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Credenciado para a disputa do segundo turno
das eleições presidenciais, o candidato
José Serra intensifica a campanha para
tentar vencer a disputa com Luiz Inácio
Lula da Silva. Em entrevista à FOLHA DIRIGIDA,
o ex-ministro da Saúde do governo Fernando
Henrique Cardoso apresenta suas propostas para
a área da Educação, que considera
de importância estratégica em qualquer
governo.
Para o candidato do Partido da Social Democracia
Brasileira (PSDB), o Banco Mundial copia nossas
políticas educacionais; a contratação
de professores pelo regime estatutário
é proposta a ser discutida; a cobrança
de mensalidades nas universidades vai criar uma
grande celeuma e não vai resolver
a questão do financiamento; a universidade
não pode depender de mesada
do governo; os investimentos para a pesquisa não
estão congelados; as denúncias de
fraude do Fundef (cerca de 500) não justificam
a operação de mudanças no
programa.
Embora tenha cursado graduação
em Engenharia Civil, Serra fez carreira acadêmica
na área econômica é
mestre e doutor em Economia, disciplina da qual
foi professor no Chile, Inglaterra e Campinas
(SP). Na política, cumpriu dois mandatos
eletivos (de deputado federal e senador) e foi
ministro da Saúde de Fernando Henrique
Cardoso, compondo, ao lado de Pedro Malan e Paulo
Renato Souza, a equipe de ministros economistas
do atual governo. Muito antes desta trajetória,
porém, militou no movimento estudantil,
chegando a presidir a União Estadual dos
Estudantes (UEE/SP) e a União Nacional
dos Estudantes (UNE).
Na entrevista publicada a seguir, José
Serra fala de analfabetismo, desenvolvimento,
pesquisa, modelo de gestão universitária,
investimento e ensino público, entre outros
temas do dia-a-dia da educação.
Temas importantes e que podem ajudar o (e)leitor
no momento da escolha do voto no próximo
dia 27. Veja a entrevista:
Folha Dirigida O Brasil conseguiu universalizar
o acesso das crianças à educação,
mas continua ainda com elevado índice de
analfabetismo entre adultos. Na sua opinião,
o que a erradicação do analfabetismo
significaria para o país? Como candidato
à Presidência da República,
o que o senhor propõe para pôr fim
ao analfabetismo?
José Serra A erradicação
do analfabetismo significaria acabar de uma vez
por todas com uma das chagas que acompanha o país
ao longo da sua história. Há anos
o país luta para acabar com seus analfabetos.
E os progressos têm sido grandes. Nos últimos
dez anos, a taxa caiu de 20,1 para 13,6. Se excluirmos
a população de 50 anos ou mais,
difícil de alfabetizar ou aprender qualquer
coisa nessa altura do campeonato, a taxa cai para
9. Com a universalização do acesso
à escola, nós fechamos a fábrica
de analfabetos. Devemos prestar muita atenção,
hoje, nos jovens de 15 a 19 anos, cuja taxa é
de 5. Temos que atacar esta faixa, para dar a
estes jovens chances na vida e para erradicar
o analfabetismo juvenil.
Folha Dirigida As diretrizes educacionais
traçadas pelo Banco Mundial para os países
periféricos estão presentes no Brasil?
É possível definir uma política
independente para a educação?
José Serra Engana-se quem pensa
que as diretrizes educacionais do Banco Mundial
são determinantes na política de
educação no Brasil. Hoje, o Banco
Mundial aprende muito mais conosco, do que nós
com ele. O Brasil tende a exportar tecnologias
educacionais para o resto do mundo, principalmente
para os países pobres. É o caso
do Bolsa-Escola, uma típica invenção
brasileira, que tende a ser adotada em outros
lugares. As diretrizes gerais da política
educacional brasileira no governo Fernando Henrique
são fruto de um diagnóstico muito
preciso e correto dos problemas que tínhamos
em 1995, com o foco necessário e imprescindível
no ensino fundamental, e formas extremamente inovadoras
de resolvê-los, como é o caso do
FUNDEF.
