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Um indicador da democratização do ensino superior

Dirigentes educacionais acham que a expansão das instituições particulares
ajudam o processo de democratização

As vagas no ensino superior cresceram de uma forma significativa no país

 

A expansão das universidades particulares é um processo que tem atraído a atenção dos educadores, preocupados com a qualidade dos novos cursos, dos estudantes, pelo aumento de opções; e da sociedade de modo geral, uma vez que as universidades estão cada vez mais atuantes junto à comunidade, em projetos de extensão.

Segundo a chanceler da Universidade Castelo Branco, Vera Gissoni, o aumento de ofertas neste nível da educação representa mais um passo no processo de democratização do ensino superior. O reitor da Universidade Veiga de Almeida, Mário Veiga de Almeida Jr., lembra que a expansão deve estar focada na qualidade, não apenas em números. Em entrevista à FOLHA DIRIGIDA, os representantes destas intituições privadas de educação superior falam sobre propostas para a educação, como o financimento de estudantes, sugerido pelo reitor Mário Veiga de Almeida Jr., assim como analisam as condições atuais, conforme a chanceler Vera Gissoni, que destaca a responsabilidade social da universidade.

 


Vera Gissoni,
Chanceler da Universidade Castelo Branco

FOLHA DIRIGIDA — O ensino superior no Brasil foi marcado, nos últimos anos, pela expansão das universidades particulares. Como a senhora analisa esse processo? O que ele representa?
Vera Gissoni —
A expansão do ensino superior pelas universidades particulares representa mais um passo no processo de democratização do ensino superior, em duplo aspecto: quantitativamente, pelo aumento do número de vagas disponíveis e, qualitativamente, pela criação e oferta diversificada de instituições e cursos, possibilitando aos alunos maiores e melhores condições de escolha.

FOLHA DIRIGIDA — Um dos dramas constantes das instituições privadas é a inadimplência dos alunos. De que forma estudantes e faculdades poderiam tornar esta questão menos traumática? Falta uma intervenção mais firme do MEC neste aspecto?
Vera Gissoni —
Estudantes e universidades poderiam negociar melhor se a interferência do poder público fosse limitada à regulamentação geral dos contratos entre as partes, tal como ocorre em outros setores da área de prestação de serviços, como a dos planos de saúde, por exemplo. As exigências acadêmicas por parte do MEC para o reconhecimento de cursos e instituições estão cada vez mais altas e rígidas o que encarece sobremaneira o custo desses serviços. Os altos investimentos exigidos para a manutenção dos níveis de qualidade encarecem os cursos e têm de ser repassados aos alunos de alguma forma, sob a pena de inviabilizarem os projetos. Por outro lado, a Lei 9870/99 garante a manutenção dos alunos na escola independentemente do pagamento das mensalidades resguardando, apenas, às instituições de ensino superior o direito de recusar a matrícula ao aluno no período seguinte. Assim, estimula-se a inadimplência, na medida em que a escola é obrigada a manter a prestação de serviços durante todo um período letivo, mesmo que a inadimplência se verifique logo após a matrícula.

FOLHA DIRIGIDA — O MEC ainda não fechou nenhum curso no país, apesar das constantes ameaças devido aos maus resultados no Provão. Na sua opinião, o Ministério tem se mostrado pouco empenhado na questão da qualidade do ensino superior no Brasil?
Vera Gissoni —
Considero que o MEC tem se empenhado muito para elevar a qualidade do ensino superior, entretanto, nem sempre as estratégias utilizadas têm gerado resultados satisfatórios. A legislação excessiva e algumas vezes confusa constitui obstáculo considerável, desde que a cada norma aprovada novas e mais complexas exigências são feitas às escolas. Acrescente-se, ainda, o fato de que as Comissões de Avaliação muitas vezes aplicam esses regulamentos indistintamente, não considerando as características peculiares nem as dificuldades das instituições e regiões onde estas se localizam. As instituições que mantêm cursos que obtiveram resultados ruins têm um prazo para procederem à reformulação. Para isto, as instituições de ensino superior devem tomar as providências internas necessárias e devem contar com o apoio do MEC para que as mudanças se processem efetivamente, o mais rápido possível.

