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CÉLIA REGINA OTRANTO
- (Professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro/UFRRJ):
Em 1999, o MEC apresentou uma proposta de autonomia
para as universidades federais que não chegou a ser
apreciada no Congresso Nacional. Qual a visão do MEC,
hoje, sobre a autonomia? Existe a intenção de
apresentar uma nova proposta? Em quais moldes ela estaria
pautada?
PAULO RENATO - A autonomia universitária é
um dos principais pontos da pauta de trabalho da Secretaria
de Educação Superior. Ela precisa ser discutida
e implementada. A Andifes propôs e o MEC aceitou fazer
uma comissão para aprofundar os debates. Os servidores
das universidades federais também pediram para participar
e foram aceitos no grupo. Esperamos que este trabalho comece
o mais rápido possível.
JOSÉ RAYMUNDO MARTINS
ROMÊO - (Representante Latino-americano da Universidade
das Nações Unidas/UNU): Há muitos
anos aparece a idéia de se criar o Ministério
das Universidades ou uma Secretaria de Educação
Superior ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia.
A idéia é que desta maneira os sistemas ficassem
mais próximos. O sistema federal de educação
deve ficar vinculado ao MEC, ou seria mais interessante que
estivesse ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia?
Com a experiência de reitor e de ministro, qual sua
opinião sobre isso?
PAULO RENATO - Isso depende. Eu acho que o sistema de
supervisão do ensino deve necessariamente ficar com
o Ministério da Educação. A questão
da administração das universidades federais,
esta poderia, eventualmente, estar a cargo de outro ministério.
Mas a supervisão do ensino deve estar dentro do Ministério
da Educação, que me parece a parte mais importante.
A parte de avaliação, de fixação
de diretrizes curriculares, a parte de credenciamento e recredenciamento
do sistema, reconhecimento de cursos, isso deve ficar, necessariamente,
com o Ministério da Educação. Mas em
relação à parte de administração
do sistema, acho que poderia estar no Ministério da
Educação ou no Ministério da Ciência
e Tecnologia.
LUIZ ANTONIO CUNHA - Professor
da Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ): O Decreto
presidencial número 3.860, de julho deste ano, transfere
ao MEC atribuições do Conselho Nacional de Educação
no que diz respeito especialmente às instituições
de ensino superior privadas. Isso se deveu, pelas entrevistas
que foram dadas, aos escândalos ou às atuações
escandalosas da Câmara de Educação Superior
do Conselho Nacional de Educação. Isso não
se deve à má escolha por parte do presidente
da República, assessorado pelo senhor?
PAULO RENATO - As mudanças elencadas no Decreto
3.860 têm como objetivo tornar menos burocrático
o sistema de supervisão de cursos e instituições.
O Conselho Nacional de Educação permanece deliberando
sobre as normas que regulamentam o sistema e sobre política
educacional. Também continuam passando pelo conselho
os pedidos de autorização e reconhecimento de
cursos da área médica e de direito. Em nenhum
momento o ministério fez ou avalizou críticas
a membros do conselho.
MARIA CELINA DARAÚJO
- Professora da Fundação Getulio Vargas/FGV
e da Universidade Federal Fluminense/UFF): É possível
que os conselhos comunitários tenham uma atuação
mais efetiva no controle dos gastos das verbas do Fundef?
PAULO RENATO - Eles têm uma participação
bastante efetiva. Examinam as contas, têm acesso a toda
a documentação, a movimentação
de cheques da conta, e podem encaminhar as denúcias
para os órgãos competentes. É difícil
que os conselhos tenham uma ação punitiva porque
uma investigação mais profunda, até de
acusação perante os tribunais, tem que ficar
a cargo dos órgãos normais do estado. Isso tem
que ficar a cargo do Ministério Público ou dos
Tribunais de Contas dos estados.
EULÁLIA PIMENTA RIBEIRO
- (Coordenadora do Projeto Planeta Azul da Fundação
Mokiti Okada): De que forma a educação pode
promover mudanças no quadro de violência que
marca a sociedade atual?
PAULO RENATO - A única alternativa para vivermos
uma sociedade menos violenta é através da educação.
Eu acho que a resposta que nós temos que dar é
através da mobilização das escolas, para
que elas se transformem em centros de ação comunitária.
