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Um dos papéis da universidade: pensar
o futuro do país |
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REITORES APOSTAM QUE, SENDO REVISTAS AS POLÍTICAS
DE PESSOAL E DE INFRA-ESTRUTURA, UNIVERSIDADES PÚBLICAS
PODEM SE RECUPERAR DA ATUAL SITUAÇÃO DE ESTRANGULAMENTO |
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Nilcéa
Freire, reitora da Uerj (Universidade do Estado do Rio
de Janeiro) |
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A crise brasileira, infelizmente,
é notável em diversos aspectos da vida nacional.
A falta de energia num país dotado de excepcionais
recursos hídricos, o desemprego que marginaliza
jovens e adultos, a miséria que se alastra pelas
grandes cidades, a absurda concentração
de renda, o inexplicável atraso de uma reforma
agrária efetiva que contemple a população
do campo, são os traços mais visíveis
e nítidos de uma crise que acaba por atingir a
todos. Um dos aspectos, porém, mais graves da crise
não é tão visível, mas nem
por isso menos importante: que futuro vislumbramos para
nosso país? |
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Falar em futuro e vinculá-lo
ao destino coletivo do povo pode parecer anacrônico,
mas não é. Recentemente, a Uerj teve a honra
de receber o professor Carlos Lessa para abrir um dos mais
importantes eventos da universidade, o Uerj Sem Muros. Trata-se
de um momento que se repete há doze anos em que os
trabalhos de nossos alunos, professores e funcionários
são apresentados ao público em geral. Durante
uma semana a universidade se vê tomada por grupos barulhentos
de estudantes de ensinos médio e fundamental, por idosos
e jovens, pela população em geral que vem conhecer
o que é uma universidade.
Neste ano, na palestra de
abertura, o professor Lessa nos falou sobre a crise brasileira
e a universidade. Apresento aqui a síntese de seu argumento:
um dos papéis mais relevantes da universidade é
pensar o futuro, antecipar-se e, assim, contribuir para que
o futuro não reproduza, cegamente, as escolhas excludentes
do passado. Este talvez seja o maior desafio da universidade:
pensar o futuro de um país descrente em seu próprio
futuro.
Se este é o desafio,
um dos principais obstáculos é manter a confiança,
a credibilidade e o reconhecimento, por parte da população,
de que cabe à universidade - e que ela detém
esta competência - de colaborar na construção
de um futuro onde as desigualdades podem e devem ser superadas,
no qual a exclusão social não está determinada
como um destino inexorável. Uma universidade é
uma instituição dispendiosa, pela própria
natureza de sua atividade, que exige tempo, dedicação
e esforço de um amplo conjunto de pessoas, além
de uma infra-estrutura de espaços, equipamentos e materiais
que não são baratos. Conquistar esta confiança
da população é o desafio mais imediato
para continuar enfrentando aquele outro, substantivo, que
é a razão de ser de uma instituição
que crê no pensamento, na crítica, na investigação
e no diálogo.
No momento em que boa parte
da população brasileira ainda padece do que
se chama analfabetismo funcional, a universidade precisa apresentar
resultados para alcançar a confiança da sociedade.
Porém, a ciência não é uma prática
que se caracterize pelo imediatismo. Ao contrário,
o procedimento científico, pela sua própria
natureza, exige um tempo distinto do tempo que a sociedade
de consumo consagra. Por isso, o processo de reconhecimento
do papel da universidade impõe um amplo diálogo
com a sociedade para que esta reconheça os benefícios
que alcança, a curto, médio e longo prazos,
com a manutenção da universidade pública.
E é preciso sublinhar que, embora não possamos
desqualificar o ensino superior privado em seu conjunto, na
história brasileira coube, cabe e certamente caberá
à universidade pública um papel importante na
garantia do pensamento livre e crítico, visto que ela
não deve estar obrigada a submeter-se à lógica
do mercado.
Hoje a educação
superior brasileira está amplamente ocupada pelo sistema
privado de ensino. Mais de 70% das matrículas são
feitas em instituições privadas, embora mais
de 95% da pesquisa venham das instituições públicas.
Democratizar o acesso ao ensino superior público é
um imperativo social e intelectual que devemos enfrentar.
