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O que está por trás dos acordos
que visam a inclusão da educação
superior na lista de produtos regulamentados pela
Organização Mundial do Comércio?
Como estes acordos estão sendo feitos?
A quem e a quê interessa um serviço
educacional definido como produto? Privilegiado
observador dos rumos da educação
internacional, Marco Antonio Rodrigues Dias, brasileiro
residente na França, que por 17 anos dirigiu
a Divisão de Ensino Superior da Unesco
e hoje viaja pelo mundo para conferências
e palestras, fala sobre os bastidores das decisões
que têm norteado as políticas educacionais
no Brasil e no mundo.
Nesta entrevista, concedida à Folha
Dirigida em recente passagem pelo Rio de Janeiro,
Marco Antonio dá um panorama das conseqüências
da Conferência Mundial do Ensino Superior,
realizada em 1998, pela Unesco, com a participação
de ministros e delegações de mais
de 180 países; fala do interesse das superpotências
mundiais pela educação dos países
em desenvolvimento; das regras comerciais para
o ensino superior; dos últimos acordos
firmados na Espanha pelo ministro Paulo Renato
Souza com a Universidade de Salamanca; e da omissão
do Governo brasileiro diante de temas relevantes,
como a inclusão da educação
na lista de produtos e serviços da OMC.
Há quem diga que em 1995 houve
um golpe de Estado mundial e ninguém se
deu conta diz ele, acerca da criação
desta organização, que é
majoritariamente controlada por países
ricos e que tem a missão de estabelecer
regras comerciais para o mundo.
Folha Dirigida Quais preocupações
motivaram a Unesco a organizar a Conferência
Mundial do Ensino Superior?
Marco Antonio Rodrigues Dias Foram
realizados trabalhos de reflexão em várias
áreas, que levaram à conclusão
de que havia necessidade de um referencial internacional
para dar subsídios aos que se encarregam
de definir políticas de educação.
Muito antes, em 1995, a Unesco havia lançado
um programa de coperação chamado
Unitwin Catedras Unesco, que estimulou a formação
de redes e a cooperação entre universidades,
em nível mundial, com base na solidariedade
e no respeito mútuo. Hoje, essas universidades
têm uma consciência que antes não
tinham e isso fez com que se desenvolvesse no
mundo inteiro uma reflexão no sentido que
o ensino superior deveria seguir certos parâmetros.
Também verificou-se que as universidades,
mesmo as mais ricas não têm condições
de permanecer isoladas.
Folha Dirigida O isolamento pode comprometer
universidades do porte de uma Oxford?
Marco Antonio A fragilidade de uma
universidade como Oxford não é a
mesma de outras, de menor estrutura, mas chegou-se
à conclusão de que todas, com o
desenvolvimento da ciência, com a rapidez
das mudanças, não conseguem se manter
na ponta em todas as áreas. Por isso os
intercâmbios são fundamentais. Agora,
o intercâmbio do qual necessita Oxford é
um, e o que precisa a Universidade de Saint Louis,
no Senegal, é outro completamente diferente.
Uma necessita do intercâmbio para sobreviver,
para acesso ao básico, a outra é
para manter seu nível de excelência.
Folha Dirigida A internet foi o que
tornou esta conexão possível?
Marco Antonio A internet, como tudo,
tem vantagens e desvantagens, mas sem dúvida
nenhuma permitiu um acesso à informação
que não era possível. As universidades
da África Ocidental, sul do Marrocos, Mauritânia,
norte de Senegal, não tinham acesso às
novas tecnologias. Formou-se uma rede, com ponto
focal na Universidade de Las Palmas, nas Ilhas
Canárias, na Espanha, com a Universidade
Paul, que é francesa, uma universidade
no sul do Marrocos, a Universidade da Mauritânia,
que é a única e pública que
existe, e a universidade de Saint Luois, que fica
no norte de Dakar. E as universidades espanholas,
francesas e inglesas se deram conta de que teriam
que aprender também, no mundo globalizado,
o conhecimento da realidade daquela faixa africana
do Oceano Atlântico. Todas as decisões
eram tomadas pelas universidades de maneira igual.
