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Frustrada a expectativa da direção
do Partido dos Trabalhadores (PT) de vencer a
eleição presidencial ainda no primeiro
turno, realizado no último dia 6, a campanha
de Luiz Inácio Lula da Silva retorna às
ruas, visando agora a vitória no próximo
dia 27. Em entrevista à FOLHA DIRIGIDA,
o candidato do PT apresentou os principais pontos
de seu programa para a área da Educação.
Ampliar a oferta de vagas nas universidades
públicas; criar um programa nacional de
bolsas para estudantes pobres que queiram fazer
faculdade; gerar mecanismos para que trabalhos
comunitários possam pagar um crédito
educativo; constituir um regime específico
de contratação para servidores universitários
são algumas das propostas do candidato
que, nesta entrevista, fala também dos
principais problemas que inibem o crescimento
da educação brasileira.
Lula critica as políticas implementadas
no atual governo e alerta para os riscos de uma
política pública que confunde a
educação com bem de consumo. Republicada
neste Suplemento do Professor, a entrevista de
Luiz Inácio Lula da Silva pode ser um importante
instrumento de auxílio na escolha do voto
para presidente neste segundo turno das eleições.
Veja as propostas de Lula:
Folha Dirigida O Brasil conseguiu universalizar
o acesso das crianças à educação,
mas continua ainda com elevado índice de
analfabetismo entre adultos. O que a erradicação
do analfabetismo significaria para o país,
na sua opinião? Como candidato à
presidência da República, o que o
senhor propõe para pôr fim ao analfabetismo?
Lula Primeiro, é um absurdo
que ainda existam analfabetos num país
como o Brasil, que tem uma das dez maiores economias
do mundo. Acabar com o analfabetismo é
tarefa básica e cidadã de qualquer
governo. Ninguém pode ter dúvidas
sobre a importância estratégica dos
investimentos em educação, que é
uma ótima maneira de se medir o tamanho
da exclusão, da discriminação,
da desigualdade e da injustiça no nosso
país. É só ver a escolaridade
dos jovens brasileiros, que é muito baixa.
Eles ficam pouco mais de quatro anos na escola,
em média. Isso é um indicador importante
da situação social no Brasil. Segundo
o IBGE, tínhamos mais de 20 milhões
de analfabetos em 1999, enquanto a população
economicamente ativa é de 80 milhões
de brasileiros. É precisamente isso que
o PT pretende mudar. É uma meta do nosso
programa de governo elevar a educação
infantil para um novo nível, para que todas
as nossas crianças possam ter a sua formação
intelectual assegurada. Nos próximos quatro
anos, temos a obrigação de universalizar
o ensino do nível pré-escolar até
o médio, e ainda garantir o acesso à
creche para todos os filhos de mães trabalhadoras.
Folha Dirigida As diretrizes educacionais
traçadas pelo Banco Mundial para os países
periféricos estão presentes no Brasil?
É possível definir uma política
independente para a educação?
Lula Não só é
possível, como é fundamental. O
novo governo precisa reafirmar a nossa soberania
nacional porque, nos últimos anos, a política
educacional brasileira tem sido determinada por
instituições financeiras internacionais,
como o Fundo Monetário Internacional, o
Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Dentro dessa orientação, é
verdade que o governo priorizou o ensino fundamental,
mas descuidou profundamente do ensino superior.
Hoje, nós só temos 7,7% dos jovens
de 18 a 22 anos freqüentando cursos universitários,
o que é um desatino para uma economia sofisticada
como a nossa, que precisa de muitos quadros com
alta qualificação. Mas é
isso o que mostram os dados: que os jovens das
camadas mais pobres praticamente não têm
acesso à educação superior
pública. A grande maioria daqueles 7,7%,
na verdade, estuda em escolas pagas. Ou seja,
quando consegue chegar ao ensino superior, o jovem
só pode pagar se tiver arranjado um bom
emprego ou tiver apoio econômico da família.
Como isso nem sempre acontece, muitos alunos acabam
inadimplentes ou abandonam o curso. Até
porque o sistema de crédito educativo,
que poderia ser uma alternativa, é insuficiente
e inadequado. O PT considera tarefa inadiável
ampliar significativamente as vagas nas universidades
públicas e reformular o sistema de crédito
educativo. Propomos a criação de
um Programa Nacional de Bolsas de Ensino Superior
(PNBES) para os estudantes carentes, que, em contrapartida,
poderão fazer trabalhos comunitários.
Também vamos priorizar o investimento na
área social, pois é nela que está
a chave do desenvolvimento econômico do
nosso país.
Folha Dirigida Na sua opinião,
a qualidade do ensino está diretamente
relacionada ao salário do professor? Em
caso de resposta afirmativa, quanto, na sua opinião,
deveria ganhar minimamente um professor?
