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Para Frei Betto, é
difícil a escola formal absorver o método Paulo
Freire, porque a metodologia foi trabalhada na perspectiva
da Educação popular.
"Essa adequação
do pensamento e metodologia de Paulo Freire à escola
formal é difícil. Ela deve ser tentada, é
possível em certos aspectos, mas sem a ilusão
de que a escola formal abrirá espaço para a
Educação popular. São incompatíveis,
até porque a Escola formal é refém da
cronologia do ano letivo, das decisões do Conselho
Nacional de Educação e de uma série de
conteúdos didáticos que já são
determinados", explicou.
De acordo com ele, a Educação
nos assentamentos do MST é revolucionária. Cerca
de 100 mil crianças, adolescentes e adultos estão
sendo escolarizados nos 1.500 assentamentos. "Isso já
mereceu um prêmio do Itaú-Unicef. Eles estão
criando uma nova concepção de ensino adaptado
ao meio rural", comemorou.
Confira a seguir a entrevista completa de Frei Betto:
FOLHA DIRIGIDA - O senhor
é um defensor do método educacional idealizado
por Paulo Freire. De que maneira essas práticas são
adotadas nas escolas hoje com o intuito de desenvolver a visão
crítica do estudante?
FREI BETTO - Em geral, não adotam. São raras
as escolas, infelizmente, que adotam o método Paulo
Freire, até porque não há uma preocupação
de formar os professores para que aprofundem o pensamento
de Paulo Freire e procurem aplicá-lo. Por outro lado,
Paulo Freire trabalhou mais na perspectiva da Educação
popular e não da Educação formal escolarizada.
Essa adequação do pensamento e metodologia de
Paulo Freire à escola formal é difícil.
Ela deve ser tentada, é possível em certos aspectos,
mas sem a ilusão de que a escola formal abrirá
espaço para a Educação popular. São
incompatíveis, até porque a Escola formal é
refém da cronologia do ano letivo, das decisões
do Conselho Nacional de Educação e de uma série
de conteúdos didáticos que já são
determinados e isso é inconcebível em um método
de Educação popular, em uma metodologia que
está calcada no seu caráter indutivo.
FOLHA DIRIGIDA - E os movimentos
sociais adotam o método Paulo Freire?
FREI BETTO - A maioria dos movimentos sociais no Brasil
surgiu da metodologia de Educação popular de
Paulo Freire, até porque foram assessorados por equipes
de Educação Popular, que adotaram com profundidade
esse método. Muitos movimentos surgiram, por exemplo,
das pastorais sociais da Igreja Católica, que tinham
nas comunidades eclesiásticas de base um grande laboratório
da metodologia de Paulo Freire. Aí sim, em relação
aos movimentos sociais, há uma raiz paulofreiriana
em todos eles.
FOLHA DIRIGIDA - Mas hoje
em dia também há uma intensa utilização
do método Paulo Freire na Educação popular?
FREI BETTO - Nem tanto, pelas instâncias que vão
se burocratizando e há uma perda da índole do
trabalho de base, da formação de novos quadros.
Enfim, precisamos de um reavivamento nesta linha.
FOLHA DIRIGIDA - O senhor
é consultor do Movimento dos Sem-Terra. Como está
a Educação hoje nos assentamentos?
FREI BETTO - A Educação é revolucionária.
São cerca de 100 mil crianças, adolescentes
e alguns adultos escolarizados nos 1.500 assentamentos. Isso
já mereceu um prêmio do Itaú-Unicef. Eles
estão criando uma nova concepção de ensino
adaptado ao meio rural.
FOLHA DIRIGIDA - Na avaliação
do senhor, os sindicatos, o MST e as igrejas devem criar sua
própria metodologia de ensino?
FREI BETTO - Podem e devem. É um desafio.
FOLHA DIRIGIDA - De que
maneira a Igreja Católica pode contribuir para a queda
do analfabetismo?
FREI BETTO - Ela deve contribuir e tem contribuído
através de uma série de cursos, mas sobretudo
abrindo seus espaços físicos: igrejas, colégios,
paróquias, salões, para a alfabetização.
Deve mobilizar, também, seus agentes pastorais, como
faz a Pastoral da Criança para incrementar o trabalho
de alfabetização em nível nacional, desde
que haja uma proposta educacional ampla, conectada com o novo
modelo econômico.
FOLHA DIRIGIDA - O senhor
acredita que o ministro da Educação tem realmente
se empenhado em acabar com o analfabetismo?
