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O magistério superior e o desafio
de múltiplas mudanças |
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O magistério superior, num contexto
REPLETO de dificuldades conjunturais, é o tema do debate
que reúne as opiniões de quatro respeitados
educadores
Ter perdido o posto de eixo
principal do processo pedagógico perturba mais o professor
universitário do que os baixos salários e a
conseqüente impossibilidade de reaquecer a carreira participando
de cursos, congressos e seminários? É num divã
ou na greve que os conflitos do magistério superior
serão solucionados? A questão é existencial
ou material?
FOLHA DIRIGIDA reuniu quatro
educadores, representantes do ensino público e privado,
para debater a situação do magistério
de terceiro grau no Brasil. O que se pôde constatar
é que as questões da classe não se esgotam
na falta de dinheiro para ir ao mercado ou às livrarias,
nem nas dificuldades para realizar suas pesquisas. Elas foram
além e chegaram à abstração do
inconsciente, gerando um conflito que, em vez do Governo,
aponta a tecnologia como vilã.
"Hoje as novas tecnologias
da informação mudaram radicalmente o papel do
professor, que estava acostumado a centrar suas atividades
de ensino e pesquisa em sala de aula, assumindo aquela figura
clássica de transmissor de informações.
Agora ele começa a enfrentar os meios de comunicação,
a Internet, e a enfrentar obstáculos enormes na sua
própria compreensão do que vem a ser o processo
pedagógico" - observa Paulo Alcântara Gomes,
reitor da Universidade Castelo Branco, deslocando provocativamente
o eixo esperado deste rico debate.
Isto não significa,
entretanto, que os professores se alienaram das questões
políticas que engessam, há décadas, o
ensino universitário brasileiro. Eles estão,
mais do que nunca, cientes das barreiras que impedem que se
tornem cada vez mais e mais bem qualificados. Também
estão apreensivos diante da falta de instrumentos para
formar adequadamente aqueles que construirão o futuro.
FOLHA DIRIGIDA - Como os
senhores analisam as políticas públicas para
o magistério superior? Tendo como referência
o grau de sucateamento a que chegaram as instituições
públicas de ensino, os 200 milhões de dólares
que a Sesu está investindo na modernização
da infra-estrutura das universidadesc são suficientes
para atender às necessidades?
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Paulo
Alcântara Gomes, reitor da Universidade Castelo
Branco e ex-reitor da UFRJ
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Paulo Alcântara
: A nova estrutura do magistério do Ensino
Superior foi regulada pela Lei de Diretrizes e Bases de
1996, que basicamente criou a obrigatoriedade de um percentual
mínimo de 30% de mestres e doutores, e um percentual
mínimo de professores em regime integral nas universidades
como um todo. Isso significa que devemos tratar a questão
das políticas públicas do magistério
superior em duas vertentes distintas. A vertente mais
voltada para a questão das universidades federais,
onde esse índice na quase totalidade já
havia sido ultrapassado há vários anos,
pela forte base cientifica que você pode encontrar
em universidades, como as federais do Rio de Janeiro,
de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul, de Pernambuco,
na Universidade de Brasília e outras. Na outra
vertente, as universidades privadas na sua totalidade,
com exceção da Gama Filho, que foi criada
em 1972. As demais foram criadas no final da década
de 80 e ao longo dos anos 90. |
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A Castelo Branco, onde eu estou
agora, foi criada em 1994, portanto com sete anos de vida. Qual
é a diferença entre estes dois segmentos? Quando
você fala numa universidade já consolidada, com
um programa de pós-graduação bem montado
e estruturado, é muito mais fácil pensar em carreiras
docentes também estruturadas. Quando você fala
em uma jovem universidade, quando você começa a
programar a implantação de novos cursos, de novos
programas e novas estruturas laboratoriais, você tem a
necessidade de pensar em professores com carreiras com sistemas
diferenciados. As propostas do MEC de certa forma priorizaram
um aumento na qualidade do ensino, se nós entendermos
que um fator determinante para o aumento da qualidade do ensino
é efetivamente a melhoria da qualidade do corpo docente.
Como a gente vê isso hoje? O programa de recuperação
da infra-estrutura, se eu não me engano, data do final
de 1996, mas esses R$220 milhões estão destinados
à aplicação nas universidades federais,
portanto não podem servir como elemento de verificação
como melhoria da qualidade do corpo docente das universidades
privadas, católicas e comunitárias. Estas têm
a possibilidade da utilização de recursos do BNDES,
através de um empréstimo que tem retorno financeiro.
