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FOLHA DIRIGIDA - O Governo
Federal tem priorizado, neste segundo mandato, o aumento de
matrículas no ensino médio. Como o ensino superior
vai absorver a quantidade de estudantes se as vagas da universidade
pública são limitadas?
Felipe Maia - As vagas são limitadas comparadas
à demanda. Nos últimos anos aumentou 10% e o
governo capitaliza isso como se fosse obra da gestão
dele. Mas foi mérito dos reitores das universidades,
que fizeram esforço para aumentar vagas mesmo com a
diminuição do seu orçamento. É
preciso haver um plano de expansão do sistema público
de ensino superior, incluindo uma estratégia das universidades
para concederem cada vez mais vagas. Para isso, é necessário
ampliar a estrutura física, contratar mais professores,
ou seja, ter um maior investimento no sistema educacional.
O Brasil comparativamente a outros países do mundo
aplica muito pouco em Educação Superior. A Espanha
investe cerca de 2%, o Uruguai investe 1,3% do seu PIB em
Educação Superior e o Brasil, 0,6%. Se o nosso
país destinasse o mesmo valor que a média dos
países, multiplicaria o seu número de vagas.
FOLHA DIRIGIDA - Que problemas
do ensino superior devem ser resolvidos com mais urgência?
Felipe Maia - É preciso haver um projeto para a
universidade pública. Esse é o problema fundamental.
A partir do momento em que a gente tiver um projeto, vamos
discutir: a nossa universidade pública vai atender
prioritariamente a quem? Ela vai se especializar em quê?
A partir daí vamos resolvendo os seus problemas. Mas
existem questões que são emergenciais. Independentemente
do perfil que esta universidade vai ter, algumas coisas precisam
ser resolvidas. Por exemplo, hoje faltam 8 mil professores.
Se não forem contratados, não vai haver abertura
do período letivo nas universidades. Faltam 21 mil
servidores. Há um déficit de verba de custeio
nas universidades, que é 28% do montante da universidade,
e falta de equipamentos, que é difícil medir.
A gente tem um déficit de verba para assistência
estudantil. São seis anos sem ter um centavo para este
fim. As universidades mantêm políticas de assistência
estudantil como os restaurantes universitários, as
casas de estudante, ou com verba do custeio ou cobrando taxa.
Cobrar taxa está errado e tirar do custeio prejudica
outras atividades. O governo deveria destinar verba específica
para assistência estudantil, porque isso aliviaria o
orçamento da universidade e privilegiaria o estudante
mais carente.
FOLHA DIRIGIDA - Você
é estudante universitário há cinco anos;
o que melhorou e o que piorou no ensino superior brasileiro?
FELIPE MAIA - Algumas coisas melhoraram e outras regrediram.
Do ponto de vista da produção acadêmica,
melhorou. O país tem tido avanços, que são
frutos de um acúmulo de experiências de 50 anos,
desde a criação do CNPq (Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e
da Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Ensino Superior). Isso tem influência direta na qualidade
do ensino. O problema é que essa produção
está restrita a poucos nichos de excelência na
universidade. Não é para todo mundo, mas para
um grupo reduzido de pessoas. Para a maioria, o ensino como
um todo vem ladeira abaixo. Cresceu o número de instituições
tecnicistas, com ensino muito pragmático e imediatista.
Mesmo nas instituições públicas, com
todo o esforço delas, começam a fazer falta
investimentos em laboratórios, na atualização
das bibliotecas. Eu me preocupo com o que este processo pode
gerar nos próximos anos.
FOLHA DIRIGIDA - De que
maneira a UNE pode exigir a valorização do magistério?
Felipe Maia - O professor universitário precisa
ter um plano de carreira que seja estimulante, ou seja, uma
perspectiva de carreira que não é só
dar aula, mas também fazer pesquisa. São duas
atividades que se complementam e elevam o nível da
qualidade. Também é preciso dar bons salários,
porque a iniciativa privada paga bem. Se o ensino público
não tiver salários compatíveis com o
da iniciativa privada, vai haver evasão de cérebros.
Além disso, precisamos ter programas de pesquisa que
possibilitem aos pesquisadores de ponta que fiquem no país.
Nós conhecemos casos de universidades cooperativas
norte-americanas que contratam verdadeiros caçadores
de talento, que vão buscar os melhores cérebros
brasileiros para trabalharem em universidades ligadas a empresas
norte-americanas. E esses caras que vão para lá
voltam para buscar mais gente. Isso prejudica a excelência
da pesquisa nacional.
FOLHA DIRIGIDA - E de
que maneira a UNE pode desenvolver trabalhos em parceria com
os professores?
Felipe Maia - Acho que a gente tem que fazer parcerias
e também lutar para que existam mudanças profundas
na universidade. Precisamos de universidades que formem um
profissional mais crítico, com um valor mais humanista,
que não se prenda só às necessidades
imediatas do mercado. Se a gente conseguir mudar esse cotidiano
da universidade e fazer que ela seja um espaço mais
aberto para a formação de um profissional diferente,
o professor passa também a ter um outro papel. Ele
deixa de ser apenas um reprodutor do conhecimento e a atividade
de ensino passa a ser também de aprendizagem. Começa
a haver um intercâmbio de experiências que é
estimulante para a atividade docente.
FOLHA DIRIGIDA - Qual
o perfil que deveria ter o professor do século 21?
Felipe Maia - A gente precisa de professores com perfis
variados, com capacidades variadas. Mas, hoje, o profissional
precisa ter uma grande assimilação de conteúdo,
ou seja, dominar a matéria que leciona. Ter uma preocupação
pedagógica, transmitir esse conteúdo de uma
forma que estimule as pessoas. Ele precisa ter uma capacidade
de instigar raciocínios, de instigar pesquisa e estimular
o aluno a buscar conhecimento por conta própria. Precisa
estar constantemente se atualizando, se adaptando às
novas tecnologias e precisa ser um investigador, um pesquisador,
que também esteja produzindo conhecimento, para também
ter a motivação de aprender.
FOLHA DIRIGIDA - Apesar
de a UNE ter uma importância histórica na luta
pela democracia na sociedade brasileira, por que a maioria
dos estudantes não se engaja nas lutas da entidade?
Felipe Maia - Sempre houve um grupo mais militante, que
está nas entidades e organiza o dia-a-dia. A grande
maioria dos estudantes se envolve somente quando há
um agravamento das contradições na sociedade
ou na universidade. Quando as coisas se afloram a maioria
acaba desempenhando papel mais ativo. São os movimentos
de transformação, de elevação
da consciência coletiva. Esses momentos variam. Às
vezes passamos por períodos de pequenas mobilizações
e aí surge um problema, as pessoas percebem e há
uma grande movimentação.
FOLHA DIRIGIDA - Quais
serão as principais ações da UNE para
atrair mais estudantes?
FELIPE MAIA - A cultura é um caminho, porque precisamos
diferenciar. Existe o estudante que tem aptidão política
e, de uma forma ou de outra, vai se envolver nas atividades
das entidades estudantis. Mas há um outro que não
tem vocação política, mas que participa
do movimento estudantil de outras maneiras. A cultura é
um instrumento poderoso, porque todo mundo se identifica de
alguma forma. É importante abrir mais espaços
para que o jovem desenvolva suas aptidões e valores
culturais. O esporte é um outro caminho. Temos a intenção
de resgatar o Jubs (Jogos Universitários Brasileiros)
ou outro evento como olimpíada universitária.
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