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Quais as repercussões
desse interesse no mercado de trabalho?
O mercado de trabalho, hoje, na área de petróleo,
tem um grande potencial. Direta e indiretamente existem mais
de 100 mil pessoas trabalhando nesse segmento no Rio de Janeiro.
E são profissionais dos diversos níveis. Durante
a feira de Macaé inauguramos a Orteng, de Minas Gerais,
que abriu 140 empregos para engenheiros e técnicos.
Qual orientação
o senhor daria a um jovem, no sentido de adequar sua formação
às exigências do mercado?
Vou dar a orientação que eu daria para o meu
filho e que dou para mim. Na verdade, os jovens têm
que moldar sua profissão desde o curso secundário.
Começar a ler, se interessar pelo assunto desde o primeiro
grau. Fazer um curso técnico orientado para as áreas
emergentes também é fundamental. Participar
de seminários e feiras, que geralmente são gratuitos.
Depois buscar uma universidade que tenha tradição,
caso queira fazer uma carreira universitária; estagiar
desde cedo; assinar revistas especializadas; ler muito; se
informar. Hoje o jovem que não está informado,
que não está sintonizado, estará desconectado
com o mercado. O mercado de trabalho não acontece por
acaso. Ele acontece a partir de trabalho, vontade e competição.
E a competição começa dentro de casa
e consigo mesmo. Se o profissional não estiver disponível
para competir consigo mesmo, certamente não chegará
a lugar nenhum ou chegará a um patamar muito inferior
ao que poderia chegar.
Empresas de quais setores
vêem o Estado do Rio como mercado promissor? O estado
está mudando a sua vocação econômica?
O Rio de Janeiro tem um perfil bastante diversificado, ao
contrário da maioria dos lugares. Mas talvez aqui seja
a grande capital da tecnologia, da inteligência. A informática
tem grande potencial.
O senhor falou em diversidade
e em setores emergentes. Quais o senhor destaca, além
da tecnologia e da indústria naval?
Nós temos setores emergentes, como o de petróleo,
da construção pesada, através da área
naval, o setor de geologia e o setor de telecomunicações,
que também cresce muito. O Rio acabou se diversificando
e muitas empresas, até de suporte a estes serviços,
como o setor financeiro e publicitário, se voltam para
cá. Estamos vivendo um ciclo extremamente virtuoso.
No passado as empresas fugiam do Rio porque não o consideravam
um local de investimento. Hoje, ao contrário, as empresas
têm o estado como o primeiro local de investimento do
Brasil e muitas que foram estão voltando. Hoje o Rio
é o estado do Brasil que mais cresce. Logicamente há
ainda um passivo de trabalho, como há em qualquer lugar,
por conta dos desmandos do passado, mas nosso índice
de desemprego está entre os menores do país,
principalmente na metrópole.
Os incentivos fiscais têm
papel decisivo nesta força de atração?
Certamente. Nós temos programas de incentivos fiscais
em diversas áreas e agora ainda mais do que nunca.
Nós adotamos uma postura agressiva, o estado deixou
de ser um estado passivo. É um estado que profissionalizou
as áreas de atração, corre atrás
e, enquanto os outros estão dormindo, o Rio está
trabalhando.
O mercado de trabalho tende
a se fixar no interior?
Esta é uma preocupação que nós
temos também. Não adianta concentrar. Há
um potencial de diversificação muito concreto
para o interior e um bom exemplo é o pólo gás
químico, que é natural e pode ser uma central
de produção de matéria-prima, de modo
a atrair para o seu entorno as indústrias de transformação.
No interior, em municípios como Japeri e Queimados.
A tendência é de que fiquem no interior. Uma
série de projetos que estamos fazendo são projetos
de interiorizar o desenvolvimento.
Quais cursos, na sua opinião,
são mais promissores?
Vou responder muito à vontade. Eu acho que o jovem
não deve se limitar a uma formação stricto-sensu.
Vou me usar como exemplo, que sou de outra geração:
eu sou engenheiro mecânico, engenheiro eletricista,
administrador, fiz ciências contábeis, fiz pós-graduação
na área financeira no Brasil e, no exterior, na área
de projetos. Passei minha vida inteira estudando e além
disso fiz curso técnico. O jovem deve buscar uma formação
em plenitude desde a formação básica.
É ilusão achar que terá um canudo um,
dois anos antes, e achar que já está preparado
para o mercado de trabalho. A carreira, a profissão,
o perfil é definido desde o início do banco
escolar e, em muitos casos, desde o berçário.
Dominar línguas, dominar computador, estar sintonizado
com o que acontece no mundo, ter uma inteligência própria
e não dirigida pelos outros é fundamental. Eu
acho que as carreiras tecnológicas, as carreiras voltadas
à informação, e as tecnologias que despontam
aí exigem que o jovem pense sempre um pouco à
frente. Não se pode pensar só o mercado que
está aquecido neste momento, mas o que se projeta como
aquecido quando ele estiver entrando no mercado, e isto se
faz com informação, com percepção
e com inteligência.
As escolas do estado estão
preparadas para estes novos mercados?
