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Questão salarial: discussão
básica |
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O problema da política salarial para
os professores que atuam no ensino superior foi um dos pontos
básicos do debate. Há uma defasagem
FOLHA DIRIGIDA - Qualificação
e salário formaram o núcleo central das colocações
dos senhores em relação à primeira pergunta.
Estas são as principais questões do magistério
superior no seu dia-a-dia?
Antônio Celso - Olha,
é difícil dizer. São muitas questões
e todas com relações de causa e efeito. São
todas interligadas. A primeira delas é a questão
que já foi colocada aqui, que é a questão
da qualificação. Aí a LDB foi perfeita
com essa exigência e isso propiciou uma melhoria enorme
da qualidade do corpo docente, tanto na esfera pública,
quanto na esfera privada do Ensino Superior. Esta é
uma questão, mas que precisa de um programa nacional,
porque beneficiou muito as grandes universidades e as universidades
médias tiveram condições de recrutar
esse pessoal. Mas nós temos muitas universidades do
Norte e Nordeste e algumas municipais que estão muito
longe de ter um corpo docente qualificado de acordo com as
necessidades básicas locais do país. A questão
que vem logo em seguida, que também já foi mencionada,
é a salarial. Esta é básica e fundamental.
Não adianta você se qualificar, se não
tem condições mínimas de trabalho e,
neste momento, está muito difícil a sobrevivência
de pesquisadores, de professores, enfim, de todos aqueles
que se dedicam ao magistério superior. E há
outras questões sérias, como a própria
renovação material da universidade. As bibliotecas
estão sucateadas, as novas ferramentas pedagógicas
hoje têm base na revolução da informação,
da tecnologia que domina esse início de século,
e a universidade está por fora. A base de toda ação
no mundo é uma equação simples: velocidade
e informação, e velocidade é igual a
poder. A universidade precisa ter velocidade, ela é
um corpo pesado, ela tem que ser mais ágil. Há
uma questão importante, que é a estrutura interna
da universidade, a questão do departamento, se essa
estrutura que nós temos hoje realmente é a mais
adeqüada para os desafios da universidade nesse início
de século. Como eu disse na fala anterior, a universidade
está desafiada e em crise, pela crise do Estado e pela
globalização. E são coisas praticamente
inseparáveis. Então eu acho que os principais
problemas que o magistério enfrenta hoje são
qualificação, a questão salarial e a
questão das condições de trabalho, que
são péssimas de um modo geral. Em algumas são
melhores, mas eu estou falando aqui da universidade de um
modo geral, mas principalmente das públicas, onde as
dificuldades de se montar ou atualizar um laboratório
realmente são muito grandes.
Roberto Leher - A primeira
questão que me parece muito importante diz respeito
ao acesso dos jovens às universidades que permitam
que uma carreira acadêmica seja construída. As
instituições privadas, via de regra, não
adotam esse modelo. Poucas instituições privadas
investem numa carreira ou oferecem uma carreira que permita
a construção de uma vida acadêmica. Nisso
o país é bastante diferente da situação
de outros países, onde instituições privadas
muitas vezes mantêm alta qualidade de ensino e pesquisa.
Hoje as federais estão precisando, aproximadamente,
de oito mil professores e não abrem concurso. Isso
é um problema muito sério para a renovação
do corpo docente. O segundo ponto diz respeito à carreira
e salário. É fundamental que, ao fazer o concurso,
a carreira estimule o professor a perseguir uma vida acadêmica,
que é uma vida que todos sabem que não vai deixá-los
ricos, mas é algo que dá uma enorme satisfação
pessoal. É um projeto de vida, mas para isso a carreira
tem que permitir que esse projeto de vida se materialize em
condições dignas. Os professores das federais,
por exemplo, estão há sete anos sem reajuste
efetivo de salário. Isso obviamente é um fator
de grande desestímulo e muita gente hoje começa
a buscar alternativas fora da universidade, provocando ruptura
no princípio da dedicação exclusiva.
