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Liberdade & Cidadania
 
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  A educação como alimento fundamental dos homens  
  Considerado um conservador de idéias progressistas, dom lourenço descarta a possibilidade de o colégio de são bento abrir turmas para meninas  
  Dom Lourenço: “a LDB é muito ruim. A nossa lei é insegura, é uma lei falsa, uma lei Darcy Ribeiro”  
  FOLHA DIRIGIDA : O magistério é uma profissão feminina?
DOM LOURENÇO : O magistério é uma profissão humana, não é feminina, nem masculina. Há um certo magistério que é mais feminino, o magistério de criança. Realmente a mulher tem mais jeito, sobretudo numa sociedade em que a mãe está trabalhando. A professora é um pouco substituta ou compensadora da ausência materna. De forma que no ensino da criança a professora, a mulher, é de fato mais qualificada normalmente. No ensino em geral é variável. E o ideal num colégio é que existisse meio a meio a partir da adolescência. A tendência hoje, um pouco, é prevalecer a mulher no ensino. Porque é uma profissão realmente compatível com a vida feminina e é uma profissão mal remunerada. Os marmanjos estão saindo mais para outras atividades e a mulher fica pela vocação, porque é uma profissão realmente que se harmoniza com a vida feminina.
 
 

Uma ocasião veio uma engenheira aqui me pedir para ser professora, eu disse: "você não vai ganhar como professora o que ganha como engenheira". Ela me respondeu: "Eu estou ganhando muito bem, mas saio às 7 horas da manhã de casa e volto às 7 da noite. Eu quero ter família, de forma que eu queria uma profissão que eu pudesse fazer um horário". E a profissão de magistério é uma profissão que permite que ela faça um horário de segunda, quarta e sexta-feira, de 14 às 18 horas, como há possibilidade no ramo da Medicina, como já vi, que é compatível com a vida em casa.

Indiscutivelmente a mulher no período vivo da vida dela, em que ela é mãe de criança, ela não pode trabalhar 12 horas por dia. Ela tem que dar uma presença materna. A presença do carinho materno é condição para a saúde mental. Há uma tese muito bem-feita por um médico da Organização Mundial de Saúde, logo depois da úlitma Grande Guerra, em que ele disse que o único substituto da criança que ficou sem mãe é outra mãe, uma adoção, porque a saúde mental da criança depende dos cuidados maternos. E hoje, de fato, as crianças estão freqüentemente perdendo esses cuidados maternos, porque o trabalho feminino está às vezes sufocando a vida da mulher-mãe num momento em que ela devia ter mais tempo para estar com a criança.

FOLHA DIRIGIDA : Então a professora de hoje, que precisa dar aulas em três horários, em três turnos, para somar um salário, está vivendo um grande conflito?
DOM LOURENÇO : O ideal é que ela não tenha. Mas o ensino aqui no Brasil é feito, a partir do quinto ano do antigo ginásio, desta forma. O professor é um pouco chofer de táxi, que dá três aulas aqui, depois três aulas em outro lugar. O ensino do antigo primário ainda está melhor, a professora tem um certo tempo. Ou ela trabalha só de manhã, ou só à tarde. Aqui no nosso colégio eu tenho uma professora de manhã, outra professora de tarde para a turma.

FOLHA DIRIGIDA : O novo arcebispo do Rio, dom Eusébio Scheid, disse nas entrevistas que concedeu que depois de todos os " ismos" o mundo estaria vivendo a era do amor. O senhor compartilha dessa opinião? Significa que estamos construindo ou partindo para uma civilização sem violência?
DOM LOURENÇO : Não, pelo contrário, estamos vivendo uma era de muita luta e muita dificuldade, e de muita inexistência de amor, porque estamos vivendo numa época em que está faltando a coragem de amar. Quando o casamento era feito na base de um compromisso, com o matrimônio na igreja, com o eu me comprometo, na saúde e na doença, é um compromisso de amor, que gera o amor. Hoje as pessoas não têm coragem de amar, qualquer atrito desanda. Há certo tempo esteve aqui uma professora que tinha perdido os avós e estava dizendo como eles se amaram. Não existe mais esse amor. Eu disse: brigaram muito durante a vida, mas reconstruíram o amor porque tiveram coragem de amar. Hoje a gente quer o amor sem compromisso e, como a pílula facilita isso, as coisas ficam um falso amor, um sexualismo sem consistência e sem compromisso recíproco. Nós estamos vivendo uma época de uma certa carência de força no amor, de coragem de amar, de vida neste sentido. Essa dissolução que existe, você está casado com a terceira mulher, a mulher está casada com o terceiro marido, e até chamam de marido o que se chamaria antigamente amante, que é o nome mais próprio, porque é um negócio sem compromisso. A sociedade de hoje não constrói a família e para a criança isto é sumamente nocivo. A criança nasceu para ser criada por pai e mãe juntos. Ela precisa desse apoio e esse apoio hoje é muito precário, é muito difícil.

