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  Direito de todos e dever do Estado  
 

Segundo o presidente da União nacional dos estudantes, Felipe Maia, o Brasil investe menos na educação superior do que o Uruguai, por exemplo

Falta uma estratégia do Governo Federal para valorizar o ensino público. Esta é a opinião do presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Felipe Maia. Segundo ele, os poucos recursos nas universidades federais e o incentivo aos grupos privados vêm prejudicando o desenvolvimento educacional do país.

Segundo o presidente da UNE, o Brasil investe menos no setor que os países da Europa e, até mesmo, alguns da América Latina. "O Brasil comparado a outros países do mundo, aplica muito pouco em Educação Superior. A Espanha investe cerca de 2%, o Uruguai investe 1,3% do seu PIB (Produto Interno Bruto) em Educação Superior e o Brasil, 0,6%".

O estudante, de 23 anos, está cursando Economia há cinco e já vê diferenças do ensino desde os seus tempos de calouro aos dias atuais. Na avaliação de Maia, a produção acadêmica aumentou em algumas ilhas de conhecimento, mas o ensino decaiu em grande parte das instituições.

- O ensino como um todo vem ladeira abaixo. Cresceu o número de instituições tecnicistas, com ensino muito pragmático e imediatista. Mesmo nas instituições públicas, com todo o esforço delas, começam a fazer falta investimentos em laboratórios, na atualização das bibliotecas. Eu me preocupo com o que esse processo pode gerar nos próximos anos.

FOLHA DIRIGIDA - Quais as estratégias do movimento estudantil para exigir melhorias na Educação?

 
Wilson Choeri: “A reforma não está acontecendo no ensino superior. As nossas universidades estão olhando para o próprio umbigo”
  Felipe Maia - Hoje, mais do que nunca, é importante que os estudantes se mobilizem para conquistar avanços. Na nossa análise, a Educação atravessa uma grande crise oriunda de um baixo nível de investimento do governo. A gente parte do pressuposto de que a Educação é um direito de todos e um dever do Estado, sendo assim é necessário oferecer condições para que a população tenha acesso a um ensino público e gratuito. A Educação deve ser uma forma de ajudar a diminuir as desigualdades sociais no país. O fato de o governo não ter uma estratégia para valorização do ensino público é que provoca a crise. Aliado a isso, existe uma estratégia de beneficiar os grupos privados, que passaram a explorar cada vez mais a Educação.  
 

FOLHA DIRIGIDA - O Governo Federal tem priorizado, neste segundo mandato, o aumento de matrículas no ensino médio. Como o ensino superior vai absorver a quantidade de estudantes se as vagas da universidade pública são limitadas?
Felipe Maia -
As vagas são limitadas comparadas à demanda. Nos últimos anos aumentou 10% e o governo capitaliza isso como se fosse obra da gestão dele. Mas foi mérito dos reitores das universidades, que fizeram esforço para aumentar vagas mesmo com a diminuição do seu orçamento. É preciso haver um plano de expansão do sistema público de ensino superior, incluindo uma estratégia das universidades para concederem cada vez mais vagas. Para isso, é necessário ampliar a estrutura física, contratar mais professores, ou seja, ter um maior investimento no sistema educacional. O Brasil comparativamente a outros países do mundo aplica muito pouco em Educação Superior. A Espanha investe cerca de 2%, o Uruguai investe 1,3% do seu PIB em Educação Superior e o Brasil, 0,6%. Se o nosso país destinasse o mesmo valor que a média dos países, multiplicaria o seu número de vagas.

FOLHA DIRIGIDA - Que problemas do ensino superior devem ser resolvidos com mais urgência?
Felipe Maia -
É preciso haver um projeto para a universidade pública. Esse é o problema fundamental. A partir do momento em que a gente tiver um projeto, vamos discutir: a nossa universidade pública vai atender prioritariamente a quem? Ela vai se especializar em quê? A partir daí vamos resolvendo os seus problemas. Mas existem questões que são emergenciais. Independentemente do perfil que esta universidade vai ter, algumas coisas precisam ser resolvidas. Por exemplo, hoje faltam 8 mil professores. Se não forem contratados, não vai haver abertura do período letivo nas universidades. Faltam 21 mil servidores. Há um déficit de verba de custeio nas universidades, que é 28% do montante da universidade, e falta de equipamentos, que é difícil medir. A gente tem um déficit de verba para assistência estudantil. São seis anos sem ter um centavo para este fim. As universidades mantêm políticas de assistência estudantil como os restaurantes universitários, as casas de estudante, ou com verba do custeio ou cobrando taxa. Cobrar taxa está errado e tirar do custeio prejudica outras atividades. O governo deveria destinar verba específica para assistência estudantil, porque isso aliviaria o orçamento da universidade e privilegiaria o estudante mais carente.

