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FOLHA DIRIGIDA : Qual o
principal problema enfrentado hoje pelas instituições
privadas de ensino?
JOÃO UCHÔA : Eu acho que o problema é
o de qualquer ramo da atividade privada, que é melhorar
a qualidade do produto, ser cada vez melhor. O que eu acho
que está havendo mesmo é que, num mundo que
está todo ele em transformação, o ensino
também está em transformação,
mesmo que a gente não queira e não saiba para
onde ele está se transformando. Mas esta é a
dificuldade normal de quem faz alguma coisa. Quem faz alguma
coisa tem que encontrar alguma dificuldade e nós encontramos
a dificuldade da natureza. Eu diria que são dificuldades
da natureza. Nós precisamos melhorar o ensino, que
é o nosso produto, e adequá-lo a um mundo que
muda todo dia. Como fica difícil todo dia ter uma coisa
adequada, esta é a dificuldade do ensino.
FOLHA DIRIGIDA : E como
a Estácio tem feito para se ajustar ao ritmo imposto
pela novas tecnologias?
JOÃO UCHÔA : Trabalhando 24 horas por dia.
Trabalhando sábado, domingo, todo mundo trabalhando
intensamente. A hora que você chegar vai estar todo
mundo trabalhando. É a única coisa que a gente
podia fazer: prestar atenção e trabalhar. É
o que a gente tem feito.
FOLHA DIRIGIDA : Em qual
dimensão as novas tecnologias têm auxiliado a
Estácio no desenvolvimento de seu trabalho?
JOÃO UCHÔA : Eu não tenho computador,
eu não tenho telefone celular, eu não tenho
aparelho de som sofisticado, eu não tenho fax. Eu não
tenho nada disso porque não gosto, mas a Estácio
tem. Aqui dentro da minha sala eu não gosto, não
uso e não acho necessário.
FOLHA DIRIGIDA : A tecnologia
não faz falta no desenvolvimento do seu trabalho à
frente de uma grande universidade?
JOÃO UCHÔA : Eu não só acho
que não faz falta. Eu acho que atrapalha. Eu acho que
é muito ruim. Eu acho que quando eu era moço
a dificuldade era colher informação. A gente
não tinha muito onde se informar. Hoje, que eu estou
ficando velho, a dificuldade é eliminar informação.
Há uns caras aí com computador que têm
um bilhão de informações para ele, só
que ele não precisa. Quando vem a informação
que ele precisa mesmo, não tem mais espaço na
cabeça dele. Está tudo lotado. Então
eu acho que não precisa disso. É claro, eu preciso
de um computador para cadastrar gente, e isso eu tenho. Aliás,
eu acho que a Estácio, no Rio de Janeiro, é
a instituição de ensino que tem os mais sofisticados
equipamentos. Acho que nenhuma faculdade é igual à
nossa em sofisticação. Eu acho que para execução,
para operação, essa tecnologia é importante,
até para o ensino. Para o uso diário, para a
administração superior, eu acho que é
daninho, é ruim. Quando eu vou conversar com outro
empresário e ele abre um laptop, eu já acho
que ele é de segundo time.
FOLHA DIRIGIDA : O desempenho
do Brasil é muito baixo nos indicadores educacionais
e ainda há um volume preocupante de analfabetos. O
que pode ser feito para mudar esse quadro?
JOÃO UCHÔA : O analfabetismo não é
um problema com o qual eu lide. Por exemplo, eu acho que se
o Brasil amanhã começar a ter muita gente fazendo
mestrado, doutorado, pós-doutorado, MBA, eu acho que
vai ser muito. Acho que é péssimo para o país
e para as pessoas. É um mito que todo mundo precise
estudar. Isto não é verdade. A pessoa pode ser
analfabeta e ser uma pessoa muito expressiva, muito inteligente,
muito bem sucedida. E pode ser um pós-graduado e ser
uma besta completa. Eu não acho que seja necessário
esse estudo todo.
FOLHA DIRIGIDA : A educação
não faz falta?
JOÃO UCHÔA : A educação mínima
ofertada faz falta, mas não para todos. Eu trabalhei
com o Amador Aguiar, que fez o Bradesco e não tinha
o segundo grau. Para ele não fez falta.
FOLHA DIRIGIDA : Não
são exceções?
JOÃO UCHÔA : Mas exceção existe,
também conta. E se ele tivesse o segundo grau? Talvez
não fizesse o Bradesco, fosse advogado do Bradesco.
Eu acho que essa questão de educação
é muito exagerada. Teve um menino em São Paulo,
estudante de Medicina, que pegou uma metralhadora e metralhou
todo mundo num cinema. Aí foram interrogar o pessoal
na rua, vira uma senhora e diz enquanto não houver
educação no Brasil.. O cara fazia Medicina.
Eu acho que já é um jargão. Educação,
saúde, transporte... Há frases que as pessoas
ficam falando e não sabem por quê. Se você
chega no Nordeste, em certas regiões, tem um menino
trabalhando com 12 anos, e minha origem é de lá,
aí vem o cara com a educação e diz que
ele tem que ir para o colégio. Não tem que ir
para o colégio não. Ele pode não ir para
o colégio e estar muito bem.