Lula Primeiro, é preciso deixar
claro que não é pagando mal aos
professores, como agora, que vamos melhorar o
ensino. A qualidade do ensino está relacionada
a uma série de fatores. O salário
do professor é um deles. Mas, além
do salário, também contam o projeto
pedagógico, o currículo escolar
e as condições de ensino, ou seja,
bons laboratórios, bibliotecas, computadores
e outros equipamentos importantes, hoje em dia.
A qualidade do ensino depende até do ambiente
da escola, que precisa dar abertura para o aluno
participar e estabelecer um espírito de
cooperação entre ele e o professor.
É claro que nada disso é possível
se os alunos chegarem à escola com fome
e encontrarem professores insatisfeitos com o
salário. No nível superior, é
preciso levar em conta a valorização
dos professores por meio da pós-graduação,
do mestrado, doutorado e pós-doutoramento.
Isso tem um custo. Hoje, no Brasil, temos professores
com vários regimes de trabalho: tempo integral,
parcial, ou que trabalham em uma, duas e até
quatro escolas. São os professores-táxis,
que têm que se virar para dar sustento à
família e se atualizar profissionalmente.
Nossa proposta, em vez disso, é uma política
séria de educação, do nível
básico ao superior. Vamos lutar por um
salário compatível com a qualificação
e com a responsabilidade dos docentes. Isso terá
alta prioridade no nosso programa.
Folha Dirigida Um dos objetivos da
greve que mobilizou os professores federais por
mais de 100 dias no ano passado foi resistir a
uma proposta de mudança no sistema de contratações,
que passaria os professores de estatutários
para celetistas. Como o senhor avalia esta proposta?
Lula Acho que aí existe um problema
grave, uma visão equivocada do governo.
Porque entendo que, na universidade, e especialmente
na universidade pública, tem que existir
liberdade acadêmica. Quer dizer, os professores
devem estar livres de qualquer imposição,
tanto do Estado quanto do mercado, para pensar,
pesquisar, ensinar ou expor suas opiniões.
É por isso que, desde o nascimento da universidade,
sempre se defendeu o regime de estabilidade do
docente, que assegura a liberdade acadêmica.
A CLT não dá essa garantia. Devemos
discutir amplamente com a comunidade universitária
e com as universidades um regime jurídico
próprio para os docentes e servidores das
universidades públicas federais.
Folha Dirigida Pesquisas mostram que
há estudantes de alto poder aquisitivo
matriculados nas universidades públicas.
O senhor acha que, em decorrência disto,
a formação universitária
deveria ser paga?
Lula Antes de tudo, a gente precisa
lembrar que a educação, desde a
Revolução Francesa, é um
direito básico da cidadania. Nossa Constituição
é taxativa a esse respeito, ao afirmar
que a educação é direito
de todos e dever do Estado e da família.
Também afirma que a gratuidade do ensino
é um princípio, em todos os níveis.
Essa é uma bandeira histórica em
nosso país e consta de todos os programas
de governo do nosso partido, desde a sua fundação.
Ela agora será reafirmada como um dos nossos
grandes compromissos no campo da educação.
Vamos fazer o oposto do que tem feito o Banco
Mundial, que está em contradição
com a Conferência Mundial sobre Educação
Superior, organizada pela UNESCO, em 1998. Nela,
a educação superior foi reafirmada
como um bem público e uma obrigação
do Estado. Não dá para aceitar que
a educação seja tratada como um
bem de consumo como outro qualquer, e, com base
nisso, se tente acabar com a gratuidade nas instituições
públicas.
Folha Dirigida As universidades devem
criar recursos para financiar seus projetos? O
senhor considera esta uma forma de autonomia?
Lula O problema é que as universidades
públicas federais nunca tiveram autonomia
para valer. O governo nunca se empenhou em efetivar
o que está escrito na Constituição,
que diz que as universidades gozam de autonomia
completa. Isso vale até para a sua gestão,
para as despesas do dia-a-dia, e os recursos para
isso devem ser garantidos pelo orçamento
da União. Então, se isso estiver
garantido, não tem nada de errado se as
universidades buscarem recursos extras para projetos
importantes. O que não pode são
as universidades terem de arranjar dinheiro para
os gastos mais elementares, para pagar água,
luz e até papel higiênico, porque
o governo burla a autonomia de gestão,
impondo cortes cada vez maiores no orçamento.
Em alguns casos, os recursos recebidos da União
tiveram redução de 40%, em apenas
dois ou três anos. Também caíram
drasticamente os recursos destinados às
universidades federais, que, em 2001, foram 37%
inferiores aos de 1989.
Folha Dirigida De acordo com as regras
atuais, os colégios eleitorais encaminham
ao presidente da República e ao ministro
da Educação uma lista tríplice
para escolha do reitor de cada universidade, após
a realização de eleições
diretas. O escolhido pode não ser o mais
votado, como já ocorreu na UFRJ. Para o
senhor, esta regra fere os princípios democráticos?
