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  Dados da Unesco: uma situação desconfortável para o Brasil  
  Organização das nações unidas disponibiliza na internet retrato da educação brasileira, em que compara os números do brasil aos de alguns dos países mais atrasados do mundo  
  <- Entre os países latinos, o Brasil é o que tem a mais elevada taxa de repetência no segmento de primeira a sexta série  
  Altos índices de repetência, professores com baixa qualificação, distorções salariais e, em contrapartida, investimentos compatíveis aos de países de primeira linha compõem a fotografia da educação no Brasil que a Organização das Nações Unidas exibe este ano para o mundo, através da Internet, com versões em francês, inglês, espanhol e japonês. Os índices são o resultado de uma pesquisa com dados de 1997, fornecidos por 18 países pobres que integram o World Education Indicators (WEI) e por 29 nações ricas que compõem a Organização para Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Não há dados com a mesma abrangência disponíveis em língua portuguesa.  
 

Investimentos - A radiografia educacional do Brasil mostra um país em sintonia com as nações mais atrasadas do mundo, apesar de investir 4,8% de seu Produto Interno Bruto (PIB) no ensino público. O índice brasileiro é igual ao dos Estados Unidos, uma das sete nações mais ricas do mundo. Em termos de América Latina, o PIB educacional brasileiro sai na frente com espantoso conforto. O Chile investe 3,2%, o Peru 2,9%, Uruguai 2,6% e a Argentina, cuja crise em 1997 ainda não era transparente, investiu 3,7% no ano da pesquisa.

Uma corrente concorda que o Brasil não investe pouco, mas gasta mal os recursos; outro segmento desconfia de que o índice brasileiro inclui em sua soma os investimentos da iniciativa privada. Há ainda os que partem de parâmetros comparativos e argumentam que 4,8% de um país com um PIB muito baixo não são motivo para entusiasmos.

De qualquer forma este índice foi bastante explorado pela mídia e suavizou o impacto provocado pelos demais indicadores, nos quais invariavelmente o Brasil apresentou desempenho sofrível. O MEC, por sua vez, chama a atenção para a dimensão populacional e lembra que o país tem 5,4 milhões de crianças matriculadas no Ensino Básico. O ministério diz ainda que o PIB educacional não inclui os gastos privados e desdenha, lembrando que o índice divulgado pela ONU é defasado. No ano seguinte, em 1998, já havia chegado a 5,47%, segundo dado disponível mais recente.

Salários - Mas este PIB atraente não vai parar na bolsa dos professores. O ganho anual médio do magistério brasileiro de Ensino Fundamental em início de carreira é de R$ 3.758 . Quando os professores estão à beira da aposentadoria, ou seja, no fim da carreira, passa para R$ 8.484. No Uruguai, a média é de R$ 4.088 (início da carreira) e R$ 5.914 (final), na Argetina é de R$ 6.947 e R$ 11.464, e no Chile, de R$ 7.072 e R$ 10.954.

Dentre os países do WEI, o Brasil está à frente apenas do Peru, que paga aos seus professores valores equivalentes ao da Indonésia - R$ 3.340 por ano, em média - com a particularidade de que no Peru não há variantes: o salário é o mesmo do início ao fim da carreira. Mas de um modo geral, os valores latinos são muito baixos, se comparados a modelos europeus, como a França, onde pagam-se em média R$ 30.631 ao ano aos professores, ou a Suíça, que reserva rendimentos de até R$ 40.414 aos que trabalham com turmas de primeira à sexta série. Nos Estados Unidos, os que atuam no mesmo segmento têm vencimentos iniciais médios de R$ 20.051. No fim da carreira, podem chegar a ganhar R$ 33.613.

Baixo salário, entretanto, não significa pouco trabalho. Segundo a pesquisa, os professores brasileiros estão entre os que lidam com o maior número de alunos em sala de aula. No Ensino Médio são 38,6 alunos por professor, e 30x1 nas turmas de primeira à sexta série. As turmas de sétima e oitava séries também são lotadas: são 33,7 estudantes por professor, contra a média da WEI, de 21,1%, e da OCDE, de 15,2%. E se a conclusão é a de quem tem aluno demais e professor de menos, o país tem que tomar providências urgentes, porque a tendência é piorar. Segundo a Confederação Nacional de Trabalhadores em Educação, pelo menos 1 milhão de docentes brasileiros estão em fase de se aposentar. Para completar, os baixos salários não estão atraindo jovens para a carreira.