Não é uma dotação a fundo perdido,
como se costuma falar. Esse sim, visa a assegurar a melhoria
da infra-estrutura das universidades. Então são
duas questões que têm que ser tratadas de forma
separada. Embora as missões das universidades sejam absolutamente
idênticas, qualquer que seja a universidade ela tem uma
missão de competência, de assegurar a melhor formação
de seus alunos para que eles possam se inserir. Não estou
dizendo que a universidade viva para o mercado, mas a universidade
tem a obrigação de formar pessoas que tenham capacidade
de se inserir no mercado de trabalho, notadamente nas novas
profissões. A universidade ainda tem uma missão
na competência de produzir artigos, gerar novos conhecimentos
e aprofundá-los. A segunda missão da universidade
é de pertinência, onde ela tem a obrigação
de atender às demandas e às necessidades locais
da sociedade e de governo. |
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Sérgio
de Moraes Dias, reitor da UGF (Universidade Gama Filho)
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Sérgio Dias
- Relativamente ao professor da escola particular,
a LDB estabelece alguns indicadores de mestres e doutores,
partindo da premissa de que esse é um princípio
básico para uma melhor qualificação
do Ensino Superior. Todavia, o que nós enfrentamos
no segmento particular é a dificuldade de atender
a esses quantitativos, porque essa mesma LDB abriu o espectro
de cursos. Além da graduação tradicional,
há a graduação profissional, que
são os tecnólogos, os cursos seqüênciais.
O problema que nós encontramos é que o mestre
e o doutor muitas vezes estão ligados à
academia e a alguns desses cursos, para não dizer
quase que todos, exceção à graduação
e alguns específicos. Impõe que nós
vamos ao mercado buscar os profissionais e nós
não encontramos nem mestres, nem doutores. |
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Isto é um problema,
primeiro porque essa realidade acadêmica que a lei do
MEC impôs às universidades tem feito que encontremos
algumas dificuldades, como realizar, por exemplo, um curso de
formação profissional em área de telecomunicações,
para o qual temos que ir ao mercado buscar profissionais competentes
para isso e que não possuem mestrado nem doutorado. E
o MEC evidentemente exige da universidade, no seu quantitativo,
os percentuais mínimos de mestre e doutor. É a
mesma coisa os cursos seqüenciais, que são cursos
com uma dinâmica muito próxima à do mercado.
É certo que a universidade não é voltada
exclusivamente ao mercado. Porém, a realidade brasileira
das necessidades do mercado e da sociedade impõe que
a universidade busque efetivamente uma formação
voltada para o mercado. Sem dúvida que há um segmento
na universidade que é voltado para a pesquisa, um segmento
voltado para a formação social, mas grande parte
da universidade brasileira, muito particularmente o segmento
privado, tem uma identidade muito grande com a formação
para o trabalho. O estudante quando busca a universidade, ele
busca em princípio com os olhos voltados para o mercado,
voltados ao emprego. Então essa política do MEC,
se há uma postura crítica, é que ela também
deve estar aberta a esses profissionais que estão no
mercado que não têm essa titulação,
mas que têm muito a trazer de informação
e de experiência ao estudante dentro da universidade. |
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Antônio
Celso Alves Pereira, professor no curso de Direito da
Uerj, no curso de Ciências Sociais da UFRJ e diretor
do Instituto de Ciências Jurídicas da Universidade
Veiga de Almeida
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Antônio Celso
- Há uma questão ainda pouco debatida
no país, que é a questão das universidades
estaduais e municipais. Eu venho de uma reitoria de uma
universidade estadual e todos esses programas que o MEC
edita e coloca à disposição das universidades
federais aparecem como sendo programas para as universidades
públicas de um modo geral. As universidades estaduais
não têm acesso a esses programas. A LDB melhorou
consideravelmente a qualidade do corpo docente da universidade
brasileira de um modo geral, pela exigência de uma
necessidade de um número de mestres e doutores
adequados ao que diz a lei e que praticamente só
as federais e algumas estaduais contavam. As privadas,
uma ou outra.Hoje a LDB propiciou uma outra coisa importante,
que foi o crescimento enorme da pós-graduação
nesses últimos anos. |
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Foram abertas dezenas de cursos
de pós para formar principalmente mestres, para atender
às exigências da lei, e o crescimento no número
de vagas na rede pública nos últimos dez anos
