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Assumiu o cargo interinamente,
em substituição a dom Basílio, em 1948.
Nunca mais o deixou. Isto colabora para que seja olhado como
quem olha um conservador. Mas é apenas uma das pistas
reveladoras de sua natureza dialética. Dom Lourenço
é um conservador de idéias progressistas. Tanto
que algumas convicções suas, que chocaram uma
ou duas gerações, hoje são revistas por
novos pensadores, por aqueles que estão reconstruindo
conhecimentos sobre a fé, a família e o afeto.
Afinal, não é de hoje que este velho dom Lourenço
fala que a descontrução da família gerou
a violência.
Este mesmo velho dom Lourenço,
pediatra de formação e educador por escolha,
percebeu há muito tempo a importância das particularidades
entre o masculino e o feminino. Ele acha que a convivência
de camaradagem, alimentada pelo dia-a-dia juntos na escola,
"barateia" (e é esta a expressão que
ele utiliza) as relações menino-menina. Minucioso,
ele aponta pequenos detalhes que podem frustrar a magia das
diferenças e o encantamento das descobertas. O uso
do mesmo uniforme, por exemplo.
Muitas de suas idéias
não puderam ser concretizadas. Uma delas queria transformar
a antiga Escola Popular de São Bento, desativada há
cerca de 20 anos, num centro de aprimoramento profissional
para os trabalhadores do Centro da cidade. Dom Lourenço
não confessa, mas deve observar com orgulho o Ministério
do Trabalho e Emprego, hoje, investindo volumosas verbas através
do Fundo do Amparo ao Trabalhador (FAT), para realizar o que
há duas décadas era utopia.
Mas esta conversa se contentou
com as impressões de dom Lourenço sobre educação,
este vasto tema.
FOLHA DIRIGIDA : Qual
o sentido da escola? Para que ela serve? Quais os novos papéis
que a ela cabe desempenhar na nova sociedade?
DOM LOURENÇO : A escola é, no tempo moderno,
algo indispensável. A criatura humana necessariamente
precisa de educação e precisa de apoio para
ser educada. No primeiro momento da vida é educada
em casa; depois, para o desenvolvimento cultural, ela precisa
de pessoas especializadas para ajudá-la a crescer e
aprender. A escola ensina a conviver com as demais criaturas.
A escola oferece a convivência social entre os que estão
crescendo na mesma época e o apoio indispensável
para que a criatura humana avance no conhecimento das Letras
e das Artes, que é o que a conduz à maturidade.
O fim da escola é justamente ajudar a criatura humana
a chegar à sua condição de pessoa humana
livre, de forma que a escola é um convívio de
aprendizado e apoio para que o ser chegue a essa plenitude
para a qual nasceu e para a qual caminha e deve crescer.
FOLHA DIRIGIDA : A
nova escola tem conseguido alcançar esse objetivo?
DOM LOURENÇO : Escola nova é uma palavra
vaga. Eu não gosto deste termo, porque não existe
escola nova, existe, de fato, um evoluir do pensamento humano,
de tal maneira que antigamente o homem na caverna não
tinha vida escolar. Ele passou a ter uma vida escolar quando
os aprendizados começaram a ser mais solicitantes.
Aprendeu a escrever, aprendeu a ler e é indispensável
na vida de hoje o aprendizado de ler e escrever, que também
inicialmente se fazia na própria casa. Depois foram-se
desenvolvendo aspectos específicos de aprendizado,
técnicos, científicos e a escola se torna realmente
o caminho indispensável até para a formação
depois da sua vida profissional. Nenhum pai e mãe consegue
conduzir a criatura em sua plenitude nos tempos de hoje, sem
o apoio dessa especialização.
FOLHA DIRIGIDA : Por
que a sociedade hoje está tão violenta, inclusive
no meio daqueles que passam por boas escolas?
DOM LOURENÇO : Está violenta porque,
de fato, o mundo está perdendo os apoios na vida religiosa.
FOLHA DIRIGIDA : Quais
as relações possíveis entre educação
e pobreza?
DOM LOURENÇO : A pobreza tem mais dificuldade
para chegar a todas as coisas, inclusive à boa escola
e ao aprendizado. A pobreza não tem o apoio educacional.
FOLHA DIRIGIDA : O
senhor acha que a educação pode acabar com as
desigualdades sociais?
DOM LOURENÇO : A desigualdade social não
pode ser acabada porque o homem é variável,
o homem é diversificado, sempre haverá mulher
e homem, não se pode quebrar esta diversidade. Quanto
mais evolui a sociedade, mais se diversificam as profissões.
