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  Tendências do mercado de trabalho no Estado do Rio  
 

Quais os setores com maior potencial para gerar novas oportunidades no
mercado profissional? E a universidade, onde entra nisso? Como furar a barreira do mercado de trabalho?

Gerenciamento público à parte, a escuridão a que estamos condenados permanecerá enquanto os centros de produção de conhecimento não abrirem os olhos para a realidade. O alerta é do engenheiro, professor e secretário de Energia e Indústria Naval do Estado do Rio de Janeiro Wagner Victer, que ao falar à FOLHA DIRIGIDA destacou a desatualização das universidades brasileiras na hora de elaborar seus currículos. Segundo ele, a maioria das instituições ainda não despertou para a necessidade de adequar seus cursos às novas exigências do mercado e o que muitas fazem é formar profissionais fora dos parâmetros competitivos da atualidade. Ele destaca, entretanto, que há iniciativas isoladas e que o ensino técnico do Estado tem buscado essa sintonia.

- Os MBAs proliferam porque tentam compensar a formação inadequada da graduação - opina Victer, para quem esta qualificação torna-se cada vez mais decisiva para a ocupação dos melhores postos de trabalho.

Mas Victer revela que sua indignação não se restringe aos bancos escolares. Na opinião dele a família também tem um importante papel na formação profissional do estudante.

- Pode haver exceções, mas no geral os pais cometem graves erros por não terem a coragem e a vontade de executar aquilo que se espera deles - aponta o secretário, para quem os pais não têm apenas o dever de orientar, mas muitas vezes até de "induzir" os filhos, se querem o êxito profissional como resultado da formação acadêmica.

Mas suas opiniões cartesianas não impedem que as idéias sejam arejadas por sentimentos humanistas. A defesa que faz do desenvolvimento não se satisfaz com a compreensão deste como um fim em si e se sustenta no discurso de que o progresso é um meio para a construção da cidadania. Na avaliação do secretário de Energia e Indústria Naval a lucratividade só compensa se chegar ao homem transmutada em qualidade de vida.

Veja nesta entrevista o que Wagner Victer pensa sobre educação, formação e desenvolvimento.

FOLHA DIRIGIDA - Empresas de 23 países estiveram este ano em Macaé para participar de uma feira de offshore. O que as atraiu?

 
  Wagner Victer defende que o jovem ajuste seu perfil às necessidades do mercado e afirma: o desenvolvimentoeconômico só se justifica se for para chegar ao homem. A lucratividade é perversa se não puder ser transferida ao ser humano como qualidade de vida  
 

WAGNER VICTER - O Rio de Janeiro é o novo lugar do mundo para a área do desenvolvimento do petróleo. Existe uma diversidade muito grande de coisas acontecendo, não só na área naval, mas também na área de petróleo, o que faz que os fornecedores tradicionais do mercado internacional tenham interesse em se instalar diretamente ou através de parcerias aqui no Rio de Janeiro. Essa feira foi a primeira do gênero realizada no estado, ocorreu em junho, em Macaé, e reuniu mais de 600 expositores. Esperamos que isso vire rotina.

 
 

Quais as repercussões desse interesse no mercado de trabalho?
O mercado de trabalho, hoje, na área de petróleo, tem um grande potencial. Direta e indiretamente existem mais de 100 mil pessoas trabalhando nesse segmento no Rio de Janeiro. E são profissionais dos diversos níveis. Durante a feira de Macaé inauguramos a Orteng, de Minas Gerais, que abriu 140 empregos para engenheiros e técnicos.

Qual orientação o senhor daria a um jovem, no sentido de adequar sua formação às exigências do mercado?
Vou dar a orientação que eu daria para o meu filho e que dou para mim. Na verdade, os jovens têm que moldar sua profissão desde o curso secundário. Começar a ler, se interessar pelo assunto desde o primeiro grau. Fazer um curso técnico orientado para as áreas emergentes também é fundamental. Participar de seminários e feiras, que geralmente são gratuitos. Depois buscar uma universidade que tenha tradição, caso queira fazer uma carreira universitária; estagiar desde cedo; assinar revistas especializadas; ler muito; se informar. Hoje o jovem que não está informado, que não está sintonizado, estará desconectado com o mercado. O mercado de trabalho não acontece por acaso. Ele acontece a partir de trabalho, vontade e competição. E a competição começa dentro de casa e consigo mesmo. Se o profissional não estiver disponível para competir consigo mesmo, certamente não chegará a lugar nenhum ou chegará a um patamar muito inferior ao que poderia chegar.

