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Uma ocasião veio uma
engenheira aqui me pedir para ser professora, eu disse: "você
não vai ganhar como professora o que ganha como engenheira".
Ela me respondeu: "Eu estou ganhando muito bem, mas saio
às 7 horas da manhã de casa e volto às
7 da noite. Eu quero ter família, de forma que eu queria
uma profissão que eu pudesse fazer um horário".
E a profissão de magistério é uma profissão
que permite que ela faça um horário de segunda,
quarta e sexta-feira, de 14 às 18 horas, como há
possibilidade no ramo da Medicina, como já vi, que
é compatível com a vida em casa.
Indiscutivelmente a mulher
no período vivo da vida dela, em que ela é mãe
de criança, ela não pode trabalhar 12 horas
por dia. Ela tem que dar uma presença materna. A presença
do carinho materno é condição para a
saúde mental. Há uma tese muito bem-feita por
um médico da Organização Mundial de Saúde,
logo depois da úlitma Grande Guerra, em que ele disse
que o único substituto da criança que ficou
sem mãe é outra mãe, uma adoção,
porque a saúde mental da criança depende dos
cuidados maternos. E hoje, de fato, as crianças estão
freqüentemente perdendo esses cuidados maternos, porque
o trabalho feminino está às vezes sufocando
a vida da mulher-mãe num momento em que ela devia ter
mais tempo para estar com a criança.
FOLHA DIRIGIDA : Então
a professora de hoje, que precisa dar aulas em três
horários, em três turnos, para somar um salário,
está vivendo um grande conflito?
DOM LOURENÇO : O ideal é que ela não
tenha. Mas o ensino aqui no Brasil é feito, a partir
do quinto ano do antigo ginásio, desta forma. O professor
é um pouco chofer de táxi, que dá três
aulas aqui, depois três aulas em outro lugar. O ensino
do antigo primário ainda está melhor, a professora
tem um certo tempo. Ou ela trabalha só de manhã,
ou só à tarde. Aqui no nosso colégio
eu tenho uma professora de manhã, outra professora
de tarde para a turma.
FOLHA DIRIGIDA : O
novo arcebispo do Rio, dom Eusébio Scheid, disse nas
entrevistas que concedeu que depois de todos os " ismos"
o mundo estaria vivendo a era do amor. O senhor compartilha
dessa opinião? Significa que estamos construindo ou
partindo para uma civilização sem violência?
DOM LOURENÇO : Não, pelo contrário,
estamos vivendo uma era de muita luta e muita dificuldade,
e de muita inexistência de amor, porque estamos vivendo
numa época em que está faltando a coragem de
amar. Quando o casamento era feito na base de um compromisso,
com o matrimônio na igreja, com o eu me comprometo,
na saúde e na doença, é um compromisso
de amor, que gera o amor. Hoje as pessoas não têm
coragem de amar, qualquer atrito desanda. Há certo
tempo esteve aqui uma professora que tinha perdido os avós
e estava dizendo como eles se amaram. Não existe mais
esse amor. Eu disse: brigaram muito durante a vida, mas reconstruíram
o amor porque tiveram coragem de amar. Hoje a gente quer o
amor sem compromisso e, como a pílula facilita isso,
as coisas ficam um falso amor, um sexualismo sem consistência
e sem compromisso recíproco. Nós estamos vivendo
uma época de uma certa carência de força
no amor, de coragem de amar, de vida neste sentido. Essa dissolução
que existe, você está casado com a terceira mulher,
a mulher está casada com o terceiro marido, e até
chamam de marido o que se chamaria antigamente amante, que
é o nome mais próprio, porque é um negócio
sem compromisso. A sociedade de hoje não constrói
a família e para a criança isto é sumamente
nocivo. A criança nasceu para ser criada por pai e
mãe juntos. Ela precisa desse apoio e esse apoio hoje
é muito precário, é muito difícil.
FOLHA DIRIGIDA : Antigamente
as escolas tinham um departamento chamado Serviço de
Orientação Educacional, que era, na verdade,
uma espécie de vigília psicólogica sobre
o comportamento das crianças. Por que este atendimento
sumiu da escola?
DOM LOURENÇO : É importante hoje também.
Talvez tenha mudado de feição, era uma orientação
educacional meio formal, mas esse acompanhamento, meio maternal,
meio magisterial da criança, com orientação
educacional, está existindo e é muito bom.