Que as escolas promovam a prática de esportes, as atividades
de cultura e de lazer, envolvendo a comunidade, envolvendo
os jovens. Eu acho que esta é a resposta que nós
podemos dar para a violência, que é uma violência
da sociedade. A violência não nasce na escola,
ela nasce fora da escola e invade a escola. Mas a escola pode
dar respostas a ela.
DONALDO BELLO DE SOUZA - (Chefe
do Departamento de Educação da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro/Uerj): Nós tivemos momentos
em nosso país em que o carreamento de recursos para
a Educação chegou a 23 e 24% do Orçamento
global da União. O que estaria impedindo a ampliação
dos recursos para a área?
PAULO RENATO - Os recursos têm sido expandidos.
Quando eu assumi o Ministério da Educação,
nós tínhamos R$ 9 bilhões, que era o
nosso Orçamento em 1995. Neste ano de 2001, nós
estamos com R$ 16 bilhões. No ano que vem nós
vamos ter mais. Isso ocorre justamente porque estamos numa
época de estabilidade econômica. Quando nós
tínhamos uma época de inflação,
era muito fácil retirar recursos, ao reajustar os recursos
da educação menos do que crescia o Orçamento
ou a taxa de inflação. Hoje, com a estabilidade
econômica, nós temos condições
precisas de conseguir uma manutenção dos gastos
em educação e uma ampliação ano
a ano, como vem acontecendo.
CÉLIA REGINA OTRANTO
- (Professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro/UFRRJ):
Desde que o ministro assumiu a pasta da Educação,
os recursos do Tesouro Nacional aplicados nas Instituições
Federais de Ensino Superior (Ifes) em relação
ao Produto Interno Bruto (PIB) caíram de 0,79% em 1995,
para 0,61% em 1999. O que o senhor está pretendendo
fazer com as universidades públicas, responsáveis
pelos melhores cursos de graduação e pós-graduação
do país e pela quase totalidade das pesquisas científicas
e tecnológicas brasileiras?
PAULO RENATO - Não é verdade que o Orçamento
das instituições diminuiu. Pelo contrário,
aos 0,7% do PIB foram acrescentados valores correspondentes
aos fundos de Infra-estrutura e setoriais. Para este ano,
serão mais R$ 261.246 milhões de investimentos
nas Ifes. O MEC também conseguiu uma linha de financiamento,
no valor de R$ 230 milhões, para equipar hospitais
universitários e laboratórios. Só neste
ano serão gastos 100 milhões de dólares.
Quanto ao déficit de professores e servidores, é
relativo. A relação aluno/professor no Brasil
era 10,8X1. Hoje é de 8,4X1. Ainda está longe
do ideal, mas já reflete o impacto positivo das políticas
implementadas e a eficiência do sistema. Esta relação
baixa indica a inexistência de déficit de professores
no conjunto das instituições e aponta para uma
má distribuição de alunos e professores
entre as instituições e dentro delas. A renovação
dos quadros vem sendo feita, mesmo que lentamente. Além
das 2 mil vagas citadas, o MEC abriu concurso para a contratação
de 9 mil docentes desde 1995. O número elevado de professores
substitutos é um problema que o ministério pretende
solucionar o mais rápido possível. Existe um
processo de negociação com os professores, que
querem manter o Regime Jurídico Único, o que
poderá ser atendido desde que acompanhado de previdência
complementar. Esta foi uma das propostas apresentadas ao comando
de greve, em substituição à Lei do Emprego
Público, proposta original do ministério.
LUIZ PAULO MENDONÇA
BRANDÃO - (Chefe da Subdivisão de Graduação
do Instituto Militar de Engenharia/IME): Ninguém
acredita em melhora qualitativa do ensino e da pesquisa científico-tecnológica
sem o professor motivado, inserido na vida cultural de sua
comunidade e com um padrão de vida compatível
com suas necessidades. Todo investimento em educação
deve iniciar-se pelo professor, sob pena de vê-lo desperdiçado
ou com baixíssimo retorno. Existe, de fato, por parte
do Governo, interesse neste avanço qualitativo e não
apenas quantitativo, como até então tem demonstrado?