Empresas de quais setores vêem o Estado do Rio como mercado promissor? O estado está mudando a sua vocação econômica?
O Rio de Janeiro tem um perfil bastante diversificado, ao contrário da maioria dos lugares. Mas talvez aqui seja a grande capital da tecnologia, da inteligência. A informática tem grande potencial.

O senhor falou em diversidade e em setores emergentes. Quais o senhor destaca, além da tecnologia e da indústria naval?
Nós temos setores emergentes, como o de petróleo, da construção pesada, através da área naval, o setor de geologia e o setor de telecomunicações, que também cresce muito. O Rio acabou se diversificando e muitas empresas, até de suporte a estes serviços, como o setor financeiro e publicitário, se voltam para cá. Estamos vivendo um ciclo extremamente virtuoso. No passado as empresas fugiam do Rio porque não o consideravam um local de investimento. Hoje, ao contrário, as empresas têm o estado como o primeiro local de investimento do Brasil e muitas que foram estão voltando. Hoje o Rio é o estado do Brasil que mais cresce. Logicamente há ainda um passivo de trabalho, como há em qualquer lugar, por conta dos desmandos do passado, mas nosso índice de desemprego está entre os menores do país, principalmente na metrópole.

Os incentivos fiscais têm papel decisivo nesta força de atração?
Certamente. Nós temos programas de incentivos fiscais em diversas áreas e agora ainda mais do que nunca. Nós adotamos uma postura agressiva, o estado deixou de ser um estado passivo. É um estado que profissionalizou as áreas de atração, corre atrás e, enquanto os outros estão dormindo, o Rio está trabalhando.

O mercado de trabalho tende a se fixar no interior?
Esta é uma preocupação que nós temos também. Não adianta concentrar. Há um potencial de diversificação muito concreto para o interior e um bom exemplo é o pólo gás químico, que é natural e pode ser uma central de produção de matéria-prima, de modo a atrair para o seu entorno as indústrias de transformação. No interior, em municípios como Japeri e Queimados. A tendência é de que fiquem no interior. Uma série de projetos que estamos fazendo são projetos de interiorizar o desenvolvimento.

Quais cursos, na sua opinião, são mais promissores?
Vou responder muito à vontade. Eu acho que o jovem não deve se limitar a uma formação stricto-sensu. Vou me usar como exemplo, que sou de outra geração: eu sou engenheiro mecânico, engenheiro eletricista, administrador, fiz ciências contábeis, fiz pós-graduação na área financeira no Brasil e, no exterior, na área de projetos. Passei minha vida inteira estudando e além disso fiz curso técnico. O jovem deve buscar uma formação em plenitude desde a formação básica. É ilusão achar que terá um canudo um, dois anos antes, e achar que já está preparado para o mercado de trabalho. A carreira, a profissão, o perfil é definido desde o início do banco escolar e, em muitos casos, desde o berçário. Dominar línguas, dominar computador, estar sintonizado com o que acontece no mundo, ter uma inteligência própria e não dirigida pelos outros é fundamental. Eu acho que as carreiras tecnológicas, as carreiras voltadas à informação, e as tecnologias que despontam aí exigem que o jovem pense sempre um pouco à frente. Não se pode pensar só o mercado que está aquecido neste momento, mas o que se projeta como aquecido quando ele estiver entrando no mercado, e isto se faz com informação, com percepção e com inteligência.

As escolas do estado estão preparadas para estes novos mercados?
Certamente. A Faetec (Fundação de Apoio às Escolas Técnicas Estaduais) de hoje está muito diferente do passado. Ela reorientou os seus cursos, está desenvolvendo parcerias com a Onip, está redimensionando os currículos em diversos cursos, para que os cursos técnicos possam formar profissionais voltados para o mercado de trabalho. A rede de alunos do ensino técnico aumentou tremendamente, por incentivo do governador. Aumentamos muito a quantidade de vagas, estamos interiorizando, criando cursos técnicos específicos, voltados para a petroquímica, em Duque de Caxias, cursos voltados para a extração mineral em Pádua. Nós estamos setorizando a informação em função da perspectiva de crescimento do mercado local.

