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  Tecnocracia e descontinuidade, fatores da crise educacional  
 

Para o diretor-geral do Colégio Pedro II, Wilson Choeri, outro grande problema da educação é a descontinuidade de projetos políticos no setor

O principal inimigo da educação pública brasileira está dentro do governo. Esta é a opinião do diretor-geral do Colégio Pedro II, Wilson Choeri, que aponta como vilão da crise educacional o setor econômico. "Os economistas não têm visão prospectiva, quando muito, tratam a educação brasileira querendo discutir custo e benefício. Economizam sobre o futuro", acusa.

A falta de continuidade de projetos políticos é outro problema identificado por Choeri numa análise do sistema educacional brasileiro. "O Brasil sofre a síndrome de reformas descontinuadas", afirma o educador, que, diante desta realidade, mostra-se apreensivo com a substituição do ministro da Educação, Paulo Renato, e do secretário de Educação Média e Tecnológica do MEC, Ruy Berger. "As mudanças estão acontecendo, agora, com a saída dos dois, como ficarão?", indaga.

FOLHA DIRIGIDA : Embora a Constituição assegure o repasse permanente de verbas para a educação, o ensino público apresenta deficiências originadas pela falta de investimentos. Faltam verbas ou elas são mal administradas?

 
Wilson Choeri: “A reforma não está acontecendo no ensino superior. As nossas universidades estão olhando para o próprio umbigo”
  WILSON CHOERI : Muitas vezes encontramos dentro do orçamento da União verbas que poderiam chegar à escola e, não obstante toda boa vontade do ministro da Eeducação, são brecadas na área econômica. Não chegam com a rapidez que deveriam. O problema não é da administração do MEC, que tem procurado desenvolver vários projetos, e sim da área econômica. Há um processo de bloqueio na área econômica privilegiando e mantendo outras prioridades que não a educação.  
 

FOLHA DIRIGIDA : Esta demora na liberação das verbas é o maior problema das escolas públicas?
WILSON CHOERI :
O grande problema hoje das escolas mantidas pelo Governo Federal, que, sem exceção, são de bom nível é a verba de custeio. Esta é a verba que permite ao administrador pagar luz, gás, telefone, vigilância, limpeza e as compras do dia-a-dia de material para escritório. Há cinco anos essa verba de custeio vem sendo mantida congelada. Em contrapartida, a energia elétrica foi terceirizada, a telefonia foi terceirizada. Tudo aumentou e nossa verba continua a mesma.

FOLHA DIRIGIDA : Qual o segredo então para se conseguir manter a tradição e o ensino de excelência, diante desta escassez de recursos?
WILSON CHOERI :
O Pedro II deve isso a dois fatores fundamentais: a qualidade dos seus professores, independente de serem efetivos ou substitutos, e o planejamento integrado feito pelo colégio. Temos através da secretaria de ensino e do conselho pedagógico toda uma estrutura que acompanha o processo ensino-aprendizagem nas suas diferentes etapas. Os conjuntos dos programas são estudados dentro dos departamentos e, dentro do espírito da reforma, temos a inter e a intradisciplinaridade. Em cada etapa da implantação das mudanças sugeridas pela reforma, tem-se discutido e estabelecido um planejamento integrado para atingir objetivos, a curto, médio e longo prazos.

FOLHA DIRIGIDA : Colégios como o Pedro II, onde o ensino é reconhecidamente de qualidade, são uma exceção na realidade da nossa educação. Que fatores contribuem para que a educação brasileira mantenha por anos consecutivos indicadores não muito satisfatórios (como elevado nível de analfabetismo, pequena parcela da população no ensino superior, baixo índice de aproveitamento escolar?
WILSON CHOERI :
Não generalizaria para o Brasil todo. O que acontece é a má administração educacional que muitas vezes é feita. O Rio de Janeiro em épocas passadas era o estado que apresentava índices excelentes. Hoje deixa a desejar. Por quê? São os professores? Não. É o comando do sistema que deixa a desejar. E o desestímulo a que é levado o professor quando se transforma não em sujeito do processo ensino-aprendizagem, mas no objeto deste processo. Para que haja êxito em qualquer reforma educacional tem que haver a valorização do magistério.

FOLHA DIRIGIDA : Que período destacaria como apogeu da Educação brasileira?
WILSON CHOERI :
Não houve um apogeu porque o Brasil padece de uma síndrome de reformas descontinuadas. Há uma síndrome de 10 em 10 anos de fazer reformas do sistema educacional e abandoná-las no meio do caminho. Se destrói tudo o que foi feito para iniciar uma coisa nova ou se deixa ao léu o que vinha sendo feito.