FOLHA DIRIGIDA : Mas
na estrutura das escolas este quadro não existe mais
enquanto função. Isso é um prejuízo?
DOM LOURENÇO : O quadro também antigamente
não existia. É preciso alguma coisa, o serviço
é útil, o serviço é positivo.
Ele pode ser compensado. A escola antiga não tinha
isso, mas tinha professoras que acompanhavam e se criavam
dentro das escolas atmosferas de orientação,
de apoio, por professoras mais dedicadas que faziam uma complementação.
A orientação educacional tem o seu lugar, é
algo que funciona e tem feições diferentes.
Pode ser meio formal, meticulosa, de pegar alunos difíceis.
Pode ser um acompanhamento meio maternal, meio fraternal da
criança.
FOLHA DIRIGIDA : Em
linhas gerais, como o senhor analisa as políticas do
MEC para a educação?
DOM LOURENÇO : Não sei. Acho muito contraditórias
as coisas e acompanho com muita inquietação,
mas não tenho um juízo formado. Acho que o atual
ministro me deu no início muita esperança, mas
depois ele ficou perturbado em dar computadores e fazer coisas.
Algumas medidas são boas, outras não. Vejo boas
intenções, mas a LDB é muito ruim. A
nossa lei é insegura, é uma lei falsa, uma lei
Darcy Ribeiro.
FOLHA DIRIGIDA : Ela
é falsa porque é uma lei Darcy Ribeiro?
DOM LOURENÇO : Darcy Ribeiro é um falso
educador, eu não sei porque ficou com fama, ele nunca
fez nada. Fez Ciep, que é um crime contra a educação.
Tentou fazer universidade de Campos, ele é um sujeito
irreal. Darcy Ribeiro foi inteligente no tempo em que ele
cuidava de índios. As primeiras coisas que ele escreveu,
dizem até que era a mulher dele quem escrevia. Mas
as coisas dele de educação são vazias
porque ele não é filósofo, não
é pensador, é um divagante. E a lei padece muito
disso, é uma lei vazia. Tem vazios imensos e que não
ajudam a organizar e disciplinar a educação.
FOLHA DIRIGIDA : Algum
dia o São Bento abrirá suas salas de aula para
as meninas?
DOM LOURENÇO : Este projeto não existe.
O colégio é um colégio masculino só
porque é o modo antigo. O colégio há
50 anos não tinha condição nenhuma de
receber meninas, não tinha nem instalação
física, nem corpo docente. E como em time que vai bem
não se muda, o colégio vai bem. E existir um
colégio só masculino é para muita gente
muito bom. O Colégio de São Bento não
é contra a educação mista, nem o diretor
do colégio é contra. Se eu fosse cardeal do
Rio de Janeiro, eu não deixaria o Colégio de
São Bento ser misto, para ter uma oportunidade diferente.
Para muitos meninos é um encontro. Mas o colégio
misto tem suas vantagens. As desvantagens antigas eram transformar
a feição bifronte, a reciprocidade menina-menino
em camaradagem, baratear a relação menina-menino,
os dois acompanhando a mesma moda, a menina vestida de calça
jeans. Em vez de acentuar as diferenças que geram a
concórdia, o apoio, agora o que impera é a facilidade,
o uniforme é um só. Outro dia vi um pai de aluno
na televisão dizendo o seguinte: Eu não
posso ser hipócrita de pensar que a minha filha de
13 anos não está transando por aí.
A escola mista hoje está facilitando este transar irresponsável
e fica meio indisciplinada. Há 40 anos era a nivelação,
agora é antecipação. Mas os problemas
são variáveis e há outros fatores.
FOLHA DIRIGIDA : Qual
mensagem o senhor deixaria ao jovem que, hoje, está
na escola em busca de uma formação?
DOM LOURENÇO : Que ele procure ser um homem
de bem e, se possível, procurar a Deus. O homem nasceu
para a vida eterna, não para a vida do tempo. De forma
que ele procure fazer da vida dele uma construção
da eternidade. O tempo é de fato a nossa colocação
no mundo por Deus. É o transitar na Terra como ser
livre, para conquistar a vida eterna, chegar à vida
eterna. O chegar da vida é a morte, de forma que deveria
ele pensar um pouco na vida presente, em função
da vida futura, para que a vida presente seja de fato elevada
em busca dessa vida futura.
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