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  MBA: uma necessidade crescente num cenário de alta competição  
  A complexidade do mercado globalizado exige, cada vez mais, profissionais com alta qualificação, capazes de manter as empresas num cenário de grande competitividade

A sigla MBA a cada dia tem marcado presença em um maior número de organizações e cada vez mais cedo ela chega aos bancos escolares como referência de boa qualificação. No campo do trabalho, estas três letras imprimem diferença aos currículos e conferem a seus portadores a garantia de que se trata de profissionais capacitados a ocupar cargos estratégicos, ou seja: aquelas posições cujo desafio é segurar a empresa no arenoso mercado competitivo. Isso certamente não sai barato. Trabalhadores com essa qualificação têm, no mínimo, rendimentos mensais equivalentes ao valor total do curso. E dependendo do business da empresa, esse valor pode ser multiplicado por tantas vezes quantas ele fizer a balança prosperar.

Certamente é um certificado indisposto às liquidações, mas que ninguém pense, entretanto, tratar-se de um privilégio inacessível a um simples mortal. A Fundação Getulio Vargas, uma das mais requisitadas instituições brasileiras nesse segmento, oferece cursos que variam de R$ 9 a R$ 13 mil. Mas esses valores podem ser diluídos em até 18 mensalidades, que o coordenador Ricardo Spinelli de Carvalho chama de "prestações" (veja entrevista ao lado). Spinelli esclarece, entretanto, que a maioria dos estudantes é encaminhada por empresas, que bancam integralmente os custos, a título de investimento. E cada vez mais as empresas têm acordado para a necessidade de nivelar seus quadros, principalmente os de gerência, a patamares competitivos.

Mas o que é extamente um MBA, ou management business administration? Em linhas gerais, trata-se de um gerente (management) de negócios (business), um administrador que não tem, necessariamente, formação acadêmica em Administração.

- Geralmente são profissionais formados em outra área e que precisam atuar como administradores. Mais de 50% dos que passam pelos cursos da FGV têm formação em Engenharia e cerca de 80% são homens com idades entre 28 e 35 anos - explica Ricardo Spinelli.

Outra característica dos que cursam os MBAs é que geralmente são profissionais já colocados no mercado e que quando saem de uma empresa já têm o passe comprado por outra. Mas via de regra os management criam vínculos tão fortes com a empresa e conhecem com tanta intimidade suas estratégias - aliás, eles comumente as definem - que a qualificação geralmente é sinônimo de estabilidade, desde que, é claro, haja resultados visíveis.

Margareth Carino, 46 anos, por exemplo, completará uma década de empresa no ano que vem e nunca pensou em reproduzir nas concorrentes a marca que imprimiu no mercado como gerente de propaganda da Xerox. Há cinco anos a empresa pagou um MBA em Marketing na CoppeAd - o MBA da Universidade Federal do Rio de Janeiro - e a convidou para fazer o curso. O que isso mudou em sua vida pessoal e profissional?

- Sem dúvidas, fiquei muito mais preparada para ajudar a empresa a enfrentar desafios. Continuo ocupoando o mesmo cargo, porque quando fiz o curso já era gerente, mas certamente isso agregou valores que serão decisivos quando surgirem novas oportunidades na empresa ou mesmo na hora de uma promoção - reconhece.

Ela observa, entretanto, que se manteve no mesmo patamar salarial - tem rendimentos mensais na faixa de R$ 8 mil, variando conforme a conquista de bônus e gratificações, que dependem do lucro da empresa - e que esse tipo de formação tende a cair na banalização. De fato, há empresas que descredenciam a graduação e exigem pós-graduação até de seus candidatos a trainee. A Embratel, por exemplo, deixa essa situação clara no campo que abriu para currículos em sua página na Internet.

- O que ocorre é que o profissional tem que estar sempre atualizado, porque hoje esse é o diferencial no mercado - analisa a gerente, concordando, porém, que os MBAs não agregam valores às fileiras dos desempregados. - Na minha turma havia 38 estudantes. Todos estão muito bem colocados em empresas de ponta, públicas ou privadas, ou têm seus próprios negócios, e geralmente são negócios que vão muito bem e que caminham com as próprias pernas.