Alguns dispositivos legais podem contribuir em muito para
esta tarefa: a autonomia das universidades públicas,
garantidos os recursos, é uma necessidade urgente.
Autonomia, diga-se claramente, que deve estar associada a
processos de avaliação de modo que a sociedade
amplie sua confiança na universidade e possa, com sua
contribuição, construir um futuro de paz, inclusão
e prosperidade.
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Primeiramente, a falta de
recursos humanos pede uma solução urgente. Só
na Unirio, temos mais de 300 vagas abertas por funcionários
técnico-administrativos que se aposentaram ou morreram.
Reconheço um esforço do Ministério da
Educação no sentido de abrir novas vagas através
da criação do emprego público, entretanto
esse processo precisa ser agilizado, sem que os direitos garantidos
aos servidores sejam ignorados. Na questão dos docentes,
o concurso para 2.000 professores é uma iniciativa
positiva do governo. Mas continuaremos dependendo da contratação
dos substitutos que resolvem apenas em parte o déficit.
A carga horária de 20 horas desses profissionais é
muito limitada se pensarmos em pesquisa, ensino e extensão.
Outro problema é a
recuperação da estrutura física da universidade.
Aqui na Unirio, os laboratórios ultrapassados, os equipamentos
obsoletos e a falta de verba para material permanente são
grandes obstáculos para a qualidade do ensino.Veja
você, a universidade é avaliada pelo Exame Nacional
de Cursos - o que é necessário - , mas nos parâmetros
que não dependemos exclusivamente da nossa gestão,
como a infra-estrutura, somos prejudicados. Caímos
num perigoso ciclo, pois em caso de má avaliação
nosso orçamento é limitado.
É diante desses empecilhos
que a autonomia passa a ser decisiva. Apesar de existir uma
autonomia didático-pedagógica, é fundamental
o estabelecimento da liberdade administrativa e financeira.
As restrições geradas pela falta de autonomia
nesse campo causam inúmeros problemas, pois dependemos
de um orçamento rígido, sem flexibilidade para
utilizarmos os recursos.
É claro que, uma vez
a autonomia instalada e esses recursos sob responsabilidade
dos reitores, é necessária uma distribuição
cuidadosa e um controle sobre a utilização das
verbas. Hoje, já conseguimos avançar muito nesse
sentido, pois o orçamento é baseado pela quantidade
de cursos, formandos, titulação dos docentes
e programa didático-pedagógico entre outros
parâmetros. Entretanto, falta liberdade para alocar
as verbas.
Enquanto isso não acontece,
as universidades são obrigadas a recorrer às
fundações de apoio para conseguirem superar
com rapidez algumas dificuldades. Hoje, por exemplo, o Ministério
Público está questionando a participação
delas, mas na situação de crise, pela qual passamos,
e quando bem controladas, elas são muito úteis.
No hospital universitário,
quando eu assumi, faltavam cerca de 50 funcionários.
Como fazer um CTI funcionar sem pessoal? Não posso
parar o hospital. Então, a fundação serve
para suprir essas deficiências. Na necessidade de material
com urgência, elas também ajudam, pois dispensam
o uso de licitação.
As soluções
para os problemas da universidade passam pela autonomia de
gestão. Por que empregar o dinheiro em outra atividade
se o que eu preciso no momento é de verba de custeio?
Além disso, é preciso aumentar as verbas. Não
queremos que só as universidades tenham recursos e
os outros segmentos fiquem à míngua. Agora,
a crise da universidade não é fruto apenas das
dificuldades econômicas do Brasil. Não acredito
em má vontade política, mas a distribuição
dos recursos deveria ser repensada, principalmente pelo Ministério
do Planejamento.
Acredito que mesmo com todas
as dificuldades econômicas, havendo uma reformulação
política, principalmente na questão dos recursos
humanos e da infra-estrutura, podemos em dois anos reverter
essa tendência de estrangulamento das universidades
públicas.
Nesse contexto de recuperação,
os professores têm um papel fundamental de resistência.
Não podemos ter medo dos obstáculos. Com dedicação
e determinação podemos superá-los. É
preciso não se deixar influenciar pelos aspectos secundários
e voltar as atenções para o crescimento e o
futuro das instituições
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