Certamente. A Faetec (Fundação de Apoio às
Escolas Técnicas Estaduais) de hoje está muito
diferente do passado. Ela reorientou os seus cursos, está
desenvolvendo parcerias com a Onip, está redimensionando
os currículos em diversos cursos, para que os cursos
técnicos possam formar profissionais voltados para
o mercado de trabalho. A rede de alunos do ensino técnico
aumentou tremendamente, por incentivo do governador. Aumentamos
muito a quantidade de vagas, estamos interiorizando, criando
cursos técnicos específicos, voltados para a
petroquímica, em Duque de Caxias, cursos voltados para
a extração mineral em Pádua. Nós
estamos setorizando a informação em função
da perspectiva de crescimento do mercado local.
Em recente passagem pelo
Brasil, o sociólogo Domenico De Masi disse que a formação
profissional deve estar voltada para as necessidades do futuro
e não para o presente. É seguro planejar uma
formação com base em previsões?
Isso é fundamental e possível ao jovem que participa
de feiras, de seminários e que lê. A família
também tem um papel fundamental. Eu acho uma grande
hipocrisia a família falar que a profissão é
o filho que escolhe. A família tem o papel de orientação
e até de indução. Um pai que não
faz isso é um pai omisso. Ele tem que se responsabilizar
com o futuro. O papel do pai não é só
procriar e dar alimentação. O papel do pai é
o de orientar, ajudar e em alguns momentos até brigar
com o filho no sentido de adequar o estilo, a característica
do filho, ao perfil do mercado. Não adianta achar que
o filho vai ter felicidade se ele não tiver realização
profissional e pessoal. Os pais têm que estar envolvidos
nessa leitura, nessa perspectiva, nessa discussão e
inclusive trabalhando politicamente para que a gente tenha
um país que cresça e não que seja um
país medíocre, um país do apagão,
um país que em vez de atrair empresas e postos de trabalho,
espanta e frustra a produção. Temos que incentivar
a sociedade e os jovens para mudar essa sociedade. Expulsando
empresas, impondo o apagão e reduzindo produção,
o que vamos gerar é desemprego, violência e uma
série de fatores negativos próprios de uma sociedade
decrépita.
Esses valores sinalizados
como essenciais à formação não
atropelam as habilidades pessoais?
De maneira nenhuma. É possível compatibilizar.
Isso é uma grande ilusão. Meu grande sonho era
ser médico-cirurgião. Minha mãe, que
era da área técnica, me induziu a fazer um curso
técnico, meu pai praticamente me obrigou e digo o seguinte:
não sou nenhum engenheiro frustrado, não tenho
nenhum trauma de infância, e muito pelo contrário,
devo muito ao meu pai e à minha mãe, que me
empurraram para seguir a carreira na qual estou. É
um erro, é um falso liberalismo achar que as características
pessoais sejam incompatíveis com a orientação
profissional. Lógico que as pessoas tenham que desenvolver
seus perfis para conciliar, mas sempre é possível
conciliar. Pode haver exceções, mas no geral
os pais cometem graves erros por não ter a coragem
e a vontade de executar coisas que se esperam deles.
Vivemos em um país
onde o índice de escolaridade ainda é muito
baixo. Isso significa que os filhos de pais desinformados
estão necessariamente excluídos?
Eles certamente perderão a oportunidade de ter um grande
conselheiro, um grande lastro e um grande apoio. Mas o lastro
do pai nem sempre é a informação. É
o suporte, é o rigor, é a vontade, a autoridade.
Eu sou filho de um motorneiro de bonde da Light que morreu
no dia que eu me formei. Estudei toda minha vida em escolas
públicas. Meu pai, mesmo com a pouca formação
dele, me deu rigor e todo apoio para seguir minha carreira.
Eu nunca deixei de reconhecer e não perco nenhuma oportunidade
de homenagear meu pai. A homenagem que eu faço hoje
é usar o nome dele, Victer, como meu nome de guerra
e dar este nome ao meu filho.
A crise energética
do país já sinalizou novas alternativas para
o mercado?
Não há dúvidas de que a crise sempre
acaba virando uma grande oportunidade. A formação
de profissionais voltados para a eficiência energética,
para a questão da preservação do meio
ambiente, não a preservação com uma visão
sectária, uma visão xiita, mas uma visão
do meio ambiente como desenvolvimento sustentável,
são mercados que tendem a crescer. Naturalmente que
uma crise dessas faz aflorar uma carência de profissionais,
mas temos que tomar cuidado para não transformar essa
oportunidade em oportunismo, criando cursos de oitava categoria,
para transformar profissionais, que poderiam ser competentes,
em caça-níqueis. Isso vai descredibilizar não
só a vida desses profissionais, mas também essas
profissões.
Quais as atividades profissionais que o apagão
gerou?
Já está gerando o profissional de conservação
de energia. O profissional voltado ao uso racional dos insumos,
aquele que analisa o desperdício da água, do
tempo, da iluminação, de insumos, como o papel.
