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  Os problemas do vestibular e a angústia da juventude  
  QUATRO PROFESSORES ESPECIALIZADOS FALAM DAS DIFICULDADES E DOS DESAFIOS DE QUALIDADE DO ENSINO MÉDIO, SOBRETUDO EM RELAÇÃO À PREPARAÇÃO PARA O VESTIBULAR  
Victor Mauricio Notrica - diretor do Instituto Guanabara e do Curso Miguel Couto
 

O vestibular influencia a sociedade e a clientela do ensino médio que freqüenta as escolas, independente de ser unificado ou isolado. Vivemos em uma cultura em que a fita de chegada do aluno na escola é o vestibular. A partir da segunda série do ensino médio o aluno já está envolvido pela mística do vestibular, que tinha sido extinta na época do vestibular unificado da Fundação Cesgranrio.

Certamente, a unificação é um pleito antigo, mas essa atitude acabaria com uma série de incorreções e injustiças que vemos hoje em dia. Em primeiro lugar, o aluno teria que pagar uma única taxa de inscrição tendo a chance de concorrer em várias instituições. Em segundo lugar, acabariam essas reclassificações intermináveis, que duram até abril ou maio, o que se traduz como uma injustiça em um país pobre como o nosso.

 
 

Por isso, não podemos admitir que sobrem vagas em uma universidade pública e nem tampouco tenham vagas ociosas que são pagas por toda uma nação, que sustenta essa máquina inepta.

A unificação do vestibular seria boa para todos, pois teríamos apenas uma data, um programa, uma lista de aprovados, uma taxa e uma lista de reclassificação. Logo, a unificação viria de encontro com todos os fatores positivos, enquanto o vestibular de hoje é injusto, perverso, desgastante e só atende às corporações internas de cada uma das instituições. Eu vejo na unificação um passo inteligente, um passo adiante, um passo que tornaria todos nós que trabalhamos nesse setor melhores, e o aluno que é o ponto que todos devíamos valorizar, sairia absurdamente no lucro.

Ainda em relação às diversas taxas cobradas, é claro que elas inviabilizam a participação de muitos alunos. Aqueles que hoje podem fazer seis vestibulares com uma taxa de inscrição no valor de R$60 são favorecidos. É lógico que um aluno carente tem muita dificuldade sim em fazer os diversos vestibulares, ele é punido porque não pode pagar várias taxas. Essa multiplicidade de vestibulares tem uma ação discriminatória, pois vestibulares isolados implicam uma multiplicidade de inscrições e muitas famílias realmente não conseguem dar esse número de oportunidades aos seus filhos.

O aluno, o professor, a instituição, as famílias estão tontas com esta multiplicidade. Você tem o próprio calendário escolar com 200 dias letivos que sai prejudicado. Todos esses exames, em diferentes épocas do ano, causam um grande transtorno no trabalho cotidiano da ecola, no processo de aprendizagem do aluno e na própria ação dos professores. Os professores hoje dizem: da maneira que está, o que normalmente seria feito em 600 dias letivos, 3 anos a 200 dias letivos cada, nós temos que liquidar praticamente em 400 ou 450 dias.

Tenho muita saudade do modelo da Fundação Cesgranrio, claro que atualizado às novas normas e aos novos critérios. O vestibular unificado era um processo humano, que acontecia depois de o aluno ter concluído o seu ensino médio e não havia o varejo de vestibulares que existe hoje em dia.

Com o varejo de faculdades, com essa poluição que está havendo de atrativos para o aluno fazer o curso superior, o seu diploma será um cheque com fundos ou sem fundos. Isso é algo que preocupa muito, pois às vezes pode parecer ser uma solução imediata, a curto prazo, mas que passa a ser um problema enorme a longo prazo e muitas vezes o processo fica irreversível, prejudicando o desepenho profissional do aluno no futuro.

É claro que hoje as universidades estão olhando todas essas questões com mais carinho, as listas de isenções têm sido muito mais generosas. Mas, ainda assim o estudante carente sai muito prejudicado nesse modelo de vestibular, em que se tem uma maratona de provas. O meu pleito sempre foi pela unificação novamente das instituições públicas, que deveriam novamente se ordenar para oferecer um modelo mais inteligente de vestibular.

 
Ayrton de Almeida, diretor do Curso GPI
 

Os baixos salários são o grande entrave para uma efetiva melhoria da Educação no país. Os profissionais qualificados não desejam mais exercer o Magistério, justamente por não serem bem remunerados. Antigamente, ser professor era sinônimo de status e respeito. No entanto, com a queda dos vencimentos, os profissionais que estão mais preparados começaram a buscar novas profissões que lhes rendessem uma melhor remuneração. Caso os salários do Magistério sejam elevados, com certeza o nível melhorará.

Em contrapartida, após o surgimento da Internet, os professores estão sendo mais exigidos pelos alunos.

 
 

Os professores são a peça fundamental no processo educacional. Por isso, eles devem estar diante da realidade que os cercam, porque o conteúdo por si só já não está mais preenchendo a necessidade de um professor. Um professor que sabe o seu conteúdo é um bom profissional, mas aquele que está além do conteúdo, é um excepcional profissional. Por isso, é que o professor necessita estar diante do quadro que a sociedade está exigindo, que a realidade mostra para ele. Ele precisa saber muito do dia-a-dia, porque isso está fazendo uma diferença significativa.

Há um tempo atrás, o professor deveria somente conhecer um conteúdo e essa informação durava a vida toda. Hoje, o conteúdo que ele aprende na universidade só vale para uma parcela daquilo que ele tem que ensinar. Logo, ele tem que ir muito além, precisa estar diante dos jornais diariamente, se atualizar constantemente, e ler, porque quem não lê não têm vocabulário. Não adianta só cobrar do aluno, nós, professores, temos que cobrar de nós mesmos essa permanente atualização.

Os educadores precisam estar diante das ferramentas, e ferramentas significam computadores e Internet. Eles precisam estar diante dos meios que os alunos têm em casa a sua disposição, porque senão ele será uma pessoa despreparada para dar aquilo que o aluno necessita. E, fundamentalmente, eu diria que ele precisa hoje ter uma parte de relação humana muito bem estruturada, porque o aluno que chega nas nossas salas, é fruto de uma outra realidade, diferente daquela que o nosso professor foi forjado.

Além disso, o aluno precisa ver no professor também um exemplo para a vida, porque senão como ele vai poder praticar ética, cidadania e limites? Como a sociedade hoje está dando poucos limites, e como nós sabemos que é fundamental o limite para que se possa avançar na vida, para que você consiga respeitar aquele que está ao seu lado, uma escola que não dá isso para o aluno está errando, e o professor que não dá isso está errando tanto quanto essa escola. Então eu imagino que hoje o conteúdo seja apenas 60%, os outros 20% seriam as ferramentas (dia-a-dia) e o restante seria a postura, a ética, a comunicação.

Entendo que um professor formado como antigamente está completamente distante da realidade exigida pelos alunos de hoje. Atualmente, o conteúdo é apenas uma parcela do que o professor necessita para ser chamado de professor. Então a minha mensagem para os professores é que eles tenham sempre a certeza de que são uma peça fundamental e imprescindível do processo educacional, e que esse processo só existe na figura dele, na medida em que além do conteúdo, também tragam ferramentas e experiências do cotidiano, postura, ética. E, além disso, saibam passar os limites a partir dessas posturas. O professor hoje deve estar preparado para os desafios e as mudanças, pois é isso que a sociedade espera dele.

 
   
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