Evidentemente umas tinham mais a ganhar do que
outras, mas o que contava era a solidariedade.
Isso amadureceu a idéia de que necessitava-se
de uma reflexão mais profunda sobre o papel
do ensino superior no mundo, sua necessidade da
internacionalização, o desenvolvimento
da cooperação e sua função
na construção de um mundo melhor.
Folha Dirigida Como o Banco Mundial
se posicionava?
Marco Antonio Uma das razões
para a necessidade desta reflexão era que
havia, em nível internacional, muitos especialistas,
em particular os especialistas do Banco Mundial,
que defendiam a tese de que os países em
desenvolvimento deveriam concentrar seus esforços
no ensino fundamental, e que os países
em desenvolvimento não deveriam investir
no ensino superior, não deveriam financiá-lo.
A proposta era privatizá-lo. A conferência
mundial veio tentar dar uma resposta a isso. Muitas
organizações não-governamentais
internacionais e regionais passaram a refletir
sobre a crise do ensino superior a partir daí.
Folha Dirigida A qual conclusão
se chegou, ao se constatar que havia diagnósticos
e sugestões diferentes para a mesma crise?
Marco Antonio Eu diria que havia diagnósticos
comuns, no sentido de que o ensino superior estava
em crise, de que havia uma necessidade de reflexão
e de centrar o foco na ação do ensino
superior. O Banco Mundial se orientaria no sentido
de que os estudantes participassem mais ativamente
do financiamento. O diagnóstico da Unesco
se orientava no sentido social da educação
e de considerar que o ensino superior era fundamental
para o desenvolvimento sustentável do país.
A Unesco lançava também a idéia
de que o sistema educacional é um todo,
não se podendo cuidar apenas de uma parte.
Folha Dirigida Quais consensos foram
observados em relação ao ensino
superior no mundo?
Marco Antonio Um princípio básico
é que a educação em geral,
inclusive o ensino superior, é um direito
humano. Os países ricos da OCDE (Organização
para Cooperação e Desenvolvimento
Econômico) estabeleceram como meta, em agosto
de 1998, numa reunião preparativa para
a Conferência Mundial, que o acesso ao ensino
superior seria universal, ou seja: os países
ricos tinham que dar a todo jovem que está
na faixa dos 17 aos 23 anos a possibilidade de
ter acesso a uma forma qualquer de ensino superior,
podia ser por ensino a distância, universidade
de pesquisa, formação de professores,
o que fosse, mas seria um direito. Só não
teria formação superior quem não
quisesse, ou quem não tivesse condições
mentais, mas não poderia haver discriminação
de qualquer espécie. Esta era a orientação
dos países ricos para eles próprios.
Folha Dirigida E qual era a orientação
para os países pobres?
Marco Antonio Essa foi a questão
que se colocou. Por que os países ricos
queriam isso? Eles viram que para manter a liderança
econômica e financeira no mundo, inclusive
os Estados Unidos, o Japão, a Europa, necessitavam
de quadros altamente qualificados, formados basicamente
no ensino superior, com pesquisa. A conferência
concluiu que esse direito teria que ser extensivo
aos estudantes de todo o mundo, indiscriminadamente.
O segundo ponto fundamental é que a qualidade
de uma instituição não se
reduz aos bens físicos e materiais ou a
um currículo bem estruturado, de acordo
com as técnicas mais modernas originárias
dos Estados Unidos ou da Europa. Tudo isso é
importante, mas o fundamental para a formação
de um estabelecimento de ensino superior é
a pertinência, ou seja: a formação
tem que ser dada tendo em vista a realidade local,
cultural, social, financeira, porque não
haverá qualidade se a formação
não for pertinente e se não estiver
centrada no estudante.