No caso das instituições privadas e municipais
também, o professor via de regra recebe por hora-aula,
uma forma absolutamente inadequada para uma instituição
universitária e a questão da carreira é
chave para que a instituição possa construir
uma qualidade de ensino e pesquisa significativa. Eu estive
há pouco tempo no interior de Pernambuco e da Paraíba,
onde as universidades municipais são mantidas por instituições
muito precárias. A hora-aula atinge níveis absolutamente
indignos, é muito difícil se pensar em uma mudança
naquelas instituições, com condições
de trabalho tão adversas. Lá a situação
atinge níveis aviltantes. Um ponto absolutamente necessário
para o magistério é uma política de financiamento
à ciência e tecnologia que permita que o professor
possa dar asas à sua imaginação criadora.
Grande parte do financiamento à ciência e tecnologia
hoje são financiamentos dirigidos, onde o professor
é muito mais um instrumento do que um agente criador,
ou seja, os programas já são definidos fora
da universidade, com metas e desenhos esboçados pelo
mercado. Como o nosso mercado de trabalho é um mercado
capitalista dependente, periférico, o lugar do país
na economia mundial cada vez mais está retrocedendo
para nichos de mercado em que as suas vantagens comparativas
não estão baseadas no conhecimento intensivo,
no conhecimento mais avançado. Desmontamos grande parte
das instituições públicas, das estatais,
que mantinham centros de desenvolvimento tecnológico.
Então o financiamento quando se espelha no mercado
não permite a criação e produção
de conhecimento mais livre. Isso hoje é um fator de
enorme insatisfação. Os professores muitas vezes
são mais um vendedor de serviços do que um pesquisador
no sentido próprio da palavra. As condições
de trabalho, eu concordo inteiramente com o professor Antônio
Celso, é um ponto crucial e isso hoje nas instituições
públicas e em grande parte das privadas é extremamente
degradante, precário. E, finalmente, a questão
da democracia nas instituições universitárias.
É preciso que a universidade possa se constituir enquanto
um espaço em que o debate, a argumentação,
sejam regidos por critérios acadêmicos. Para
isso é preciso uma forte liberdade interna e uma participação
muito efetiva da comunidade universitária. O princípio
da autonomia pressupõe o autogoverno da universidade
baseado em regras acadêmicas e infelizmente a construção
da democracia nas universidades tem sido muito penosa, muito
difícil. A ingerência governamental é
permanente e isso gera crises gravíssimas, como vive
hoje a UFRJ. Outras universidades vivem crises semelhantes,
os colegiados das universidades estão extremamente
esvaziados, isso é um problema praticamente generalizado
no país inteiro. É comum chegar numa universidade
onde o conselho universitário não se reúne
há três ou quatro meses, ou seja, os centros
de poder da universidade não estão mais localizados
na esfera pública, mas sim em outros locais onde o
debate, a argumentação e a crítica não
são possíveis.
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Paulo
Alcântara Gomes, reitor da Universidade Castelo
Branco e ex-reitor da UFRJ |
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Paulo Alcântara
- Evidentemente foram colocados aqui aspectos extremamente
importantes, mas eu tenho a impressão deque a principal
dificuldade do magistério das universidades no
Brasil e na América Latina como um todo é
a questão existencial. Durante 700 anos nós
nos acostumamos à universidade onde o professor
entrava na sala e o eixo principal do processo pedagógico
era a informação unidirecional dele para
o aluno e as estruturas curriculares visavam a dar ao
indivíduo habilidades que seriam utilizadas depois
de diplomado. Hoje, as novas tecnologias da informação
e da comunicação mudaram radicalmente isso.
De um lado, o professor que está acostumado a centrar
suas atividades de ensino e aprendizagem na sala de aula,
assumindo aquela figura clássica do transmissor
de informações, começa a enfrentar
os meios de comunicação, a Internet, e começa
a enfrentar obstáculos enormes na sua própria
compreensão do que vem a ser o processo pedagógico.
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Do outro lado, a questão
de formar profissionais e cidadãos habilitados a depois
exercer suas atividades começou a ficar meio difusa,
na medida em que a velocidade da ciência e da técnica
faz que um determinado conhecimento surja numa bancada de laboratório,
cresça e se transforme em alguma coisa objeto de desenvolvimento
industrial e comercializável e desapareça como
obsoleto às vezes num espaço de três ou
quatro anos. Na área de Química, de Alimentos,
de Biotecnologia, isso é determinante para o sucesso
da formação de um profissional, pois se nós
não levarmos em consideração esses aspectos
e darmos a esse futuro profissional as informações
necessárias, nós corremos o risco de um menino
de 17 anos terminar o seu curso de Química aos 22 anos
com uma formação completamente obsoleta. Então
essa questão existencial acaba por se sobrepor a todas
as outras e acaba por ser um caminho de mão dupla. Ela
talvez seja um reflexo de muitas dessas questões colocadas
aqui, mas também se reflete sobre todas essas questões
quando o professor não encontra bibliotecas capacitadas
a permitir agilidade para que recupere informações.
