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FOLHA DIRIGIDA : Esta demora
na liberação das verbas é o maior problema
das escolas públicas?
WILSON CHOERI : O grande problema hoje das escolas mantidas
pelo Governo Federal, que, sem exceção, são
de bom nível é a verba de custeio. Esta é
a verba que permite ao administrador pagar luz, gás,
telefone, vigilância, limpeza e as compras do dia-a-dia
de material para escritório. Há cinco anos essa
verba de custeio vem sendo mantida congelada. Em contrapartida,
a energia elétrica foi terceirizada, a telefonia foi
terceirizada. Tudo aumentou e nossa verba continua a mesma.
FOLHA DIRIGIDA : Qual
o segredo então para se conseguir manter a tradição
e o ensino de excelência, diante desta escassez de recursos?
WILSON CHOERI : O Pedro II deve isso a dois fatores fundamentais:
a qualidade dos seus professores, independente de serem efetivos
ou substitutos, e o planejamento integrado feito pelo colégio.
Temos através da secretaria de ensino e do conselho
pedagógico toda uma estrutura que acompanha o processo
ensino-aprendizagem nas suas diferentes etapas. Os conjuntos
dos programas são estudados dentro dos departamentos
e, dentro do espírito da reforma, temos a inter e a
intradisciplinaridade. Em cada etapa da implantação
das mudanças sugeridas pela reforma, tem-se discutido
e estabelecido um planejamento integrado para atingir objetivos,
a curto, médio e longo prazos.
FOLHA DIRIGIDA : Colégios
como o Pedro II, onde o ensino é reconhecidamente de
qualidade, são uma exceção na realidade
da nossa educação. Que fatores contribuem para
que a educação brasileira mantenha por anos
consecutivos indicadores não muito satisfatórios
(como elevado nível de analfabetismo, pequena parcela
da população no ensino superior, baixo índice
de aproveitamento escolar?
WILSON CHOERI : Não generalizaria para o Brasil
todo. O que acontece é a má administração
educacional que muitas vezes é feita. O Rio de Janeiro
em épocas passadas era o estado que apresentava índices
excelentes. Hoje deixa a desejar. Por quê? São
os professores? Não. É o comando do sistema
que deixa a desejar. E o desestímulo a que é
levado o professor quando se transforma não em sujeito
do processo ensino-aprendizagem, mas no objeto deste processo.
Para que haja êxito em qualquer reforma educacional
tem que haver a valorização do magistério.
FOLHA DIRIGIDA : Que período
destacaria como apogeu da Educação brasileira?
WILSON CHOERI : Não houve um apogeu porque o Brasil
padece de uma síndrome de reformas descontinuadas.
Há uma síndrome de 10 em 10 anos de fazer reformas
do sistema educacional e abandoná-las no meio do caminho.
Se destrói tudo o que foi feito para iniciar uma coisa
nova ou se deixa ao léu o que vinha sendo feito.
FOLHA DIRIGIDA : Isso
é motivado por que, vaidade política?
WILSON CHOERI : É falta de uma visão sistêmica
da educação brasileira. Antes de 1930 o Colégio
Pedro II é que ditava os programas e servia de modelo
para o universo educacional brasileiro. Em 1930 veio a Revolução
e foi criado o Ministério da Educação
e Cultura (MEC), que passou a centralizar a educação
brasileira de ensinos médio e universitário.
O MEC estabelecia normas e fiscalizava a educação.
A centralização chegou a tal ponto que o ministério
criou técnicos de educação para que todas
as escolas médias brasileiras seguissem sua sistemática.
Isto disciplinou e organizou a educação. No
bojo da reforma de 1930, veio a chamada reforma Chico Campos
(Chico Ciência), que estabelecia cinco anos de ensino
secundário e dois complementar, que correspondiam ao
pré-médico, pré-engenharia e o pré-jurídico.
Ela foi alcunhada de cientificista. Dava ênfase às
disciplinas tecnológicas, Física, Química...
A educação começou a ser controlada e
direcionada para um determinado objetivo.
FOLHA DIRIGIDA : Isso
mudou totalmente? A educação cientificista deu
lugar à educação humanista...
WILSON CHOERI : Isso foi mais tarde. Em 1942 a crítica
que faziam do cientificismo da educação média
brasileira cedeu ao que chamou-se volta às humanidades.
Veio a reforma Capanema estabelecendo ao invés de cinco
e dois, quatro e três. Quatro anos de ginasial e três
de colegial, sendo o colegial dividido em científico
e clássico. Introduziu-se o Latim desde a primeira
série do ginasial e disciplinas que eram, ditas por
alguns, ornamentais e por outros de disciplinas de caráter
de Ciências Humanas passaram a integrar o currículo.
Não devemos esquecer que a reforma Capanema foi muito
influenciada pela Igreja Católica. Em 1945, na ditadura
getuliana, ocorre a redemocratização do país.
Com isso, acabou a centralização do MEC e fracionou-se
a atuação do Ministério da Educação.
Ciclicamente não chega, às vezes, a dez anos
e mudamos os parâmetros das reformas e, quase sempre,
essas reformas têm caráter semântico, são
mais de palavras. Isto porque a escola em si não foi
mudada, a metodologia não foi mudada.
FOLHA DIRIGIDA : Mais uma
vez vivemos a expectativa de uma nova fase, com a implantação
da LDB, dos Parâmetros Curriculares Nacionais e do Plano
Nacional de Educação. Na sua opinião,
conseguiremos implantar estas mudanças? Quanto tempo
isso deverá levar para sair do papel?
WILSON CHOERI : O esforço do MEC é gigantesco
para que a reforma dê certo. Nos ensinos tecnológico,
médio e fundamental mudanças estão sendo
feitas na tentativa de se alterar uma metodologia. Na base
do planejamento a reforma já está em andamento.
As mudanças estão acontecendo, principalmente,
graças ao dinamismo do Paulo Renato e do Ruy Berger.
Se eles pudessem ter com rapidez as verbas necessárias
estaríamos andando muito mais rápido. As mudanças
estão acontecendo, mas com a saída dos dois
como ficarão? O problema é que os economistas
não têm visão prospectiva, quando muito
tratam a educação brasileira querendo discutir
custo e benefício. Economizam sobre o futuro, então
vemos o MEC tendo que, dentro de uma política econômica
rígida, no meu entender deformada, fazer um trabalho
hercúleo. Agora, enquanto as escolas dos ensinos fundamental
e médio têm tentado implantar a reforma, no ensino
superior ela continua dormitando sem qualquer perspectiva.
Em relação ao ensino universitário nada
foi feito, não por culpa da reforma, mas por culpa
das universidades que não metabolizaram e que não
se abriram para ela. A reforma não está acontecendo
no ensino superior. As nossas universidades estão olhando
para o próprio umbigo. Elas ainda não foram
capazes de metabolizar o processo de mudança que tem
que ocorrer.
FOLHA DIRIGIDA : Corremos
o risco então de ter mais uma vez uma reforma de caráter
semântico?
WILSON CHOERI : Se não tivermos futuramente um
ministro ou um secretário de ensino tecnológico
no nível dos atuais estas mudanças não
ocorrerão na sua plenitude. Elas ficarão estagnadas
e cairão na obsolescência até daqui a
um pouco mais aparecer um espírito reformador para
criar uma reforma oba-oba. Se não houver continuidade
no Ministério da Educação não
atingiremos as metas. O mal que a educação brasileira
sofre é da descontinuidade dos objetivos.
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