A pesquisa também mostra que a qualificação do magistério no Brasil é bastante precária. Apenas 22% dos que lecionam no Ensino Fundamental ingressaram em uma faculdade. Abaixo do Brasil ficam a China e a Tunísia, com 13% e 14%, respectivamente. A folha de pagamento do Ensino Básico é responsável pelo consumo de 83% do que é gasto neste segmento e, no Ensino Superior, os salários consomem 97% dos investimentos. É a maior taxa entre os países do WEI O gasto por estudante também deixa o Brasil em desvantagem frente aos demais países pesquisados, mas neste indicador o vácuo é menor. O Brasil gasta R$ 653 por ano com os alunos de primeira à sexta série. A média do grupo ao qual foi integrado na pesquisa é de R$ 689.

Densidade - De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 32% de sua população na faixa que vai dos 5 aos 19 anos (a média dos outros países do WEI é de 20%) e, segundo o Censo Escolar 2000 do MEC, o país tem nada menos do que 41.730.188 alunos matriculados em creches (916.864), na pré-escola (4.421.332), em classes de alfabetização (674.044) e no ensino fundamental (35.717.9487), não incluídos os estudantes portadores de necessidades especiais (300.520) - o que eleva para 42.030.708 o número de matrículas na educação básica brasileira - nem as matrículas nas turmas de educação para jovens e adultos (2.441.993) - o que faz que o número de matrículas, no ano da pesquisa, tenha chegado a estratosféricos 44.472.701. Dados mais recentes do Censo Educacional indicam a existência de 54.491.396 estudantes, excluídos os universitários. Mas não são números conclusivos, já que os resultados finais só serão divulgados em dezembro.

Repetência - Entre os países latinos, o Brasil é o que tem a mais elevada taxa de repetência no segmento de primeira à sexta série - 25,1%. Em segundo lugar aparece a Tunísia, com 18,3%. A taxa de primeira à sexta série na Argentina é de 5,3%; de 3,2% no Chile; 8,6% no Paraguai; 9,8% no Peru; 8,4% no Uruguai. Em todos os outros segmentos escolares, a repetência do Brasil também é maior, em relação aos países latinos. No segundo segmento do Ensino Fundamental (sétima e oitava séries, segundo divisão da pesquisa) e no Ensino Médio, os índices não são os maiores entre os países pesquisados, ainda assim são muito elevados - 15% e 18,1%, respectivamente. A taxa de repetência no ensino médio brasileiro só perde para a Tunísia, que tem avançados 23,9%.

Período de formação - O Brasil é um dos países que exigem uma permanência maior em sala de aula para a obtenção de um diploma. Nos ensinos Fundamental, Médio e Universitário, o estudante brasileiro gasta em média 14,9 anos. O índice de permanência só é menor do que a do Uruguai (15,2 anos). Na Argentina a permanência é de 14,2 anos; no Chile é de 14,3; no Paraguai é de 11,0; e no Peru é de 13,9 anos. Não significa, entretanto, que a permanência seja cumprida, já que, segundo o IBGE, a média de estudos do cidadão brasileiro é de 5,7 anos. Para o Inep, isto tem como causa o alto índice de reprovação, já que repetir de ano desestimula o retorno à escola. Entre os 16 países do WEI que apresentaram seus dados, o Brasil teve o pior desempenho nesse quesito. O MEC lembra que a repetência caiu em 2000 para 21,6%, o que não tira o Brasil do posto de pior entre os países pesquisados.

Os números melhoram com a adoção, por alguns estados, do sistema de ciclos e da aceleração da aprendizagem. No primeiro sistema os alunos só são avaliados no fim do ciclo e não da série. Na aceleração, é tolerado que os estudantes pulem séries, método duramente combatido no meio acadêmico. Para muitos educadores, esses sistemas melhoraram o ranking brasileiro nas estatísticas, mas não têm compromisso com a apreensão de conteúdos, ou seja: com o aprendizado.

 
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