Ela se reflete sobre essas questões quando o professor
não entende claramente quais são as suas relações
com o processo de desenvolvimento industrial, no caso da biotecnologia,
e as suas atribuições como pesquisador. Houve
um artigo publicado em 1987, que tem, portanto, 14 anos, que
era o decálogo do que não fazer na atividade científica
de inovação e uma das coisas colocadas era exatamente
como a velocidade de aquisição de novas informações
é extremamente elevada. O que acaba acontecendo é
que as relações entre o departamento que faz uma
determinada pesquisa e a empresa que demanda aquela pesquisa
podem ser extremamente benéficas, mas,s em contrapartida,
podem ser extremamente prejudiciais na medida em que podem atrelar
aquele departamento aos interesses momentâneos conjunturais
de uma determinada empresa. Então essa questão
existencial leva a um processo de questionamento de dúvida
em todo o magistério e na própria gestão
da universidade. Em 1998 foi publicado um livro chamado "Dançando
com o diabo", editado pela Universidade de Michigan, onde
o ex-reitor, um professor emérito, coloca exatamente
essas questões, mostrando o impasse que estamos vivendo
nesse momento. E esse impasse permeia também para muitas
outras questões que devem ser abordadas nesse processo.
Por exemplo, a globalização. Hoje nós abrimos
os jornais (e essa não é uma questão brasileira,
nem argentina, nem venezuelana) e encontramos programas de graduação
e pós-graduação ministrados por universidades
estrangeiras em nosso país. É uma questão
que nós temos que enfrentar e resolver. O que acontece
é que nós estamos diante de uma corrida de obstáculos.
A universidade é atleta e em vez de ela transpor os obstáculos,
talvez ela não esteja discutindo isso maduramente e os
esteja contornando. Então ela faz um caminho longo, talvez
menos eficaz e evidentemente ainda corre o risco de perder a
corrida. E quando é que você começa a observar
que a universidade perde a corrida e quando é que a questão
do magistério vira uma questão existencial? Quando
ela é incapaz de harmonizar as relações
com o mercado e começa a permitir, por omissão,
por incapacidade de ação, a geração
da chamada universidade corporativa, que hoje representa nos
Estados Unidos quase a metade das universidades convencionais.
Será que a universidade vai ser capaz de proibir, num
sistema democrático, que alguém dê uma titulação
não-formal que habilite profissionais e cidadãos
a exercer determinadas profissões nas empresas a que
eles estão vinculados? Essa é uma tarefa impossível
para qualquer organização, até porque durante
séculos nós estimulamos, aplaudimos e geramos
uma cultura de que também na empresa se deve aprender.
Essas questões hoje, a universidade corporativa, as novas
tecnologias da informação e da comunicação,
o convívio com a inovação tecnológica,
as relações da universidade com o segmento empresarial
e as questões internas que foram colocadas é que
acabam por fazer o conjunto das preocupações do
magistério. Nós chegamos num momento em que o
papel da univesidade vai ter que ser discutido com a maior profundidade,
em que a sociedade começa a ver na universidade questões
que a universidade provavelmente não sabe responder.
Os cursos seqüenciais e os cursos de formação
de tecnólogos não surgiram por uma questão
de governo e sim por uma demanda na sociedade que espera agilidade
na diplomação. Será que este é o
caminho mais adequado, será que esta é a forma
mais correta? Então esses pontos nós não
podemos fugir deles, nós não podemos fugir dessas
questões fundamentais. É melhor nós as
enfrentarmos agora e começarmos a discutir seriamente
todos esses aspectos, do que permitirmos que a universidade
vá desaparecendo. Cada vez mais se fala no conceito de
universidade corporativa, no conceito de educação
não formal, cada vez se fala mais na possibilidade de
se existir uma teleconferência na organização
tal, que é oferecida lá do norte dos Estados Unidos
na área de administração, ou do meio-oeste
na área de economia ou de ciências agrárias.