FOLHA DIRIGIDA : O analfabeto
é analafabeto porque quer?
JOÃO UCHÔA : Não, não é
analfabeto porque quer, como às vezes, a gente também
não é advogado porque quer. Como é o
meu caso, eu não me formei advogado porque quis, eu
arranjei emprego no Fórum e acabei indo para Direito.
Mas, se em vez do Fórum, fosse para o Ministério
da Marinha, talvez hoje eu fosse um oficial da Marinha. Esse
livre-arbítrio é muito relativo. E acho que
o cara não é ignorante porque quer, mas quem
disse que ele quer ser culto? Ele pode não querer ser
culto e a gente vai lá e quer obrigar que ele seja
culto. E se ele não quiser? Nós temos que impor,
porque ele tem que querer. Onde já se viu não
querer estudar? Mas o cara tem direito de não querer
estudar. Eu tenho quatro filhos e só um que se formou,
três não se formaram, não senti nada,
não aconselhei nenhum a estudar. Se nenhum quisesse
estudar, para mim também era muito bom. O cara está
aí para levar a vida que ele gosta, para ser feliz
do jeito que ele gosta, a realidade da vida não é
estudar. Estudar é uma opção, quem quiser
faz, quem não quiser não faz e não fica
pior porque não fez.
FOLHA DIRIGIDA : As pesquisas
de desenvolvimento também revelam que muitas doenças
letais estão associadas à falta de educação.
JOÃO UCHÔA : O que eu conheço de escravo
com 120 anos, a maioria é tudo ex-escravo, 120 anos.
Outro dia no Peru tinha um com 156 anos, um índio peruano.
Agora, o que tem de empresário morrendo aos 40 anos
de enfarte... É uma mentira. Essa pesquisa é
mentira. Quem o enfarte mata? Cara bem-sucedido. Não
acho que dá mais doença no pobre do que no rico,
nem acho que o rico se trate melhor do que o pobre, porque
eu acho a Medicina tão ruim hoje, que o rico não
leva vantagem nehuma. Cada um tem sua cabeça e eu estou
sendo franco dizendo a você o que eu penso.
FOLHA DIRIGIDA : Em 30
anos a Estácio passou de 166 alunos para 90 mil e,
hoje, é uma das universidades que mais crescem. Qual
é a receita deste sucesso?
JOÃO UCHÔA : Eu acho que a gente trabalha
muito e tem um regime de trabalho com muita independência,
muito pouco centralizado. Eu acho que ela cresce porque eu
não centralizo. Eu acho que essa distribuição
do poder dentro da Estácio faz ela crescer. Aqui não
tem um comando central, é muito distribuído.
Temos uma maneira de trabalhar que é muito peculiar
da Estácio. É possível que tenha sido
isso que fez a gente crescer, ou então, pode ser que
seja sorte.
FOLHA DIRIGIDA : Qual
o significado da palavra sorte no dicionário dos negócios?
JOÃO UCHÔA : Existe sorte em tudo, nos negócios,
na saúde. Pode ser o nosso caso. Pode ser que a gente
tenha crescido por acaso. E aí eu fico atribuindo a
essa ou aquela causa. Pode ser por uma causa que eu ignoro,
pode ser que a gente cresça por uma coisa que eu nem
sei direito por que foi, mas a verdade é que cresceu
mesmo e foi a que mais cresceu.
FOLHA DIRIGIDA : O que
levou o senhor a transferir seu campo de interesse da Justiça
para a educação?
JOÃO UCHÔA : Eu não me interessei
pela educação e nem acho que eu seja uma pessoa
muito interessada em educação. Eu sou interessado
na Estácio de Sá, isso é que é
importante. Estou interessado no Brasil? Não, não
estou interessado no Brasil. Na cidadania? Também não.
Na solidariedade? Também não. Estou interessado
na Estácio de Sá.
FOLHA DIRIGIDA : A Estácio
de Sá não é cidadã, não
é solidária, não é brasileira?
JOÃO UCHÔA : A Estacio de Sá é
uma instituição que quer dar o melhor ensino
possível às pessoas, para elas fazerem desse
ensino o uso que quiserem. Isso é a Estácio
de Sá.
FOLHA DIRIGIDA : As universidades
privadas não se destacam em pesquisa. Por quê?
Como são as relações da Estácio
com a pesquisa?
JOÃO UCHÔA : As pesquisas não valem
nada. A gente olha todo mundo fazendo tese, pesquisa e tal,
mas não tem nenhuma sendo aproveitada, raríssimo,
é uma inutilidade pomposa, é uma perda de tempo
federal. Aquilo ali vai dar um monte de título para
o cara, ele vai arrumar um emprego bom e vai trocar cartãozinho
com o outro que pesquisa também e fica aquela troca
de reverência, para um lado e para o outro, mas a pesquisa
em si não vale nada. As faculdades privadas não
fazem pesquisa porque não querem jogar dinheiro fora.
Estou hoje trabalhando muito, a gente estava com 137 pesquisas
em andamento, não tinha uma que prestasse. Parei todas
elas e vamos começar a fazer pesquisa útil.
E o que é pesquisa útil? É aquela que
pode ser aproveitada pelo homem comum.
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