da escola. Os professores
mudam e passam a levar esta mudança para
a sala de aula. A mudança em sala de aula
provoca uma mudança no comportamento dos
alunos dentro de casa, e os pais ficam inspirados.
Aí, o que acontece? A escola passa a servir
à comunidade e esses valores acabam entrando
na área de competência do Governo,
na área da ação social. Mas
não adianta ter pessoas trabalhando em
ação social só pelo emprego.
Vou dar um exemplo ocorrido no Colégio
Padre Severino, que é uma escola de formação
profissional para menores infratores. Um dos alunos
disse a uma de nossas instutoras que só
tinha tranqüilidade durante suas aulas. Por
que? Porque ela estimulava que expusessem o que
havia de melhor dentro deles. Os alunos perguntavam:
Você não tem medo de nós?
Ela dizia: Não, vocês são
todos seres humanos.
Folha Dirigida Você costuma dizer
que a palavra tem energia. Pode explicar melhor
como isso se dá?
Medeiros A palavra tem a energia de
quem a escreveu ou falou. O pensamento, conforme
eu escrevo, transmite a minha energia às
pessoas que lerem o que eu escrevo. Se você
escreve um texto com amor, quando alguém
o lê, sente a energia do amor. Em tudo o
que fazemos, transmitimos sentimentos.
Folha Dirigida Os cursos de formação
de professores deveriam incluir valores humanos
no currículo?
Medeiros Todos os cursos de formação
deveriam ter três excelências: a acadêmica,
que orientaria para a parte profissional; a ambiental,
que nos daria o conceito de que não devemos
nos servir da natureza e entender que nós
somos a natureza e se a destruirmos estaremos
destruindo a nós mesmos; e a terceira é
a excelência humana, a consciência
da espécie humana, aquela que nos mostra
que tudo o que fazemos ao outro se reflete em
nós mesmos.
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