Pesquisas do Instituto de Pesquisas Aplicadas (Ipea) sustentam as afirmações de Margareth. De acordo com o instituto, o índice de desemprego para quem tem um curso de graduação é de apenas 2%, caindo para 1% entre os que têm pós-graduação. As pesquisas indicam ainda que trabalhadores com formação universitária têm a renda ampliada em 516%, tendo-se como referência a média salarial de quem não tem nenhuma instrução, que é de R$ 251. Nesse caso, as chances dos pós-graduados ampliam em nada menos que 925%. Confira a seguir a entrevista com Ricardo Spinelli:

FOLHA DIRIGIDA - Quais as vantagens de um MBA sobre os demais, em termos de mercado de trabalho?

 
  Ricardo Spinelli: “os cursos de graduação estão fracos e são muito arcaicos”  
 

RICARDO SPINELLI - Quando você vai fazer um curso do MBA você estuda casos de business, de administração. Então você começa a conhecer empresas, que não a sua, de uma maneira mais detalhada, através da leitura dos casos. Você conhecendo casos, você está conhecendo também empresas. Você tem uma oportunidade ímpar de discutir aquelas situações empresariais. O que é um caso? É uma descrição do que se passou numa determinada empresa, onde havia um processo de tomada de decisão. Então aquela descrição o coloca dentro do problema. Você se posiciona como tomador de decisão. Ao discutir esse caso com seus pares, com seus colegas, com seus professores, você ganha muita informação. Você adquire uma cultura empresarial que jamais teria lendo livros.

 
 

Você participa da vida de empresas através da experiência dos outros e vai se capacitando a tomar decisões gerenciais com a experiência simulada da discussão dos casos.

Qual o índice de empregabilidade de quem tem MBA no Brasil?
Quem vem fazer MBA na fundação é alguém que já está empregado e quer manter a sua empregabilidade. Ele não vem aqui porque quer se capacitar melhor para exercer as suas funções. A pessoas que têm um MBA mostram um esforço de atualização. Hoje não só é comum as empresas mandarem pessoas para virem fazer MBA, como os próprios funcionários pagam de seus bolsos para se atualizar e ganhar maior condição de empregabilidade.

O MBA é, necessariamente, um profissional já inserido no mercado?
A grande maioria está no mercado e com experiência profissional. A economia faz que muita gente desista de adquirir um aprendizado ao longo do tempo no Brasil. Mas as desistências se dão nos cursos básicos. Quem chega até a faculdade já é uma pessoa privilegiada em termos de Brasil e quem vem fazer uma pós-graduação é uma dessas pessoas privilegiadas que ainda têm um emprego e que conseguem ter um dia na semana, ou duas noites por semana, para se especializar. Sem dúvida é uma pessoa que tem algum poder econômico.

Quais os pré-requisitos para cursar um MBA?
O pré-requisito básico é ter uma graduação. Mas eu diria que os requisitos desejáveis é que já se tenha experiência em termos gerenciais. Quem tiver entre dois e três anos de vivência gerencial vai aproveitar melhor os conhecimentos adquiridos ao longo do curso.

A tendência dos MBAs é ser mais um nível na estrutura formal do ensino?
O que é o MBA na qualificação da Capes? É um curso de pós-graduação lato-sensu de 360 horas. Eu diria que hoje em dia esse nível de instrução se tornou quase que absolutamente necessário, porque as graduações são muito fracas e muito arcaicas, onde se aprendem coisas que não estão sendo mais usadas nas empresas. Ao terminar a graduação, a pessoa se sente quase que impelida a fazer o MBA ou a pós-graduação, para entender um pouco mais o que se passa nas empresas. Eu diria que é mais um nível que todos nós temos que fazer. E como o volume de informação hoje é muito grande e a rapidez com que esse conhecimento é adquirido é muito intensa, você se obriga de quando em quando a voltar à universidade para que ajudem a arrumar a cabeça. Toda a informação está no computador, a Internet traz tudo, mas se alguém não ajudar a organizar o conhecimento de pouco ajuda, porque é informação demais. Então precisa de alguém, que seria o professor, a universidade, para organizar o conhecimento e passar aquilo de uma forma rápida e eficiente.