FREI BETTO - Acho até que ele pode ter boas intenções,
mas tudo fica inviável frente a um sistema ou a um
modelo de governo que penaliza a Educação com
verbas insignificantes. Ele, por exemplo, não tem nenhuma
estratégia para suprir a falta de verbas com uma mobilização
nacional, talvez por falta de credibilidade do governo que
ele representa. E sem credibilidade não é possível
essa mobilização. O processo educacional brasileiro,
principalmente em relação ao analfabetismo,
poderia ser enfrentado com a mobilização nacional
através de voluntários.
FOLHA DIRIGIDA - Qual é a avaliação
do senhor sobre os sistemas de avaliação implementados
pelo MEC: o Saeb para o ensino fundamental, o Enem, para o
médio, e o Provão, para o ensino superior? Eles
realmente contribuem para detectar problemas e melhorar a
qualidade do ensino?
FREI BETTO - Eu acho que podem contribuir para isso, mas
não são suficientes para reformular o ensino
no Brasil. A questão do ensino é mais de raiz,
de concepção estratégica de Pedagogia,
de concepção de país que queremos construir,
de modelo econômico que queremos adotar. Senão,
isso vira uma mera burocracia interna de avaliação
com sério risco de privilegiar as escolas particulares
que funcionam como grandes empresas lucrativas.
FOLHA DIRIGIDA - Foi regulamentada, no Rio de Janeiro,
uma lei que reserva 50% das vagas nas universidades estaduais
para alunos das escolas públicas. Muitos acham que
é uma medida demagógica e outros acreditam que
é uma maneira de aumentar o acesso dos alunos das camadas
populares ao ensino superior. O que o senhor acha dessa proposta?
FREI BETTO - Eu acho interessante. Deve ser feito isso,
porque o vestibular é uma excrescência. Todos
deveriam ter acesso à Educação em todos
os níveis. Mas na medida em que não se consegue
superar o impasse do vestibular porque não se ampliam
vagas e não se investe, é necessário
criar outros mecanismos, como essa reserva para permitir a
popularização do ensino superior no Brasil,
que, diga-se de passagem, é o que consome maior volume
de verbas públicas. É outra excrescência,
porque a meu ver o ensino fundamental deveria receber maior
volume de recursos.
FOLHA DIRIGIDA - Mas essa lei não provocaria discriminação
entre alunos que vêm das escolas públicas e particulares
dentro das salas de aula, porque os níveis de formação
seriam diferentes?
FREI BETTO - A presença deles obrigará a
universidade a repensar a sua metodologia e pedagogia. Porque
o aluno que vem da escola pública é carente,
trabalha e não tem as oportunidades do aluno na escola
privada de ter uma qualidade do ensino muito melhor. Mas ele
deve ter acesso à universidade até como forma
de democratizar o ensino.
FOLHA DIRIGIDA - No entendimento do senhor, não haveria
uma queda na qualidade do ensino?
FREI BETTO - Espero que não. Mas como a qualidade,
na minha opinião, é muito baixa, não
é essa a minha preocupação. Abaixar mais
a qualidade é impossível, porque o ensino no
Brasil hoje é de péssima qualidade, a ponto
de um grande número de formandos da universidade serem
incapazes de redigir uma carta sem erros de sintaxe, de concordância.
FOLHA DIRIGIDA - Houve uma polêmica recente sobre
a maneira de se ministrar o ensino religioso nas escolas.
Qual seria a maneira mais adequada levando-se em conta a diversidade
de crenças no país?
FREI BETTO - Há dois aspectos. É inconcebível
que uma pessoa passe por uma escola brasileira sem jamais
ter tido introdução à Bíblia,
independente de religião ou de qualquer coisa. A Bíblia
é um livro fundamental para a nossa cultura. Não
dá para imaginar uma pessoa que passou a vida inteira
na escola e não sabe nem quantos livros têm a
Bíblia. O segundo aspecto, é que o ensino religioso
é fundamental para a formação da subjetividade.
A PUC deve ensinar catolicismo. Não tem sentido ela
não fazer ensino de religião. Mas na escola
pública o ensino deve ser ecumênico e facultativo.
Que o pai-de-santo vá falar do candomblé, que
o médium vá falar do espiritismo, o padre, do
catolicismo, o pastor do protestantismo e o rabino do judaísmo.
Os alunos devem ter a possibilidade de conhecer as diferentes
tendências religiosas presentes na sociedade brasileira
pela versão dos seus emissores.
FOLHA DIRIGIDA - A universidade tem conseguido romper essa
barreira entre o conhecimento acadêmico e a interação
com a comunidade e a realidade social?
FREI BETTO - A universidade não está conseguindo.
Ela não vai à prática, não mantém
vínculos orgânicos com os movimentos sociais.
Em relação aos movimentos sociais, ela ainda
é muito contemplativa para o meu gosto.
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