se deu nas universidades estaduais e municipais, num sacrifício
muito grande, porque essas universidades não recebem
nada do Governo Federal. Para se ter uma idéia, uma coisa
que é uma injustiça enorme é o caso dos
hospitais universitários, que são centros importantes
de pesquisa e formação de médicos. Quando
o MEC faz um programa de apoio aos hospitais universitários,
os hospitais estaduais não são contemplados. O
Hospital Pedro Ernesto, da Uerj, por exemplo, é um hospital
sem pai nem mãe, pois não é da rede pública
do estado e não é da rede pública federal,
ele é da universidade. Então é uma questão
importante, porque ali é um lugar de formação
de professores, não só de médicos, como
também de pesquisadores numa área fundamental
como a medicina. Então, hoje, com o crescimento muito
acentuado dentro da rede pública de Ensino Superior das
universidades estaduais, é preciso haver uma atenção
maior e especial em programas voltados também para a
rede estadual e municipal. Nos últimos anos, a universidade
fez um esforço e conseguiu qualificar seu pessoal. Quando
veio a LDB, nós já estávamos dentro do
exigido, mas foi um esforço enorme. Agora você
tem dezenas de universidades estaduais e municipais no país
que lutam com muito mais dificuldade do que as privadas, porque
algumas municipais, inclusive, até cobram mensalidades
e anuidades. Mas a maioria vive das verbas que recebe do poder
público e há uma outra questão fundamental,
que é a questão salarial, que é seriíssima
na rede pública principalmente. Os salários são
absolutamente incompatíveis com a qualidade do corpo
docente. O MEC tem a obrigação de trabalhar para
melhorar as condições do magistério superior
neste país e muito pouco tem sido feito até agora.
Voltando às universidades federais, elas têm grande
dificuldade de abrir um concurso. Estão anunciando agora
um novo concurso, mas é uma coisa ínfima em relação
à necessidade, inclusive por causa dos estudantes batendo
à sua porta em torno de cem a cento e vinte mil candidatos,
sem que ela tenha como atender. |
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Roberto
Leher, presidente da ANDES, professor da UFRJ cedido
para a Unb, onde atua como pesquisador na Faculdade
de Educação
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Roberto Leher -
Em primeiro lugar eu gostaria de pontuar para a importância
da conquista, em 1988, do Artigo 207 da Constituição
Federal, que definiu que para uma instituição
ter o estatuto de universidade ela deve ter duas características:
a primeira, a indissociabilidade, pesquisa, ensino e extensão;
e a segunda, ela precisa ser uma instituição
autônoma. De fato, de 1988 para cá não
conseguimos fazer que a Constituição Federal
fosse realmente cumprida e isso tem desdobramentos na
primeira questão, que diz respeito às carreiras.
E aí nós temos que pensar em pelo menos
três aspectos. O da necessidade de uma carreira
que permita que o professor, quando faz o concurso para
a universidade, projete ra a sua vida uma carreira acadêmica
de fato, e hoje a carreira tanto nas federais, como nas
estaduais, como naquelas particulares que já têm
uma carreira estruturada, ela não dá conta
de uma construção de uma vida acadêmica. |
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No caso das federais, a carreira
não dá conta de uma realidade de que muitos
professores entram como adjunto e a perspectiva de progressão
é muito pequena. Isso seguramente é um fator
que desmotiva um professor e persegue a carreira acadêmica
ao longo de sua vida. Outro aspecto importante diz respeito
a uma política nacional de capacitação
docente, algo que é absolutamente imprescindível
para as instituições federais, para as estaduais,
como também para as privadas. Nós temos professores
das federais da região Norte e Nordeste que não
têm condições de realizar seu mestrado,
seu doutorado, por falta de uma política nacional de
capacitação docente. E um terceiro aspecto óbvio
é a questão salarial. Um professor que faz um
mestrado ou um doutorado, que investe a sua vida na construção
de uma carreira acadêmica, tem que ter um nível
de remuneração compatível com as suas
responsabilidades e com a sua dedicação. Infelizmente
as políticas do Ministério da Educação
em geral apontam uma perspectiva de uma inviabilização
do modelo universitário da Constituição
Federal. Exemplo disso é a tentativa do MEC de precarizar
ainda mais a carreira docente, criando uma nova situação
jurídica para professores das instituições
públicas, que passariam a ser regidos por normas do
direito privado, ou seja, os professores seriam regidos pela
CLT, algo que pela compreensão da Andes é inaceitável.