Folha Dirigida Na sua opinião,
a qualidade do ensino está diretamente
relacionada ao salário do professor? Em
caso de resposta afirmativa, quanto, na sua opinião,
deveria ganhar minimamente um professor?
José Serra A qualidade do ensino
passa sim por remuneração adequada
do professor, mas não é tudo. O
professor precisa de motivação,
criatividade, acesso facilitado a bens culturais
- livros, cinema, teatro, cursos variados, revistas,
enfim, tudo o que o mundo da cultura possa lhe
oferecer. Precisa de um plano de carreira que
lhe permita vislumbrar um crescimento profissional
e, principalmente, precisa de possibilidades de
aprendizado permanente ou, no jargão da
educação, de formação
continuada. Devemos fazer um esforço para
aumentar o salário dos professores da rede
pública, mas também propiciar acesso
a uma série de outras coisas que lhes permitam
crescer como pessoas, como cidadãos e,
conseqüentemente, como profissionais da educação.
Folha Dirigida Um dos objetivos da
greve que mobilizou os professores federais por
mais de 100 dias no ano passado foi resistir a
uma proposta de mudança no sistema de contratações,
que passaria os professores de estatutários
para celetistas. Como o senhor avalia esta proposta?
José Serra Foi uma proposta
para ser discutida. Vale lembrar que a proposta
não é exclusivamente voltada aos
professores das universidades, mas também
para outras categorias, faz parte de um projeto
mais amplo de Reforma do Estado. Agora, os problemas
das universidades federais passam pela autonomia
administrativa. Não faz sentido quase 50
mil professores do ensino superior parte
das melhores cabeças do país
e todas as outras questões referentes à
gestão das IFES (Institutos Federais de
Educação Superior), ficarem dependentes
das decisões do Ministério da Educação,
sem levar em conta as especificidades, vocações
e necessidades de cada uma delas. Aprender a gerir
com responsabilidade, autonomia e descentralização
a coisa pública é um aprendizado
importante para a democracia.
Folha Dirigida Pesquisas mostram que
há estudantes de alto poder aquisitivo
matriculados nas universidades públicas.
O senhor acha que, em decorrência disto,
a formação universitária
deveria ser paga?
José Serra Não. A cobrança
de mensalidades nessas instituições
vai causar uma enorme celeuma e não vai
resolver o problema do financiamento das universidades
públicas. Essa é uma falsa questão.
A verdadeira questão é democratizar
as possibilidades de acesso às universidades
públicas e isso vem sendo feito com a universalização
do acesso ao ensino básico. É preciso
ainda criar um sistema eficiente de bolsas de
estudo para os alunos carentes, mesmo que estejam
em universidades públicas.
Folha Dirigida As universidades devem
criar recursos para financiar seus projetos? O
senhor considera esta uma forma de autonomia?
José Serra Não vejo nenhum
mal nas universidades buscarem recursos, onde
eles estiverem, para financiar seus projetos.
Ao contrário, cria uma vinculação
positiva com as necessidades da sociedade, que
precisa do trabalho realizado pela universidade
e está disposta a pagar por isso. Isso
não fere autonomia, gera autonomia e permite
deixar de depender do governo para tudo. Não
faz sentido uma universidade, onde estão
grandes cérebros do país, depender
de mesada do governo.
Folha Dirigida De acordo com as regras
atuais, os colégios eleitorais encaminham
ao presidente da República e ao ministro
da Educação uma lista tríplice,
para escolha do reitor de cada universidade, após
a realização de eleições
diretas. O escolhido pode não ser o mais
votado, como já ocorreu na UFRJ. Para o
senhor, esta regra fere os princípios democráticos?
José Serra Não fere princípio
democrático algum. É a regra atual
que foi modificada e significou avanços
à regra anterior. O governo, que financia
a universidade, pode e deve ter algum mecanismo
de interferência nos destinos da instituição,
pelo menos até avançarmos para a
autonomia e formas mais sofisticadas de relacionamento,
como um contrato de gestão, por exemplo.