FOLHA DIRIGIDA - Você é estudante universitário há cinco anos; o que melhorou e o que piorou no ensino superior brasileiro?
FELIPE MAIA -
Algumas coisas melhoraram e outras regrediram. Do ponto de vista da produção acadêmica, melhorou. O país tem tido avanços, que são frutos de um acúmulo de experiências de 50 anos, desde a criação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior). Isso tem influência direta na qualidade do ensino. O problema é que essa produção está restrita a poucos nichos de excelência na universidade. Não é para todo mundo, mas para um grupo reduzido de pessoas. Para a maioria, o ensino como um todo vem ladeira abaixo. Cresceu o número de instituições tecnicistas, com ensino muito pragmático e imediatista. Mesmo nas instituições públicas, com todo o esforço delas, começam a fazer falta investimentos em laboratórios, na atualização das bibliotecas. Eu me preocupo com o que este processo pode gerar nos próximos anos.

FOLHA DIRIGIDA - De que maneira a UNE pode exigir a valorização do magistério?
Felipe Maia -
O professor universitário precisa ter um plano de carreira que seja estimulante, ou seja, uma perspectiva de carreira que não é só dar aula, mas também fazer pesquisa. São duas atividades que se complementam e elevam o nível da qualidade. Também é preciso dar bons salários, porque a iniciativa privada paga bem. Se o ensino público não tiver salários compatíveis com o da iniciativa privada, vai haver evasão de cérebros. Além disso, precisamos ter programas de pesquisa que possibilitem aos pesquisadores de ponta que fiquem no país. Nós conhecemos casos de universidades cooperativas norte-americanas que contratam verdadeiros caçadores de talento, que vão buscar os melhores cérebros brasileiros para trabalharem em universidades ligadas a empresas norte-americanas. E esses caras que vão para lá voltam para buscar mais gente. Isso prejudica a excelência da pesquisa nacional.

FOLHA DIRIGIDA - E de que maneira a UNE pode desenvolver trabalhos em parceria com os professores?
Felipe Maia -
Acho que a gente tem que fazer parcerias e também lutar para que existam mudanças profundas na universidade. Precisamos de universidades que formem um profissional mais crítico, com um valor mais humanista, que não se prenda só às necessidades imediatas do mercado. Se a gente conseguir mudar esse cotidiano da universidade e fazer que ela seja um espaço mais aberto para a formação de um profissional diferente, o professor passa também a ter um outro papel. Ele deixa de ser apenas um reprodutor do conhecimento e a atividade de ensino passa a ser também de aprendizagem. Começa a haver um intercâmbio de experiências que é estimulante para a atividade docente.

FOLHA DIRIGIDA - Qual o perfil que deveria ter o professor do século 21?
Felipe Maia -
A gente precisa de professores com perfis variados, com capacidades variadas. Mas, hoje, o profissional precisa ter uma grande assimilação de conteúdo, ou seja, dominar a matéria que leciona. Ter uma preocupação pedagógica, transmitir esse conteúdo de uma forma que estimule as pessoas. Ele precisa ter uma capacidade de instigar raciocínios, de instigar pesquisa e estimular o aluno a buscar conhecimento por conta própria. Precisa estar constantemente se atualizando, se adaptando às novas tecnologias e precisa ser um investigador, um pesquisador, que também esteja produzindo conhecimento, para também ter a motivação de aprender.

FOLHA DIRIGIDA - Apesar de a UNE ter uma importância histórica na luta pela democracia na sociedade brasileira, por que a maioria dos estudantes não se engaja nas lutas da entidade?
Felipe Maia -
Sempre houve um grupo mais militante, que está nas entidades e organiza o dia-a-dia. A grande maioria dos estudantes se envolve somente quando há um agravamento das contradições na sociedade ou na universidade. Quando as coisas se afloram a maioria acaba desempenhando papel mais ativo. São os movimentos de transformação, de elevação da consciência coletiva. Esses momentos variam. Às vezes passamos por períodos de pequenas mobilizações e aí surge um problema, as pessoas percebem e há uma grande movimentação.

FOLHA DIRIGIDA - Quais serão as principais ações da UNE para atrair mais estudantes?
FELIPE MAIA -
A cultura é um caminho, porque precisamos diferenciar. Existe o estudante que tem aptidão política e, de uma forma ou de outra, vai se envolver nas atividades das entidades estudantis. Mas há um outro que não tem vocação política, mas que participa do movimento estudantil de outras maneiras. A cultura é um instrumento poderoso, porque todo mundo se identifica de alguma forma. É importante abrir mais espaços para que o jovem desenvolva suas aptidões e valores culturais. O esporte é um outro caminho. Temos a intenção de resgatar o Jub’s (Jogos Universitários Brasileiros) ou outro evento como olimpíada universitária.

 
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