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Na avaliação do reitor da Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro
(PUC-Rio), Padre Jesús Hortal Sánchez,
os principais desafios que a educação
enfrenta atualmente são a ampliação
da qualidade do ensino público, a necessidade
de apoio à pesquisa nas universidades e
a melhor formação dos professores.
Quanto a este último aspecto, o reitor
é incisivo. A qualidade do aluno
depende da qualidade do professor, ressalta
ele.
Para tratar das dificuldades do ensino superior
brasileiro, o Padre Jesus Hortal está lançando
o livro Universidade. Realidade e Esperança.
Há muitos problemas que devem ser
enfrentados, mas sou otimista neste sentido. Por
isso, veja que meu livro fala de realidade, mas
também de esperança, explica.
O reitor acredita na capacidade da educação
em gerar transformações na sociedade,
seja pelo contato direto da universidade com a
comunidade, ou em mudanças mais profundas
na sua estrutura, como na redução
do desemprego. Neste contexto, reforça
a importância do professor se sentir valorizado
e motivado.
Me dá uma alegria chegar na PUC
e ver a universidade cheia de jovens e todos com
vontade de trabalhar e ir para frente. Eles me
transmitem muito entusiasmo e eu procuro retribuir
porque o entusisamo é fundamental na tarefa
educativa. Veja a entrevista:
Folha Dirigida Muito se fala do papel
social da universidade, e também se critica
algumas instituições que se mantêm
fechadas, sem estreitar relações
com a comunidade, por exemplo. De que maneira
a universidade pode contribuir para a melhoria
da situação social do país?
As universidades, de uma forma geral, têm
desempenhado este papel?
Jésus Hortal Sánchez
Algumas mais e outras menos. Isto faz parte do
dever constitucional da universidade. De acordo
com a nossa Constituição Federal,
a universidade se baseia na indissociabilidade
entre ensino, pesquisa e extensão. Essa
palavra extensão, de acordo com o contexto
em que foi discutida, não significa cursos
de extensão, mas exatamente a interação
com a sociedade. Nesse ponto temos diversos tipos
de ações. A universidade tem cursos
profissionalizantes e os alunos têm que
fazer estágios profissionais. O modo de
fazer estes estágios profissionais é
prestando serviços à comunidade.
E quem são os clientes? Normalmente as
populações carentes. Na PUC, fundamentalmente,
os nossos fregueses são da Rocinha e do
Vidigal estamos entre as duas favelas.
Nossos alunos prestam à comunidade serviços
gratuitos, ou a preços simbólicos,
nas áreas de Direito, Psicologia, Educação,
Meio Ambiente, Serviço Social, Comunicação
Social e Odontologia, por exemplo. Há também
um núcleo de estudos de ação
sobre o menor, criado pelos alunos e que começou
há muitos anos com um atendimento a menores
de rua que ficavam na Praça Santos Dumont,
na Gávea. Tem sido muito interessante observar
que uma boa parte dos menores que foram orientados
por este núcleo hoje são funcionários
da PUC. E são excelentes, não temos
queixa nenhuma. Como se pode perceber, são
tantas as ações que a universidade
pode fazer, que a gente vai dizendo e nunca esgota
tudo aquilo que tem.
Folha Dirigida A educação
através da transmissão de valores
humanos é cada vez mais uma exigência
de pais e professores, mas muitos cursos ainda
investem no simples adestramento dos
seus alunos, visando ao bom desempenho nas provas.
Como o senhor analisa esta questão?
Jésus Hortal Sánchez
O empreendedorismo, a inovação e
a pesquisa são características da
PUC. É possível perceber que não
temos apenas a preocupação de que
os alunos se saiam bem nas provas. O empreendedorismo
tem este sentido de fazer com que o aluno não
seja simplesmente um bom profissional, que pode
ser empregado, mas que tenha capacidade de iniciativa
para gerar empregos para os outros também.
A PUC também se preocupa muito em fornecer
estágios sociais e profissionais. Mais
de um terço dos estudantes da universidade
estão hoje em estágios. A universidade
não tem que se ocupar apenas que os estudantes
tenham bom desempenho no Provão ou saibam
repetir aquilo que recebem. A universidade tem
que se empenhar para que o aluno tenha iniciativa
própria e participe de projetos de pesquisa.
As incubadoras de empresas universitárias,
por exemplo, não devem ser simplesmente
balcões de negócios, devem ser motores
de inovação, conseqüentemente
apoiada na pesquisa.
Folha Dirigida De que forma a educação
pode servir de instrumento para minimizar o problema
do desemprego?
Jésus Hortal Sánchez
Evidentemente a educação sempre
abre maiores perspectivas e também uma
maior flexibilidade. O problema do desemprego
muitas vezes vem do fato que a pessoa só
sabe fazer uma coisa. Se a empresa dele reduz
o quadro, ele não encontra um outro lugar.
Quem tem uma educação superior é
capaz de adaptar-se a coisas muito diferentes.
Mas além disso, a universidade hoje tenta
criar não empregados, mas empregadores.
