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  Universidade pública: ilha cercada por muitos problemas  
  FOLHA DIRIGIDA ENTREVISTOU QUATRO REITORES DE UNIVERSIDADES PÚBLICAS PARA SABER QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS DESAFIOS DESTAS INSTITUIÇÕES. CONFIRA OS DEPOIMENTOS  
Cícero Rodrigues, reitor da UFF (Universidade Federal Fluminense)
 

A universidade pública cresceu muito rapidamente não só em qualidade como também em quantidade. Mas essa onda de crescimento foi refreada, de certa maneira, por crises econômicas e políticas nacionais, o que prejudicou muito nossas instituições.

A universidade tem um potencial muito grande em termos de pesquisa e de ensino. Devemos parar e refletir sobre o impacto social que significa formar um aluno. Devemos ver outras dimensões da formação do aluno além da técnica. Se pensarmos nesses benefícios, levando em conta os milhares de pessoas que são formadas pelas universidades, veremos o quanto influímos na dinâmica social.

 
 

No entanto, a sociedade ainda está muito longe das condições ideais de educação e produção do conhecimento. A média de escolaridade ainda é muito baixa e as desigualdades regionais enormes. Esses fatores prejudicam o acesso. Aliadas a essas complicações estruturais, a política econômica de recessão implantada no Brasil gera muitas dificuldades.

Para se ter uma idéia, temos 350 aposentadorias de professores que não foram repostas. Se fizéssemos um concurso e colocássemos mais 350 doutores dentro da universidade, fazendo pesquisa e ensinando, teríamos condições suficientes para expandir nossa produção. Hoje, estamos suprindo nossas necessidades mínimas de sala de aula com os professores substitutos, que não têm um comprometimento ideal. Perdemos qualidade com isso.

Além disso, temos outros problemas estruturais. Não existe investimento em infra-estrutura há muitos anos. Nossa única luz no fim do túnel para ampliar e melhorar a infra-estrutura das universidades são os fundos setoriais. Estamos com problemas de toda natureza. Desde obras à falta de espaço, professores e funcionários. Estamos sem capacidade de investir na expansão e várias unidades dentro da UFF estão estranguladas.

Outro problema grave é a questão dos funcionários técnico-administrativos, temos 1.200 aposentadorias que não foram repostas. Isso significa falta de pessoal nas secretarias e laboratórios. Outro aspecto é a falta de investimento na qualificação desses funcionários. Temos uma ação interna nessa área, mas ela é tímida pela falta de condições.

Essa crise é fruto da política econômica implantada no país e da falta de sensibilidade do governo. O prejuízo causado pela falta de investimento estrutural e em recursos humanos é enorme. Cortamos a onda de expansão do sistema educacional brasileiro e levaremos tempo para recuperar essas perdas. Não consigo acreditar que pessoas que fazem parte desse governo, que têm uma vida acadêmica, não percebam a importância da universidade. Falta vontade política. Até que ponto esses cortes são saudáveis para o país?

Nas universidades, as crises são, por natureza, um momento de mudança. Com a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, estamos vivendo um momento de adaptação dos nossos estatutos. Esse é um processo lento, pois o debate, nesse sentido, é fundamental para definir quais os grandes objetivos da universidade. É importante definir uma identidade. Temos que harmonizar o caráter idealista com o prático. Nosso maior desafio, nesses tempos, é discutir nossa vocação. Para isso, não podemos esbarrar na falta de recursos.

Nesse contexto, devemos perceber que a universidade precisa ter compromisso com o mercado e com a sociedade, um compromisso de desenvolvimento. Ela tem que participar da sociedade e não pode trabalhar o saber pelo saber. Ela precisa estar ligada à realidade. Contudo, a universidade não deve trabalhar em função do mercado, ou mesmo buscar nele recursos. O governo deve garantir as verbas mínimas.

Do ponto de vista social, temos que garantir o ensino na graduação, principalmente para as camadas mais pobres. Agora, nada deve impedir a universidade de cobrar ao prestar serviços para uma empresa ou para quem já está no mercado de trabalho. Nesse caso, eu não vejo necessidade de a universidade ser gratuita. Ela deve cobrar naquilo que não é sua missão social.

Eu proponho que a nação faça uma análise de consciência e pense o que cada um deve aos seus professores. Conhecimento é algo que não tem preço. O modo de encarar a universidade precisa mudar. A universidade não é um problema. Ela é a solução para os problemas nacionais.