E é preciso que se entenda claramente que a universidade
está atrelada a uma nova situação conjuntural.
É que os avanços da ciência e da técnica
dos países de industrialização dependente
se fazem em velocidade muito menor do que nos países
de industrialização já consolidada, o que
passa a ser um problema, porque não adianta nós
ficarmos trabalhando sobre resultados que depois sequer serão
aceitos nas revistas de nível internacional. |
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Sérgio
de Moraes Dias, reitor da UGF (Universidade Gama Filho)
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Sérgio Dias
- O problema do professor e do salário todos
nós colocamos e reconhecemos, mas na verdade há
uma falta de reconhecimento ao papel do professor na sociedade
brasileira. Temos um país que efetivamente remunera
mais um professor que está fora da sala de aula,
aquele professor que vai buscar pesquisa, trabalho, este
acaba ganhando mais. Essa é uma distorção
que tem que ser considerada. O problema das condições
de trabalho eu estou só reforçando aqui
e falo de uma instituição particular, pela
dificuldade que se tem e que está dentro de um
quadro econômico extremamente perverso. Nós
estamos há anos lutando por vencer uma inflação
que era também perversa, de 80%, mas por outro
lado estamos esquecendo o principal, de nada vai valer
nós termos uma inflação de cinco
ou zero por cento, se efetivamente não tivermos
uma política. |
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Esses temas todos que envolvem
a educação superior vêm desde a educação
básica e ocorrem porque não se tem uma política.
Na verdade as coisas acontecem casualmente. Passamos 20 anos
num Estado totalitário e depois entramos num processo
democrático e as políticas não acontecem.
As coisas vão acontecendo de acordo com as necessidades
de momento, jamais se planeja efetivamente o que nós
queremos da universidade. Temos conselhos e fóruns
de reitores discutindo em pequenas mesas o problema da educação,
mas não chegamos efetivamente a conclusão nenhuma,
porque após essas discussões cada um de nós
volta aos seus afazeres do dia-a-dia, às suas dificuldades
dentro das universidades. Falamos aqui das condições
de trabalho e isso não é só na escola
pública. Na particular é a mesma coisa. Hoje
nós temos o problema da informática dentro da
instituição, onde se compram 400 computadores,
e nem terminamos de pagar aqueles, já está precisando
trocar. Com os livros é a mesma coisa. E mais do que
isso, a empresa que está situada no Brasil hoje ainda
vê a universidade não como um parceiro, mas sim
como um comprador, e isso é um registro muito forte.
Eu tenho tentado de todas as formas a aproximação
com determinadas empresas, ainda não se compreendeu
como em países da Europa e Estados Unidos a universidade
e a empresa são parceiros que estão formando
um indivíduo, um cidadão para o mercado de trabalho,
para que amanhã se utilize daquele próprio equipamento.
Mas vou conversar com um fornecedor, ou uma grande empresa
e ele está vendo em mim um grande comprador e não
um parceiro. Essa parceria de universidade-empresa é
relativa.
Roberto Leher - Não
dá para dizer que hoje nós vivemos num mundo
onde a informação flui de forma livre. Noventa
e nove por cento dos 3,5 milhões de patentes do mundo
pertencem ao G7, particularmente a algumas corporações.
E mesmo o 1% das patentes registradas nos países periféricos,
grande parte delas pertence a corporações multinacionais,
portanto o conhecimento hoje não flui de forma livre.
Há um risco de nós fetichizarmos a tecnologia,
vide exemplo da bolsa de alta tecnologia, que cai ao ano 45%
nos Estados Unidos. A idéia de que a universidade deve
andar passo-a-passo com a demanda de mercado, no meu entendimento
pode colocar a universidade num risco muito grande. As demandas
mais imediatas do mercado não podem ser uma medida
para o planejamento das atividades acadêmicas. A formação
mais sólida, o conhecimento mais profundo das principais
formulações científicas, permitem que
um jovem pesquisador possa acompanhar de forma mais crítica
o avanço do conhecimento em sua área, inclusive
separando o joio do trigo, pois grande parte do conhecimento
que se produz é de baixíssima relevância
acadêmica. Foi feito um belo estudo publicado na Universidade
de Harvard mostrando que grande parte dos estudos realizados
em várias áreas não teve nenhuma importância.