Folha Dirigida A alta tecnologia é
pertinente à India? A pesquisa de ponta
é pertinente ao Brasil, que tem um dos
mais baixos IDHs do mundo? Como explicar estes
fenômenos?
Marco Antonio Eu posso dar minha opinião,
que é a opinião de um indivíduo.
Se você fizer uma análise dos dirigentes
governamentais quase no mundo inteiro, na América
Latina em particular, onde é que você
encontra uma equipe governamental que tem um projeto
de Nação? Isso não existe
mais. Estão todos satelizados, submetidos
e fazendo este papel triste do nosso presidente,
que termina o mandato dizendo que o Brasil foi
injustiçado. O problema é ter um
projeto como o Juscelino (Kubistchek) e o (Ernesto)
Geisel tinham, de verificar as necessidades do
país, para levá-lo a uma sitação
em que se construa uma sociedade mais justa. Hoje
estamos numa situação pior que aquela
do tempo da ditadura, em que o Delfim Netto dizia
que primeiro era preciso criar o bolo, para depois
distribuir. Criou-se o bolo e ele foi para onde?
É como agora, que se quer saber para onde
foi o dinheiro das privatizações.
Folha Dirigida O que a conferência
mundial defendia como pertinência?
Marco Antonio Havia um plano de ação
concreto, no sentido de que as universidades definissem
ou redefinissem suas missões. As universidades
devem analisar o que são, a cultura da
avaliação é fundamental,
elas devem prestar conta à sociedade e
ao fazer esta avaliação, vendo a
realidade do país, da sociedade, da região,
devem redefinir suas missões. Ao fazer
isso, evidentemente a universidade vai estar participando
da elaboração do projeto de Nação.
Folha Dirigida O MEC participou da
conferência?
Marco Antonio Não. O governo
brasileiro designou o presidente do Conselho Nancional
de Educação, que na época
era o Éfrem Maranhão, que havia
sido reitor da Federal de Pernambuco. Estava também
o presidente da Andifes, o Renato de Oliveira,
que hoje é secretário de Ciência
e Tecnologia do Governo do Rio Grande do Sul,
e alguns reitores de universidades. Paulo Renato
não foi. Era período eleitoral no
Brasil e ele usou isso como desculpa. A conferência
foi de 5 a 9 de outubro. O primeiro turno das
eleições foi no dia 4 de outubro.
Folha Dirigida Na época, o ministro
Paulo Renato estava em destaque no Governo. Inclusive
seu nome havia sido cogitado para suceder a Fernando
Henrique. Não era natural que não
quisesse se ausentar do país?
Marco Antonio Não. Ele se cogitou
candidato na verdade, e perdeu a oportunidade
de dar o recado brasileiro, com uma audiência
incrível, porque todo o pessoal que conta
na educação do mundo estava lá.
Folha Dirigida A ausência do
MEC enfraqueceu a participação do
Brasil?
Marco Antonio Em termos pessoais não,
porque o Éfrem conhecia o tema e era uma
pessoa qualificada, independentemente da posição
que ocupava. O grupo era muito qualificado, mas
uma reunião dessas, além de conteúdo,
tem a representatividade política. Nem
a Conferência Geral da Unesco consegue reunir
tantos ministros. Estive na Unesco quase 20 anos
e nunca vi tantos ministros juntos.
Folha Dirigida Por que a Organização
Mundial do Comércio se colocou no centro
dos debates educacionais?
Marco Antonio Os técnicos da
OMC em maioria mais de 2/3 provêm
dos paíse ricos, acentuadamente dos Estados
Unidos e dos que seguem suas orientações,
como Nova Zelândia, Austrália e Inglaterra.
Em 1998 eles produziram um documento, que era
secreto, desenvolvendo uma teoria segundo a qual
o ensino era um serviço público,
mas que em muitos países, especificamente
o ensino superior, estava sendo oferecido, em
larga escala, por instituições privadas.
