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O diretor do Promagister -
programa de atualização e capacitação
docente promovido pela ACCESS - Seleção, Recrutamento
e Aperfeiçoamento de Recursos Humanos - , Herman Jankovitz,
avalia que a questão da desvalorização
do professor está ligada à própria dinâmica
do sistema educacional brasileiro. "Educação
não dá frutos em quatro anos, tempo de duração
média de um mandato político. Os resultados
na área educacional são constatados, na previsão
mais otimista, em cerca de 20 anos", afirma. Porém,
Herman acredita que não se pode responsabilizar apenas
o governo, visto que o descaso com a educação
não é apenas dos políticos, mas da sociedade
como um todo que, por conseqüência, vem recebendo
uma educação de qualidade cada vez pior.
Herman percebe o início
de um processo de desvalorização da profissão
na década de 60, quando houve pressão da classe
média pela abertura de mais vagas no ensino superior.
Para atender à pressão social e às grandes
passeatas que pediam mais verbas e vagas, o governo militar
incentivou sobretudo o aumento da oferta no ensino superior
privado. No final da década de 70, o número
de vagas nas universidades e faculdades brasileiras era dez
vezes maior, fato que gerou uma grande procura por professores.
- Os melhores professores,
pelas oportunidades salariais, foram absorvidos pela iniciativa
privada e a rede pública ficou com os profissionais
menos gabaritados. Os cursinhos pré-vestibulares, por
exemplo, proliferaram e, por oferecerem remuneração
mais atraente, absorveram boa parte dos professores de qualidade
que a rede pública dispunha na época. Como não
existiam profissionais na quantidade e com qualidade suficientes,
as escolas passaram a admitir profissionais que, em muitos
casos, não tinham preparação adequada.
Isto fez a média salarial cair. Os professores começaram
a ganhar menos e a situação vem se agravando
até os dias de hoje - afirma o professor
Herman aponta deficiências
na formação de docentes como outro problema
que contribui para o quadro de desvalorização
do magistério: "Por meio da ACCESS, temos promovido
concursos em vários estados e percebo que, mesmo naqueles
com melhor nível cultural e de renda, como os das regiões
Sul e Sudeste, uma análise do desempenho dos professores
indica que a qualidade da formação está
muito ruim". Ele acredita que o investimento nesta área
é o primeiro passo para reverter a condição
atual.
Considera importante o desenvolvimento
de programas governamentais para melhoria das condições
de trabalho do professor em áreas de bolsões
de miséria, proporcionando salário e ambiente
de trabalho dignos. De acordo com o diretor do Promagister,
o governo poderia também incentivar a criação
de programas nos quais os professores de regiões pobres
saíssem dos locais em que lecionam, se aperfeiçoassem
e voltassem para suas áreas de origem, contribuindo
para a melhoria da qualidade da educação.
Ainda segundo Herman, seria
interessante também que os currículos de formação
de professores e até mesmo os de ensino fundamental
e médio passassem por um processo de revisão.
A revisão no currículo escolar deveria ser feita
de modo a motivar o estudante a freqüentar a escola,
aproximando o que o aluno aprende no período escolar
e o que ele necessita de conhecimentos na vida profissional
e na universidade.
Herman defende, portanto,
a necessidade de um ensino mais contextualizado. Tendo em
vista que uma série de fatores básicos, como
o ambiente familiar, saúde e boa alimentação,
reflete-se no desempenho do aluno, não é possível
tratar a educação de maneira isolada. "Um
indivíduo que estuda à noite e trabalha durante
o dia, tem pai com educação primária
incompleta ou é analfabeto, com 19 anos ou mais, tem
uma chance de ingresso no ensino superior oito vezes menor
do que um estudante de 17 anos, que estuda durante o dia,
tem os pais com renda acima de 10 salários mínimos
e com nível superior".
É importante saber
motivar o aluno para que adquira gosto pelo estudo, mas é
preciso também saber o que é ensinado. A partir
daí é que o diretor do programa Promagister
propõe que o currículo de formação
dos professores seja revisto. Segundo ele, muitos profissionais
têm vários recursos pessoais, são persuasivos,
têm boa didática, explicam com facilidade, mas
apresentam conteúdo muito restrito.
Para formar não apenas
profissionais, mas cidadãos capazes de interagir com
as diversas áreas do conhecimento em seu cotidiano,
é preciso que haja programas de capacitação
que dêem destaque a conteúdos de disciplinas
básicas, como Matemática e Português,
mas que também enfoquem capacidades como interpretação,
contextualização, reflexão crítica,
raciocínio numérico e lógico.
Obviamente, não se
pode generalizar a deficiência de professores quanto
ao conteúdo. Muitos não necessitam passar por
uma capacitação, ou requalificação.
No entanto, Herman lembra que todo profissional deve procurar
se atualizar sempre, embora reconheça que o professor
deve ser bem remunerado para ter condições de
se aperfeiçoar.
Estes dois fatores, salário e recapacitação,
estão mais próximos do que se pode imaginar.
Se os professores tivessem melhores salários, poderiam
reduzir sua carga horária, se dedicar a apenas uma
escola, e conseqüentemente teriam mais tempo para estudar,
ler, ir a cinemas, museus, ou seja, complementar seus conhecimentos.
Como reforça Herman, "ele não pode ser
alguém que dá 60 tempos de aula por semana,
como um alucinado". A redução da carga
de trabalho ainda permite que mais profissionais tenham vaga
no mercado.
O professor precisa ter condições
financeiras para adquirir livros, e desenvolver-se profissionalmente,
tendo acesso a ferramentas tecnológicas, como a internet.
"Se não houver modificação na distribuição
de renda, as novas tecnologias certamente intensificarão
as diferenças de formação entre os professores",
diz Herman.
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