PAULO RENATO - O Governo tem se preocupado com a educação
em todos os seus aspectos. Não somente investiu significativamente
no Orçamento global do setor, como investiu na formação
e qualificação do docente. De 1994 a 200, o
percentual de professores doutores passou de 22% para 39%
e o percentual total de professores com titulação
de mestrado e doutorado, que em 1994 era próximo de
60%, no final de 2000 subiu para mais de 75%. Este aumento
expressivo da titulação dos docentes nas universidades
federais é resultado de uma políitica de incentivo
à concessão de bolsas e manutenção
de salários dos professores inscritos nos programas
de pós-graduação. O Ministério
da Educação também se preocupa com a
formação dos professores do ensino fundamental
e médio e para aperfeiçoá-los criou os
Parâmetros em Ação e Pro-formação.
Além disso, há o Fundef, que destina 60% de
seus recursos à formação dos professores.
LIA FARIA - (Presidente do
Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro
/CEE): Quando é que vai sair o Fundeb, um fundo
para a educação básica em geral e não
apenas para o ensino fundamental? Não dá para
fazer política de educação básica
sem dinheiro.
PAULO RENATO - Se todos os estados e municípios
concordarem em ampliar os recursos do Fundef, nós poderemos
incluir a educação infantil, o ensino médio,
desde que tenhamos maior comprometimento dos recursos da educação
com este fundo. O que eu não aceito é que simplesmente
se tome os 15% de arrecadação dos estados e
municípios e se queira dividir por um número
maior de alunos. Isso é novamente prejudicar os pobres,
prejudicar o ensino fundamental, prejudicar a universalização
do acesso à educação que o Governo Fernando
Henrique garantiu através do Fundef.
MIRIAM PAURA - (Orientadora
de Mestrado em Educação da Uerj): Na qualidade
de professor e ex-reitor, como o senhor vê as pesquisas
na área de Ciências Humanas no contexto educacional
brasileiro? Como podemos aproximar a produção
das pesquisas originárias das dissertações
de mestrado e teses de doutorado, das políticas públicas
em educação?
PAULO RENATO - A pesquisa em educação tem
avançado em nosso país. Existe um grande acervo
de informações que ainda carece de análise,
de uma análise de pesquisa mesmo. Nós produzimos
informações hoje no nosso país como nunca.
Dos países do mundo, nós talvez sejamos o que
tem o melhor serviço de informação e
de avaliação educacionais. Entretanto, eu acho
que a pesquisa vem crescendo, mas eu acho que poderia crescer
muito mais e influenciar muito mais as políticas, na
medida em que se basear no grande acervo de informações
que hoje está disponível.
DONALDO BELLO DE SOUZA - (Chefe
do Departamento de Educação da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro/Uerj): Até que ponto
o Governo e o Ministério da Educação
vêm sendo vulneráveis, suscetíveis ou
influenciados pelas determinações internacionais
advindas de organismos como o Banco Mundial e o Fundo Monetário
Internacional?
PAULO RENATO - Os relatórios do Banco Mundial,
como o próprio nome diz, são relatórios,
eles relatam uma situação, eles não fazem
nenhuma recomendação. Ao contrário, o
Banco Mundial observa as políticas brasileiras que
foram definidas por nós. O Fundef é nosso, o
Provão é nosso, todas medidas tomadas por nós,
são medidas brasileiras. Nós temos complexo
de inferioridade, em geral as pessoas não acreditam
que nós sejamos capazes de conceber políticas
que são depois imitadas no resto do mundo, como está
acontecendo com a educação.
MARIA DE LOURDES ALBUQUERQUE
- (Diretora de RH da Secretaria de Educação
do Município do Rio): Como pode ser explicado o
fato de o Governo ter criado um fundo para a valorização
do magistério do ensino fundamental e ele mesmo não
valorizar o seu profissional?
PAULO RENATO - Mas a idéia foi justamente esta.