FOLHA DIRIGIDA — As universidades particulares têm se empenhado o suficiente no incentivo às atividades de extensão e no contato com a comunidade?
Vera Gissoni —
As universidades vêm assumindo cada vez mais e melhor as atividades de extensão porque o próprio conceito de extensão tem sido amplamente discutido, melhor entendido e valorizado nas suas interfaces com o ensino e a pesquisa. Além disso, as atividades extensionistas emprestam maior transparência à responsabilidade social das instituições de ensino e esta é uma questão que, sem dúvida, tem assumido maior relevância na agenda das discussões sobre os problemas enfrentados pela sociedade.

 


Mário Veiga de Almeida Jr. , Reitor da Universidade Veiga de Almeida

FOLHA DIRIGIDA — O ensino superior no Brasil foi marcado, nos últimos anos, pela expansão das universidades particulares. Como o senhor analisa esse processo?
Mário Veiga —
O ensino superior tem apresentado uma expansão em número de matrículas, mas a expansão deve estar focada na qualidade, não apenas em números. Não são os números que vão formar uma sociedade preparada, qualificada para se deparar com o mundo globalizado. Acredito que para haver expansão seja fundamental que haja um financiamento para alunos. Um financiamento por parte do governo, que subsidie estudantes de baixa renda, de modo a tornar a universidade acessível a todos. Não são preços baixos e baixa qualidade que vão ajudar o país. É preciso que a população de baixa renda possa escolher o que quer e onde quer estudar.

FOLHA DIRIGIDA — O MEC tem se mostrado pouco empenhado na questão da qualidade do ensino superior no Brasil?
Mário Veiga —
Não. O MEC está muito empenhado na discussão da qualidade, mas não vemos a efetiva resolução dos problemas. Acredito na avaliação para correção, não para punição. Vejo a função do MEC como a de avaliador no sentido de qualificar e fornecer aos alunos meios para escolher onde e o quê estudar. Não adianta as universidades oferecerem cursos a preços acessíveis, mas sem qualidade. Me preocupa que a sociedade entenda que, como não há cursos fechados, que todos têm o mesmo valor. O mercado de trabalho faz esta diferenciação de qualidade, mas o MEC não. O MEC, como órgão oficial de avaliação, deve fazer esta creditação. Temos também que verificar que o MEC não pode avaliar em modelo único. Não podemos ter o mesmo instrumento de avaliação para diferentes filosofias. Uma universidade voltada para pesquisa é diferente de uma voltada para o mercado de trabalho. Toda universidade precisa de pesquisa, mas a avaliação deve respeitar as diferenças entre modelos de universidade. O modelo público é diferente do privado, assim como o estadual difere do federal. Quando o MEC fizer esta diferenciação, o resultado vai ser mais claro para a sociedade. Numa universidade federal, em que há cem candidatos por vaga, é selecionada uma elite intelectualizada. No entanto, também não se pode comparar universidades federais do Rio de Janeiro e do Acre, por exemplo. Os modelos deverão ser analisados segundo critérios de diferenciação entre as regiões. Há regiões em que as dificuldades são enormes, inclusive para formar o quadro de docentes, mas o papel da instituição é fundamental no local e deve ser analisada como tal. Elementos como proposta, concepção e região devem ser levados em consideração.

FOLHA DIRIGIDA — As universidades têm estabelecido de forma satisfatória o contato entre o acadêmico e o mercado de trabalho? Os currículos têm se adequado às transformações do mercado?
Mário Veiga —
Hoje existem diretrizes curriculares que dão maior liberdade às instituições. Algumas universidades estão indo buscar no mercado de trabalho o perfil do profissional que irá formar. Existe uma resistência acadêmica muito grande em relação a isso, mas não se pode ignorar que a universidade forma para o mercado de trabalho. Por isso, a universidade deve absorver as transformações e desenvolvimento da sociedade. Perceber a realidade de hoje, observando as tendências futuras. O currículo deve dar ao aluno o elemento empreendedor para que tenha a capacidade de se aprimorar, num processo de educação continuada, em que o apefeiçoamento é constante. O profissional deve estar preparado para sempre buscar se adaptar às evoluções.

 
 
 
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