Eu particularmente acompanhei um estudo na área de
educação. Um ponto que me parece ainda importante
para nós pensarmos o magistério diante desses
desafios que estão transtornando o mundo hoje, desafios
que estão sendo colocados para a universidade, diz
respeito exatamente à possibilidade de construção
de uma carreira acadêmica que permita envolvimento grande
do professor com a sua instituição. As instituições
públicas são na nossa tradição
as mais adequadas para garantir as condições
básicas de um professor seguir uma carreira acadêmica.
No entanto, nos países periféricos ocorre um
processo inverso do que ocorreu nos Estados Unidos. Nós
temos hoje um avanço do setor privado e um encolhimento
do setor público. Na década de 40, cerca de
50% das universidades dos Estados Unidos eram privadas, no
ano 2000, só 22% são privadas, ou seja, ocorreu
uma expansão que ampliou a presença do setor
público. A Universidade de Michigan recebeu no ano
2000 aproximadamente 3 bilhões de dólares, mais
do que receberam 52 universidades federais no país,
ou seja, há um descompasso brutal entre as políticas
de Estado hoje nos países centrais e periféricos.
Acho que esse ponto é muito decisivo nas nossas reflexões.
Para concluir a questão do descompasso, o que o professor
Paulo Alcântara levanta também é importante,
que é a questão existencial. Mas eu seria mais
cauteloso na leitura das demandas de mercado versus a especificidade
da universidade. Na verdade, a universidade já viveu
outros momentos de descompasso com o mercado e ela foi capaz
de mais adiante recompor e também se aproximar do avanço
do conhecimento produzido no campo do trabalho. A Revolução
Industrial, cujo reconhecimtnto não foi produzido essencialmente
na universidade e sim em outras esferas da sociedade, e, mais
adiante, a Mecânica, a Física, a Química,
a Biologia, que foram incorporadas pela universidade, levou
muito adiante esses conhecimentos. Então eu não
seria pessimista em relação à capacidade
de a universidade ter uma missão institucional numa
sociedade complexa como a atual.
Antônio Celso -
Hoje nós temos que definir e buscar uma definição
da universidade para a sociedade brasileira. Nós somos
um país do Terceiro Mundo, dentro de todas as limitações
dos países emergentes, e o Brasil por ser, juntamente
com a Índia e a Coréia, um país dependente,
mas nós precisamos construir modelos que possam nos
dar alternativas dentro da questão da globalização.
A universidade brasileira precisa passar por uma grande e
profunda discussão, nós estamos aqui discutindo,
mas a discussão tem que ser muito mais ampla, e chegarmos
a conclusões fundamentais. A primeira é a questão
da autonomia, que é uma questão central que
está ligada a todo um problema de carreira, que é
dependente da questão da autonomia e também
das definições que cada universidade deve ter
em relação ao seu papel e à sua integração
da localidade onde está. O modelo ao qual nós
estamos amarrados obriga a universidade a ficar permanentemente
ligada a um processo em que ensino e pesquisa precisam estar
ligados, mas nós não temos instrumentos correspondentes
para que essa integração se efetive. Então
como vamos exigir que uma universidade hoje tenha uma estrutura
de pesquisa altamente capacitada, se nós não
damos os mínimos recursos para essa universidade trabalhar?
Então é nesse modelo que nós vamos permanecer?
Então a sociedade vai ter que forçar o governo.
E a questão da interação universidade-empresa
é outra questão que no Brasil precisa ser discutida
de forma diferenciada de como é feito nos Estados Unidos.
Em 1998, dos 241 bilhões de dólares que foram
investidos em pesquisa nos Estados Unidos, 70% foram oriundos
de universidades da iniciativa privada. Aqui, por exemplo,
as empresas que faziam algum tipo de interação
com as universidades eram empresas públicas, mas que,
com a privatização, só sobrou a Petrobras.
A UFRJ dá ao país uma economia anual de 4 bilhões
de dólares em divisas com a tecnologia desenvolvida.