Os MBAs não seriam mais um instrumento de estratificação social?
Acho que não. A estratificação social, se existe baseada na educação, ela acontece nos níveis inferiores. Quem está nas camadas inferiores não chega nem ao nível de graduação. A pós não chega a fazer esse diferencial. A pós indica se você se torna empregável ou não, se você se torna útil para a empresa ou não. Mas não acredito que faça uma diferença social.

Como as políticas do MEC têm tratado os MBAs?
Há pouco tempo o MEC se importava e legislava sobre os cursos que eles chamam stricto sensu, que são os mestrados e que há poucos no Brasil. Os programas que eles chamam de lato sensu são os cursos de especialização de 360 horas. É curso de pós-graduação, mas chamado de especialização. Esses cursos só recentemente começaram a ser legislados pelo MEC. Havia uma total liberdade das universidades em criar esses cursos. Recentemente não só o MEC começou a legislar sobre eles, como aparentemente vai avaliá-los, controlá-los. Vai começar a dar notas a eles. O que já faziam com o mestrado vão passar a fazer agora em nível de lato sensu também.

Como a comunidade acadêmica está discutindo esse processo? O que espera das mudanças?
Do nosso ponto de vista isso é muito bem-vindo. No Brasil as coisas vêm como iniciativa do governo. Nos Estados Unidos, essas avaliações são feitas não por incentivo de governo, mas da própria comunidade. São as universidades que criam órgãos que vão avaliá-las e de alguma forma ranqueá-las. Nós, embora estejamos no Brasil, estamos peocupados em nos associar a uma dessas entidades americanas para mostrar que nosso padrão de qualidade é um padrão em nível internacional. Existe uma entidade chamada AACSB (NR: The International Association for Management Education), que é voltada exatamente para isso, para ajudar as empresas, as universidades, a melhorar seus produtos, a se tornar cada vez mais eficientes. Existe um processo de acreditação das diversas universidades junto a esse órgão e nós estamos tentando nos acreditar lá também. No caso do Brasil, estamos querendo que a Capes venha fazer essa avaliação. Há três anos criamos uma central exatamente para garantir que os nossos programas tenham a qualidade que o nome FGV merece. Claro que ainda temos muito trabalho para fazer, mas já estamos nos antecipando a qualquer avaliação que venha da parte da Caps e do CNPQ. Eu diria que os nossos padrões hoje já estão mais rigorosos do que os que a Capes está falando que vai utilizar. Exemplo: a Capes acabou de soltar uma regulamentação dizendo que os cursos de MBA devem ter pelo menos 50% dos professores com grau de titulação de mestre e doutor. No entanto, o nosso parâmetro já é muito superior. Queremos que 80% dos nossos professores tenham mestrado ou doutorado. Nós sabemos que essa regulamentação vai vir e queremos estar capacitados a recebê-la com muito boa vontade.

Os intelectualmente mais bem dotados não são, necessariamente, aqueles que têm condições de arcar com as despesas de um MBA. Esses cursos seriam uma forma de compensação?
Os mais capazes geralmente estão empregados e os nossos MBAs não são tão caros assim. Sem dúvida, quem tem muito dinheiro prefere fazer esse curso lá fora, porque a experiência de viver no exterior é muito boa. Aí eu vejo a diferença de poder econômico nessa área.

Qual a disponibilidade exigida a quem deseja cursar um MBA?
Os nossos cursos são dirigidos a executivos. Alguns cursos se passam uma vez por semana, com cerca de 12 horas de aula. Seria um dia inteiro, ou sexta-feira à noite, pegando sábado até metade da tarde e alguns se passam a cada 15 dias, dando uma diluição maior, para quem tem uma atividade na empresa muito intensa. Mas é um volume de trabalho que permite à pessoa continuar na sua atividade.

