CapaCapa
Uma nova educação
 
Voltar Capa www.folhadirigida.com.br
  Educação: a necessidade de se criar novas metodologias  
  Ele defende a método de Paulo Freire. Fala da experiência da Educação nos assentamentos dos sem terra. Critica a atual política educacional. E defende a reserva de vagas  
Frei Betto: “movimentos sociais devem criar suas metodologias de ensino”
 

Ao lembrar os quatro anos da morte de Paulo Freire, o escritor e teólogo Frei Betto fala do método de aprendizado idealizado pelo educador e a tentativa de resgatá-lo nos movimentos sociais mais recentes, como o MST (Movimento dos Sem-Terra). Segundo ele, são raras as escolas que têm a preocupação de formar professores que se aprofundem em Educação popular.

O método Paulo Freire foi criado para alfabetizar grupos sociais com menos chances de acesso à Educação formal. Privilegia os saberes populares, procura falar a linguagem e buscar exemplos do dia-a-dia daquele grupo. O educador procurou entender cada cultura como única, sem privilegiar uma em detrimento da outra. Reinventou um modelo de aprendizado que não apresentasse questões distantes da realidade social dos alunos. O método também foi utilizado para dar noções de política ao operariado.

 
 

Para Frei Betto, é difícil a escola formal absorver o método Paulo Freire, porque a metodologia foi trabalhada na perspectiva da Educação popular.

"Essa adequação do pensamento e metodologia de Paulo Freire à escola formal é difícil. Ela deve ser tentada, é possível em certos aspectos, mas sem a ilusão de que a escola formal abrirá espaço para a Educação popular. São incompatíveis, até porque a Escola formal é refém da cronologia do ano letivo, das decisões do Conselho Nacional de Educação e de uma série de conteúdos didáticos que já são determinados", explicou.

De acordo com ele, a Educação nos assentamentos do MST é revolucionária. Cerca de 100 mil crianças, adolescentes e adultos estão sendo escolarizados nos 1.500 assentamentos. "Isso já mereceu um prêmio do Itaú-Unicef. Eles estão criando uma nova concepção de ensino adaptado ao meio rural", comemorou.

Confira a seguir a entrevista completa de Frei Betto:

FOLHA DIRIGIDA - O senhor é um defensor do método educacional idealizado por Paulo Freire. De que maneira essas práticas são adotadas nas escolas hoje com o intuito de desenvolver a visão crítica do estudante?
FREI BETTO
- Em geral, não adotam. São raras as escolas, infelizmente, que adotam o método Paulo Freire, até porque não há uma preocupação de formar os professores para que aprofundem o pensamento de Paulo Freire e procurem aplicá-lo. Por outro lado, Paulo Freire trabalhou mais na perspectiva da Educação popular e não da Educação formal escolarizada. Essa adequação do pensamento e metodologia de Paulo Freire à escola formal é difícil. Ela deve ser tentada, é possível em certos aspectos, mas sem a ilusão de que a escola formal abrirá espaço para a Educação popular. São incompatíveis, até porque a Escola formal é refém da cronologia do ano letivo, das decisões do Conselho Nacional de Educação e de uma série de conteúdos didáticos que já são determinados e isso é inconcebível em um método de Educação popular, em uma metodologia que está calcada no seu caráter indutivo.

FOLHA DIRIGIDA - E os movimentos sociais adotam o método Paulo Freire?
FREI BETTO
- A maioria dos movimentos sociais no Brasil surgiu da metodologia de Educação popular de Paulo Freire, até porque foram assessorados por equipes de Educação Popular, que adotaram com profundidade esse método. Muitos movimentos surgiram, por exemplo, das pastorais sociais da Igreja Católica, que tinham nas comunidades eclesiásticas de base um grande laboratório da metodologia de Paulo Freire. Aí sim, em relação aos movimentos sociais, há uma raiz paulofreiriana em todos eles.

FOLHA DIRIGIDA - Mas hoje em dia também há uma intensa utilização do método Paulo Freire na Educação popular?
FREI BETTO
- Nem tanto, pelas instâncias que vão se burocratizando e há uma perda da índole do trabalho de base, da formação de novos quadros. Enfim, precisamos de um reavivamento nesta linha.

FOLHA DIRIGIDA - O senhor é consultor do Movimento dos Sem-Terra. Como está a Educação hoje nos assentamentos?
FREI BETTO
- A Educação é revolucionária. São cerca de 100 mil crianças, adolescentes e alguns adultos escolarizados nos 1.500 assentamentos. Isso já mereceu um prêmio do Itaú-Unicef. Eles estão criando uma nova concepção de ensino adaptado ao meio rural.

FOLHA DIRIGIDA - Na avaliação do senhor, os sindicatos, o MST e as igrejas devem criar sua própria metodologia de ensino?
FREI BETTO
- Podem e devem. É um desafio.

FOLHA DIRIGIDA - De que maneira a Igreja Católica pode contribuir para a queda do analfabetismo?
FREI BETTO
- Ela deve contribuir e tem contribuído através de uma série de cursos, mas sobretudo abrindo seus espaços físicos: igrejas, colégios, paróquias, salões, para a alfabetização. Deve mobilizar, também, seus agentes pastorais, como faz a Pastoral da Criança para incrementar o trabalho de alfabetização em nível nacional, desde que haja uma proposta educacional ampla, conectada com o novo modelo econômico.