Para eles, isso significava que o ensino superior
era um serviço comercial. Esta era a tese
da OMC, justamente no momento em que o mundo inteiro
aprovada uma concepção do ensino
como sendo um serviço público. Qual
é a característica essencial do
serviço público? É igual
para todos, com acesso a todos, tem que ser contínuo
e não pode ser discriminatório.
É como o serviço de água.
Não pode ter um serviço de água
potável para uns, e de água poluída
para outros. Como serviço público,
ainda que fornecido também pela iniciativa
privada, deve atender a todos de maneira igual.
O que se deu foi que enquanto o mundo inteiro
definia oficialmente um conjunto de regras comuns
para o ensino superior, uma organização
internacional, na moita, começava a defender
o contrário. E o documento diz: Devemos
analisar as repercussões das iniciativas
que a Unesco está tomando em relação
ao ensino superior.
Folha Dirigida O que está relacionado
junto à Educação, nesta lista
de serviços?
Marco Antonio É gravíssimo.
Serviços fornecidos às empresas,
inlusive os serviços profissionais e de
informática; os serviços de comunicação;
os serviços de construção
e de engenharia a ele vinculados; os serviços
de distribuição; os serviços
ligados ao meio ambiente; os serviços financeiros,
serviços de seguros e serviços bancários;
os serviços de saúde e os serviços
sociais; os serviços relativos ao turismo
e às viagens; os serviços recreativos,
culturais e esportivos; os serviços de
transportes e no último item aparece o
seguinte texto: Outros serviços não
relacionados na lista acima mencionados.
Quer dizer, tudo.
Folha Dirigida O Brasil já sofre
reflexos desta deliberação?
Marco Antonio Veja o que aconteceu
há dois anos atrás, quando estava
sendo discutido na OMC a liberalização
dos serviços de telecomunicações.
O Brasil foi chamado e mostrou que já havia
aberto tudo, mas com limites. A Constituição
Brasileira estabelece que a propriedade das estações
de televisão, das companhias de telecomunicações
são limitadas a brasileiros. Os Estados
Unidos, Japão, Europa, alguns outros países
ricos portestaram. Disseram que contrariava as
regras, que era um limite inaceitável,
que feria o Acordo Geral de Comércios e
Serviços, e o Brasil foi chamado para refazer
o documento. É coincidência o fato
de que o Governo fez a pressão que fez
e conseguiu a mudança na legislação
das comunicações? Seguramente não
é. O Governo propôs, porque a OMC
decidiu. As organizações universitárias
dos países ricos é que chamaram
atenção para isso. Ninguém
estava sabendo. Eu estava na Unesco e não
tinha a menor idéia. Aqui na América
Latina, fora os mexicanos, ninguém estava
sabendo disso.
Folha Dirigida Isso foi aprovado no
Congresso e ninguém se deu conta?
Marco Antonio O Acordo Geral de Comércio
e Serviços foi aprovado em 94, em 95 ele
foi submetido a ratificação pelos
parlamentos da maioria dos países do mundo.
Esta ratificação em quase todos
os países foi feita no fim do ano, em dezembro,
quando está todo mundo de férias.
Folha Dirigida Como isso se deu no
Brasil?
Marco Antonio Quando estive na Câmara,
no mês passado (em julho deste ano), numa
audiência pública sobre o assunto,
um deputado me disse o seguinte: Quando
foi aprovado, nos disseram que isso era importantíssimo.
Se não aprovássemos, o Brasil ficaria
de fora das decisões mundiais do comérciuo
de serviços, que seria um estrangulamento.
Aquilo tinha que ser aprovado em 24 horas.
Isso ocorreu no mundo inteiro. Há quem
diga que em 1995 houve um golpe de Estado mundial
e que ninguém se deu conta. Cada vez me
convenço que quem diz isso tem razão.