Com a crise que o país vive hoje com a questão
cambial, então a universidade dá esta economia
ao país, em projeto desenvolvido junto com a Petrobras,
de prospeção de petróleo em águas
profundas. Então a universidade tem um papel importante
a desempenhar juntamente com as empresas. Primeiro, porque
aqui no Brasil nós não temos um capitalismo
nacional. E o multinacional, com abertura escandalosa da economia
do Brasil, privou as universidades daqueles contatos mínimos
com empresas públicas. Falo isso com experiência
própria, pois nós estávamos desenvolvendo
com a Light, ainda como estatal, uma série de programas
de pesquisa na área de Engenharia Elétrica.
Morreu tudo com a privatização. Qual é
o interesse que o grupo francês que está aqui
hoje tem de fazer qualquer tipo de trabalho com a universidade
de modo mais acentuado? Essas empresas têm estrutura
nas suas matrizes para desenvolver produtos e criar inovações
tecnológicas. Essa questão precisa ser muito
bem discutida, porque ela é importante dentro da redefinição
do papel da universidade, da função de uma universidade
de um país emergente. Não podemos tomar como
parâmetros universidades de países desenvolvidos.
Aliás, até podemos tomar, mas dentro das novas
realidades nós temos que ver o modelo de universidade
que nos interessa hoje e, qualquer que seja esse modelo, ele
tem que ser o de uma universidade com autonomia plena e total,
e o papel do Estado é fundamental, pois ele tem o dever
e a obrigação de assegurar a existência
e dar condições de funcionamento dessas universidades.
Mas ao mesmo tempo, a interferência do Estado é
altamente perniciosa, essa interferência absurda principalmente
nas privadas, nas públicas isso é inquestionável,
todo dia são novas medidas, o reitor não sabe
como trabalhar, então isso tem que acabar dentro da
construção de um novo modelo de universidade
e aí reflete-se na carreira docente, porque se você
tiver uma definição do papel da universidade,
o que o Estado espera da universidade, o que a sociedade espera
da universidade, que é diferente do que nós
temos hoje. A sociedade eu sei o que espera da universidade,
ela quer que a universidade produza conhecimentos e forme
uma elite capaz de dirigir o país e que faça
isso da melhor maneira possível. Já o Estado
quer manter a universidade atrelada aos seus interesses, num
modelo que foi implantado na universidade napoleônica,
que até hoje vigora numa ligação profunda
da universidade com o Estado e de uma subordinação
imposta da universidade ao Estado.
Sérgio Dias - Na
verdade a globalização está aí
e eu não estou dizendo se é boa ou ruim, mas
eu diria que para nós ela é muito mais ruim
do que boa efetivamente. Mas é um fato e recentemente
saiu um relatório nos Estados Unidos sobre educação
a distância e esse relatório conclui que se a
universidade americana não reformular os seus métodos,
adotando o ensino a distância como parte efetiva de
sua concepção pedagógica, simplesmente
ela vai desaparecer. E não falava de universidades
desconhecidas, falava de universidade como Harvard e outras
de nível similar. Pois bem, então nós
voltamos ao professor, nós falamos de salário
e vendo que o professor precisa ganhar mais, porque precisa
sobreviver melhor, eu acho que essa questão do professor
que precisa ganhar mais é mais ampla e está
rigorosamente ligada à sua oportunidade de qualificação,
ou seja, no momento que ele recebe mais, ele disponibiliza
mais tempo, porque precisa de menos tempo para trabalhar para
se qualificar. Como nós vamos enfrentar algumas universidades
estrangeiras que já estão chegando no Brasil
via Internet? Como o Estado impede isso? Através da
política cartorial? Só vale quem tem diploma
ou só vale quem conhece. Será que vai valer
o meu conhecimento que está disposto por um diploma
que eu tenho ou o conhecimento dele, que é efetivo,
porque obteve das formas mais diversas? Então essa
é outra questão que nós temos que enfrentar.
Como nós vamos preparar o professor, nesse novo espectro
pedagógico que se abre? Nós estamos na briga
pelo ensino a distância, mas o Estado não permite
de maneira nenhuma a universidade caminhar em direção
ao ensino a distância e eu não estou discutindo
se ele é melhor ou pior, mas é uma opção
que aí está. Num país de dimensões
continentais, é uma forma de preparar o professor para
participar desse processo a distância. Hoje, para você
abrir um curso de ensino a distância, por mais simples
que seja, é mais difícil do que abrir uma faculdade.