FOLHA DIRIGIDA - O senhor acredita que o ministro da Educação tem realmente se empenhado em acabar com o analfabetismo?
FREI BETTO
- Acho até que ele pode ter boas intenções, mas tudo fica inviável frente a um sistema ou a um modelo de governo que penaliza a Educação com verbas insignificantes. Ele, por exemplo, não tem nenhuma estratégia para suprir a falta de verbas com uma mobilização nacional, talvez por falta de credibilidade do governo que ele representa. E sem credibilidade não é possível essa mobilização. O processo educacional brasileiro, principalmente em relação ao analfabetismo, poderia ser enfrentado com a mobilização nacional através de voluntários.

FOLHA DIRIGIDA - Qual é a avaliação do senhor sobre os sistemas de avaliação implementados pelo MEC: o Saeb para o ensino fundamental, o Enem, para o médio, e o Provão, para o ensino superior? Eles realmente contribuem para detectar problemas e melhorar a qualidade do ensino?
FREI BETTO
- Eu acho que podem contribuir para isso, mas não são suficientes para reformular o ensino no Brasil. A questão do ensino é mais de raiz, de concepção estratégica de Pedagogia, de concepção de país que queremos construir, de modelo econômico que queremos adotar. Senão, isso vira uma mera burocracia interna de avaliação com sério risco de privilegiar as escolas particulares que funcionam como grandes empresas lucrativas.

FOLHA DIRIGIDA - Foi regulamentada, no Rio de Janeiro, uma lei que reserva 50% das vagas nas universidades estaduais para alunos das escolas públicas. Muitos acham que é uma medida demagógica e outros acreditam que é uma maneira de aumentar o acesso dos alunos das camadas populares ao ensino superior. O que o senhor acha dessa proposta?
FREI BETTO
- Eu acho interessante. Deve ser feito isso, porque o vestibular é uma excrescência. Todos deveriam ter acesso à Educação em todos os níveis. Mas na medida em que não se consegue superar o impasse do vestibular porque não se ampliam vagas e não se investe, é necessário criar outros mecanismos, como essa reserva para permitir a popularização do ensino superior no Brasil, que, diga-se de passagem, é o que consome maior volume de verbas públicas. É outra excrescência, porque a meu ver o ensino fundamental deveria receber maior volume de recursos.

FOLHA DIRIGIDA - Mas essa lei não provocaria discriminação entre alunos que vêm das escolas públicas e particulares dentro das salas de aula, porque os níveis de formação seriam diferentes?
FREI BETTO
- A presença deles obrigará a universidade a repensar a sua metodologia e pedagogia. Porque o aluno que vem da escola pública é carente, trabalha e não tem as oportunidades do aluno na escola privada de ter uma qualidade do ensino muito melhor. Mas ele deve ter acesso à universidade até como forma de democratizar o ensino.

FOLHA DIRIGIDA - No entendimento do senhor, não haveria uma queda na qualidade do ensino?
FREI BETTO
- Espero que não. Mas como a qualidade, na minha opinião, é muito baixa, não é essa a minha preocupação. Abaixar mais a qualidade é impossível, porque o ensino no Brasil hoje é de péssima qualidade, a ponto de um grande número de formandos da universidade serem incapazes de redigir uma carta sem erros de sintaxe, de concordância.

FOLHA DIRIGIDA - Houve uma polêmica recente sobre a maneira de se ministrar o ensino religioso nas escolas. Qual seria a maneira mais adequada levando-se em conta a diversidade de crenças no país?
FREI BETTO
- Há dois aspectos. É inconcebível que uma pessoa passe por uma escola brasileira sem jamais ter tido introdução à Bíblia, independente de religião ou de qualquer coisa. A Bíblia é um livro fundamental para a nossa cultura. Não dá para imaginar uma pessoa que passou a vida inteira na escola e não sabe nem quantos livros têm a Bíblia. O segundo aspecto, é que o ensino religioso é fundamental para a formação da subjetividade. A PUC deve ensinar catolicismo. Não tem sentido ela não fazer ensino de religião. Mas na escola pública o ensino deve ser ecumênico e facultativo. Que o pai-de-santo vá falar do candomblé, que o médium vá falar do espiritismo, o padre, do catolicismo, o pastor do protestantismo e o rabino do judaísmo. Os alunos devem ter a possibilidade de conhecer as diferentes tendências religiosas presentes na sociedade brasileira pela versão dos seus emissores.

FOLHA DIRIGIDA - A universidade tem conseguido romper essa barreira entre o conhecimento acadêmico e a interação com a comunidade e a realidade social?
FREI BETTO
- A universidade não está conseguindo. Ela não vai à prática, não mantém vínculos orgânicos com os movimentos sociais. Em relação aos movimentos sociais, ela ainda é muito contemplativa para o meu gosto.

 
-> Educação: a necessidade de se criar novas metodologias
-> Uma fonte de pesquisa da realidade educacional do país
-> A importância da pesquisa para o setor educacional
-> Uma área estratégica para o crescimento econômico do país
-> Ampliar o espaço da cidadania, um desafio para a escola
-> Média de leitura baixa em comparação com outros países