A OMC tem um poder executivo, porque ela praticamente
aplica isso. No final de 1994 havia uma conferência
para renovação do Acordo Geral e
um país, é possível que tenha
sido os Estados Unidos ou um do grupo anglo-saxônico,
entrou com a proposta de transformar este acordo
numa organização internacional nova,
daí surgiu a OMC. Isso foi aprovado a toque
de caixa. Toda organização internacional,
quando é criada, estuda-se com anos de
antecedência, faz-se uma rigorosa análise
de factibilidade, debatem-se todas as vantagens
e desvantagens. A OMC foi aprovada a toque de
caixa e seguramente foi ratificada com os mesmos
argumentos do acordo de comércio e serviços.
Folha Dirigida Quais delegações
participam desses acordos internacionais? O fato
de a Educação estar relacionada
nos itens do acordo não exige a participação
de um representante do MEC?
Marco Antonio Quando tratam de problema
do comércio, quem vai representar o Brasil
é o Itamaraty e a área específica
que cuida do comércio. Eu não sei
quem representou o Brasil nas conferências,
mas certamente deve ter sido gente dos ministérios
da Indústria e Comércio, da Fazenda
e do Planejamento. A princípio eu achei
que havia alguém do Ministério da
Educação, mas me enganei.
Folha Dirigida Por que, na sua opinião,
esse assunto ainda não caiu em domínio
público?
Marco Antonio Isso foi feito de uma
maneira muito hábil, sem debate, sem discussão.
O impacto da opinião pública começa
agora e está sendo um rastilho de pólvora.
No momento em que houve a manifestação
das universidades dos países ricos, em
setembro, a coisa se espalhou. Aqui na América
Latina, a primeira menção a isso
foi feita por mim, no Fórum Social de Porto
Alegre, no ano passado. Isso chamou a atenção
e as universidades públicas resolveram
levantar o tema, na cumbre (reunião de
reitores universitários) que se realizou
em abril. Agora o debate está sendo feito
em vários lugares, inclusive com a interpelação
dos estudantes às autoridades, com maior
ou menor intensidade. Mas isso está acontecendo
em todos os paíse íbero-americanos,
mas é possível que em outros países
menos do que aqui. E a Associação
Internacional de Universidades, que tem membros
no mundo inteiro, se manifestou e está
mandando a manifestação para o mundo.
Folha Dirigida Qual o impacto desta
medida para o Brasil? Acha que esta questão
esteve no domínio dos candidatos à
Presidência?
Marco Antonio A Andifes anunciou a
intenção de interpelar os candidatos.
Interpelaram o presidente FHC e a presidente da
SBPC (Glaci Therezinha Zancan/Universidade Federal
do Paraná). A impressão que dá
é que o Governo já está com
problemas demais e quer jogar isso para o próximo
governante. A rota de debates sobre este tema
deve terminar em março do ano que vem.
Para mim, o governo está querendo adiar.
A resposta da presidente da SBPC foi dada através
do Ministério das Relações
Exteriores. Disseram que não há
problemas, que o assunto está sob controle,
que o Brasil tem normas que têm que ser
obedecidas. Soube extra-oficialmente que o Ministério
da Educação decidiu não entrar
neste tema. Minha interpretação
é que trata-se de uma área minada
que querem deixar para os sucessores.
O Itamarati nem sempre manda embaixadores competentes
para todos os assuntos. Para a Unesco, nem sempre.
Para Genebra, quem esteve lá nos últimos
tempos? Ricúpero (ex-ministro Rubem Ricúpero),
que é um dos quadros mais competentes.
O (Celso) Amorim, que foi presidente da Embrafilme
e hoje é embaixador do Brasil na Inglaterra.
Desta geração que está na
faixa dos 50 anos, é um dos embaixadores
mais cultos e mais competentes, e hoje quem está
lá é Luis Felipe Seixas Corrêa,
que foi duas vezes secretário geral do
Itamarati e foi ministro conselheiro na Unesco.