O governo financia, mas solicita uma produção,
de acordo com as necessidades do país e
de acordo com a vocação de cada
universidade. Creio que a tendência geral
tem sido escolher o reitor mais votado, que é
o caso da UFRJ, hoje.
Folha Dirigida Os investimentos destinados
à pesquisa estão congelados e os
cientistas queixam-se de os projetos de pesquisa
estarem submetidos aos interesses do mercado.
Em sua opinião, qual tratamento o Governo
deve dar aos órgãos de pesquisa?
José Serra Os investimentos
para a pesquisa não estão congelados.
Foram criados 14 fundos de pesquisa, nos mais
variados temas. A criação dos fundos
setoriais antiga reivindicação
da comunidade científica é
uma iniciativa que transforma, de maneira substantiva,
o cenário do financiamento e da gestão
da pesquisa. O volume de recursos é significativo
e independente das vicissitudes do Orçamento
da União. O mais importante é que
esses recursos representam, de um lado, a possibilidade
ímpar de estabilidade para o financiamento
da pesquisa no país.
Folha Dirigida O deputado Walfrido
Mares Guia prepara um projeto de lei propondo
a liberação do Fundo de Garantia
do Tempo de Serviço (FGTS) para pagamento
da formação universitária.
O que o senhor acha dessa proposta?
José Serra É preciso
estudá-la melhor, mas me parece pertinente.
É preciso apenas tomar cuidado para não
ficarmos sem recursos para o financiamento de
habitação, saneamento, desenvolvimento
urbano, que é ao que o recurso do FGTS
se destina. Assim como me parece interessante
a dedução integral do imposto de
renda dos gastos com a educação.
São propostas que serão estudadas
com atenção, mas partimos do princípio
de que gasto com educação não
é gasto, é investimento, seja do
governo, seja das famílias.
Folha Dirigida Caso seja eleito, o
senhor pretende dar continuidade à política
de prioridade ao ensino fundamental?
José Serra Sim, porque ele é
historicamente o gargalo da educação
brasileira. Muito já foi feito, melhorou
enormemente, a população que utiliza
a escola pública sabe disso melhor do que
ninguém e não quer descontinuidade.
O fluxo dos alunos está muito melhor do
que no início do governo Fernando Henrique
Cardoso. Mas ainda há muito o que fazer
e é trabalhar para aumentar cada vez mais
a qualidade do ensino.
Folha Dirigida O Fundo de Desenvolvimento
do Ensino Fundamental e de Valorização
do Magistério (Fundef) sofreu denúncias
de fraude em vários estados. O senhor pretende
efetuar alguma mudança neste programa?
José Serra Sempre pode melhorar
alguma coisa, mas as denúncias de fraude
são poucas, em relação ao
todo. Temos cerca de 500 denúncias. Uma
denúncia não significa, necessariamente,
uma irregularidade. Pode ser denúncia política,
feita por um adversário do prefeito. Uma
irregularidade não significa necessariamente
picaretagem. Podem ser erros formais do processo,
às vezes é a falta de um carimbo
ou de uma nota fiscal, por exemplo, coisas que
acontecem. Então, se das 500 denúncias
temos cerca de metade com irregularidades efetivas,
é pouco em relação ao todo.
São 5.561 municípios no Brasil,
a maior parte dos prefeitos está trabalhando
direitinho, procurando fazer o melhor possível
para seus alunos e para as escolas do seu município.
Além disso, temos os Tribunais de Conta
dos estados fiscalizando a conta do FUNDEF, que
é específica do ensino fundamental,
é fácil de fiscalizar, mais fácil
do que sempre foi. Temos o Ministério Público,
agindo quando precisa agir, temos os conselhos
locais, todos têm acesso ao extrato da conta
do FUNDEF no Banco do Brasil. Não existe
sigilo bancário para a conta do FUNDEF,
é um dos programas mais transparentes que
existem. As irregularidades que aparecem estão
sendo identificadas e punidas.
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