Antigamente, o homem da caverna era sapateiro, era pedreiro,
era cozinheiro, era pescador, era caçador. Agora tem
engenheiro, tem advogado, cada vez mais se diversificam as
profissões e cada profissão exige mais uma formação
especializada. Agora, na diversidade, uns progridem mais outros
menos, isso haverá sempre. De fato, o que se procura
e deve-se procurar é quebrar a injustiça social,
para que não haja alguém que tenha menos do
que aquilo que é indispensável para sua vida.
Para isso existe um poder público, que é um
modelo de governo justamente para harmonizar as dificuldades,
minorar as diferenças e fazer que as diferenças
não gerem discórdia e dificuldades.
FOLHA DIRIGIDA : O
senhor acha que programas adotados pelo sistema educacional
brasileiro, como a bolsa-escola, a aceleração
do aprendizado, a aprovação automática,
podem pôr fim à exclusão social?
DOM LOURENÇO : São coisas completamente
diferentes. A aprovação automática é
uma bobagem. A aprovação é uma verificação
de aprendizado que é preciso ser feita e deve ser valorizada,
porque, inclusive, o processo de crescimento educacional depende
das verificações para evoluir. A aprovação
automática e a formação de classes misturadas
são a dissolução da vida de trabalho
em conjunto na escola. Agora, o acesso de todos à educação,
por meio de bolsa de apoio, é um caminho que deve até
crescer, não sei se no sentido que está sendo
feito, mas evidentemente o direito à educação
é um direito de todos. O Estado tem o dever de fornecer
educação, de forma que o Estado não teria
direito a oferecer escola pública só, ele tem
a obrigação de oferecer escolas para o pai escolher,
para que ele possa escolher uma escola pública e tenha,
também, a alternativa de matricular o filho numa escola
particular, através de bolsas oferecidas pelo Estado.
Uma pessoa pode preferir uma escola religiosa, porque quer
dar uma formação religiosa ao seu filho. Ele
paga imposto, tem direito a isso, e o Estado poderia fornecer,
então, bolsas. A nossa Constituição é
injusta no sentido de que o dinheiro público deve ser
aplicado em escola pública. O dinheiro público
deve ser aplicado em favor da pessoa pública. De forma
que ele deveria permitir a escolha. Um dos caminhos seria
o próprio Estado oferecer escolas variadas e o Estado
financiar ensino variado, por meio de bolsa ou por meio de
escolas estruturadas segundo certas tendências e apoiada
pelo Estado. O dinheiro público é do público,
de forma que não é para fazer uma escola e controlar.
Isso é coisa do Estado totalitário nazista,
fascista, comunista, cubano, que é uma escola só,
porque ele quer dopar aquele menino, conscientizar aquele
menino para ser um fidelista, um fascista. O Estado democrático
quer que as pessoas se formem segundo as tendências
variáveis de cada família, que é o núcleo
fundamental onde a pessoa humana surge e deve crescer.
FOLHA DIRIGIDA : O
governo este ano enquadrou as instituições filantrópicas
no sistema de tributação. Qual o impacto desta
decisão sobre as instituições de ensino?
DOM LOURENÇO : O apoio às entidades filantrópicas,
seja de saúde, seja de ensino, é um apoio que
deveria existir. Agora, se todas as pessoas que buscam esse
apoio a esse título merecem, eu não sei. A oferta
do dinheiro público para a educação não
é uma oferta de filantropia. O poder público
administrador do dinheiro público tem o dever, não
de filantropia, mas dever de justiça, de oferecer a
cada um o direito de escolher a sua escola, de forma que se
ele oferecer bolsa ou ajudar a escola, não é
filantropia no sentido de algo mais, mas é aquilo que
ele tem o dever de fazer.
FOLHA DIRIGIDA : A
inadimplência é o principal problema enfrentado
hoje pelas escolas particulares? Pode-se dizer que este problema
chegou às escolas do padrão do Colégio
de São Bento?
DOM LOURENÇO : A inadimplência sempre
existiu. Agora é mais forte, mais grave. Não
só a inadimplência, como a solicitação
de bolsas parciais. Porque a classe média hoje está
empobrecida, de forma que isso é comum, aumentou muito
o pedido de redução. A inadimplência atinge
todos os colégios e agora mais ainda, porque de fato
a situação se agravou. Mas é um problema
que de algum modo sempre existiu.
FOLHA DIRIGIDA : As
escolas estão preparadas para conviver com essa realidade
de inadimplência crescente? Quais alternativas estão
buscando?
DOM LOURENÇO : As escolas não estão
preparadas, porque elas vivem disso. Mas o número de
escolas que têm fechado as portas por não conseguirem
se manter é muito grande no Rio de Janeiro. Porque
de fato a classe média empobrecida está apenas
à procura da escola pública e abandonou a escola
particular, não porque aquelas pessoas preferem a escola
pública, mas porque elas não têm condições.