Em quais áreas do conhecimento e do trabalho o MBA está mais presente e onde ele é mais necessário?
O nosso carro-chefe, nosso curso que mais turmas tem é o de Gestão Empresarial. É um curso generalista, que aborda todas as áreas de Administração. É um curso ideal para quem não fez Administração e quer conhecer a área. O aluno vai ver disciplinas como Marketing, Finanças, Recursos Humanos, Produção, Estratégia, Jogos de Empresa, e vai ter uma idéia global de empresa. Sessenta por cento de nossos cursos são de Gestão Empresarial. Mas temos também os mais específicos, como o MBA em Marketing, que é de muito sucesso. O terceiro mais procurado talvez seja o MBA em Finanças. Temos cursos em indústrias específicas, como da área de Saúde, e alguns em áreas ainda mais focadas, como o MBA em E-business, que é extremamente novo e teve muito sucesso quando foi lançado no Rio, mas é muito específico para quem está trabalhando nessa área de commerce e business, voltados para a Internet. E temos uma gama muito grande de cursos na área de Recursos Humanos e em todas as outras áreas mais específicas.

Conhecimentos da Língua Inglesa é fundamental para quem deseja se qualificar com um MBA?
Não, mas é desejável. Nossas apostilas e nosso material é todo passado em Português. Só que essas áreas de conhecimento ficam muito valorizadas se você conhece o Inglês. Não precisa falar Inglês, mas pelo menos ler. A informação que se tem via Internet e bibliografias internacionais são muito importantes. Portanto, se você lê em Inglês você tem acesso a um volume de material muito maior, o que é uma vantagem.

As empresas vão à FGV em busca de talentos, de pessoal qualificado?
Nós não somos uma agência de realocação de executivos e a gente procura deixar isso bem claro, porque muitas empresas mandam seus executivos para fazer curso conosco. Naturalmente quando nossos alunos e ex-alunos de alguma forma precisam ir para o mercado, eles usam os conhecimentos deles para dizer que precisam de uma nova colocação e normalmente nós somos informados também. Mas as pessoas que vêm em busca de nossos cursos já vêm colocadas e não há a necessidade de alocação. Em alguns casos, como nos cursos de mestrado, onde a pessoa vem muito jovem fazer o curso para depois de um ou dois anos voltar ao mercado, aí é que existe essa preocupação. Mas sempre que se pode a gente ajuda a fazer o link.

Quais as relações entre MBA e competitividade?
Eu acho que todas. Quando você estuda os tópicos do MBA essa palavra está presente em toda aula. Existem teorias sobre competitividade. Os casos que você analisa são casos de competição. Existe toda uma metodologia que a gente ensina, dentro dos assuntos do MBA. Obviamente você, fazendo um curso como esse, sai mais competitivo, você aprende a atuar num mercado de competição. Eu diria que falar em MBA e falar em competitividade é quase que uma coisa natural, faz parte do sangue do aluno do MBA. Pensar em competitividade, saber analisar cenários, saber analisar situação de empresas, saber como competir, como se comportar dentro de uma competição, é a área do MBA.

Como associar os MBAs, que estão estreitamente ligados a resultados financeiros, a valores humanos e a compromissos sociais?
Há os MBAs muito preocupados em recursos financeiros. São os MBAs em Finanças e em Gestão. Mas tem também MBAs voltados para Recursos Humanos, valores humanos para atendimento do consumidor, do cliente. Talvez no fundo estejam sempre preocupados com o ganho que a empresa vai ter, mas os campos em que o estudo e o desenvolvimento se definem variam. Pode ser na área de RH, pode ser na área de estudos de clientes, pode ser na área da competição. Então eu diria que embora por trás tenha sempre o ganho da empresa, qualquer desses campos tem muito de desenvolvimento.

 
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