E neste sentido, não vamos resolver o problema
do aluno, mas de outras pessoas, que vão
ser empregados da empresa que ele forma. Nós
já temos umas vinte empresas formadas que
estão no mercado e que geram empregos.
Então, a educação pode contribuir
e muito, mas tem que ter este princípio
de responsabilidade social, que nós tentamos
incutir nos nosso alunos.
Folha Dirigida Que balanço o
senhor faz da gestão do Ministro Paulo
Renato Souza nestes últimos oito anos?
Jésus Hortal Sánchez
O ministro Paulo Renato tem grande mérito
na expansão do ensino fundamental. Esta
foi uma ação positiva do governo
e podemos dizer que hoje as novas gerações
estão 100% na escola. Além disso,
creio que o ministro fez uma coisa muito boa,
que foi a introdução de uma cultura
de avaliação. Pode se discutir a
eficácia dos instrumentos empregados, mas
a cultura de avaliação e de qualidade
está hoje em toda parte. A sociedade assimilou
este conceito, tanto o Provão, quanto o
Enem. Pode se discutir que o Provão tem
algumas coisas negativas, e estou de acordo, mas
ninguém diz vamos terminar com isso.
Vamos modificar, vamos aperfeiçoar. É
claro que o ministro Paulo Renato estava condicionado,
como o governo inteiro, pelas limitações
orçamentárias, por isso as universidades
federais têm sofrido muito. Por outro lado,
já que se ampliou o ensino fundamental,
agora estão chegando as novas gerações
que querem entrar na universidade e não
há da parte do governo um apoio suficiente
às instituições de ensino
que não visam ao lucro, não só
às federais, mas às universidades
comunitárias, para que esta expansão
se processe de modo ordenado, em busca da qualidade.
Folha Dirigida Quais são os
principais problemas históricos no processo
educacional brasileiro?
Jésus Hortal Sánchez
O primeiro problema que foi enfrentado
pelo ministro Paulo Renato é a expansão
do ensino fundamental e também do ensino
médio. Agora tem que haver uma procura
pela melhor qualidade. Sem dúvida, a qualidade
média baixou, o que é um fenômeno
bastante normal quando você expande muito
a base, porque num momento inicial o que interessa
é que entrem todos. O segundo desafio é
a formação dos professores, que
está muito relacionada ao anterior, não
tenho dúvida, porque a qualidade do aluno
depende da qualidade do professor. A formação
dos professores encontra ênfase na parte
chamada pedagógica ou didática e
esquece que o professor, para ser bom, tem que
ter conteúdo e não apenas forma.
É claro que a Lei de Diretrizes e Bases
e o Plano Nacional de Educação prevêem
que todos os professores tenham nível universitário
para o ensino fundamental, que na universidade
haja professores com pós-graduação,
pelo menos 30%, tudo isso poderá contribuir,
mas é um desafio muito grande. Já
para a universidade, me parece que o desafio fundamental
é conseguir uma estrutura de apoio à
pesquisa que a torne independente das anuidades
escolares. Anuidades escolares não podem
de jeito nenhum financiar a pesquisa, que é
muito cara. E o financiamento da pesquisa é
importantíssimo.
FOLHA DIRIGIDA O magistério
vem perdendo status ao longo dos anos. A que o
senhor atribui este fator?
Jésus Hortal Sánchez
Se você fala dos professores do magistério
público estadual e municipal, concordo.
Realmente, a retribuição dos professores
da rede pública tem caído. O Fundef
tentou corrigir isso, tem sido uma certa correção
de rumo, mas foi o governo federal que teve que
intervir, porque os governos municipais e estaduais
não destinavam recursos suficientes. O
professor que não é bem pago é
obrigado a ter uma carga horária de sala
de aula muito forte. Assim, o professor pode ser
um excelente didata e até os alunos gostarem
muito dele, mas ele não se renova. Também
por isso, faltam professores. Para ter uma boa
formação, os professores vão
ter duas opções: as universidades
federais e as privadas de qualidade. As federais
têm um número de vagas restrito,
que não se ampliam ao ritmo da sociedade.
Por outro lado, se você quer ir a uma universidade
privada de qualidade, uma PUC, isso é caro.
Quem vai gastar 600, 700 reais por mês para
formar-se professor de História, de Geografia,
de Física, de Matemática, etc, para
depois ganhar 350 reais mensais? É um simples
cálculo de custo/benefício. Enquanto
não houver uma ampliação
muito grande de mecanismos de ajuda ao estudante,
como bolsas e crédito educativo, vai ser
difícil que o professor tenha boa formação
e conseqüentemente tenha prestígio.
É importante que o governo federal apóie
não apenas os estudantes que vão
para a universidade federal, mas também
o estudante que quer estudar e deseja uma formação
de qualidade na universidade privada também.
Isso é uma questão de justiça
social, não impôr um tipo de universidade,
mas dar a opção. É um círculo
vicioso. Se você não dá o
apoio suficiente, o estudante perde o interesse,
tem que buscar outras fontes de renda para sobreviver,
então o professor perde qualidade, perde
prestígio e perde estímulo.
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