Sem dúvida nenhuma um grande diplomata,
extremanente competente. Mas o que tenho visto
no Brasil é que, na discussão deste
tema, o país não só fez uma
nota pessoal, mas conseguiu praticamente que todos
os países do Mercosul, do Pacto Amazônico,
da América do Sul e mais outros, como Cuba,
Índia, Paquistão, um grande número
de países, fizesse um balizamento para
que esta discussão se desenvolva, e a partir
de propostas claras e benéficas para todos.
Folha Dirigida Quais os resultados
possíveis desta política?
Marco Antonio Se você olhar os
princípios da OMC, eles dizem que o que
é dado a um país deve ser dado aos
outros membros. Significa que se o Brasil entende
que é de interesse fazer um acordo com
a Open University inglesa, ou com a Universidade
Aberta da Catalunha, ou da Tailândia, ou
com a Universidade do Ar, do Japão, para
receber know-how, qualquer australiano, qualquer
americano, qualquer inglês, qualquer japonês
que queira vender produtos vai achar que temos
que comprar também. E se o Brasil não
quiser, poderá ter que indenizá-los.
Outra conseqüência, e que diplomatas
descartam: o Brasil é livre para oferecer
a área que vai ser negociada, os textos
são muito ambíguos, é verdade
que o Brasil pode limitar as áreas que
vai discutir, mas o acordo diz que cada negociação
tem que concluir com mais abertura.
Então, nenhum acordo chegará a termo
sem que se dê alguma coisa em troca. Quanto
é que custa um estudante, em média,
na universidade pública, hoje? Digamos
que seja 5 mil dólares. Então vem
uma instituição americana que se
instala aqui e consegue matricular 5 mil estudantes,
e diz: Nós queremos também,
para cada estudante nosso, 5 mil dólares.
É só olhar o documento americano
e ver o que eles estão pondo as subvenções
como obstáculo. Você certamente dirá:
Isso é incrível! É,
mas corremos esse risco. Há advogados canadenses
que me disseram que esse perigo é real.
Uma das grandes esperanças, hoje, é
que a OMC possa ser reformulada, mas nenhum jornal
brasileiro está tratando disso. As regras
da OMC precisam ser mais transparentes.
Folha Dirigida Segundo seu pronunciamento
no Fórum Social Mundial, a Austrália
exportou 2 bilhões de dólares em
produtos ligados ao ensino em 2000, e o conjunto
dos países ricos, ligados à OCDE,
comercializaram juntos 300 bilhões de dólares
em 1999. Sabe-se que alguns programas brasileiros,
como as avaliações e o Bolsa-Escola,
têm inspirado outros países, sobretudo
latinos. A decisão da OMC não poderia
favorecer o Brasil na geração de
divisas, com a exportação de serviços
educacionais? Diante desta hipótese, o
Brasil estaria, de fato, capacitado para isto?
Marco Antonio O Brasil, de fato, pode
entrar nesta linha comercial. Eu interpretei a
conclusão do discurso do ministro Paulo
Renato como favorável a isso. Para mim,
não será uma surpresa se ele agora
entrar pelo caminho da iniciativa privada, já
que tentou o caminho político e nada conseguiu.
Ele tem competência, agora eu lamentarei,
porque é o Brasil que é explorado,
que está sofrendo conseqüências
de uma visão da educação
que não é a visão da formação
do cidadão, que vai passar a exportar caixas
negras fechadas sem que sejam em resposta às
necessidades de Moçambique, Guiné
Bissau, São Tomé e Príncipe,
Timor. O Brasil pode fazer isso, pode ser ponta
de lança de grupos internacionais.
Não será uma surprepresa para mim,
se esse grupo de Minas Gerais, do (Walfrido) Mares
Guia (deputado federal/PFL), do Pitágoras,
que fez um grande acordo com a Apolo Internacional
recentemente, ou o grupo do Di Genio (João
Carlo Di Genio/Grupo Objetivo/São Paulo),
qualquer destes grandes grupos, aliados a grupos
americanos, australianos, o que seja, entrar no
mercado dos cinco países da África,
Angola, Moçambique, São Tomé
e Príncipe, Guiné Bissau e Cabo
Verde, mais Timor Leste, eventualmente bolsões
como Macau, onde ainda há gente que fala
português, na Ásia ou mesmo Portugal.