FOLHA DIRIGIDA - O senhor
não considera o ensino a distância uma ameaça
à carreira do professor?
Sérgio Dias -
Esse é apenas um exemplo onde o professor é
peça fundamental. É ilusão admitir que
nós vamos fazer ensino a distância e os professores
desaparecem. Ao contrário, ele é parte vital
desse processo, sem ele não é possível
fazer ensino a distância tanto quanto não é
possível fazer ensino presencial.
Paulo Alcântara -
O relatório ao qual o Sérgio se refere acho
que é o do Education Office, do final de 1999, e neste
relatório existe uma outra coisa interessante, de que
mais de 20% dos créditos oferecidos nas universidades
americanas atualmente já são créditos
a distância nos cursos presenciais. Quando o Sérgio
muito bem colocou que as universidades vão simplesmente
desaparecer, é um fato concreto. Essa é a questão
em relação às universidades corporativas.
Não adianta nós nos escondermos de uma situação
visível, as universidades corporativas no Brasil já
são 98 e nós não podemos, num regime
democrático, impedir a empresa de criar a sua organização
de qualificação profissional, não há
como impedir que esse diploma informal seja considerado como
sem validade, pois a validade quem dá, infelizmente
ou felizmente, ou constatando apenas, é o mercado.
Então eu acho que essa é uma questão
importante. Outro ponto fundamental levantado pelo Roberto
é quando ele falou do G7. Outro dia eu estava numa
reunião da Repic (NR: Rede de Propriedade Industrial
e Comercialização de Tecnologia) e no discurso
de abertura um dos especialistas em propriedade industrial
disse que em 1860 o escritório patente dos Estados
Unidos comemorava o registro de 6 mil novas patentes, marca
alcançada pelo Brasil em 2000. Portanto, 140 anos depois.
Isso demonstra claramente que o modelo da universidade brasileira
tem que pensar essa defasagem entre a nossa capacidade de
inovação e invenção e a capacidade
dos países centrais, para que nós não
fiquemos cada vez mais atrelados a situações
como nós estamos vendo. No domínio das telecomunicações,
nós estamos substituindo postos de trabalho nas nossas
empresas recém-privatizadas, anteriormente voltados
para profissionais de nível superior, para profissionais
de nível médio, muitos deles não brasileiros,
ocupando postos de trabalho por causa da nossa incapacidade
de formar aquele determinado perfil. Então todas essas
questões fazem parte daquela maior que eu havia colocado,
que é a questão existencial. Hoje a universidade
precisa no Brasil de uma grande reflexão sobre os seus
caminhos, pois se ela tentar se restringir ao modelo da universidade
de qualquer país, ela pode esbarrar na incapacidade
de transferir esse modelo. Universidade é como tecnologia,
ela não se transfere se não forem pensadas determinadas
condições. Se a gente transfere uma tecnologia
e leva muito tempo para essa transferência, o resultado
é que ela pode se tornar obsoleta e se ela não
estiver acompanhada de programas de qualificação,
de formação, de aperfeiçoamento, de envolvimento
de pessoal, ela é transferida momentaneamente, mas
depois não passa a ser desenvolvida. Isso não
é um processo de transferência completa. É
a mesma coisa o modelo de universidade, tem que ser diferenciado,
o modelo da universidade alemã é diferente do
da francesa, que por sua vez é diferente do da universidade
inglesa, que aliás, por um determinado momento, caminhou
pelos politécnicos, que tinha uma visão semelhante
ao do centro universitário, pois não se realizava
pesquisa de ponta, só pesquisa difusa e, numa medida
da ministra Margareth Tatcher, em 1992, os politécnicos
foram transformados em universidades, passando de 45 para
mais de 90 universidades, então ficamos com um sistema
único no Reino Unido. Cada país tem o seu modelo
próprio, cada país tem que inserir a sua universidade
na sua proposta de desenvolvimento da sociedade. Acho que
essa é a questão fundamental que aflige o magistério,
seja ele das universidades públicas federais, estaduais
ou municipais, seja o magistério das universidades
comunitárias, seja o magistério das universidades
privadas.
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