FOLHA DIRIGIDA : Antigamente as escolas tinham um departamento chamado Serviço de Orientação Educacional, que era, na verdade, uma espécie de vigília psicólogica sobre o comportamento das crianças. Por que este atendimento sumiu da escola?
DOM LOURENÇO : É importante hoje também. Talvez tenha mudado de feição, era uma orientação educacional meio formal, mas esse acompanhamento, meio maternal, meio magisterial da criança, com orientação educacional, está existindo e é muito bom.

FOLHA DIRIGIDA : Mas na estrutura das escolas este quadro não existe mais enquanto função. Isso é um prejuízo?
DOM LOURENÇO : O quadro também antigamente não existia. É preciso alguma coisa, o serviço é útil, o serviço é positivo. Ele pode ser compensado. A escola antiga não tinha isso, mas tinha professoras que acompanhavam e se criavam dentro das escolas atmosferas de orientação, de apoio, por professoras mais dedicadas que faziam uma complementação. A orientação educacional tem o seu lugar, é algo que funciona e tem feições diferentes. Pode ser meio formal, meticulosa, de pegar alunos difíceis. Pode ser um acompanhamento meio maternal, meio fraternal da criança.

FOLHA DIRIGIDA : Em linhas gerais, como o senhor analisa as políticas do MEC para a educação?
DOM LOURENÇO : Não sei. Acho muito contraditórias as coisas e acompanho com muita inquietação, mas não tenho um juízo formado. Acho que o atual ministro me deu no início muita esperança, mas depois ele ficou perturbado em dar computadores e fazer coisas. Algumas medidas são boas, outras não. Vejo boas intenções, mas a LDB é muito ruim. A nossa lei é insegura, é uma lei falsa, uma lei Darcy Ribeiro.

FOLHA DIRIGIDA : Ela é falsa porque é uma lei Darcy Ribeiro?
DOM LOURENÇO : Darcy Ribeiro é um falso educador, eu não sei porque ficou com fama, ele nunca fez nada. Fez Ciep, que é um crime contra a educação. Tentou fazer universidade de Campos, ele é um sujeito irreal. Darcy Ribeiro foi inteligente no tempo em que ele cuidava de índios. As primeiras coisas que ele escreveu, dizem até que era a mulher dele quem escrevia. Mas as coisas dele de educação são vazias porque ele não é filósofo, não é pensador, é um divagante. E a lei padece muito disso, é uma lei vazia. Tem vazios imensos e que não ajudam a organizar e disciplinar a educação.

FOLHA DIRIGIDA : Algum dia o São Bento abrirá suas salas de aula para as meninas?
DOM LOURENÇO : Este projeto não existe. O colégio é um colégio masculino só porque é o modo antigo. O colégio há 50 anos não tinha condição nenhuma de receber meninas, não tinha nem instalação física, nem corpo docente. E como em time que vai bem não se muda, o colégio vai bem. E existir um colégio só masculino é para muita gente muito bom. O Colégio de São Bento não é contra a educação mista, nem o diretor do colégio é contra. Se eu fosse cardeal do Rio de Janeiro, eu não deixaria o Colégio de São Bento ser misto, para ter uma oportunidade diferente. Para muitos meninos é um encontro. Mas o colégio misto tem suas vantagens. As desvantagens antigas eram transformar a feição bifronte, a reciprocidade menina-menino em camaradagem, baratear a relação menina-menino, os dois acompanhando a mesma moda, a menina vestida de calça jeans. Em vez de acentuar as diferenças que geram a concórdia, o apoio, agora o que impera é a facilidade, o uniforme é um só. Outro dia vi um pai de aluno na televisão dizendo o seguinte: “Eu não posso ser hipócrita de pensar que a minha filha de 13 anos não está transando por aí”. A escola mista hoje está facilitando este transar irresponsável e fica meio indisciplinada. Há 40 anos era a nivelação, agora é antecipação. Mas os problemas são variáveis e há outros fatores.

FOLHA DIRIGIDA : Qual mensagem o senhor deixaria ao jovem que, hoje, está na escola em busca de uma formação?
DOM LOURENÇO : Que ele procure ser um homem de bem e, se possível, procurar a Deus. O homem nasceu para a vida eterna, não para a vida do tempo. De forma que ele procure fazer da vida dele uma construção da eternidade. O tempo é de fato a nossa colocação no mundo por Deus. É o transitar na Terra como ser livre, para conquistar a vida eterna, chegar à vida eterna. O chegar da vida é a morte, de forma que deveria ele pensar um pouco na vida presente, em função da vida futura, para que a vida presente seja de fato elevada em busca dessa vida futura.

 
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