 
José Henrique Vilhena, reitor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
  A universidade é uma instituição que vive em permanente crise. Seja ela cultural, de crescimento ou científica. Faz parte do nosso dia-a-dia a superação constante de crises. Mas, apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelo país nas últimas décadas, a universidade vem evoluindo permanentemente, por pior que os governos tenham sido.
Hoje, o Brasil dispõe da melhor estrutura universitária entre os países em desenvolvimento. As universidades são, ao mesmo tempo, centros de formação de recursos humanos de alta qualificação e de desenvolvimento de pesquisa. Isso mostra o dinamismo do nosso sistema. Em muitos países, a formação e a pesquisa se encontram separadas em redes de difícil contato, gerando perda de qualidade dos recursos humanos e aumento do custo da educação para a sociedade. Felizmente, aqui isso não acontece, o que nos faz olhar para o futuro de uma maneira positiva.
 
 

Entretanto, como todas as instituições, a universidade não é perfeita. Se existe uma crise, é essa: o baixo desempenho na formação em massa da juventude nas instituições de nível superior. Mesmo com toda a estrutura, formamos, por professor, nas universidades quatro vezes menos alunos do que se forma em outras partes do mundo. Só um aluno, por professor, é formado a cada ano na graduação.

Do ponto de vista econômico, o professor tem o mesmo custo social em todos os países. Entretanto, lá fora se colocam quatro vezes mais pessoas qualificadas no mercado. E como todos sabem, o que gera riqueza no mundo é o ser humano qualificado. Só ele é capaz de acompanhar e de ser o agente das mudanças sociais. Aquele que não é qualificado não tem essa possibilidade.

Além de gerar riqueza, a qualificação é fundamental para a liberdade. Só as sociedades que tiverem uma massa de pessoas qualificadas serão capazes de resolver seus problemas. As outras ficarão perplexas e terão que se agregar a uma sociedade qualquer para poder funcionar. Com isso, perderão a liberdade. Esse é um problema que temos que resolver urgentemente.

No Brasil, os jovens que estão cursando o ensino superior são uma pequena porcentagem da população. Na faixa de 20 a 24 anos, apenas 7,7% estão na universidade. Na realidade, há um número maior de jovens, pois as pessoas cursam o ensino superior em idade muito avançada, até 30 anos. De 20 a 30 anos, há uma faixa de 13% de jovens nas instituições de nível superior. É um número muito pequeno. Não teremos nenhum futuro se não dobrarmos o número de jovens nas universidades públicas.

Nossos cursos são muito antiquados e não estão respondendo às necessidades de qualificação dos jovens, pois foram estruturados nos moldes dos anos 60. Eles precisam ser mais ágeis, mais dinâmicos. Para isso, é preciso otimizar o ano letivo. Noventa e oito por cento dos cursos funcionam apenas em 150 dias úteis. É necessário estabelecer o ano em 200 dias, começando no meio de fevereiro e terminando no Natal, com férias só no verão.

Com um período maior de trabalho, em vez de serem dois semestres pode-se dividir o ano em quatro blocos, com 50 dias úteis. Com esse tempo, é possível ganhar um ano em cada quatro, ou seja, 200 dias úteis. Assim, poderemos abrir a universidade para novos grupos sociais, sem recursos extras.

Para entrar no padrão internacional de formar quatro alunos por professor na graduação gastam-se os mesmos recursos usados atualmente para formar um na graduação. São as mesmas salas de aulas, toda a estrutura de base já existe. Nossos cursos não aceitam mais alunos porque são antiquados. Os cursos precisam de uma base muito mais sólida nas Ciências Humanas, Exatas e no desenvolvimento cultural. Essa é a parte mais importante da formação do jovem.

Outro ponto de crise da universidade é a falta de um programa de educação continuada. É preciso desenvolver um sistema de educação permanente. Disso depende o futuro da juventude. Antigamente, após o curso de graduação ninguém estudava mais nada. Hoje, a pessoa que termina o curso de graduação precisa vincular-se imediatamente a um sistema de educação continuada. Caso contrário, será descartada. É importante para a sociedade que todas as universidades que possuem o atual sistema de graduação o modernizem totalmente. Para isso, é fundamental abandonar o corporativismo. Ele é a grande amarra social que impede a modernização das universidades e o aumento das vagas. É absolutamente nefasto.

A universidade deve estar incumbida de qualificar a juventude em massa, pois é isso que permitirá o aumento da riqueza, da massa salarial e da remuneração dos professores. O nosso futuro como professor e como ser humano capaz de realizar sua vocação está justamente em estabelecer as novas relações possíveis para garantir a formação em massa da juventude. Essa é a verdadeira democratização da universidade.

 
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