Nós tínhamos uma situação em nosso
país em que os professores tinham salários de
R$ 20, R$ 30. Todos lembram de cenas na televisão dos
professores mostrando contracheques com estes valores. Isto
acabou no Brasil e acabou a partir do Fundef. No ensino municipal
do Nordeste, onde os salários eram os mais baixos,
houve um aumento, a partir do Fundef, de 70%. No total do
país o aumento foi da ordem de 30% nestes últimos
três anos de Fundef. Portanto, o Fundef tem tido um
impacto muito importante no aumento dos salários do
setor público. Agora, o Fundef é para o ensino
fundamental e quem paga os professores deste segmento são
os estados e municípios. O Governo Federal não
tem professor de ensino fundamental e, portanto, o Fundef
se dirigiu a melhorar a situação de estados
e municípios.
PAULO ELPÍDIO MENEZES
- (Pró-reitor de Graduação da Universidade
Candido Mendes): O excesso de regulamentação
a que se entrega o MEC inibe o desenvolvimento do sistema
público do ensino Superior, frustrando as expectativas
de uma educação superior comprometida com a
excelência e confina as instituições privadas.
Como conciliar a função legítima de supervisão
do Ministério da Educação com sua função
regulatória?
PAULO RENATO - As universidades federais são públicas
e têm que se submeter às regras do serviço
público, que nem sempre são as melhores regras
para gerir uma universidade. Mas não há como
nós chegarmos a uma situação de conciliar
o melhor dos dois mundos. É preciso optar entre ser
uma entidade pública e submeter-se às regras
do setor, ou optar por, mantendo o caráter público,
transformar-se numa entidade não estatal e com isso
poder ter mais autonomia administrativa. A universidade brasileira
tem sempre optado por manter o seu caráter público
estatal, portanto, tem que se submeter às regras que
são para todo setor público.
LUIS ALENCAR REIS DA SILVA
MELO - (Coordenador de Planejamento e Avaliação
da Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro/PUC-RJ): Descredenciar não pode ser política
educacional. Quando e como todos esses mecanismos de avaliação
que estão sendo criados vão se refletir num
planejamento e na própria formulação
de políticas educacionais para o ensino superior?
PAULO RENATO - Eu acho que já estão se refletindo
claramente. Nós já estamos utilizando todo os
processos de avaliação no planejamento e nas
ações do Ministério da Educação
em relação ao ensino superior.
FOLHA DIRIGIDA - Quais
as conseqüências sociais e políticas da
greve das universidades?
PAULO RENATO - Eu espero que todas as universidades
voltem ao trabalho, elaborem seus planos de recuperação
do semestre e definam o seu calendário para o vestibular
do próximo ano. Isto é importante, nós
estamos trabalhando no sentido de responder às demandas
do servidores e dos professores e eu espero que eles possam
o mais rapidamente possível voltar ao trabalho.
FOLHA DIRIGIDA - As universidades
federais vão começar o ano letivo de 2002 sem
calouros?
PAULO RENATO - Os exames de vestibular serão realizados.
Eu não vou admitir que ninguém cancele o vestibular.
Vou discutir com entidades capazes de fazer vestibular e nós
vamos estudar maneiras de realizar e garantir o ingresso de
jovens nas universidades federais no ano que vem.
FOLHA DIRIGIDA - O país
tem em sua história educacional o registro de estudantes
aprovados por decreto, em conseqüência de greves
longas como esta. Isto pode voltar acontecer, ministro?
PAULO RENATO - Jamais. Jamais.
FOLHA DIRIGIDA - Quais
itens da pauta são possíveis de serem negociados
com os professores universitários?
PAULO RENATO - Todos os itens que foram colocados para
mim. O que eles colocaram foi, em primeiro lugar, como coisa
mais importante, a questão da forma de contratação
de professores pelo Regime Jurídico Único. No
dia seguinte eu apresentei uma proposta e eles não
voltaram a conversar.
FOLHA DIRIGIDA - Qual
sua mensagem aos professores no Dia do Mestre?
PAULO RENATO - O Dia do Professor sintetiza muito daquilo
que nós sabemos que existe na vida de cada professor,
a dedicação ao trabalho, a dedicação
à causa da educação, a consciência
de que a sua missão é a construção
de um futuro melhor para cada um dos alunos, para cada uma
das crianças, e um futuro melhor para o nosso país.
É através da educação que nós
vamos construir uma sociedade mais igual e certamente o professor
tem consciência dessa missão. É isso que
faz o seu papel ser grande na sociedade.
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