De forma que é um sinal de pobreza, não é
um sinal de progresso. Se a escola pública tivesse
adquirido uma qualidade que atraísse, seria uma grandeza,
mas o que está acontecendo é uma incapacidade
financeira de a pessoa pagar a escola.
FOLHA DIRIGIDA : O
êxodo de estudantes rumo às escolas públicas
é uma realidade hoje acentuada no Colégio São
de Bento?
DOM LOURENÇO : O Colégio de São
Bento não diminui o número de alunos dele, mas,
de fato, muita gente gostaria de colocar o filho no Colégio
de São Bento e não tem condições
de colocar. O colégio até uns três anos
atrás nunca recusou aluno por não poder pagar.
Hoje está com mais dificuldade, porque de fato o número
de incapazes cresceu muito.
FOLHA DIRIGIDA : Um
tema hoje bastante em discussão é a reserva
de vagas nas universidades públicas para grupos, como
negros e originários de escolas públicas. Nós
gostaríamos de ouvir sua opinião sobre isto.
DOM LOURENÇO : O acesso à escola superior
é feito na base de uma verificação de
competência, de você ser capaz de fazer um curso
superior. Não adianta colocar num curso como Medicina
um menino que não trouxe uma formação
básica de humanas de curso secundário, educação
média. Ele não será capaz de seguir o
aprendizado da Medicina e de ser um bom médico. Esses
privilégios a título de classe na escola pública
é inteiramente falso. O correto é a escola pública
se qualificar para preparar alunos para escolas superiores.
Quanto a essa questão que está agora em voga,
de escola para negros, é uma questão inteiramente
insensata. O que é o negro? É o mulato? O que
tem que procurar é criar situações tais
que ele chegue lá, mas botar um analfabeto, a título
de que é preto, numa escola, é mentir para ele,
é criar para ele uma situação falsa.
E mais ainda: o que é, num país como o Brasil,
o que seria um preto? Até que grau um meio-sangue seria
tido como tal? É insensato, esta qualificação
num país como o Brasil não existe. Ninguém
é inteiramente branco, mas quase ninguém é
inteiramente preto. Não se sabe a quem dar esta categoria.
Até que ponto a cor seria um medidor? Tudo seria muito
falso. É uma idéia inteiramente insana e tola.
O que se deve proporcionar é de fato a qualificação
para o aprendizado.
FOLHA DIRIGIDA : A
droga e a violência chegaram à escola e se instalaram
de uma forma tal, que levou a educação, em muitos
casos, para a pauta da segurança. A escola está
preparada para enfrentar desafios desta natureza?
DOM LOURENÇO : A escola é um elemento
da vida social, quer dizer, a escola está preparada
e não está preparada. A escola procura formar
um ambiente em que a pessoa não sinta carências
que levem à droga. E procura educar as crianças
para que não sejam seduzidas. O Santo Papa disse aqui,
num discurso magnífico: "É preciso ter
a coragem de ser livre". E um menino aqui da escola me
respondeu que ele tem razão pelo seguinte, é
preciso ter coragem de ser livre e ter coragem de não
entrar na onda. O que é preciso dizer para os meninos
é que não entrem na onda do cigarro, da droga,
porque ele não sabe se, começando, ele vai ser
um viciado ou não, porque de cem meninos, você
não sabe aquele que por tendência será
viciado e aquele que pode experimentar sem vício. De
forma que a aceitação da vida da droga é
uma aceitação dessa vida deseducada em que nós
vivemos, de conflito, de dificuldade, de carência. Na
raiz de todos os males da sociedade moderna está a
dissolução da família. Se você
quiser que eu diga uma coisa meio chocante, a pílula
criou para a sociedade humana um novo problema, porque a mulher
que antigamente era sensata, defendia o bom senso, era muito
mais sensata do que o homem, era cautelosa, porque ela tinha
a responsabilidade da gravidez. Hoje, ela ficou imitadora
do homem. Não sei como será a vida daqui a vinte
anos, porque a família perdeu a estrutura. Antigamente
eu via com freqüência uma mulher vir aqui com três
crianças, porque o marido tinha abandonado. Hoje é
a avó que está salvando ainda a situação.
De forma que a crise da família é uma crise
grave e que não é um problema para ser resolvido
numa entrevista. É um assunto que deve ser pensado
com um pouco mais de cautela.
FOLHA DIRIGIDA : Nesta
era do hipertexto, do predomínio da linguagem virtual,
digital entre os jovens, como anda o domínio dos conteúdos
curriculares?