Lula Para mim fere o princípio
da autonomia universitária, previsto na
Constituição. Dentro desse princípio,
eu entendo que o presidente da República,
ou o seu ministro da Educação, deve
se responsabilizar pela nomeação
do candidato que a própria instituição
universitária escolher. Isso representa,
de fato, um compromisso do Estado com a instituição
universitária. Eu acho que temos de rever
as atuais normas legais sobre a escolha e nomeação
de dirigentes universitários. Elas devem
ser rediscutidas com as instituições
universitárias com o objetivo de implantar
uma autonomia universitária plena e efetiva.
Folha Dirigida Os investimentos destinados
à pesquisa estão congelados e os
cientistas queixam-se de os projetos de pesquisa
estarem submetidos aos interesses do mercado.
Em sua opinião, qual tratamento o Governo
deve dar aos órgãos de pesquisa?
Lula O governo Fernando Henrique subordinou
os interesses nacionais à entrada de capitais
externos a qualquer custo. É preciso entender
que o governo tem privatizado e desnacionalizado
o nosso patrimônio público de uma
maneira inaceitável para uma nação
soberana. Um projeto de nação para
o Brasil passa pela solução definitiva
destas questões interligadas: educação,
ciência e tecnologia. São pontos
essenciais para a retomada do desenvolvimento
econômico, para a conquista da cidadania
pelo nosso povo e para a reinserção
soberana do Brasil no contexto de uma globalização
solidária. O que se vê hoje é
o sucateamento das universidades públicas
e o abandono do ensino básico e técnico-profissional.
Mas o Brasil tem outros caminhos para se desenvolver.
Podemos e devemos atrair investimentos estrangeiros,
que são necessários. Podemos oferecer
condições essenciais para eles atuarem
aqui: um mercado interno significativo, mão-de-obra
qualificada e infra-estrutura básica. Isso
interessa ao Brasil e a qualquer investidor que
procure segurança para o seu capital e
seus lucros com responsabilidade social. Só
não interessa a especuladores.
Folha Dirigida O deputado Walfrido
Mares Guia prepara um projeto de lei propondo
a liberação do Fundo de Garantia
do Tempo de Serviço (FGTS) para pagamento
da formação universitária.
O que o senhor acha da proposta?
Lula Em princípio, não
acho boa idéia. Parece mais uma solução
equivocada para um problema real. É bom
lembrar que o FGTS cumpre, na falta da estabilidade
no emprego, um papel de seguridade social para
o trabalhador. Também financia a construção
civil, que é um modo importante de gerar
empregos e ajudar a resolver o problema da moradia
e do saneamento básico. Essas são
áreas que precisam de recursos. Desviar
o FGTS dessa função seria tentar
vestir um santo, despindo outro. Na minha opinião,
o Estado brasileiro tem é que fazer a lição
de casa. Primeiro, precisa dobrar, no médio
prazo, os recursos destinados à educação
superior. Com isso, conseguiremos uma significativa
expansão das vagas no setor público.
Segundo, é necessário dobrar a oferta
de crédito educativo: o governo Fernando
Henrique vetou essa meta, que consta do Plano
Nacional de Educação. Terceiro,
precisamos criar um Programa Nacional de Bolsas
Universitárias usando recursos extras,
além dos que a Constituição
já manda repassar à educação.
É um jeito de facilitar o acesso dos jovens
das famílias carentes à educação
superior.
Folha Dirigida Caso seja eleito, pretende
dar continuidade à política de prioridade
ao ensino fundamental?
Lula Vamos dar prioridade ao ensino
básico, sim, mas não como fez o
governo, que, em troca, abandonou o ensino superior.
A preocupação central do nosso programa
de governo é com a qualidade de todo o
ensino, do primeiro grau ao superior. Para isso,
propomos universalizar o ensino básico
e reduzir a evasão escolar. Queremos reverter
a atual municipalização da escola
pública, que foi feita de maneira predatória,
e estabelecer um novo marco de solidariedade entre
os estados e os municípios para ajudar
nessa tarefa.
Folha Dirigida O Fundo de Desenvolvimento
do Ensino Fundamental e de Valorização
do Magistério (Fundef) sofreu denúncias
de fraude em vários estados. Caso seja
eleito, o senhor pretende efetuar alguma mudança
neste programa?
Lula Os desvios criados pelo governo
em relação à educação
já foram denunciados várias vezes.
O governo federal simplesmente se livrou de muitas
das suas obrigações com a educação
nacional. No caso do Fundef, por exemplo, praticamente
não houve repasses da União para
as instituições, e se isso não
for revisto não vamos levar a educação
infantil a um novo patamar de qualidade, nem formular
uma nova política para o Ensino Médio.
A meta do nosso governo, se vencermos as eleições,
é ampliar o Fundef com recursos suplementares
e transformá-lo em Fundo de Apoio ao Ensino
Básico (Fundeb), conforme proposta de emenda
constitucional já apresentada pelo PT na
Câmara.
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