FOLHA DIRIGIDA : Isso é motivado por que, vaidade política?
WILSON CHOERI :
É falta de uma visão sistêmica da educação brasileira. Antes de 1930 o Colégio Pedro II é que ditava os programas e servia de modelo para o universo educacional brasileiro. Em 1930 veio a Revolução e foi criado o Ministério da Educação e Cultura (MEC), que passou a centralizar a educação brasileira de ensinos médio e universitário. O MEC estabelecia normas e fiscalizava a educação. A centralização chegou a tal ponto que o ministério criou técnicos de educação para que todas as escolas médias brasileiras seguissem sua sistemática. Isto disciplinou e organizou a educação. No bojo da reforma de 1930, veio a chamada reforma Chico Campos (Chico Ciência), que estabelecia cinco anos de ensino secundário e dois complementar, que correspondiam ao pré-médico, pré-engenharia e o pré-jurídico. Ela foi alcunhada de cientificista. Dava ênfase às disciplinas tecnológicas, Física, Química... A educação começou a ser controlada e direcionada para um determinado objetivo.

FOLHA DIRIGIDA : Isso mudou totalmente? A educação cientificista deu lugar à educação humanista...
WILSON CHOERI :
Isso foi mais tarde. Em 1942 a crítica que faziam do cientificismo da educação média brasileira cedeu ao que chamou-se volta às humanidades. Veio a reforma Capanema estabelecendo ao invés de cinco e dois, quatro e três. Quatro anos de ginasial e três de colegial, sendo o colegial dividido em científico e clássico. Introduziu-se o Latim desde a primeira série do ginasial e disciplinas que eram, ditas por alguns, ornamentais e por outros de disciplinas de caráter de Ciências Humanas passaram a integrar o currículo. Não devemos esquecer que a reforma Capanema foi muito influenciada pela Igreja Católica. Em 1945, na ditadura getuliana, ocorre a redemocratização do país. Com isso, acabou a centralização do MEC e fracionou-se a atuação do Ministério da Educação. Ciclicamente não chega, às vezes, a dez anos e mudamos os parâmetros das reformas e, quase sempre, essas reformas têm caráter semântico, são mais de palavras. Isto porque a escola em si não foi mudada, a metodologia não foi mudada.

FOLHA DIRIGIDA : Mais uma vez vivemos a expectativa de uma nova fase, com a implantação da LDB, dos Parâmetros Curriculares Nacionais e do Plano Nacional de Educação. Na sua opinião, conseguiremos implantar estas mudanças? Quanto tempo isso deverá levar para sair do papel?
WILSON CHOERI :
O esforço do MEC é gigantesco para que a reforma dê certo. Nos ensinos tecnológico, médio e fundamental mudanças estão sendo feitas na tentativa de se alterar uma metodologia. Na base do planejamento a reforma já está em andamento. As mudanças estão acontecendo, principalmente, graças ao dinamismo do Paulo Renato e do Ruy Berger. Se eles pudessem ter com rapidez as verbas necessárias estaríamos andando muito mais rápido. As mudanças estão acontecendo, mas com a saída dos dois como ficarão? O problema é que os economistas não têm visão prospectiva, quando muito tratam a educação brasileira querendo discutir custo e benefício. Economizam sobre o futuro, então vemos o MEC tendo que, dentro de uma política econômica rígida, no meu entender deformada, fazer um trabalho hercúleo. Agora, enquanto as escolas dos ensinos fundamental e médio têm tentado implantar a reforma, no ensino superior ela continua dormitando sem qualquer perspectiva. Em relação ao ensino universitário nada foi feito, não por culpa da reforma, mas por culpa das universidades que não metabolizaram e que não se abriram para ela. A reforma não está acontecendo no ensino superior. As nossas universidades estão olhando para o próprio umbigo. Elas ainda não foram capazes de metabolizar o processo de mudança que tem que ocorrer.

FOLHA DIRIGIDA : Corremos o risco então de ter mais uma vez uma reforma de caráter semântico?
WILSON CHOERI :
Se não tivermos futuramente um ministro ou um secretário de ensino tecnológico no nível dos atuais estas mudanças não ocorrerão na sua plenitude. Elas ficarão estagnadas e cairão na obsolescência até daqui a um pouco mais aparecer um espírito reformador para criar uma reforma oba-oba. Se não houver continuidade no Ministério da Educação não atingiremos as metas. O mal que a educação brasileira sofre é da descontinuidade dos objetivos.

 
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