Folha Dirigida O que ocorreria se o
Brasil se pautasse pelas diretrizes da Conferência
Mundial?
Marco Antonio Se o Brasil adotasse
os princípios da conferência, em
primeiro lugar se colocaria numa posição
ética muito mais correta, em segundo lugar,
isto seria um instrumento poderosíssimo
para não ficar na retórica da comunidade
dos países lusófanos, mas criar
alguma coisa concreta, que é a base da
formação de recursos humanos. E
além do mais já se sabe, há
muito tempo, que se o Brasil fizesse isso, a médio
e longo prazos ganharia, porque sabe-se perfeitamente
bem que qualquer investimento em cooperação
solidária, sem o benefício imediato,
acaba gerando recursos. Os americanos têm
estudos sobre isso. Sabem que cada dólar
investido em bolsa de estudo produz não
sei quantos dólares em retorno. Pessoas
que são formadas em contato com aquele
país, principalmente de países que
têm pontos culturais comuns, que têm
uma língua comum, é evidente que
quando as pessoas formadas assumirem posições,
por uma conseqüência natural, onde
eles buscarão recursos, acordos? Virão
aqui ao Brasil.
Eu, pessoalmente, estudei na França. Quando
mais tarde, assumumindo responsabilidades numa
instituição como a Universidade
de Brasília, quando tive condição
de propor a elaboração de um convênio,
procurar um convênio para a formação
de administradores, onde é que eu fui buscar?
Podia ter procurado nos Estados Unidos, no Canadá,
no Japão, na Inglaterra, mas fui procurar
na França. Por quê? Eu sabia a língua,
conhecia o caminho das pedras, sabia qual instituição
era boa, qual era ruim. Até para ter benefícios
em termos de geração de divisas,
em termos de acordos, que vão muito além
da educação, o Brasil, ao agir de
maneira solidária, estará ganhando.
Espero que o Brasil seja inteligente, que aja
por solidarieade, que nossos políticos
sejam inteligentes uma vez. Se querem ser espertos,
se querem que o país ganhe, que as empresas
ganhem, é este o caminho, o da solidariedade,
não tenho dúvida nenhuma.
Folha Dirigida Os acordos firmados
pelo ministro Paulo Renato com a Universidade
de Salamanca, na Espanha, em julho, são
positivos para o Brasil?
Marco Antonio Não vi o acordo,
embora estivesse em Salamanca na época.
Podem ser benéficos? Podem. Esse acordo
foi feito imediatamente após uma denúncia
contra universidades epanholas que estavam vendendo
no Brasil títulos de doutorado. Estavam
organizando diretamente ou através de parcerias
com universidades brasileiras, como a Universidade
Luterana e outras, cursos de pós-graduação,
inclusive doutorado em áreas nas quais
as universidades não estavam habilitadas.
Ou seja: estavam vendendo gato por lebre no Brasil.
Isso é escandaloso.
O MEC cometeu um erro grave, denuciando e dando
a entender que todas as universidades estavam
agindo da mesma maneira. Não é verdade.
Posso dar meu depoimentos como ex-diretor de ensino
superior da Unesco, que várias universidades
espanholas estavam entre as que melhor cooperaram
em projetos em bases de igualdade e de solidariedade.
A Universidade de Las Palmas, Universidade Politécnica
da Catalunha, Universidade Politécnica
de Madri, a Complutense e várias outras
que poderiam ser mencionadas. Se o acordo que
eu vi anunciar em Salamanca efetivamente está
na constituição de doutorados compartidos,
doutorados que são ministrados em condições
de igualdade por uma universidade espanhola e
uma universidade brasileira, isto é altamente
positivo. E tenho esperança que isso ocorra.
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