Para a instituição ser autônoma, os professores
devem ter autonomia individual e isso requer liberdade de
crítica, e a crítica com regime de CLT é
muito difícil, porque toda a história da ciência
nos mostra, de Galileu, passando pelo desmonte da UnB em 1965,
o desmonte do instituto de Manguinhos em 1968, e mesmo recentemente
nós temos tido inúmeros casos de professores
perseguidos por questões políticas, por concepção
de ciência etc. Não se permite o pleno exercício
da crítica e o conhecimento se constrói justamente
a partir da crítica ao conhecimento estabelecido. Então
a tentativa de transformar os professores em celetistas seguramente
é um gravíssimo retrocesso que mostra que a
política do MEC hoje está fundamentalmente referenciada
numa concepção que o Banco Mundial tem para
os países periféricos e obviamente a gente tem
que colocar países periféricos no plural. A
situação do Brasil, da Índia, da Coréia,
obviamente é muito diferente da situação
da África subsaariana. Mas o Banco Mundial afirma que
não cabe o que foi chamado de modelo europeu de universidade,
ou seja, a universidade em que o ensino, a pesquisa e a extensão
formam um todo indissociável. O modelo universitário
pensado para a periferia do capitalismo é outro e não
é por acaso que a LDB criou essa figura exótica
chamada "centro universitário", que é
uma instituição que tem a palavra universidade,
mas não tem as características da universidade.
Na nossa compreensão, hoje o país vive uma situação
de impasse, de uma encruzilhada histórica. Ou nós
vamos prosseguir na tentativa do que o Brasil vem construindo,
e acho que de forma bem-sucedida desde os anos 50, de construir
um sistema universitário capaz de garantir ao país
condições de uma autonomia científico-tecnológica,
de dialogar em iguais condições com centros
de pesquisa mais avançados do mundo, ou nós
vamos derrapar, no sentido de desmonte das nossas instituições
de ensino.
Paulo Alcântara -
Nas profissões de campo, como Direito, por exemplo,
muitas vezes é melhor você ter um profissional
reconhecidamente competente e qualificado do que ter um doutor.
Sem qualquer demérito para os doutores da área,
da mesma maneira sem qualquer demérito para os profissionais
da área. O que nós precisamos fazer numa universidade,
principalmente nas jovens universidade que estão construindo
a sua base, é o equilíbrio, a harmonia entre
as várias possibilidades, de maneira que nós
atendamos àquelas missões a que nos referimos
de um lado e, do outro lado, que nós sejamos capazes
de voltar nossas universidades àquela questão
que eu coloquei da missão de pertinência, pois
se ela se afasta do Estado e da sociedade, ela acaba não
respondendo muito à demanda de qualidade exigida pela
própria sociedade. Um segundo ponto que foi colocado
pelos colegas e me parece extremamente importante para a discussão
é que hoje o Brasil forma 15 mil mestres e 5 mil doutores
anualmente. Isso é um resultado de peso. Temos que
considerar que esses números já permitem a todas
as universidades criarem processos de seleção
de seus novos docentes, visando essencialmente a trazer esses
jovens mestres e doutores para os seus quadros. Isto é
uma forma indireta de uma geração de capacitação
docente. Uma terceira questão em que eu não
me sinto muito a vontade, pois estou numa posição
de ex, e estou aposentado do serviço público
e não tendo clareza da questão colocada pelo
Roberto, mas a ciência e a tecnologia no Brasil se desenvolveram
extraordinariamente ao longo dos anos 70, 80 e 90 e os professores
de instituições, como a Coppe, como a Biofísica,
como o Instituto de Matemática Pura e Aplicada, que
assim é até hoje, como o ITA, como a Medicina
Social da Uerj, eram todos celetistas. Na minha convicção,
para ser mais incisivo, me parece que a evolução
da ciência nos últimos 30 anos, até os
anos 90, não permite garantirmos que a introdução
de um regime celetista vá criar dificuldades para a
introdução de novos conhecimentos para a universidade
brasileira. A questão fundamental está nos níveis
salariais, está na existência de uma carreira
que tranqüilize o indivíduo e permita a ele bem
produzir. Era assim que vivia uma instituição
como a Coppe, por exemplo, nos anos 70 e 80, era assim que
vivia a Biofísica, onde os professores tinham a mais
absoluta convicção, se dedicando ao trabalho
de educação exclusiva, de que seriam capazes
de ter a tranqüilidade para o seu bem-estar e de seus
familiares. Então essas questões têm que
ser um pouco mais aprofundadas, para que nós possamos
ter conclusões sobre cada uma delas.
Sérgio Dias -
As políticas do MEC cada vez mais se afastam do direito
constitucional. O que fazer, por exemplo, quando se baixa
um decreto estabelecendo que por um meio qualquer do MEC,
um conselho, enfim, será suspensa a autonomia das universidades?