Em recente passagem pelo Brasil, o sociólogo Domenico De Masi disse que a formação profissional deve estar voltada para as necessidades do futuro e não para o presente. É seguro planejar uma formação com base em previsões?
Isso é fundamental e possível ao jovem que participa de feiras, de seminários e que lê. A família também tem um papel fundamental. Eu acho uma grande hipocrisia a família falar que a profissão é o filho que escolhe. A família tem o papel de orientação e até de indução. Um pai que não faz isso é um pai omisso. Ele tem que se responsabilizar com o futuro. O papel do pai não é só procriar e dar alimentação. O papel do pai é o de orientar, ajudar e em alguns momentos até brigar com o filho no sentido de adequar o estilo, a característica do filho, ao perfil do mercado. Não adianta achar que o filho vai ter felicidade se ele não tiver realização profissional e pessoal. Os pais têm que estar envolvidos nessa leitura, nessa perspectiva, nessa discussão e inclusive trabalhando politicamente para que a gente tenha um país que cresça e não que seja um país medíocre, um país do apagão, um país que em vez de atrair empresas e postos de trabalho, espanta e frustra a produção. Temos que incentivar a sociedade e os jovens para mudar essa sociedade. Expulsando empresas, impondo o apagão e reduzindo produção, o que vamos gerar é desemprego, violência e uma série de fatores negativos próprios de uma sociedade decrépita.

Esses valores sinalizados como essenciais à formação não atropelam as habilidades pessoais?
De maneira nenhuma. É possível compatibilizar. Isso é uma grande ilusão. Meu grande sonho era ser médico-cirurgião. Minha mãe, que era da área técnica, me induziu a fazer um curso técnico, meu pai praticamente me obrigou e digo o seguinte: não sou nenhum engenheiro frustrado, não tenho nenhum trauma de infância, e muito pelo contrário, devo muito ao meu pai e à minha mãe, que me empurraram para seguir a carreira na qual estou. É um erro, é um falso liberalismo achar que as características pessoais sejam incompatíveis com a orientação profissional. Lógico que as pessoas tenham que desenvolver seus perfis para conciliar, mas sempre é possível conciliar. Pode haver exceções, mas no geral os pais cometem graves erros por não ter a coragem e a vontade de executar coisas que se esperam deles.

Vivemos em um país onde o índice de escolaridade ainda é muito baixo. Isso significa que os filhos de pais desinformados estão necessariamente excluídos?
Eles certamente perderão a oportunidade de ter um grande conselheiro, um grande lastro e um grande apoio. Mas o lastro do pai nem sempre é a informação. É o suporte, é o rigor, é a vontade, a autoridade. Eu sou filho de um motorneiro de bonde da Light que morreu no dia que eu me formei. Estudei toda minha vida em escolas públicas. Meu pai, mesmo com a pouca formação dele, me deu rigor e todo apoio para seguir minha carreira. Eu nunca deixei de reconhecer e não perco nenhuma oportunidade de homenagear meu pai. A homenagem que eu faço hoje é usar o nome dele, Victer, como meu nome de guerra e dar este nome ao meu filho.

A crise energética do país já sinalizou novas alternativas para o mercado?
Não há dúvidas de que a crise sempre acaba virando uma grande oportunidade. A formação de profissionais voltados para a eficiência energética, para a questão da preservação do meio ambiente, não a preservação com uma visão sectária, uma visão xiita, mas uma visão do meio ambiente como desenvolvimento sustentável, são mercados que tendem a crescer. Naturalmente que uma crise dessas faz aflorar uma carência de profissionais, mas temos que tomar cuidado para não transformar essa oportunidade em oportunismo, criando cursos de oitava categoria, para transformar profissionais, que poderiam ser competentes, em caça-níqueis. Isso vai descredibilizar não só a vida desses profissionais, mas também essas profissões.

Quais as atividades profissionais que o apagão gerou?
Já está gerando o profissional de conservação de energia. O profissional voltado ao uso racional dos insumos, aquele que analisa o desperdício da água, do tempo, da iluminação, de insumos, como o papel. O apagão nos trouxe o exemplo de que os recursos são finitos e, portanto, há que se ocupar disso. Hoje já há cursos de pós-graduação de conservação de energia e uma das referências é o Cefet.