O apagão nos trouxe o exemplo de que os recursos são
finitos e, portanto, há que se ocupar disso. Hoje já
há cursos de pós-graduação de
conservação de energia e uma das referências
é o Cefet.
Como a escola e seus mecanismos
burocráticos podem se adaptar à dinâmica
da sociedade e do mercado?
Eu sou professor também. Sou da Coope e da Fundação
Getúlio Vargas. Eu acho que os cursos de graduação
e de formação estão extremamente lerdos,
no sentido de adaptação à dinâmica
da sociedade, que tem velocidade muito maior que a adaptabilidade
dos currículos. Um exemplo concreto é que estamos
vivendo um período de racionamento, onde o ambiente
é extremamente importante, e nem sempre a emenda dos
cursos de engenharia, de arquitetura, dos cursos técnicos,
está modelada na questão da preservação
dos recursos naturais. As pessoas continuam fazendo projetos
como se os recursos fossem infinitos, como se a água
fosse um bem infinito, como se a energia elétrica fosse
um bem infinito, como se o ar fosse um bem infinitso. As cadeiras
que preservam o meio ambiente do meu curso de engenharia,
que concluí há 18 anos, quando a questão
ambiente não era uma variável, têm as
mesmas emendas.
Isso justifica o interesse
crescente de recém-graduados por cursos de extensão
e pelos MBAs?
Sem dúvida isso faz proliferar os MBAs, que tentam
compensar a formação inadequada da graduação.
O problema é que as universidades, às vezes,
são acessíveis aos que não têm
recursos, os MBAs não. Um curso desses tem custo médio
na faixa de R$ 15 mil, quando não tem cotação
em dólar. Então você tem profissionais
com uma visão lato-sensu, como a de um engenheiro mecânico
que sai da faculdade e não sabe o que é um grau
API de petróleo, não sabe fazer um estudo de
viabilidade técnico-econômica de uma plataforma,
quando o mercado que encontrará pela frente é
a indústria do petróleo. Há cursos de
graduação de engenharia mecânica e engenharia
civil que não têm a cadeira de petróleo.
Há uma desconexão, uma lentidão muito
grande em adaptar os cursos ao mercado.
E os professores, estão
preparados? A estrutura pedagógica oferece mecanismos
para a realização de cursos de reciclagem e
para uma preparação contínua?
Em muitos momentos há acomodação no corpo
docente, no corpo discente, que não cobra, e nas universidades.
Mas temos exemplos positivos de universidades que estão
se destacando justamente por esta mobilidade. O que acontece
é a proliferação dos MBAs e os cursos
de tecnólogos para substituir esse gap.
No caso dos professores,
que frente a uma realidade de baixos salários têm
que substituir a qualidade de suas aulas pela quantidade,
como conseguir tempo para essa preparação contínua?
Os professores no Brasil são muito mal remunerados,
com exceção dos professores de MBA. Não
existe uma transferência unívoca entre os custos
que são crescentes do ensino privado e a remuneração
dos professores. Os cursos privados são extremamente
caros, mas os recursos não são transferidos
para os professores, que são a alma do ensino. Em muitos
casos, os professores não têm tempo de se atualizar.
É uma profissão de sacerdócio, mas no
meio desse processo há que se atender a um ponto básico,
que é o cliente, que é o aluno. Não podemos,
por conta de problemas anteriores, que são graves,
transferir isso para o cliente. Esse é um grande nó
que nós temos de alguma maneira resolver.
Na sociedade atual, regida
pelas leis do mercado, como conciliar competitividade e valores
humanos? O senhor acha que o voluntarismo praticado quase
que como obrigação pelos americanos é
uma forma de chegar ao equilíbrio?
Eu acho que o caminho é por aí. O desenvolvimento
econômico sem desenvolvimento humano é perversidade.
O desenvolvimento econômico só se justifica se
for para chegar ao homem. É uma coisa perversa pensar
em lucratividade, se ela não puder ser transferida
para o ser humano em forma de melhor qualidade de vida, em
melhor distribuição de renda. Do contrário,
criaríamos uma sociedade tensa, um grande caldeirão.
Eu fui um dos que escreveram o programa de governo do governador
e um dos quatro pilares é a humanização,
no sentido de que todo desenvolvimento econômico tem
que estar relacionado à questão do desenvolvimento
humano. E as novas políticas estão assim, tanto
que nos prêmios de qualidade implantados aqui no Rio
de Janeiro, como o prêmio Qualidade-Rio, existe uma
categoria de espírito público-comunitário,
além da questão do tratamento dos recursos humanos
como resultado a ser obtido pela organização.
Uma organização que só tem resultado
financeiro, mas que não reflita esse resultado na evolução
do ser humano que está envolvido na organização,
e que também não possa agregar aquilo à
sociedade em seu entorno, tende a falir. É uma ilusão
querer transferir todos os problemas da sociedade para o Governo.
Que Governo é esse? Que ser eterno é esse? Que
ectoplasma é esse? A evolução da sociedade
cabe a todos nós. Se todos entenderem o seu papel de
responsabilidade de espírito público-comunitário,
certamente teremos uma sociedade mais desenvolvida.
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