DOM LOURENÇO : A escola deve cuidar de não
pensar que nós vivemos de fato no delírio da
imagem e, agora, do digital. O aprendizado é feito
pelas coisas que chegam à inteligência, de forma
que é o aluno que aprende, não é o mestre
que transmite. Ele tem que se servir desses elementos como
meios, como recursos, mas não fazer disso o próprio
ensino. O ensino é uma comunicação. É
o aluno que, solicitado, aprende, de forma que os recursos
audiovisuais são positivos quando são recursos,
e são negativos quando são sufocantes. O menino
que assiste a cinco, seis horas de televisão por dia,
ele está de fato se fechando ao mundo, se iludindo,
pensando que está aprendendo pela vista, em vez de
aprender pelo ouvido e pela inteligência.
FOLHA DIRIGIDA : O
senhor disse há pouco que a sociedade está violenta
porque perdeu a base da fé, da religião. A LDB
em vigência abre espaço na escola para o ensino
religioso. O senhor acha que isto vai melhorar a formação
dos jovens?
DOM LOURENÇO : A Lei de Diretrizes e Bases é
uma lei do Darcy Ribeiro, é uma lei completamente falsa
e insegura. O ensino religioso é oferecido de uma maneira
geral, porque a Constituição permite. O ensino
religioso, que é direito de os pais pedirem para os
seus filhos, é um ensino de religião determinda.
Não é um ensino religioso de religião
ecumênica, é o ensino de determinada religião.
E a escola pública, já que é a escola
obrigatória fornecida pelo Estado, tem obrigação
de abrir espaço ao ensino religioso, e ao ensino religioso
confessional, não ao ensino religioso ecumênico.
E ele pode aí criar, como se criava antigamente, uma
certa cautela econômica, porque vai precisar diversificar
e não vai ser possível, de fato, botar um professor
de Budismo porque existe um budista na escola. Mas caberia
financiar não o ensino de religião que dá
a qualificação religiosa como sem importância,
mas o ensino de religião confessional, e a LDB não
fala disso, que ficou para ser regulamentado em leis estaduais
ou regulamentos estaduais.
FOLHA DIRIGIDA : Segundo
o IBGE o Brasil tem 15 milhões de adultos analfabetos.
Quais medidas, na sua opinião, poderiam ser tomadas
para mudar esse quadro?
DOM LOURENÇO : Eu não tenho nenhuma originalidade
nisso. A medida é abrir escola, e escola acessível
ao povo. Uma idéia de Darcy Ribeiro também completamente
falsa é a do Ciep, de grandes escolas, porque a escola
pequena e perto de casa é a que atrai a criança
que precisa mais desse apoio. De forma que seria uma abertura
para o ensino inicial facilitado e o acesso inicial proporcionado
até com certa despreocupação de pedantismo
titular. Agora estão exigindo que a professora de ensino
de criança tenha formação de ensino superior,
não é preciso. O ensino normal antigo, que é
um ensino de nível médio, captando candidatos
de boa qualidade, formou excelentes professoras primárias.
Ficava mais barato para o estado, aproveitava a moça
dos 18 aos 24 anos, quando ela não tinha seis filhinhos
em casa para atrapalhar que se dedicasse ao ensino. Tornava
o ensino mais acessível, mais barato, de forma que
as medidas que parecem caprichosas, de aprimoramento, são
às vezes medidas negativas, que criam dificuldades.
Não se deve dificultar o ensino no interior do Brasil
de pessoas não tituladas, porque quem sabe ler ensina
alguém a ler. A escola beneditina medieval, segundo
alguém, começou no dia em que um alfabetizado
encontrou um analfabeto e achou que devia ensiná-lo
a ler e escrever. Tem que facilitar o ensino e não
criar barreiras legais que dificultem uma pessoa de formar
a outra.
FOLHA DIRIGIDA : Fala-se
que o magistério está desvalorizado. O senhor
concorda? O professor se tornou, de fato, um pobre coitado?
DOM LOURENÇO : O salário aqui no Rio
de Janeiro de fato se tornou pouco apetecível para
uma moça ser professora, sobretudo no ensino primário.
Sobretudo atualmente, em que a mulher tem acesso muito mais
fácil a outras profissões mais rendosas. Quando
eu fiz o curso de Medicina há setenta e poucos anos,
havia na minha turma de 430 alunos, no primeiro ano, 13 meninas.
Hoje tem mais da metade. Com isso também a mulher teve
abertura de outras profissões, que a afastou do magistério,
embora a mulher tenha ainda uma inclinação,
e é uma profissão muito ajustada à via
feminina. Mas a professora está sendo muito mal paga,
de forma que há uma debandada, e debandada em número
e talvez em qualidade.
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