Como a escola e seus mecanismos burocráticos podem se adaptar à dinâmica da sociedade e do mercado?
Eu sou professor também. Sou da Coope e da Fundação Getúlio Vargas. Eu acho que os cursos de graduação e de formação estão extremamente lerdos, no sentido de adaptação à dinâmica da sociedade, que tem velocidade muito maior que a adaptabilidade dos currículos. Um exemplo concreto é que estamos vivendo um período de racionamento, onde o ambiente é extremamente importante, e nem sempre a emenda dos cursos de engenharia, de arquitetura, dos cursos técnicos, está modelada na questão da preservação dos recursos naturais. As pessoas continuam fazendo projetos como se os recursos fossem infinitos, como se a água fosse um bem infinito, como se a energia elétrica fosse um bem infinito, como se o ar fosse um bem infinitso. As cadeiras que preservam o meio ambiente do meu curso de engenharia, que concluí há 18 anos, quando a questão ambiente não era uma variável, têm as mesmas emendas.

Isso justifica o interesse crescente de recém-graduados por cursos de extensão e pelos MBAs?
Sem dúvida isso faz proliferar os MBAs, que tentam compensar a formação inadequada da graduação. O problema é que as universidades, às vezes, são acessíveis aos que não têm recursos, os MBAs não. Um curso desses tem custo médio na faixa de R$ 15 mil, quando não tem cotação em dólar. Então você tem profissionais com uma visão lato-sensu, como a de um engenheiro mecânico que sai da faculdade e não sabe o que é um grau API de petróleo, não sabe fazer um estudo de viabilidade técnico-econômica de uma plataforma, quando o mercado que encontrará pela frente é a indústria do petróleo. Há cursos de graduação de engenharia mecânica e engenharia civil que não têm a cadeira de petróleo. Há uma desconexão, uma lentidão muito grande em adaptar os cursos ao mercado.

E os professores, estão preparados? A estrutura pedagógica oferece mecanismos para a realização de cursos de reciclagem e para uma preparação contínua?
Em muitos momentos há acomodação no corpo docente, no corpo discente, que não cobra, e nas universidades. Mas temos exemplos positivos de universidades que estão se destacando justamente por esta mobilidade. O que acontece é a proliferação dos MBAs e os cursos de tecnólogos para substituir esse gap.

No caso dos professores, que frente a uma realidade de baixos salários têm que substituir a qualidade de suas aulas pela quantidade, como conseguir tempo para essa preparação contínua?
Os professores no Brasil são muito mal remunerados, com exceção dos professores de MBA. Não existe uma transferência unívoca entre os custos que são crescentes do ensino privado e a remuneração dos professores. Os cursos privados são extremamente caros, mas os recursos não são transferidos para os professores, que são a alma do ensino. Em muitos casos, os professores não têm tempo de se atualizar. É uma profissão de sacerdócio, mas no meio desse processo há que se atender a um ponto básico, que é o cliente, que é o aluno. Não podemos, por conta de problemas anteriores, que são graves, transferir isso para o cliente. Esse é um grande nó que nós temos de alguma maneira resolver.

Na sociedade atual, regida pelas leis do mercado, como conciliar competitividade e valores humanos? O senhor acha que o voluntarismo praticado quase que como obrigação pelos americanos é uma forma de chegar ao equilíbrio?
Eu acho que o caminho é por aí. O desenvolvimento econômico sem desenvolvimento humano é perversidade. O desenvolvimento econômico só se justifica se for para chegar ao homem. É uma coisa perversa pensar em lucratividade, se ela não puder ser transferida para o ser humano em forma de melhor qualidade de vida, em melhor distribuição de renda. Do contrário, criaríamos uma sociedade tensa, um grande caldeirão. Eu fui um dos que escreveram o programa de governo do governador e um dos quatro pilares é a humanização, no sentido de que todo desenvolvimento econômico tem que estar relacionado à questão do desenvolvimento humano. E as novas políticas estão assim, tanto que nos prêmios de qualidade implantados aqui no Rio de Janeiro, como o prêmio Qualidade-Rio, existe uma categoria de espírito público-comunitário, além da questão do tratamento dos recursos humanos como resultado a ser obtido pela organização. Uma organização que só tem resultado financeiro, mas que não reflita esse resultado na evolução do ser humano que está envolvido na organização, e que também não possa agregar aquilo à sociedade em seu entorno, tende a falir. É uma ilusão querer transferir todos os problemas da sociedade para o Governo. Que Governo é esse? Que ser eterno é esse? Que ectoplasma é esse? A evolução da sociedade cabe a todos nós. Se todos entenderem o seu papel de responsabilidade de espírito público-comunitário, certamente teremos uma sociedade mais desenvolvida.

 
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