Realmente cada vez mais o MEC se afasta desse princípio
da autonomia da universidade, uma autonomia concedida pela
Constituição.
Antônio Celso - Nós
estamos vivendo neste início de século uma continuidade
óbvia do que vinha ocorrendo no final do século
passado, de uma crise institucional e de identidade no mundo
todo. Mas aqui no Brasil, pelas razões óbvias
da nossa formação, as crises que vêm externas
têm forma de tragédia. Quando há uma crise
lá fora, aqui é tragédia, então
a universidade está vivendo a questão de legitimidade
na medida em que ela é constantemente contestada, desafiada
e substituída por instituições, pela
empresa. Por exemplo, hoje montam dentro dos seus espaços
cursos de extensão e de pós-graduação,
enfim montam ali, informalmente, a famosa universidade virtual.
O Paulo Alcântara tem toda razão quando menciona
a questão do necessário equilíbrio entre
formar para o mercado e formar o cidadão. A universidade
tem que formar o cidadão fundamentalmente num mundo
globalizado de padronização cultural. A universidade
tem seu instrumento de resistência ao que está
acontecendo hoje no mundo, mas tem que se preocupar também
com as novas profissões e há um fato novo na
pós-graduação e nos mestrados profissionalizantes,
que estariam voltados precisamente para o mercado de trabalho.
A área de Direito é a única que não
aprova o mercado profissionalizante. Durante um período,
eu participei ativamente das políticas de pós-graduação
da área de Direito da Capes e ela não aceita
os cursos profissionalizantes. É uma coisa que tem
que ser discutida dentro desse grande contexto do Ensino Superior
no país. Nós estamos discutindo magistério,
mas isto é importante também porque afinal de
contas a pós-graduação hoje é
o que deu certo até agora no país. A graduação
está passando por uma enorme reformulação,
com a questão da avaliação através
do Provão. Nós estamos caminhando hoje para
uma série de novas necessidades sociais decorrentes
da globalização e a graduação
está verdadeiramente numa crise enorme. Não
é só aqui, é no mundo todo, só
que aqui, como eu disse anteriormente, não é
crise, é tragédia.
Roberto Leher - A universidade
pública brasileira, que é onde basicamente a
pós-graduação está consolidada,
tirando umas poucas exceções, ela sofre um processo
de ataque frontal e concentrado. Eu penso que a situação,
por exemplo, da mudança do regime de trabalho é
muito diferente de 1965, durante a ditadura, quando se instituiu
também o regime de CLT no serviço público.
Naquele período havia dentro do projeto governamental
de modernização conservadora a idéia
de que a universidade era uma instituição necessária
ao projeto político de impulso. Algo que hoje o ministério
está absolutamente convencido de que não é
necessário que isso aconteça. As verbas para
a universidade, para outros custeios, a verba de investimento
passou de R$ 150 milhões para as federais em 95, que
já era uma verba irrisória, para aproximadamente
R$ 38 milhões no ano de 2000, um sucateamento brutal.
Eu penso que é diferente, porque naquele contexto a
universidade de certa forma foi protegida e hoje não
é mais. O problema político de perseguição
existiu durante o governo militar, não dá para
apagar a história. Ele existiu e foi grave, como existe
hoje também. Nós temos inúmeras situações
de professores que sofrem perseguição, eu mesmo
teria sido provavelmente exonerado na UFRJ se não tivesse
o estatuto da estabilidade que o Regime Jurídico Único
permitiu. A política que está em curso, que
é uma política anti-universitária, pode
inviabilizar a própria inscrição universitária
enquanto instituição social, vide exemplo da
Argentina, que já teve uma universidade muito respeitada.
Nós tivemos as primeiras boas universidades da América
do Sul na Argentina, a de Córdoba existe desde 1680
aproximadamente. Hoje as instituições universitárias
argentinas estão quase que numa situação
desesperadora. É possível sim que uma política
quebre a energia criadora e não tenho dúvida
de que o Instituto de Biofísica, as universidades federais
e estaduais, as boas universidades particulares que têm
investido em pesquisa, são boas porque a comunidade
acredita que elas são boas e se esforçam, inclusive
pessoalmente, para que sejam de qualidade. Eu costumo dizer
que o magistério brasileiro é um grande magistério,
os professores brasileiros são grandes professores,
pois, apesar das adversidades, conseguimos em menos de 100
anos construir instituições universitárias
que hoje já merecem o nome universidade. Com todas
as suas dificuldades, com todas as suas deficiências,
logramos de fato construir instituições que
podem e dão contribuições muito importantes
para o país.
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